O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

sexta-feira, 30 de setembro de 2016


 PRECIOSAS RECORDAÇÕES


Juliano Barreto Rodrigues


– Deus te dê o que deu ao bode: rabo, chifre e bigode. – Era assim que minha mãe me abençoava quando eu espirrava (risos). Na hora de dormir, dava proteção dizendo: – Durma com Deus, Nossa Senhora e o Anjinho da Asa Quebrada.

Esse é o tipo de coisa inesquecível que, dentre outras tantas, torna a infância tão maravilhosa.

A lembrança de meu pai passando a ferro as cobertas e colocando bolsa térmica nos meus pés para eu dormir quentinho, ou me enrolando em uma pilha de cobertores para aplacar uma febre, o chá docinho de capim cidreira que minha mãe fazia para facilitar o sono, as gemadas para gripe, são um tesouro mágico que guardo no peito para sempre.

As cantigas de roda, os pirulitos de melado em formato de cone, enrolados em papel e vendidos, plantados de cabeça para baixo, em uma bandeja de isopor ou madeira, os picolezeiros, o algodão doce, o feijão da marmita que comíamos no almoço, a pelada com bola de cobertão, os amigos daquele tempo, quanta saudade. Até as cicatrizes de menino são troféus, enquanto as de adulto lembram dores.

Herdei a música que meu avô cantava para minha mãe e que elejo como fundo musical daquela época:


Pum pum piscatinga-ê
Piscatinga ararubê
Piscatinga-tinga
Aurê sarubê
Arubá
Piscatinga ararubê
Piscatinga-tinga

Clic, clec, cloc
Tararara tirurira
Clic, clec, cloc
Tararara tirurira

Tum-tum.


Brinquei tanto de guerrinha sob o pé de amora, fazendo com que o roxo dos frutos apertados contra o corpo representasse os sinais de tiros... saía todo pintado. Estava sempre descalço e sem camisa, inventando todas as modas possíveis. Falava mais que o homem da cobra e não parava quieto, o que me rendeu o apelido de mosquitinho elétrico.

Às sextas-feiras sempre íamos à benzedeira. Tia Luzia era uma preta linda e redonda, com o abraço mais aconchegante do mundo, cheirando a sabonete. Nunca a vi sem o lenço na cabeça, o crucifixo no pescoço e os óculos enormes de resina transparente. Eu e meu irmão sentávamos em tamboretezinhos em frente ao altar, montado em uma cantoneira na sala de visitas. Diante das imagens de santos católicos juntas as de caboclos, pretos velhos, vó Maria Conga, Iemanjá e Zé-Pelintra, todos iluminados com velas e tendo a seus pés copinhos com bebida – que tinham um cheiro inigualável quando misturados ao aroma da queima de defumador Espiritual – esperávamos o deleite de um momento delicioso. Nossos pais ficavam de pé às nossas costas e a Tia atrás de todos, rezando enquanto gesticulava cruzes e bocejava enormemente, dependendo do carrego que tivéssemos. Saíamos de lá levinhos.

Tive a companhia de tantos cachorros, gatos, papagaios, tartarugas, tracajás, além de uma ovelha, um macaco e um bezerro que pisava com seus cascos em meus pés descalços e causava um estrago. Foi crescendo e se tornou enorme para uma casa de conjunto. Teve que ir embora. Esses amigos moldaram meus afetos e minha comunicação. Ensinaram o amor a toda criatura viva e a tolerância com a morte.

Vó Mili fazia beijú fininho, que servia com “café de menino”, um café bem doce e aguado. Tinha uma daquelas geladeironas antigas que davam choque. Eu, meu irmão e os primos dávamos as mãos e esperávamos o primeiro pegar no puxador para sentir a corrente passar. Saíamos pulando, gritando e dando gargalhadas pela cozinha. Isso era o menor que aprontávamos.

As Sextas-feiras Santas na roça, com suas proibições, histórias de assombrações e feiticeiras, instigavam minha imaginação e alimentavam a fé e respeito ao sagrado. Quem já viveu aquelas sensações de vigília lá na fazenda sabe do que estou falando.

Cresci em frente a uma praça de terra nua, em que havia uma feira todas as terças. Naquela época, boa parte dos feirantes ia de carroça. Lá pelas quatro e meia da manhã eu era acordado com o barulho de cavalos e com a velha moda de viola que tocava alto em um rádio. Que tempos, que tempos! Houve um ano em que um urubu criado por uma mulher saia pelas ruas da feira furando as sacolas com as compras das senhoras e esparramando tudo pelo chão. Era um Deus nos acuda. Isso quando não era o homem da barraca de carnes indo lá em casa reclamar que nosso cachorro tinha roubado alguma peça.

Badia, nossa passadeira, virou gente da família, está há tanto tempo conosco que não tem mais cerimônias. Faz e desfaz, diz e desdiz. Mulher de aço, trabalhadeira e mãe extremosa. Liga o radinho de pilha e amansa de pé a roupa, horas e horas, sem reclamar. Nunca agradeci pela presença e apoio que deu quando disseram que meu pai havia morrido em uma queda de avião. Graças a Deus era apenas um boato de gente maldosa, mas foi um susto enorme e mais uma história para contar.

