O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

terça-feira, 5 de janeiro de 2016



AI, PALAVRAS


                                                         Juliano Barreto Rodrigues


Enquanto dirigia para casa ontem, estive pensando no meu hábito e gosto pela escrita, bem como no poder que as palavras têm, ainda que em um país de pouca leitura. Para pesar sua força boa ou má, lembrei-me de algumas situações ruins em que me colocaram (o que acontece de mau geralmente é exemplo mais veemente, seja porque dói, ou porque esquecemos com mais dificuldade). Duas foram colocações profissionais: um relatório e uma negativa de cumprimento de ordem.

No primeiro caso relatei minuciosamente um fato ocorrido, citando nomes e condutas, diretrizes para a investigação do acontecido, etc. Ocorreu que eu e o outro subscritor fomos chamados pelo chefe do órgão em que o principal envolvido trabalhava, para explicar porque seu nome – dele, o chefe – havia sido referido.

O problema é que sua assessora direta era quem o havia citado, e o que consignamos no relatório o impedia de atuar no caso a partir dali, por ser considerado suspeito. Antes de tirar satisfações conosco foi falar com nosso superior, que nos apoiou totalmente. No final das contas, sobrou para sua funcionária, mas poderia ter sobrado para nós. Ele quis “carteirar”, mas passou vergonha.

Da outra vez, recebi uma ordem e, por considerá-la ilegal, recorri para duas instâncias, que não acataram meu pedido de não cumprimento. Para me obrigar, o chefe imediato emitiu ordem escrita. Respondi, na via de recibo, que não iria cumpri-la. Resultado: me mandaram para outro setor, deram fama de questionador e encrenqueiro, respondo processo administrativo disciplinar por insubordinação, e ainda perdi oportunidade de receber uma promoção.

Estando certo ou errado, os dois casos representam situações nas quais aquilo que pus no papel se voltou contra mim. A história é repleta de coisas assim. O escrito é perene, permanece supostamente inalterado como prova – a favor ou contra – seu autor. Por isso tantos manifestos, críticas, notas de repúdio, são anônimos. Dizer que não disse o que se falou é fácil, mas alegar que o que está escrito não foi dito, já é bem mais difícil (O “ver para crer”, de São Tomé, ilustra que, em matéria probatória, se dá muito mais importância ao visto do que ao ouvido).

É preciso considerar, ainda, que a maneira de escrever pode deixar margem para interpretações diversas, que podem ser utilizadas para acusar ou defender o autor. Utilizando outro exemplo pessoal, uma vez redigii o seguinte miniconto: “Advogado encasquetou Tarso, por apenas 20% e custas, ir à forra contra sua ex. Perdeu. Condenado aos custos da rival, incutiu: de engodo em engodo, doutores vão enchendo os bolsos - à custa dos bobos”. A escritora Ana Mello, analisando o texto, me deu um feedback que me deixou preocupado. Associou o personagem “Tarso” ao então governador (e advogado) Tarso Genro, e disse que o final parecia uma piada política, em que se poderia interpretar que ele enche os bolsos à custa dos eleitores (a quem eu, supostamente, teria chamado de bobos). Assustado, respondi: “Nossa, nem pensei que poderia haver alguma conotação política. Interessante como, quem lê, às vezes tem uma conclusão que vai bem além do que foi a intenção do escritor. O nome Tarso foi aleatório”. Imagine no que isso daria se eu fosse um funcionário do governo riograndense à época?

Minha formação é em Direito, coisa que meus textos denunciam, já que não consigo me livrar do hábito de citar referências para fortalecer meus argumentos. Sei o valor das palavras e de quem as disse. Um advogado acostumado a redigir contratos, por exemplo, sabe o trabalho que a simples inserção da expressão “irrevogável e irretratável” pode dar para uma das partes no caso de arrependimento do negócio. O outro interessado pode, simplesmente, obrigar o cumprimento, sem possibilidade de desistência. E são apenas duas palavrinhas.

Ai palavras, ai palavras, que estranha potência, a vossa! […] Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam…”. Cecília Meireles antes de mim, assim como tantos outros antes de nós, já questionaram tal poder. O fazer humano, individual ou coletivo, está totalmente vinculado ao dizer, seja na forma escrita ou falada (ou pensada, já que comumente pensamos como se conversássemos conosco mesmos, utilizando palavras). Dessa conclusão depreende-se que quase tudo, se não tudo, que a humanidade já realizou, primeiro foi palavra. “No princípio era o verbo [...]” (João 1:1). Eis o primeiro dos poderes.

