O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016


                         MÓ

                                                   Juliano Barreto Rodrigues


Roda gira
e de repente pega de birra,
aí é um deus nos acuda:
parece que tudo que andava desanda,
que o leite derrama,
e até óleo engarrancha.


Então, é hora de aquietar um pouquinho,
não se apressar no caminho,
respirar fundo, bem devagarinho.


Que a tempestade passa
e a roda do moinho roda.
Basta não ter desespero
e não fazer qualquer bobagem.
De hora para outra entra a aragem,
trazendo a alegria de volta do desterro
a mó não tritura mais o peito
e a gente lembra que para tudo tem jeito.







quinta-feira, 21 de janeiro de 2016







































Nossa, dando uma olhada em outro blog em que não publico faz tempo, vi um poema bem 'viajante' que escrevi há dez anos e que quero compartilhar:



PROTAGONISTA

                                               Juliano Barreto Rodrigues


Convulsivando escrevo.

Exilado voluntário

Ou, pelo menos, permissivo.

Me submeto!

Já quase sem-vergonha...

Mas ainda esperneando.

"Tesoiros"

Nasci pra viver do luxo,

Debochando da high societ,

Torrando dim-dim àtoa,

Desfilando etiquetas

Visuais da moda e "gatabundas"

(Hum... a elas meu respeito).

Festa todo dia,

1.000.000 de amigos volúveis,

Um montão de inúteis pra gente se distrair.

O + do + são as aparências.

Oscar Wilde já dizia:

"É preciso ser muito superficial

Para não julgar pelas aparências".

Bendita hipocrisia,

Doce falsidade,

Desonrada virtude.

Blablablez quase útil.

Bonjour!

Arigatô!

Fuck you!

OPS!

Pardon!






quarta-feira, 20 de janeiro de 2016



                       GUILDA FAMILIAR

                                                                                Juliano Barreto Rodrigues

Meu pai e meu irmão constroem coisas. Coisas úteis.

Encaixam, acertam, reformam.

Também construo coisas. Imateriais e concretamente inúteis.

Arrumam a cama quebrada,

Eu ponho os prazeres na cama.

Montam o guarda-roupas,

Em que minha mocinha esconde o amante.

Fazem casas,

Onde torno vivos personagens.

Remendam o pneu do carro

Que meu protagonista usou para fugir.

Batem o prego,

Que é o mesmo cravo do ataúde do vilão.

Empoam de trabalho as mãos

Em que a cigana do meu conto lê tantas venturas,

E que é diferente das minhas mãos lisinhas e limpas de trabalhador da palavra.

Somos iguais! Ambos construtores.

Eles constroem pontes

Para os céus que crio.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016


















Imagem de Henrique Resende. Disponível em: <http://focusfoto.com.br/o-amadorismo-e-uma-dadiva/> .

MANIFESTO EM DEFESA DO AMADORISMO ARTÍSTICO


                                                                                              Juliano Barreto Rodrigues.


A natureza da gente é uma coisa estranha. Apesar de uma certa individualidade, tendemos a ser iguais aos outros na maior parte do tempo. Aliás, é para isso que somos educados, em linha de produção, desde crianças. Somos feitos para seguir padrões, para sermos convenientes, para não causar problemas. Tudo bem, entendo que isso seja necessário para o convívio e a paz social, mas é inegável que tolhe absurdo a criatividade, a autoconfiança e a ousadia.

Se essas três qualidades são desejáveis para a maioria das atividades humanas (do sexo às profissões), são essenciais no artista. Romper com os moldes, ir além dos materiais, suportes e limites, parindo algo novo são, nesse métier, o feijão com arroz. Na minha opinião, não há arte sem transgressão, seja da forma, do espaço, do autor, ou do que for. Até por isso, não entendo bem a arte encomendada ou como profissão.

Lendo um texto intitulado “Se Você é Autor”, de Paulo Tedesco1, fiquei sabendo que Dante Alighieri foi quem instituiu o conceito de autor na literatura ocidental, a quem Eduardo Sterzi considera como aquele literato senhor da própria “vontade de dizer”, contrariamente ao escritor, que produz “submisso a vontades alheiras, a expectativas e encomendas senhoriais”.