Vô Djalma ia lá em casa nos fins de tarde e, para desespero de minha mãe e graça para nós, amarrava o rabo do cão no pé da cadeira enrolada com fios de plástico. Adorava o malfeito. Todos os dias chegava com um saquinho de papel cheio de balas. Vô Rocha, padrinho de minha mãe, também tinha esse costume de nos agradar com guloseimas. Sempre o visitávamos à noite na ourivesaria, que era em sua casa, ou no bar da esquina, onde estava sempre de pé no balcão tomando um copo de cerveja. Insistia para que eu e meu irmão pegássemos um Prestígio ou um Choquito. Fazia um carneiro frito com farinha que jamais vi igual.

Brincadeira de menino era finca, bola, peão, bola de gude, pique pega, bicicleta. Minha rua não tinha asfalto, e quando chovia a enxurrada nos levava. Como era bom tomar banho de chuva. Eu sempre tive uma imaginação muito fértil, inventava brincadeiras de guerreiros, bruxos e jornadas longínquas. Criava paisagens cinematográficas e universos paralelos. O cabo de vassoura ora era espada, ora cajado, noutras vezes um cavalo.

Costumo dizer que há várias vidas dentro de uma vida. A infância é uma delas, talvez a mais incrível. Tudo é novidade, há urgência e intensidade em cada coisa, não há nada que não vire brincadeira. Ainda sou aquela criança. Como disse Paulinho da Viola, “eu não vivo no passado, [mas] o passado vive em mim”.

Infância. É dessa água, desse cimento e dessa areia que sou feito. Se escrevo, a matéria vem daí, das peripécias que contei e de tantas outras que vivi.

A quem me ouviu vai a benção impregnada de boas recordações:

– Deus te dê o que deu ao bode: rabo, chifre e bigode *.


* Na minha interpretação, as partes referidas do bode simbolicamente significam: notoriedade, inteligência e poder.



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nova Babélia

Da animação "Matuto no Cinema", de Jessier Quirino.

NOVA BABÉLIA

 

 Juliano Barreto Rodrigues

 

Inácio deu um pulo quando viu o anúncio da vaga. Recém-formado em Jornalismo, na capital goiana, não a via hora de deixar o açougue em que trabalhava. A vaga era num vilarejo em Minas Gerais, uma corrutela rica chamada Nova Babélia, quase na divisa com Goiás. Precisavam de um repórter que fosse “bom com as palavras”, só isso. Salário? Três vezes o que ganhava destrinchando carne.

Como não tinha periquito a quem dar água, nem medo de aventura, Inácio partiu, convicto, para o interior mineiro. Foi recebido por um contínuo na rodoviária e encaminhado para a sede do jornal. No caminho, o menino lhe advertiu que o Sêo Neném, apelido de Pedro Roseta, homem mais entendido das coisas da região, é quem o entrevistaria para a vaga.

Em frente à edificação do Folha de Babélia havia uma pracinha de uma árvore só, cheirando a rosas e esterco de cavalo. Seu interlocutor estava lá, sentado no banco de ipê, fumando um pitinho de palha. Chapelão de piaçava na cabeça, camisa listrada, calça marrom pega marreco e botina com sola de pneu. Destoou do paletó preto do candidato e de seu cabelo amansado a base de goma. Este pensou consigo: “deixa estar, melhor passar de almofadinha do que de desleixado para o patrão”.

Sêo Neném foi simpático. Disse que o serviço era “sossegadim”, bastava ir onde houvesse notícia, principalmente política, falar com as pessoas e fazer a resenha para o jornal. Encaminharam-se para a porta do Diário e avistaram uma figura elegante vindo em sua direção.

– Dotô presidente Enrico, como está passando, cumpadre véio? – disse Sêo Neném. – Soube de um fuzuê envolvendo aqueles dois vereadores mal'amados ontem. Ah, péra um cadim, deixe eu fazer as honras – Virou-se para nosso ainda açogueiro e falou: – Rapaz, espia só: este é Dotô Enrico, presidente da Câmara de Vereadores daqui de Babélia, homem batuta, cultíssimo, descendente dos Paraguaçu, lá de Sucupira na Bahia.

– Boas tardes, mancebo. O que o traz a nossa bela urbe?

Com a cara apatetada, o candidato ia responder mas foi interrompido por Sêo Neném:

– Tá aí sua primeira prestância, moço. Nosso presidente traz uma notícia que o povo daqui vai adorar, uai. Picuinha de gente graúda. Mexerico que vai dar falatório pra semana toda. Diz aí, meu cumpadre. Que troço foi aquele?

– O edil assestado, engalanado na beca, eclodiu do átrio com as fácies descortinando um ar lustral, pendeu a ilharga sestra e deu-se com o êmulo camarista ventrudo de dedo em riste e tendente a lhe esbordoar. Se bem que cabido, o vetusto agonista não anelava embater-se com um antagonista finório, traquejado no ofício do aliciamento, capaz de embuçar o abalo, salientando uma efígie distensa, para vergar toda a sanha em serventia própria. O marau urdiu uma tergiversação bem-lançada, desalinhou o siso do rixento vituperante, mitigando a bile a tal passo que o primata lhe obsecrou escusas e apercebeu-se tão pecante, a altura de hipotecar todos seus votos da legislatura corrente. Que azêmola!