Em uma pizzaria conversávamos sobre arte quando, citando o estilo de um pintor que admiro mas do qual não lembrava o nome, fui perguntado acerca de quem se tratava. Arrisquei: “Acho que se chama Romero Jucá!”. Meu concunhado disse na hora: “Romero Jucá é político”. Pior é que eu não me lembrei do sobrenome “Brito” quando precisei. Fiquei de bobo e falastrão, mas a gafe não estava eternizada... até agora.

Escrevendo, há mais tempo para pensar e para checar as fontes, cuidar do texto – e olha que ainda se erra muito. É preciso pensar mais no leitor, destinatário da mensagem, e moderar a criação para adequá-la ao seu contexto. Para quem gosta de escrever, e principalmente a quem o faz profissionalmente, não faz mal relembrar: veja bem o que vai fazer, suas palavras podem se voltar contra você.





quarta-feira, 23 de dezembro de 2015


                            LIÇÃO TRIVIAL
(homenagem a Denis Barreto, futuro juiz federal)


                                Juliano Barreto Rodrigues


O juiz novato, ansioso em sair do interiorzinho para a capital, pegou um caso importante que, pela repercussão, e dependendo dos interesses em jogo, lhe renderia a nova lotação que desejava.
De um lado uma banca com dezesseis advogados de uma grande firma, defendendo o lado de uma megaempresa. Do outro, um advogadozinho pobre e caipira em defesa das vítimas de um acidente ambiental.
Poderosos pela empresa, um caso legítimo e justo do lado do solitário advogado. Se decidisse pela multinacional, o juiz iria para a capital promovido. De outra forma, enterraria a carreira na cidadezinha.
Já tinha decidido, mas teve uma visita inesperada. O causídico da roça chegou em mangas de camisa e com barba por fazer. Disse com sotaque carregado:
– O doutor tem filhos?
– Tenho dois, por que?
– Foi delegado e promotor, não é?
– Sim.
– O que quer deixar para eles quando se aposentar? A sombra do delegado e do promotor que era, as histórias do juiz de sucesso que foi, ou o exemplo de homem honrado e justo que continuará sendo?
Pronto! O juiz foi despertado. Julgou com consciência e justiça. Dali para frente, não se importava mais em viver na corrutela. Lá fez carreira e foi muito feliz. Só foi para a capital quando se tornou desembargador – e partiu para a cidade grande com pesar. Criou filhos muito dignos e se deitava todas as noites com o corpo cansado mas a cabeça leve por ter escolhido fazer sempre o que é certo. Seu grande exemplo orgulhou a família e perdurou por várias gerações.






LAMPEJO
(Ao poeta Leonardo Teixeira)


                                                 Juliano Barreto Rodrigues


Ô, poeta?!
Grita na minha cara!!!!
Mas grita uma palavra suja,
Que explode e estilhaça,
Enchendo a alma de fagulhas.


E seja inteiro!
Porque se não me lacera, te mato.
Ou pior,
Acabo com o poema,
No ato!!!!