Trazendo a discussão para minha experiência pessoal, o que tenho pregado, nas coisas que escrevo e faço, é justamente essa preservação da voz própria, da manutenção da autonomia absoluta da vontade, bem como o cultivo e fruição da arte pela arte. Até por isso, o blog em que escrevo não tem meios de gerar qualquer tipo de renda. Vou além: tenho dúvidas se deveria ou não publicar (ou até querer publicar) livros com meus rabiscos. É que tenho medo de ser dirigido, revisto, ou ficar egocentricamente dependente da necessidade da autoafirmação de ter meu nome em livros.

O simples fato de escrever para alguém ler já é um limitador. O controle do que se vai dizer é inevitável, afinal, há um diálogo, com todas as suas regras e moderadores. Nesse sentido, os diários, poemas escondidos, coisas escritas só para si mesmo, para mim têm um valor artístico delicioso. São confidências íntimas, desbordamentos puros da alma. Revelam, sem lapidação, o estilo e o sentimento de quem escreve. Pena, para nós, que esses escritores de alcova raramente se revelem. Imagine quantas maravilhas assim já foram escritas e se dissolveram, com o tempo, no fundo de gavetas.

Esse negócio de “voz própria” tento preservar a todo o custo, especialmente nos poemas. Desde que escrevi o primeiro, aos onze anos, sempre cuidei de praticamente não ler poemas alheios para não contaminar meu estilo com o dos outros. Alguns vão dizer que isso é um absurdo, mas não importa. Sinto liberdade total na poesia. Dou-me o direito de levar a lume só o que quero que os outros leiam, e tenho desapego suficiente para aceitar que alguns vão gostar, outros não – prazer e reflexão são meus únicos objetivos (e acredito que de toda obra artística).

Tenho escrito coisas boas, outras nem tão boas assim e algumas ruins. Há destas publicadas no blog. 'Por que não publica só o que tem de melhor?' - você pode me indagar. Melhor para quem? Gosto é subjetivo e, além disso, a ditadura da beleza convencional é um saco. Publico o que sou: uma hora estou no ápice, noutra para baixo, de repente superficial, daqui a pouco profundo, é basicamente isso.

Não é que não tenha respeito pelo leitor. Muito pelo contrário. Quando publico estou escrevendo para ele, sem máscaras nem medo de me expor. Além disso, tenho muita consideração comigo mesmo e com a arte que professo. Se posto algo é porque acredito no seu valor estético, ou intelectual, ou na sua capacidade de deleitar de alguma forma (ou tudo isso junto).

Fico pasmo quando um artista me diz que descobriu seu estilo e que tem que ser fiel a ele, não podendo mudar aquele feitio, que faz com que sua obra seja reconhecida de pronto, ainda que seu nome não esteja escrito nela. Aí, o criador vem antes da criatura, esta que, no caso da arte, deveria ser a coisa mais importante. Esse artista relega para segundo plano todas as incontáveis possibilidades criativas que teria, só porque quer ser conhecido. Na minha forma de ver, corrompeu-se. Como disse o ator Marco Nanini, o artista que se acha acabado [pronto, completo], realmente está acabado.

Entendo que há fases, como do pintor que passa um período obcecado pelos tons pastéis ou por pintar naturezas mortas. Mas isso não o prende. Porém, quando se bitola, fazendo só uma coisa porque teve sucesso com ela, se torna comercial. Ouso dizer que deveria ser desclassificado como artista. Vira artesão, repetidor do modelo que criou. Em sua defesa, pode dizer que está explorando todas as possibilidades do veio que descobriu, mas acredito mais na vaidade. Já ouvi dizer: 'para que mexer no que está dando certo?'. Certo em que sentido? Em arte não existe certo ou errado, há o que toca e o que não. Ainda assim, o que toca Mariana não toca Jasmim. Aliás, até a obediência da arte ao mainstream deve ser rechaçada em favor da plena liberdade imaginativa.

O rótulo é o problema. Por isso não escrevo só poemas, ou contos, ou crônicas, escrevo o que dá na cabeça, pinto quadros, ouço e toco músicas, me envolvo com qualquer coisa criativa que me interesse (grande pecado em tempos de endeusamento da especialização). Também por isso, tenho restrições à ideia de viver de arte. Quero lançar livros somente se eu sentir que é o meio para dizer o que desejo, e não por dinheiro ou pelo status de ter meu nome numa capa. Gasto tempo, muitas vezes dinheiro, para produzir minha arte. 'Qual o retorno?' - podem perguntar. Não há um retorno capitalista, socialista, ou qualquer outro “ista”. É pressuposto da arte sua inutilidade prática. O que se espera dela é sensível e espiritual, num sentido intelectual. Não me dá dinheiro, mas satisfações outras, que fazem com que sempre compense.