– ? – foi o que significou o queixo caído e a expressão de Pedro Bó do candidato. Aturdido, perguntou ao seu patrono: – Me desculpe Sêo Neném, o senhor poderia me explicar melhor o acontecido?

– Claro, meu caro. O nobre amigo quis dizer que o parlamentário da cara azeitada, um mutreco tinhoso, entrando no paço deu a banda pra sinistra, topando a fuça com o dedão do abatufado garnizé, que lhe queria dar com os cascos. Intão, desprecavido, acabou abraçando a própria serpente da macieira. O maganão veio com uma lenga-lenga aprumada, mutreta de profissional, sabe? Espiticou a cacholinha do balofo, que vergou tanto, até mostrar os fundilhos, uai. Mansinho feito cordeirinho, ficou tão encabulado, achando que tinha feito feio, que não só pediu 'discuipa', como ainda ofereceu as patas pra corrente: disse que conluiava com a raposa até o fim do mandato. Eita trem besta!

Assombrado, nosso moço perguntou: – Todo mundo aqui fala assim?

– Assim como? Português? – respondeu Pedro Roseta, que continuou: – Não. Temos uma vila de japoneses que falam lá a língua deles.

Depois de um minutinho de silêncio, em que o rapaz ficou olhando a rua por onde tinha chegado e lembrando do anúncio de emprego, que dizia “bom com as palavras”, teve saudade do açougue. Então, surpreendeu seus novos conhecidos:

– Licença, vou só ali comprar uns cigarros.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Van Gogh , 1890. No Limiar da Eternidade

E SE SOUBÉSSEMOS O DIA DE NOSSA MORTE?

Juliano Barreto Rodrigues

Desde criança Teobaldo se preocupava com o diacho da incerteza sobre quando morreria. Uma daquelas encafifações que se metem na cabeça da gente sem serem convidadas, surgidas sabe-se lá de onde. Fato é que todos os dias martelava a cabeça de dona Isaura, sua mãe, com essa tétrica obsessão.

Adolescente, recorreu a todos os videntes da cidade. Houve quem dissesse que passaria dos noventa, outro que morreria de desastre aos vinte e cinco, um falou que teria um infarto aos quarenta e poucos, mas ninguém arriscou uma data.

Inconformado, ficou sabendo de uma oração portuguesa muito antiga, chamada Sonho de Nossa Senhora, que prometia o aviso da data do finamento, com antecedência de três dias, a quem a rezasse uma trinca de vezes diariamente. Achou o contrato muito econômico: “só três dias?”. Melhor do que nada. Passou a fazer a oração não três, mas quatro vezes, para ver se conseguia como bônus alguma antecedência no comunicado.

Já na meia idade, casado, três filhos, o sonho de vê-los adultos e pai de seus netos, Teobaldo mudou de ideia. Veio o medo de morrer cedo e ter seus planos frustrados. Foi consultar a mãe sobre como voltar atrás com Nossa Senhora. Dona Isaura viu, no homem-feito, os olhos infantis que há muito não via e, tomando suas mãos, disse: “Você foi bulir com a santa por capricho, meu filho. Ela já é tão ocupada, agora vai ter que desfazer o bem bolado há tanto acertado? Não vejo outro jeito, o trabalho vai ter que ser seu: reze todos os dias a oração e, na parte que diz 'Três antes da sua morte minha Mãe Maria Santíssima aparecerá', você mude para 'não aparecerá'. E torça para não chegar perto de morrer antes de compensar o mesmo número de vezes que rezou pedindo para saber.”

Seis vezes por dia. Teobaldo parava tudo para desrezar aquela parte. Pelo menos havia uma solução. Se pulava uma, fazia duas. Com os cinquenta anos lhe pesando no lombo, já tinha dois netos crescidinhos. Pelas suas contas, faltava pouco para saldar o distrato. Logo dormiria aliviado. Naquela noite, bebeu seu chá ali pelas dez e se deitou. Foi quando teve O Sonho.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

CONFLITO

Em uma aula dada por Marcelo Spalding sobre a necessidade do 'conflito' em um bom texto, ele utilizou um vídeo de exemplo que achei incrível. Quase não consegui assistir: pouco depois do "mas...", indicando o conflito, tive que parar e sair da sala para não passar vergonha. 
Veja e me fale:





segunda-feira, 29 de agosto de 2016



                                               LEITORES INFIÉIS

                                                                  Juliano Barreto Rodrigues


Desejo leitores infiéis. Que leiam muito além daquilo que escrevo. Promíscuos mesmo, capazes tanto de se esfregar com textos marginais quanto com os considerados “da elite”. Não reverenciem sequer os clássicos que não lhes toquem e que soltem pelo meio – sem titubear – qualquer escrito chato (retornando a ele se e quando bem entenderem, sem pedir desculpas).