segunda-feira, 21 de dezembro de 2015




PAI ESCRITOR II

                                                                           Juliano Barreto Rodrigues

Cinco meses! É a idade do meu bebê agora. As coisas começaram a entrar nos eixos no terceiro mês. Trocar fralda, ser atingido por um jato de regurgitado? Besteira! Isso não é nada. Limpo o neném, dou banho, troco fraldas e dou mamadeira feito um profissional, quase de olhos fechados (e ainda cantando para ele).
Desde que engravidamos, eu e minha esposa nos preocupávamos sobre como a rotina de sono afetaria nosso bem-estar quando o neném nascesse. É que meu bom humor sempre foi dependente de uma noite bem dormida.
Foi o caos! Coisa traumatizante. Tanto que temporariamente descartamos a ideia (louca, kkkkk) de ter outro filho. Mas enfim, não morremos e... passou. A grande mágica foi ele ter passado a dormir a noite toda – isso fez toda a diferença em nossas vidas. Agora conseguimos olhar para ele sem ficar com medo da noite.
Por mais que tenha sido desejado e planejado, ao nascer o bebê é meio como um visitante desconhecido que, embora dê trabalho, você não quer que vá embora (calma, eu explico). Sei que ele não é um estranho. É que o instinto de proteção e o apego que se tem pelo recém nascido não tem nada a ver com a forma comum de amor mais usual.
No primeiro momento descobri um amor instintivo, uma coisa que faz com que o indivíduo simplesmente seja capaz de dar a vida por um ser que acabou de conhecer – e o neném é isso. Esse amor não é racional e nem se parece com qualquer outra coisa que já vivi, porque não vem precedido do encantamento e apaixonamento normais da convivência.
É o dia-a-dia com a criança que vai levando ao amor, por assim dizer, “normal”: as expressões, os barulhinhos, o cheirinho, a intimidade, o reconhecer-se, as expectativas, se encarregam de aproximar pai e filho e fazer com que se digira melhor o sentimento que o pequenino lhe causa. Aí o homem (no caso eu, que, como quase todo ser humano do sexo masculino, sou pejorativamente cartesiano) volta ao lugar-comum da forma confortável de amor que conhece. Então desassusta-se.
--- Venha com o papai --- falo para meu filhinho enquanto o pego nos braços. Isso, de se autodenominar “papai”, tem uma força psicológica enorme. Vai ocorrendo uma lavagem cerebral e me sinto cada vez mais pai, mais responsável por ele e cabendo melhor no papel.
Após a tempestade dos primeiros meses estou mais calmo e um pouco mais senhor do meu tempo. Contraditoriamente, tenho escrito menos e, talvez, pior. É que a pressão da escassez de tempo sempre consegue extrair de mim o melhor. Acho que seria um bom redator de jornal.
Tenho descoberto uma novíssima realidade, de ter que levar o bebê se quiser tomar um chope com minha mulher, de não ver o fim de expediente acabar para poder chegar logo em casa (se bem que isso minha esposa já causava), de pensar em dinheiro – confesso que sempre fui meio alheio a isso. O menino tem cinco meses e estou pensando em colégio, em aula de inglês, curso de pintura, temporada em Piracanga..., intercâmbio, previdência privada, etc., etc., etc., espero não sobrecarrega-lo com meus planos, mas acho difícil.
No final das contas o que sei é que não viveria mais sem meu filho. É como se ele estivesse sempre estado comigo, como um órgão vital do corpo. Muito estranho! Mas a plenitude que desperta, transborda.
Quando acontece alguma coisa inusitada, tipo o neném fazer cocô na hora de sair, estando já todo arrumadinho – e nós já atrasados – brinco com a mãe: “Vai ter filho... tá vendo? Agora aguenta!” A paciência acaba por alguns minutos e, daí a pouco, a carinha dele já engambelou a gente de novo e estamos em suas mãos.
Sobre o tipo de amor que a paternidade causa, lembrei-me de uma frase de Monte Castelo, do Legião Urbana que, parafraseando Luiz de Camões, define que, amar assim.. “É um estar-se preso por vontade”. É bem isso.
Vamos ver onde isso vai dar. Todo dia é uma coisa nova, ele conquista mais uma habilidade, dá um trabalho e uma alegria diferente, cresce. Já tenho saudade do que passou.

Aproveitando o espírito natalino, fecho esta conversa com uma oração:
Pai Nosso, que nos permite estar na posição de pais para entender o que é o amor que sentes,
Santificado seja o vosso nome e a humanidade que ter um filho planta em nosso peito.
Venha a nós todas as capacidades necessárias para bem formar nossa(s) cria(s),
Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu, mas seja complacente com nosso(s) filhinho(s).
O pão nosso de cada dia nos dai hoje em abundância, porque nossa família cresceu.
Perdoai as nossas faltas de paciência, e que ele(s) também nos perdoe(m).
Não nos permita cair na tentação de afrouxar a atenção na formação dos filhos.
Livrai-nos do mal - mas primeiramente, livra-o.
Amém.




terça-feira, 1 de dezembro de 2015



Àqueles que leram alguns dos poemas que postei ultimamente dedico este:


ESCUSAS

                                 Juliano Barreto Rodrigues

Me perdoem a verve egoísta e intimista.
Há de ser apenas fase de poeta.
Sei que preciso me tirar do que escrevo...
E apurar para o texto novas metas.

