O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

terça-feira, 28 de março de 2017




 COLÓQUIO ENTRE IRMÃOS


Juliano B. Rodrigues.


Na penumbra do gabinete, iluminado apenas por uma luminária pendente, que incide a luz diretamente sobre o tabuleiro de xadrez na mesinha de centro, encontram-se, sentados frente a frente, duas figuras bem extravagantes. Lembram a história do primo pobre e o primo rico: um é elegante, usa um chapéu bicorne meio exagerado, terno alinhado, colarinho branco, calças de veludo, anelão de ouro e florezinhas de figueira-brava na lapela. O outro, mais mirrado, veste uma bata muito simples e calçolão parecendo de pijama. Calça sandálias gastas e tem um estilo displicente de vestir. Ambos barbudos, mas o primeiro com barba e cabelo impecavelmente aparados, enquanto o segundo 'ao natural'. São irmãos. Assim, e como estão sozinhos, conversam sem nenhuma cerimônia. O engomadinho, agarrado a um peão, começa o assunto sem levantar os olhos do jogo:

– Você supervaloriza essas criaturas.

– Não é isso, irmão. Cada um se apega ao que tem.

– São todos uns ingratos. Vivem comigo e depois falam mal de mim. Fazem suas porcarias e a culpa botam em quem? Em mim. E depois, com a cara mais deslavada, falam para Ele e para os outros que estão na sua, maninho.

– Sei disso, mas não fui eu quem os criou assim.

– Não venha tirar o corpo fora. Você pode não tê-los feito, mas me sacaneou feio naquela história de Novo Testamento. Os profetas que armaram sua vinda já me passavam a perna, mas a sua estratégia de marketing foi violenta: além de pintar minha caveira por escrito e fazer todos acreditarem que estou do lado oposto do Pai, ainda saiu de escolhido, de Filho de Deus.

– Lú, não seja rancoroso. Não fui eu quem escreveu a Bíblia. Você já tinha se dado mal com o Velho Testamento e vacilou, deixou que um Novo fosse feito. Demorou a ver que a ideia, que nem foi minha mas dos homens, de criar um roteiro fantástico nos mitificando, era ótima. Quer dizer, pelo menos foi para mim.

– Rapaz, você armou um complô tão infernal, que me escorraçou até da Trindade. Meteram um tal Espírito Santo no meu lugar. E olha que eu e você somos gêmeos idênticos, fomos criados juntos lá na origem. Daí você reaparece e apronta: brota no meio deles com um nome impactante, uma cara de anjo, um discurso inédito e bum! De repente, todo o prestígio é seu. E ainda me acusam de tentar usurpar o trono do Pai. Eu devia é ter aulas contigo.

– Seu ciúme é porque todos me amam, Lú.

– Isso é o que não entendo. Você é tão econômico nas suas benesses... Já eu, sou pródigo em divertir, estou em quase todos os prazeres, boto graça em tudo. É um tédio sua carolice.

– Pode ser, pode ser. E até acho que o problema talvez esteja aí. A maioria se aproveita tanto do que eu ofereço quanto do que você dá. O rebanho é corrupto, não há meus e seus, dividimos as mesmas cabeças. Fica difícil essa contabilidade e a prestação de contas.

– Então. O pior é que o trabalho tem sido muito mais meu. Te solicitam muito mais, mas quando vão para a ação, quando querem pôr a mão na massa, meter o pé na jaca, aí a coisa é comigo. Você sabe que até para ir além da natureza e fazer milagres minha ajuda é essencial. Não tenho um minuto de descanso. Salário então? Nem pensar. Pelo jeito, vou viver eternamente de mesada. Eu gostava quando me chamavam de deus da preguiça, mas isso é o que não sou faz tempo. Trabalho feito um burro de carga. E até hoje me condenam pela rebeliãozinha que causei tentando alcançar a coroa: quem aguenta viver sendo “braço esquerdo” a eternidade inteira, sem chance de promoção? Nem você, “braço direito”!

– Tá, e o que propõe, meu irmão? Fazer um piquete e dividir o rebanho meio a meio, ou deixar que se virem, ou pior: fazer logo um Apocalipse?

– O “Pai” não aceitaria nenhuma das três opções. Se não tivesse criado a porcaria do livre arbítrio, o plano ”a” até seria interessante. Mas eles escolheram servir tanto a mim quanto a você, e se aparecer mais um brilhante, seguem também. O saco é que nós dois nem servimos para sócios, você é luz que ilumina, eu sou luz que ofusca; você freia, eu acelero; você adula, eu castigo; você gosta da pasmaceira e eu quero é ver o circo pegar fogo; íamos quebrar. Mas é tããão chato vivermos disputando...

– Lú, não dá para te tirar de cena e nem você a mim. Se o Pai quisesse diferente não teria feito dois. Seja resignado.

– Tá vendo? Não suporto essa conversa de cordeirinho. Você ainda leva alguém com esse papo? Não que eu dê muita bola para o destino da humanidade, mas como disse você, é só o que temos. Preciso lucrar de algum modo.

– Solução? O que sugere?

Após alguns minutos de silêncio, Cristo e Lúcifer brindam, um com água outro com licor, se olham e dizem em uníssono, como fazem muitos univitelinos:

– Tem jeito não, joga nas mãos de Deus.

Levantam-se e saem rindo abraçados, naquele abraço fraterno de irmãos que se querem muito, ainda que tenham escolhido posições opostas.