Parceiros volúveis, amantes do que presta em cada página e, ao mesmo tempo, críticos mordazes do que não salva. Relação madura e íntima, com altos e baixos, sem amor cego nem dedicação exclusiva. Para gozos casuais ou algo mais.

É regra: ninguém suporta absoluta constância. Pessoas (incluindo as que leem), personagens e textos maniqueístas são terríveis. Sem oscilações no enredo, sem conflito na trama, sem dramas de consciência, não se consegue nem leitores infiéis: não se consegue leitores.

Por isso, procuro gente verdadeira, que volte aos meus rabiscos quando deles se lembrarem: como primeira ou última opção na agenda. Garanto que minhas palavras serão amantes sempre tórridas e de braços – e pernas – abertos. Dadas e igualmente infiéis*.

'Minhas palavras...', quanta pretensão. São minhas só até saírem do meu útero de autor. Paridas, tomam rumo próprio. Na tentativa de segurá-las, meto-lhes alianças, assinando meu nome.  Mas tirando as que engaveto, todas as outras vão para o mundo. Quando me deparo com alguma delas por aí, estão feitas. Me sobra um deleite incestuoso, nunca livre de alguma crítica tardia e inócua.

No ocaso desta reflexão percebo que não sou eu quem precisa de leitores. São elas, as palavras que emendei e que vivem além de mim. Criações que têm data de nascimento, destino incerto e que, espero eu, morram muito depois do autor. Então, me corrijo: desejo - A ELAS - muitos (e muito infiéis) leitores.



* Uma autocrítica urgente:

E isso de sempre usar o sexo como metáfora para falar da escrita? Se bem cabido neste texto, noutros tantos revela, por um lado, o prazer do autor pela arte, por outro, uma redundância a empobrecer o estilo. É um cacoete a se livrar. Leitores sofisticados não perdoam lugares-comuns, especialmente se repetitivos.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016



         
            PAI ESCRITOR – PARTE III – A REDENÇÃO

                                           Juliano Barreto Rodrigues

Meu bebê tem agora um ano e um mês. Nossa, o tempo que parecia nunca passar, passou voando. Aquele ser que só balbuciava e chorava não para mais quieto, e o nosso mundo gira ao seu redor. Graças a Deus aqueles primeiros meses se foram. Sem brincadeira, tenho trauma dos três iniciais.

Tive depressão pós-parto, que tecnicamente acontece só com a mulher. Cheguei a tomar um tarja preta, mas como bebi todos os dias desde um mês antes do nascimento até seis meses depois, larguei o remédio (a mistura era indigesta). O que importa é que, seja a base de remédio ou de álcool, no fim sarei.

Meu problema foi a mudança de hábitos, não o nenem. Ele, por sinal, sempre foi muito cooperativo. Acredito até que o carisma dele que me curou.

Ser pai é incrível! A vida vai para outro patamar. Sei que é muito clichê dizer isso, mas é uma experiência que todo homem deveria viver. Descobre-se um amor esquisito, visceral, atômico. Uma força descomunal, que domina toda célula da pessoa, transformando-a. É uma abdução alienígena, com direito a reprogramação mental completa.

E sobre escrever e ter filho? - aliás o tema dessa conversa - Ah, é aquilo de que já havia falado: não sobra tempo. Se pegar uma caneta e um papel, o bebê toma na hora; computador? – brinquedo dele; celular então? – tente mandar uma mensagem que seja, ele salta sobre o aparelho e o mete na boca. É TU-DO dele. Escrever se torna um ato furtivo, algo que se faz escondido e às pressas quando se consegue assumir, por alguns segundos, a identidade secreta de escritor.

Em uma entrevista que dei para uma mídia alternativa de Portugal, que está trabalhando em uma matéria sobre gente que escreve em blogs e coisas afins, me perguntaram sobre a rotina de escrita. Eu disse: “Rotina? Isso é o que eu não tenho. Na verdade, tenho um namorico com a literatura. Penso nela todos os dias, tenho amor, paixão e desejo, mas só nos encontramos de vez em quando (para um sexo rápido, kkkkk). É o que dá. Sonho em noivar e casar, mas já tenho esposa e filho. Embora tenha certeza de que eles não vão ficar chateados com essa bigamia. Por enquanto, eu e ela (a literatura) vamos continuar nos pegando escondidos”.

Por outro lado, ter ideias se torna mais fácil. Quem escreve depende de musas, e um filho por quem se tem adoração absoluta é uma musa mega power. Todas as possibilidades do mundo invadem a cabeça. Os sentimentos mais recônditos e as sensações esquecidas lá na infância brotam do nada e crescem instantaneamente, feito feijões mágicos fertilizados com adubo de Kripton. Tudo fica superlativo, adjetivado e adverbiado. O cérebro é invadido pelo coração. Não mais se raciocina friamente. Tudo agora é quente e sentimental. É como se evoluíssemos de repente para uma mente feminina, capaz de pensar e sentir intensamente a um só tempo.

No frigir dos ovos, o escritor ganhou. Se falta tempo, sobram ideias. O sentimento de urgência torna o cérebro mais eficiente. A necessidade – e é isso que a escrita é para mim – faz o sapo pular. Ser pai inspira e me torna mais criativo. Basta você pensar nas mil artimanhas que se desenvolve todos os dias para fazer uma criança comer – a gente vira PHD na arte da distração, e escrever ficção é justamente isso, distração e entretenimento. No fim, tudo tem que ser, ou parecer, o mais divertido possível, senão, não desce.