É que estou assombrado,
Obcecado pela minha condição e circunstância.
Amargo o azo da inconstância,
Feito viciado decaído de bom grado.





BORRASCA

                                           Juliano Barreto Rodrigues

Meu cenho obstinado
Nada tem a ver com o meu peito acabrunhado.
O sobrolho em fogo ardente
Nada pode contra meu coração gelado.

O candeeiro que ostento
Não ilumina nem um palmo.
E não há acalento ou salmo
Que possa com meu tino baldo.

Estou mais sem rumo
Do que um cisco ao vento,
Que nem sequer emite lamento se,
No seu caminho, um sopro sopre fora de prumo.

Minha caixinha de palavras
Não chega para o turbilhão de sentimentos que me mata.
Não dá conta da mínima lágrima.
E eu..., que confiava tanto na palavra?

Meu verso é pedra quadrada e tosca,
Que não rola moldada e exibida.
Não tem ritmo, nem rima, nem métrica.
É só fado que lastima a vida.

Assim, pasmo calado,
Sem única letra, seja vogal ou consoante,
Em árabe, português ou dialeto.
Eu silencio acre, mas diamante!

(No arado ressequido,
Nem se esforçando nasce nada.
Mas contra toda expectativa,
Às vezes um broto irrompe vitorioso).

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É meia-noite, de boca seca e ressaca.
Última noite para mim, que não espero por mais nada.
Rasga a seda, eviscerada.
Come minha carne, meu cérebro, a cara!

(Basta! Que vil lamento.
Nada reflete o que trago por dentro.
Então cala-te, puto!
Respeite tudo que não pode ser dito).

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Fecha e tranca o riso astuto
Tão ínfimo e dissoluto,
Que de vergonha já devias ter enterrado.
Tu, que fazes cara de augustus, mas não passas de um bruto.

Caçoa...
Que é de tu, atoa,
A mágoa,
Que tão sonora e túrgida em mim ressoa.





CONFISSÃO (JUIZO VENAL) – ou alegoria ilacrimável

                                                 Juliano Barreto Rodrigues

Escamoteie toda tua vileza
Na carinha boa e em teus gestos cultivados.
Podes enganar a ti mesmo?
Podes cobrir o porco com pele de arminho?

Dó de ti, feze feia!
Antes assumisses o que és;
Recheias a multidão de estúpidos com tua cara blasé
E enfeita a mixaria da tua classe inócua.

(ABRINDO O JOGO)

Não se engane comigo. Não sou melhor do que tú.
Sou um ignóbil criticastro
Que te difama por não ter coragem de ousar contra si mesmo.
Então soframos, corujas débeis!

Sonhos de harpia
Não nos fazem sequer corvos.
Me abrace,
Abrace seu herodes com carinho e deixo que o mates.

Chegarei primeiro e te ciceronearei no inferno,
Para onde ambos iremos.
Vamos rir juntos
Aos pés da fornalha ardente.

O azougue nos consuma com seu brilho
Que, pelo menos, algum brilho ostentaremos.
Te empresto os vícios meus
E tu me deixes gozar os vícios teus.

(RESPOSTA INESPERADA)
--- Sumamos!

(NOVAMENTE O CRÍTICO)
Quem dera a natureza fosse generosa assim.
Antes da purga não nos permitem desaparecer.
É preciso doer, doer,
Para só com insistência fenecer.

(Posso, ao menos, calar a minha língua?
Que bem faria para a humanidade!
Foi ela que me pôs a perder.
Sem ela, cessaria toda minha maldade).

(O OUTRO)
--- E que jeito, que solução?
Por mais que faça, meu passo é vão.
Tenhamos misericórdia um do outro.
Acabe comigo, e te acabo então.

(OS DOIS EM UNÍSSONO)
Feito!!!!


Dois poemas curtos


Poema

                               Juliano Barreto Rodrigues

Eu comi palavras,
E regurgitei poema.
E o que o ele fez?
Me comeu de volta.
Maldito filho da puta!