Em tese, basta um diletantismo ativo, ou seja, que o artista se dedique e produza por amor ao que faz. Defendo esse amadorismo (no sentido que o senso comum empresta, equivocadamente, à palavra, considerando-a antônimo de atividade profissional). Para mim, todo aquele que pode ser denominado “artista” é um amador, não um trabalhador ou empresário da arte.

Mas minha opinião seria muito excludente – e não me deixaria contra-argumento no caso de algum dia a arte me enriquecer – se não considerasse que há artistas de verdade que ganham muito dinheiro com suas obras sem, no entanto, caírem no defeito da produção por encomenda ou da produção de quase-cópias dos feitos que os distinguiram. A questão está na liberdade e no sentido do que geram. Se simplesmente o fazem porque amam e não conseguem deixar de fazer, e o fariam mesmo que tivessem que dividir o tempo com uma profissão propriamente dita; se criam o que querem, quando e como querem, sem olhos para o mercado – mesmo que fiquem ricos com arte, não a viverão como profissionais, no sentido comum da palavra.

Considerar a arte uma profissão é destituí-la de sua aura mágica, acabando com o romantismo. Acho esquisito ouvir cantores dando entrevista e dizendo “essa á minha música de trabalho...”. Pergunto: “trabalho?”. É uma visão completamente voltada ao mercado de consumo. O que se pretende é ganhar dinheiro. Tanto assim que, várias bandas que começam tocando e compondo Rock and Roll por afinidade e paixão, de repente passam a tocar pagode e, daí a pouco, música sertaneja, seguindo qualquer rumo lucrativo. E a arte? Morreu lá atrás, quando se vendeu a alma. Entendo que, profissionalmente, se faz o necessário, às vezes o que se detesta fazer, porque o contexto exige. Mas isso não combina com arte. Então, defendo o amadorismo e afirmo: Arte é Arte, não profissão. Palavra de artista!


1 disponível em <http://www.oficinaliterariaonline.com.br/?cid=5246&wd=Reflex%F5es>



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

















INHO EXUPERÍLICO

                              Juliano Barreto Rodrigues


Sou uma alma ator... mentada
Ou, antes, caberia 'mentolada'.
Feérica alegoria em-si-crispada
Em recidiva adolescência agoniada.

Estou cada vez mais velho
E tão mais inocente que uma criança
(como dizia Pastinha)
Sou espantalho vesgo de Aurora.

Menino bobo que Deus protege.
Chinelinho gasto e ombros largos.
Feinho feito a menina da ponte da Lapa,
Olhos gulosos de comilão de papéis.

Sou o abraçado pela alfombra, pela alcova, e pela sova,
Abocanhado pelos livros e as sobras.
Sou ninguém e um talzinho,
Resumo de tudo e um pouquinho.

Caibo em três palavras
E em nada.
Cópia do criador!
Mas inacabada e enviesada.
E, ainda assim, dono de uma enorme estrela,
Bela e rara.


terça-feira, 5 de janeiro de 2016



AI, PALAVRAS


                                                         Juliano Barreto Rodrigues


Enquanto dirigia para casa ontem, estive pensando no meu hábito e gosto pela escrita, bem como no poder que as palavras têm, ainda que em um país de pouca leitura. Para pesar sua força boa ou má, lembrei-me de algumas situações ruins em que me colocaram (o que acontece de mau geralmente é exemplo mais veemente, seja porque dói, ou porque esquecemos com mais dificuldade). Duas foram colocações profissionais: um relatório e uma negativa de cumprimento de ordem.

No primeiro caso relatei minuciosamente um fato ocorrido, citando nomes e condutas, diretrizes para a investigação do acontecido, etc. Ocorreu que eu e o outro subscritor fomos chamados pelo chefe do órgão em que o principal envolvido trabalhava, para explicar porque seu nome – dele, o chefe – havia sido referido.