Venero a escrita – porque me dá uma liberdade imensa. Mas adoro muito mais meu filhote – a quem me prendo voluntariamente. Eis a relatividade das coisas.

Nas artérias que irrigam o braço do escritor correm a plenitude, o carinho, a presença do filho. Assim, as palavras que escorrem no papel já não são só do autor, mas da dupla que formam. Então, que essa parceria dê belos frutos!

Como pai coruja, peço, para fechar nossa conversa, que permitam um recado ao meu inspirador:


– Obrigado por existir, meu amor!



quarta-feira, 3 de agosto de 2016



                                            VERDADE SEJA DITA



Vi dia desses, no Canal Curta, a poetisa Mel Duarte declamando “Menina Melanina” e fiquei empolgado com sua pena engajada e afiada. Sabe quando a gente lê uma coisa que gostaria de ter escrito? Foi assim. Principalmente com os últimos versos do poema:

“[...]
Preta, pretinha
Não ligue pro que dizem essas pessoas,
E só abaixe a tua cabeça
Quando for pra colocar a coroa.”

Me perguntei: – Em que mundo eu estava que ainda não conhecia nada de Mel Duarte? – Putz, dá para ver nos olhos dela a força do seu discurso. Aquele “só abaixe a tua cabeça quando for para colocar a coroa” ficou ressoando na minha cabeça.

Mel é uma poetisa publicada, que usa todas as mídias para dar seu recado. Além do estímulo da sua escrita, dá também exemplo aos escritores iniciantes do que fazer para se fazer ouvido e conhecido. Me tornei fã e leitor.

Como referência, é um contraponto interessante para mim: para fugir um pouco da abstração e tratar de situações mais concretas. As palavras podem (e devem) ser usadas como ferramentas para mudar realidades erradas.

Para terminar, deixo o link de “Verdade seja dita”, resposta dada a Bolsonaro, motivada por uma infeliz fala sua à deputada Maria do Rosário. Sintam a força da verve de Mel:


quinta-feira, 21 de julho de 2016



                                                       rIsCaNdO


                                                        Juliano Barreto Rodrigues


Vamos falar de amenidades. Só andar à toa com as palavras, curtindo levemente o ócio criativo. Nada sério ou grave, nenhuma negativa. Deixar fluir, meditativamente, como que vendo aquela chuvinha mole lá fora, deitado na poltrona reclinável, curtindo, sob cobertas, um friozinho de leve, só com o barulho da água caindo. Abstrair.

Coisa de mal abrir os olhos, pegar a caneta despretensiosamente e marcar o papel. Na outra mão, um chá quente de capim-cidreira. Escrever sem conclusão, nem argumento. Nada de preocupação com quem vai ler, só o desbordar de si.

Azeitar as engrenagens mentais e deixá-las funcionando em marcha lenta, sem esforço, quase em silêncio, meramente para exercitar. Nada a dizer, só uma folha a ser largada no fundo da gaveta.

Divagar naquela saudade gostosa dos queridos e das brincadeiras da infância, quando não se sabia o que seria, mas se queria ser tudo. Quando olhar para as estrelas era algo mágico, e na lua havia um dragão. Tempo em que bastava o agora, quando a felicidade se media em um dia.

Escrever assim, com essa sensação. Sem parágrafos, nem corretor ortográfico, sem “obrigado” ou “de nada”. Anonimamente, descuidado do estilo e do temor de julgamento. Bobamente, folgando com a pena na mão e um papel de suporte, numa quase psicografia desmotivada, adorando palavras pelo simples fato de amá-las.

Sossêgo, atemporalidade, ilusão de eternidade. Carimbar as horas com vocábulos, para que existam além de nós.

Pela primeira vez não citar ninguém, não persuadir, nem aparecer. Nudemente grafar, só brincando de a+b, b+r, a+ç, ç+o. E a chuvinha a ressonar, a pele arrepiando de vez em quando.

Momento resumo, aquela hora em que tudo ou nada importam, que o tempo para, que tanto faz a realidade exterior, basta o casulo, o centro do mundo.

Delícia cochilar assim, esticando a letra num traço, que diferente de um laço, não põe fecho em nada. Reticência perfeita para esta escapada sempiterna.




                             CANDEIA

                               Juliano Barreto Rodrigues

Ateio a torcida da lamparina de cristal,
Que bruxuleia a flama num lumaréu anêmico,
E enodoa a griseta de latão doirado,
Mau clarejando um raio curto.

O apetrecho me espelha.
Queimo feito labareda lânguida,
De lume fremilúcilo e raquítico,
Embora cálido e cintilante.

A alvura luminescente
Contrasta com a caligem negra
Que resta da combustão da querosene
E deixa uma fetidez tóxica que identifica a fluida acendalha

Bianco y nero,
Tetro e níveo,
luzente e soturno
lúgubre e rutilante...