Anagramático pi

                               Juliano Barreto Rodrigues

Ô brusca pena...
Se não me mostrasse um poema,
nem acreditaria.
Nem acreditaria
Se não me mostrasse um poema.
Ô brusca pena....




quarta-feira, 25 de novembro de 2015



SANGUÍNEA

                                            Juliano Barreto Rodrigues


Acossada, rastreio a trilha.
Ainda que a fuste lanhe o dorso
Sigo correndo desabalada
E só de esgueio vejo o algoz.

Não há o que me pare!
Só se o perseguidor me mutilar ou matar.
Vou sôfrega em direção à minha vítima.
E mesmo levando o carrasco às costas, não me detenho.

Sigo em busca da minha vingança,
E ainda que também me consuma,
Não saio da briga sem minha desforra.
Se sobrar, depois me volto contra este que me surra.

E o atravessarei na haste feito caça no espeto
Queimarei seu corpo empalado
E comerei seus ossos.
Só por ter tentado me impedir.

Virei fera, bicho acuado e ferido,
Que ataca o que vier à frente.
Cega de ódio e faminta de morte,
Esfacelo-me, indiferente.

Basta que misture nosso sangue no soalho.
Se sobrarem um ou dois na mortalha,
Tanto faz,
Isso já não me diz nada.

Se, para me vingar, tiver que ir junto,
Assim será.
Pois de nada me valerá viver neste mundo
Sem a viveza deste ódio imundo.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015


               
               GIRA
                                Juliano Barreto Rodrigues


Relembro a Consoada Deturpada
E invejo os vícios imorais...
Do enorme poetinha:
Vinícius de Morais!

Procuro encontrar com as palavras...
O ponto rico de fundição do bronze pobre
Que Xico Stockinger tão naturalmente obtinha.
Ostento elegantemente minha dor leminskiniana
E me embriago no barravento das minhas horas tortas.

Resfolegado me perco no quebra-cabeça,
Sem conseguir entender que imagem final deve ser montada.
Sou um mar de complexidades
Num poço de simplicidade.
O grande caberia no pequeno?

Quero a enxada de Machado
Para cavar no léxico
Todo o abrolho pontiagudo
Que ponteia minha alma nua

Vou vazar meus ais incoagulados pela rua,
Rubrear a passarela chique,
Lambrecando escarpins e wholecuts.
Gentil alcatifa escorregadiça,
A estatelar narizes enluarados,
Com suas arrebitadas petulâncias.

Dói que sobra!
Queria me enterrar no caracol da Quinta da Regaleira,
E me cobrir com um meteoro.

Mas a dor que mói também fecunda.
E quando a dor abunda,
Lucram os vinhedos, destilarias e alambiques.
(E como já lucraram comigo!)
Genuflectido, basbaque e aturdido
Vou amontoar a poça agoureira
Da hora-grande e mal iluminada na sarjeta.
Quantas videiras já consumi?

Quero me despir de mim,
Das opiniões formadas
E dos freios tolos que ostento.
Vou gritar na rua,
Porque faça o que fizer,
Há de ser tudo da lei.

Me enchi,
Agora quero esvaziar.
Formado, preciso romper com a forma.
Tirar os moldes e molduras,
Experimentar.

Basta a palavra!
Boa ou ruim, bela ou truncada,
Somente palavra minha:
Única, inimitável, solitária.

E que fira a quem atingir.
Contamine venereamente,
Tinja de lúgubre a lente,
... E de vivaz e iluminada a mente.

Mente! Mente que mente
Faz-nos pensar ser o que não somos
E acreditar ter visto o que não vimos.
E eu, que sou tão prolífico em desatinos?
Nado procurando a superfície,
Mas estou sempre nadando em mar onírico.

A memória me escapa feito peixe apanhado à mão livre.
Escorrega súbita,
Serpeia...
Agora aguinha rala e morrediça.
Nem as palavras sentidas me vêm à mente clarinhas.
Exigem um esforço,
Exercícios de associação.

UMA HORA E MAIS OUTRA (de Drummond)
“[...]
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
[...]”

Vira, gira mordaz,
Come voraz meu Eu.
Esvazia meu corpo da minh’alma,
Suga o sumo.

Eu, desunido mais que uno,
Acabo-me na absurda crença de que existo.
Logo eu, que me acreditava tão benquisto,
Agora mofo no ventre de Juno.