O problema é que sua assessora direta era quem o havia citado, e o que consignamos no relatório o impedia de atuar no caso a partir dali, por ser considerado suspeito. Antes de tirar satisfações conosco foi falar com nosso superior, que nos apoiou totalmente. No final das contas, sobrou para sua funcionária, mas poderia ter sobrado para nós. Ele quis “carteirar”, mas passou vergonha.

Da outra vez, recebi uma ordem e, por considerá-la ilegal, recorri para duas instâncias, que não acataram meu pedido de não cumprimento. Para me obrigar, o chefe imediato emitiu ordem escrita. Respondi, na via de recibo, que não iria cumpri-la. Resultado: me mandaram para outro setor, deram fama de questionador e encrenqueiro, respondo processo administrativo disciplinar por insubordinação, e ainda perdi oportunidade de receber uma promoção.

Estando certo ou errado, os dois casos representam situações nas quais aquilo que pus no papel se voltou contra mim. A história é repleta de coisas assim. O escrito é perene, permanece supostamente inalterado como prova – a favor ou contra – seu autor. Por isso tantos manifestos, críticas, notas de repúdio, são anônimos. Dizer que não disse o que se falou é fácil, mas alegar que o que está escrito não foi dito, já é bem mais difícil (O “ver para crer”, de São Tomé, ilustra que, em matéria probatória, se dá muito mais importância ao visto do que ao ouvido).

É preciso considerar, ainda, que a maneira de escrever pode deixar margem para interpretações diversas, que podem ser utilizadas para acusar ou defender o autor. Utilizando outro exemplo pessoal, uma vez redigii o seguinte miniconto: “Advogado encasquetou Tarso, por apenas 20% e custas, ir à forra contra sua ex. Perdeu. Condenado aos custos da rival, incutiu: de engodo em engodo, doutores vão enchendo os bolsos - à custa dos bobos”. A escritora Ana Mello, analisando o texto, me deu um feedback que me deixou preocupado. Associou o personagem “Tarso” ao então governador (e advogado) Tarso Genro, e disse que o final parecia uma piada política, em que se poderia interpretar que ele enche os bolsos à custa dos eleitores (a quem eu, supostamente, teria chamado de bobos). Assustado, respondi: “Nossa, nem pensei que poderia haver alguma conotação política. Interessante como, quem lê, às vezes tem uma conclusão que vai bem além do que foi a intenção do escritor. O nome Tarso foi aleatório”. Imagine no que isso daria se eu fosse um funcionário do governo riograndense à época?

Minha formação é em Direito, coisa que meus textos denunciam, já que não consigo me livrar do hábito de citar referências para fortalecer meus argumentos. Sei o valor das palavras e de quem as disse. Um advogado acostumado a redigir contratos, por exemplo, sabe o trabalho que a simples inserção da expressão “irrevogável e irretratável” pode dar para uma das partes no caso de arrependimento do negócio. O outro interessado pode, simplesmente, obrigar o cumprimento, sem possibilidade de desistência. E são apenas duas palavrinhas.

Ai palavras, ai palavras, que estranha potência, a vossa! […] Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam…”. Cecília Meireles antes de mim, assim como tantos outros antes de nós, já questionaram tal poder. O fazer humano, individual ou coletivo, está totalmente vinculado ao dizer, seja na forma escrita ou falada (ou pensada, já que comumente pensamos como se conversássemos conosco mesmos, utilizando palavras). Dessa conclusão depreende-se que quase tudo, se não tudo, que a humanidade já realizou, primeiro foi palavra. “No princípio era o verbo [...]” (João 1:1). Eis o primeiro dos poderes.

Em uma pizzaria conversávamos sobre arte quando, citando o estilo de um pintor que admiro mas do qual não lembrava o nome, fui perguntado acerca de quem se tratava. Arrisquei: “Acho que se chama Romero Jucá!”. Meu concunhado disse na hora: “Romero Jucá é político”. Pior é que eu não me lembrei do sobrenome “Brito” quando precisei. Fiquei de bobo e falastrão, mas a gafe não estava eternizada... até agora.

Escrevendo, há mais tempo para pensar e para checar as fontes, cuidar do texto – e olha que ainda se erra muito. É preciso pensar mais no leitor, destinatário da mensagem, e moderar a criação para adequá-la ao seu contexto. Para quem gosta de escrever, e principalmente a quem o faz profissionalmente, não faz mal relembrar: veja bem o que vai fazer, suas palavras podem se voltar contra você.