A sombra abraça a luz que a cria
Em simbiose perfeita,
Revelando degradês suaves,
Resultantes da dependência orgânica entre ambas.

Assim somos:
Quanto mais luz emanamos, mais intensas as sombras contíguas.
Se em redor há sombras espessas, sinal de que um clarão está vizinho.
A escuridão persegue o fulgor.

E quando o combustível acaba?
A noite engole tudo?
O Sol só permanece vinte e quatro horas no firmamento,
Não se pode contar com Ele o tempo todo.

Para reduzir as trevas, só uma solução:
Várias luzes reunidas lado a lado,
Ocupando sítios estratégicos,
Umas clareando o vácuo deixado pelas outras.





segunda-feira, 11 de julho de 2016



TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO.


                                               Juliano Barreto Rodrigues


Um minutinho só...” é muuuito tempo para quem briga por segundos. Não dá para perder por pouca coisa. Quando me param para algum assunto com o argumento de que “é rapidinho”, fica difícil esconder minha incredulidade e descontentamento. Vivo correndo, faço tudo turbilhonando, bem ao gosto do mainstream Y generation. Só que sou da transição, tenho um pé lá na rua de terra batida, na época do telefone de ficha, da conversa atoa com os vizinhos no portão. E, conforme Cioran (embora em contexto diferente daquele em que ele falou): “Todos somos perseguidos por nossas origens”.

O ritmo das pessoas é diferente. Conversar com quem está aposentado e tem o dia todo para resolver as contingências é bem oposto a falar com o cara que divide o tempo entre o trabalho, a obrigação de levar as crianças ao colégio, o curso que tem para fazer, a atenção à esposa, o almoço, o jantar, e uns 40 minutos para fazer amor umas duas ou três vezes por semana.

Me ressinto com a falta de tempo. Anda difícil parar para ver a arquitetura da cidade, um por-de-sol fora do carro, degustar alguma coisa, deixar de representar o papel de “animal laborans”. Poder viver fazendo exclusivamente o que se gosta então? Nem se fala.

impossível entender o porquê de cada um não estar empenhado só no que deseja. Nós nos perguntamos: “E se ficar difícil se manter?” Como disse o filósofo, sempre dá, na pior das hipóteses, para morrer de fome.

Falando em fazer o que desejamos, lembrei de Fernando Pessoa sentenciando: “[...] Viver não é necessário; o que é necessário é criar. / Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. / Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha / de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. [...]”. Ele alegou querer tornar sua vida 'grande' para a humanidade, ainda que se dissolvesse para isso. Apesar de parecer altruísta, no fundo queria era viver total e egoisticamente seu desejo-paixão em criar.

Um círculo vicioso escraviza aqueles que sonham ser livres: é preciso dinheiro para gozar a vida e, para a maioria dos seres, isso demanda trabalho. Baudelaire, dandi, disse: “o dinheiro é indispensável às pessoas que fazem de suas paixões um culto”. Assim, a solução seria gostar de algo lucrativo. Mas paixão é paixão, e 'álea' está na sua essência.

Lamento porque está se perdendo o tempo da sutileza, das coisas bem-feitas no detalhe, à mão, com valor principalmente por serem únicas nas minúcias. Recordo-me de um artesão que tira dos blocos de barro os santos da devoção das gentes e os vende na porta de sua casa. São peças de uma fina combinação da mão da enxada com o requinte da cabeça do artista. Não negam a ascendência de nenhuma das duas: dá para sentir a força do tato matuto na anatomia das figuras, moldadas por mãos calejadas e dedos grossos e, ainda assim, também se vê as faces puras e delicadíssimas que parecem ter saído de mãos de rendeiras muito caprichosas.

Faz tempo que não sinto alguma sensação levezinha, como a brisa fria na ponta da orelha, um arrepio por uma boa lembrança, um sabor de comida da roça. Sou um homem do meu tempo “não vivo do passado, mas o passado vive em mim” (Paulinho da Viola), não dá para negar. Sou bem adaptado às tecnologias de agora, ao frenesi, aos excessos – inclusive de informação. Mas sofro de uma certa nostalgia e tenho saudades daquela […] aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!” (Casimiro de Abreu).

Então, quando me pedem “um minutinho só...”, sinto que lá se vai um daqueles momentos leves, de abstração, em que poderia estar captando algo de belo, mas terei que gastar tempo com a simples sobrevivência. Sou dependente da reflexão – coisa que não se faz com pressa -, não ajo no automático, gosto de ver sentido nas coisas, e dou valor às frivolidades. Por isso, viver devagar, segundo a segundo, me é tão precioso. Você consegue viver seu tempo?


segunda-feira, 30 de maio de 2016


Depois de um bom tempo sem postar nada (estou preparando um livro técnico) volto a ativa. 