Sossega, malograda!
Que de tantos nomes que já teve,
Maleita, Gripe Espanhola, Peste Negra,
Acabaste inominada e malquista,
Tanto difamada quanto malvista.
Ainda que queiras, não sou teu!
Pode me levar, ainda não serei teu!
Sorte sua ter comigo,
Ventura minha, hora dessas ter contigo.
Que de ti não corro, antes te desejo.
Na hora última seja cuidadosa,
Que se puder, te levo junto!

Kkkkk!


sexta-feira, 9 de outubro de 2015




Querem bater minha carteira

                                                                                      
                                                                                 Juliano Barreto Rodrigues


Dia desses vivi uma experiência que achei que só os grandes latifundiários viveriam. Tentaram invadir terrenos públicos do setor em que moro. É uma região de pequenas chácaras, de 5000 metros em média.

Chamou-me a atenção o fato de um grupo armado de estacas, arame farpado e enxadas chegar, do nada, e começar a medir a terra pública estabelecendo lotes. Puxa, só tinha visto coisa parecida na televisão... e era o pessoal do MST tomando fazendas. Nem sabia que alguém se organizava para invadir espaços urbanos.

De um lado a questão da propriedade privada, do outro o direito à moradia. Nós, que sabemos o custo do imóvel, debatíamos efusivamente tentando demover os invasores da idéia – absurda para nós – de se estabelecerem em uma área de mato destinada a equipamentos públicos (Cais, escola, praça, sei lá).

De resposta, tínhamos argumentos tão equivocados: diziam que eram moradores do próprio setor e arredores e que pagavam aluguel. Por não terem condições de comprarem uma casa, tinham direito – embora admitissem que estavam fazendo algo errado – de cercar uma fração de espaço público, que conforme diziam “não é de ninguém”, para exercer o direito constitucional de moradia digna.

Sem querer parecer tão parcial, a lógica era de ladrão: embora trabalhe, não tenho condições de comprar uma casa. Vivo de aluguel. Outras invasões próximas deram certo. Vou tomar um lote no espaço público.

Cheguei a tentar apontar a falácia. Disse que se assim fosse, eu que não tenho um carro poderia simplesmente tomar um na rua. Ah, diriam, mas esse é de alguém, o público não é de ninguém. Não seja por isso. Se não tenho o carro, pego uma viatura comprada pelo Estado então. Fato é que discordo absolutamente da ideia. O público é de todos coletivamente, não individualmente.

Não descarto a possibilidade de estar errado, mas, então, que me convençam com argumentos racionais, que não subestimem minha inteligência. A impressão que eu tenho é que punguistas estavam tentando roubar minha carteira sem sequer disfarçar ou agir veladamente.

Uma das invasoras fez um apelo à misericórdia, acusando-nos de atentarmos contra Deus. Afirmou que Ele estava vendo o que estávamos fazendo e que teríamos que prestar conta por não deixá-los invadir.

Penso, repenso e remoo a situação e lamento a lavagem cerebral que o governo Lula-Dilma fez com esse povo tão necessitado. A política paternalista das bolsas-tudo, do MST, dos Sem-teto, do nivelamento por baixo das profissões (veja o Mais Médicos), da crescente favelização, gerou uma concepção equivocada do que é direito, do que é democracia e política. Ao invés de aproximar as classes, as distancia cada vez mais: economicamente, eticamente e intelectualmente. Põe uns contra outros. Os mais pobres se ressentem contra a classe média, que se ressente contra os ricos, que se ressentem contra todos.

O populismo garante votos da maioria em um país predominantemente habitado por pobres. No entanto, divide, puxa para baixo em vez de para cima, distancia do progresso. A cultura deveria pender para a meritocracia, o Estado reduzindo sua tendência à “adoção” dos indivíduos. A pessoa tem que produzir seu próprio progresso, bastando que o Estado não atrapalhe (como faz no Brasil).

Não sou contra a função social da propriedade, nem contra reforma agrária, ou qualquer ação que vise reduzir as diferenças sociais, desde que isso seja feito de forma responsável e consciente, respeitando o direito à propriedade, o esforço individual, a não-violência. Como ensinava Gandhi, no caminho do meio está a solução ideal. O que não é admissível é que um grupo desordeiro cresça o olho em áreas em evidente valorização para enriquecer ilicitamente através da especulação dos terrenos que invade.