Conjecturando

Sempre faço relações entre a escrita e as outras formas de arte. A comparação me ajuda a entender de maneira mais fácil tanto uma quanto as outras e, talvez, tenha a ver com minha formação (não acadêmica) em pintura, música e escrita. O contato com essas três formas de expressão me levaram a reconhecer a arte como uma coisa só, suas modalidades aprimorando umas as outras. Meu cérebro artístico funciona assim:
- Ouvir uma boa peça musical (e racionalizá-la) me ajuda, por exemplo, a escrever uma ficção tentando alcançar um ritmo, períodos de calmaria, de pré-climax e de climax, e a terminar com uma cadência perfeita. Se eu for pintar, me ajuda também a imprimir o movimento e a harmonia em uma cena, por exemplo.
- Se vejo uma bela tela, aprendo a redigir de modo a não descrever friamente algo e sim mostrar as cenas com palavras, destacando estados de espírito, estímulos aos sentidos, nuances e expressões, etc.
- Se um texto arrebata, o que pinto deve ter a mesma capacidade de imediatamente tocar, prender e impressionar o admirador.
- Uma música deve ter um colorido e as notas dever compor frases interessantes.
E por aí vai.
A relação entre as artes não é invenção minha e há muito publicado nesse sentido. Como disse, lá no século XVII, o pintor francês Charles Alphonse Du Fresnoy: “Um poema assemelha-se a um quadro; deste modo um quadro deveria também assemelhar-se a um poema… Um quadro é muitas vezes considerado como poesia muda; e a poesia um quadro falante” (FRESNOY apud WIMSATT; BROOKS, 1971, p. 320).
Ainda relacionando literatura e artes visuais, destacam-se os estudos da Retórica Visual, que mescla o conceito de retórica - mais afeto à escrita - às possibilidades do desenho, da pintura, do design, etc..
Também a idéia de Ekphrasis, que em sentido amplo significa a representação verbal da representação visual – conceito que eu amplio mais ainda, propondo o vice-versa – vai no mesmo sentido da prova do mutualismo, que acho natural, entre as artes.
No cinema, a transformação do escrito em imagens, inclusive com efeitos especiais e fundo musical (que dá todo um plus de emoção), revela várias possibilidades da simbiose entre as modalidades artísticas.
Sinceramente, não creio que o artista possa viver circunscrito a sua especialidade. Pode até ser que produza somente esculturas, por exemplo, mas a fonte de que bebe deve ser bem mais ampla. A criatividade se alimenta da vida mas, obviamente, a educação do gosto, a sofisticação dos sentidos, a comparação crítica, a percepção de convenções e tendências artísticas, se adquire muito no convívio com as artes e seu meio – no plural.
Não tenho preguiça de fazer analogias. Pensar uma variante artística através de outras ajuda a aprofundá-la. Ajuda também a manter a mente desperta, receptiva e rica de referências.
No final das contas, tudo se resume a uma coisa só: arte! Tanto faz o meio mais confortável e preferido pelo artista para se expressar (aquele em que é mais competente e livre). Arte é arte. Limitar-se é fechar o foco em uma coisa só e se tornar bem menor do que poderia ser.


REFERÊNCIA

WIMSATT JR., William K.; BROOKS, Cleanth. Crítica literária: breve história. Trad. Ivette Centeio e Armando de Morais. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1971.


segunda-feira, 18 de abril de 2016



 TRATO É TRATO


Juliano Barreto Rodrigues


Sofrendo de disenteria e prostração há dias, o coronel Onofre já havia perdido a paciência com o doutor da corrutela e com as raizadas dos palpiteiros. Desaguando daquele jeito, iria acabar morrendo.
A mucama, com dó do sinhô, arriscou sugerir:
– O coroné tá é sofrendo de mal'oiado.
– Quê? Que diabo é isso mulher?
– Mal'oiado, zói gordo, zói grande, inveja.
– Entendi, entendi. Isso é besteira do populacho, superstição da escravaria e de beata cabeça mole.
– Num tá mais aqui quem falô.
Como não sarasse, o velho foi falar com seu compadre Vitorino, homem ilustrado e seu conselheiro fiel. Contou seu calvário e, por último, citou sarcasticamente a sugestão da escrava.
Vitorino riu, recostou na cadeirona maciça de pinho, cruzou as pernas, acendeu um pito, tirou o chapéu e disse olhando com uma cara engraçada para o coronel:
– E o que tá esperando, homem? Mal olhado é coisa brava, derruba até boi no pasto.
– Pare com isso, compadre, desde quando acredita nessas coisas? Vosmicê, um homem viajado e culto... Isso é crendice do poviléu que ignora a ciência.
– Amigo, pau que dá em Chico também bate em Francisco. Sua cabeça pode não acreditar, mas pelo jeito seu intestino acredita – sorriu divertindo-se.
– Será mesmo, compadre?
– Garanto que se a mucama estiver certa, uma benzedura forte te cura daqui para ali. Aplicando no compadre uma boa jaculatória com arruda não há quebranto que resista.
De um salto o coronel se pôs de pé agarrado às calças pelo cinto e, com o rosto em brasa, gritou para Vitorino:
– Ejaculatória? Tá louco homem? Morro mas não tomo desse remédio.
Vitorino também se levanta assustado e quase se acaba de tanto rir da ira do compadre. Após se recompor explica:
– Ejaculatória não, meu amigo. Ja-cu-la-tó-ria! É o nome que se dá às rezas curtas, destinadas uma para cada coisa, que as rezadeiras e feiticeiras repetem na prática de seu ofício.
– Ê, compadre, achei que tava me afrontando, quase perco a cabeça com vosmicê. Inda bem que colocou os pingos nos “i”.
– Quase tomo uns tabefes mas valeu o riso.
A cabana de Don'Ana do Riachão era assustadora. Pau-a-pique, coberta de palha de coqueiro, chão batido, um cachorro furibundo amarrado à porta e um papagaio barulhento a anunciar a chegada de estranhos.
A velha magricela e encurvada sai de lá com uma vara fina de goiabeira, açoita aos gritos o cachorro e ameaça o papagaio. Cospe e pragueja. Com um gesto impaciente manda as visitas entrarem. Dá de costas e vai para dentro.
O interior era mais feio e sinistro do que o exterior. A fumaceira do fogão a lenha tornava o ar irrespirável e neblinava tudo, dando um aspecto de pesadelo. A fuligem tinha empretecido a parte mais alta das paredes e a palha do telhado. Havia um amontoado de penduricalhos para todo o lado que dividia a atenção a tal ponto que não dava para fixar a vista em uma coisa só. A velha então mandou os dois se sentarem.
– Vamo vê que mal aflige vosmicê – disse a senhora enquanto se encaminhava para uma prateleira. Meteu a mão dentro de um caixote onde uma galinha botava e arrancou de baixo da pobre um ovo. Encaminhou-se para a mesinha onde havia uma cuia cheia d'água e quebrou o ovo dentro dela. Conforme a gema e a clara flutuaram formando figuras a velha vaticinou: – Tá com olhado seu dotô, e é coisa séria. Pague a mesa com 300 réis.
– O que? É muito dinheiro para acabar com uma caganeira. Vosmicê tratando de desarranjo daqui a pouco compra minha fazenda.
– O coronel é que sabe.
– Vamos deixar de conversa. Dou 100 e, se ficar bom, volto com mais 100, combinado?
– Tá bão. Mas se o sinhô não voltá, a coisa vai ser pior.
Vendo a cara de ultrajado do coronel, Vitorino pegou-o pelo braço e cochichou em seu ouvido. Onofre sacudiu a cabeça e remexeu impaciente o porta-moedas. Então pôs na mesa o dinheiro.
A anciã mandou o homem ficar de pé no meio do cômodo, deu-lhe um pote com água para segurar, pegou um galho de arruda no quintal, uma pena e um punhal e começou a operação mágica agitando o ramo, como se varresse o corpo do coronel, enquanto dizia:
– Com dois te puseram, eu tiro com três: Arruda, ponteiro e pena de um galo pedrês. Com erva forte e reza brava curo feitiço, olho-gordo e quebranto, mal que fere e mal que mata, tiro e atiro prum canto.
Jogou a planta na mesa e pegou o punhal. Com ele ia fazendo cruzes em todos os lados de Onofre e recitando:
– Com ponteiro corto o mal. Cruzo a proa, cruzo a popa, cruzo bombordo e estibordo, cruzo o mastro e cruzo o casco. E assim corto todo embaraço.
Largou o punhal na mesa junto com a arruda e tomou a pena. Apontou para a cabeça do coronel e fez cruzes de longe.
– A pena traz alívio e proteção, do povo de lá e do povo de cá. Valei-me todos os velhos feiticeiros, que todo mal hão de levar. – daí juntou os utensílios usados e embrulhou com um pano, para despachá-los depois.
Terminada a obra, a velha levou o coronel até o umbral da porta, o fez ficar de costas para fora e mandou que atirasse a água para trás, por sobre a cabeça. Assim feito, mandou os compadres embora.
Dias depois o coronel estava feito novo e recebeu visita de Vitorino.
– Como está meu compadre?
– Muito bão meu amigo. A bruxa parece que tirou com a mão o que tava me aporreando.
– Voltou lá para deixar os 100 réis?
– Qual o que?! Nunca vi cobrar por reza. Ela já foi mais que bem paga pelo que fez. Exploradora!
Vitorino fez cara de reprovação mas não quis prolongar o assunto. Pensou consigo: “rico só é rico porque é muquirana. Espero que meu amigo não se arrependa”. Não deu outra. Pouco tempo depois o coronel foi acometido por uma forte constipação. A mucama alertou:
– Vá em Don'Ana, sinhô. Ela te cura do vento-virado.
– Aquilo foi coincidência, mulher. Ademais, o remédio dela é muito caro. A embusteira vive à custa do desespero dos outros. Não me engana mais.
Dez dias até a morte. O coronel deixou muito dinheiro para seus dois filhos pródigos dizimarem. No enterro deu muita gente. Vitorino lamentou a cabeça dura do compadre e, com a impressão de ter visto a feiticeira no meio da multidão, lembrou-se da frase de Hamlet: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. Pensou consigo que, às vezes, as pessoas põem tudo a perder por pouco. O combinado não sai caro, desde que se cumpra o acertado. De repente, uma dor de barriga pontiaguda o atingiu. Persignou-se e sussurrou para ninguém:

– Não se subestima aquilo que não se entende – então saiu do cemitério às pressas à procura de um banheiro, com a lição aprendida e com mais uma história para contar.