Minha vizinhança é constituída por gente instruída e com consciência social, apoiadora de projetos sociais e ambientais. É um tapa na cara terem seu quintal invadido por aqueles que lhes deveriam gratidão. Peço desculpas àqueles que entenderem diversamente.

Sonho um Estado mínimo, mas não a anarquia. Espero uma nação que se autogoverne, mas quando tiver maturidade para isso. Creio em um único caminho para a posse, a propriedade e o progresso: o TRABALHO.



sábado, 3 de outubro de 2015



                         SOPRO


                                  Juliano Barreto Rodrigues


Quero sulcar a terra com meu nariz,
Arar o chão com as pás das minhas ventas,
Pontear de cabeça o ventre vermelho
E me gastar no atrito até sumir.

Vou rasgar subterraneando,
Ao menos até sete palmos.
E ai de quem, desavisado,
Me blasfemar cantando salmos.

E quando a chuva me aguar
Eu, que não queria, vou brotar
Árvore torta de cerrado
Tão torta quanto fui no meu viver errado.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

LÁGRIMAS DE BRILHANTE (Microconto)




                                                                         
                                                                Juliano Barreto Rodrigues


Perguntei à senhora que se desmanchava em pranto:

--- Que dor a aflige?

--- Dor Diamante .

--- ?

--- Duríssima, reluzente, inignorável e absurdamente corruptível.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

A DESDITA DA MORTE (não deve ser lido em voz alta)

                              Juliano Barreto Rodrigues





La Muerte, apesar de não ser querida por quase ninguém, era soberba e arrogante. Se sentia rica e cheia de si em virtude do grande poder que detinha. Um dia pretendeu o que a tornaria uma deusa: o poder da vida! Decidiu ter um filho.

Recolheu as partes mais benfeitas dos defuntos novos que apressava e construiu um belo ser.

Contrariando as leis originárias tirou o sopro de vida que animava um garoto e infundiu em sua cria. Deu certo! O filho da morte viveu pródiga e desmedidamente, garantido por sua criadora de que viveria para sempre, já que só a ela era permitido tirar a vida ao que quer que fosse, coisa que jamais faria ao seu menino.

Um dia foi surpreendida por uma armadilha da divindade dos caminhos e teve sua foice roubada pelo senhor do destino, que rapidamente a usou contra seu rebento, restabelecendo o equilíbrio da existência.

Sentiu-se destroçada, cada osso doendo insuportavelmente, já que não tinha coração. Chorou miasmas e pó. Antes desdenhosa, despiu-se de todo glamour e esfarrapou-se. Perdeu o charme de outrora e quis imensamente morrer.

Amargou o fardo do seu poder e percebeu o paradoxo de sua posição quando passou a invejar todas as suas vítimas por terem algo que ela não podia ter para si: a morte!

Percebeu que, apesar de levar o nome, não era - ela própria - a realidade da morte como acreditava,  e nem sequer sua dona, mas mera portadora.

La Muerte - nem viva nem morta e escrava de seu trabalho. Eis sua pobre condição.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

ESTUPEFAÇÃO (Microconto)






                                                 Juliano Barreto Rodrigues
Não se podia dizer.
Não porque fosse proibido,
Mas porque faltavam palavras.

Não se podia dizer. 
Não porque fosse proibido, 
Mas porque faltasse palavra.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Consoada deturpada



Há poetas e poemas que são irretocáveis. Assim são "Consoada", de Manuel Bandeira, "Amor Eterno", de Gustavo Adolfo Bécquer e "Despertáculo", de Pio Vargas. Também o "Fausto", de Goethe, mas nesse caso parece que o diluente é muito e dissolve o princípio ativo demais (é excessivamente longo).
Inspirado na "Consoada" surgiu minha "Consoada deturpada". Incriada, surgiu pronta, da alma, como se psicografada (rsrsrs). Veja primeiro o poema de Manuel Bandeira e depois o meu:


Consoada
                                    Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.





Consoada deturpada
                                
                                        Juliano Barreto Rodrigues.

Quando a Indesejada das gentes chegar
Que venha ‘tsunâmica’,
Bruta e apressadíssima,
Quase sem tempo para mim.
Talvez, ironicamente eu sorria,
Mas espero não ter tempo de dizer nada.
Não sei se a casa estará limpa
Ou a mesa posta.
Mas, com certeza,
Já estarei quase passando de pronto.