Observação necessária: Embora seja o autor quem crie o narrador, este é um “ser” independente, às vezes com opiniões absolutamente opostas as do seu criador. Como o que escrevo já me surge pronto na cabeça, faço de tudo para não me meter na opinião do narrador, apenas modero minimamente a sua linguagem. No texto acima, quero deixar claro que as opiniões, crenças e conclusões são do narrador, não correspondendo em muita coisa com as minhas. O texto é ficcional. Não tenciono ofender qualquer crença ou religião, muito pelo contrário, sou defensor da liberdade religiosa e de credo e, mais que isso, da liberdade de opinião. A quem não tenha gostado, não leve a sério o texto, é mera ficção. Peço vênia: Arte é arte, feita para ser bela, romper com o cristalizado, extrapolar as velhas estruturas. Como já disse muitas vezes, 'valei-me a licença poética'.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017




CANINANA

Juliano Barreto Rodrigues

Tem coisa na vida da gente que se contar ninguém querdita. Nos fim de semana eu e os cumpadre se reune debaixo do pé de manga pra jogar um truco e beber umas pinga de jeito. Tem vez que junta umas três ou quatro mesa de truquêro. Quase sempre dá alguma arrelia, mas todo mundo gosta.

Numa veis dessa, cachaça vai, cachaça vem, começaram a falar da tal da caninana, dona da matinha onde brota e desce o corguinho que passa na roça. É costume algum mamado se achar o bãozão e querer subir lá com um pedaço de pau pra tentar matar a cobrona. Tudo quanto é metido a besta vorta de lá correno e branco feito defunto.

Naquele dia, eu, o Zé da Venda, o Tonico e o Jão tava jogando e o povo da outra mesa só no mocotó e na branquinha, contando valentia e brincando uns com os outro. Daí a pouco o mais barulhento veio me estrovar. Falou que ia lá pegar a cobra. Pronto, todo mundo queria dar um pitaco, dizer que fizesse assim e assado, que não virasse as costas pra ela porque a tinhosa corria atrás dando chicotada. A mesma lorota de sempre.

Depois de quase uma hora de fuzarca, dois resolveram ir com o Meleta. Os três já tavam daquele jeito, se acendessem um cigarro era capaz deles explodir. Num tem nada pra dar mais coragem num homem do que a mardita.

Na portinha da macega um já tremeu e deu pra trás. Vortou fazendo graça pra amenizar a vergonha. Os outros dois chucharam na mata. Daí um tempo ouvimos uns grito e a pauzera quebrano. Sai de lá, na carreira, o companheiro do Meleta, parecendo que viu o diabo e berrando por ajuda.

O Meleta tinha ido até a grota da mina e espiticado uma galhada, quando deu de cara com o rabo da chicotêra alaranjada. No que acompanhou o corpo dela, viu que já tava armada pro bote. Só foi o prazim de pular e correr. A bicha saiu no rumo dele que, acostumado a correr de boi brabo, subiu no primeiro pé de pau que achou. O bestão só esqueceu é que cobra sobe em árvore.

Coragem era pouca, mas nóis não podia deixar um amigo naquela situação. Fomos acudir. Que situação. O peão tava lá trepado na árvore, lá na grimpinha, com a bichona lambendo os beiço pra pegar ele, pertinho, pertinho. Ele já tinha obrado na roupa e, cada vez que ela dava um bote ele gritava, saia prum lado, saia pro outro, parecia que tava dançando na brasa, e a bosta escorria pelas perna.

O Zé da venda rancou o tresoitão da cintura e tascou um tiro pro rumo. Pulei e ranquei o revolver da mão dele, se não, ele é que ia acabar matano o Meleta. Não tinha muito o que fazer, ninguém tinha colhão pra chegar muito perto. Jogar toco não tava adiantando. “Ai meu Deus, ai meu Deus”, relinchava o encurralado.

Quando pensa que não, o peão me cai lá de cima com cobra e tudo. O tombo foi tão feio que todo mundo pensou: morreu! O cabra caiu sentadão bem no meio da bicha. Deve ter sido com tanta força, ou ela não aguentou o cheiro, que na mesma hora arrastou, manqueba, pra grota suja. Nessa hora foi muita graça ver aquele mutamo de homem esborrachado lá no chão, sem um pinguinho de sangue na cara. Até a cana tinha evaporado.

Dali pra frente, Meleta passou a ser chamado de Melado, o herói todo cagado, que tinha muntado na cobra e sobrevivido pra contar a história.

A danada tinha ganhado de novo, mas deve ter brotado um bico-de-papagaio no espinhaço, que não deixa ela esquecer do Melado. Pelo menos até hoje ela pôde descansar. Demora algum bocoió se meter com a descadeirada de novo. Ela vai tá prontinha.

Fico matutano... Me fala: pra quê bulir com quem tá queto, heim? Pra quê?

Vai sê bobo pra lá.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017



IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO

O RETRATO DE DORIAN GRAY


Juliano Barreto Rodrigues.


Oscar Wilde publicou o romance gótico-filosófico O Retrato de Dorian Gray, inicialmente em fascículos mensais na revista literária Lippincott's Monthly Magazine , no ano de 1890. 
 
Li O Retrato de Dorian Gray em PDF no smartphone, numa versão em espanhol. A base da história todo mundo conhece: o protagonista Dorian é pintado por alguém e, a partir daí, só seu retrato envelhece, ele não, o que gera consequências funestas para Dorian e os que com ele convivem. Parece simples, mas é claro que não é só isso e, pela gama de situações suscitadas, rendeu um romance que virou um clássico, inspirador de várias outras obras literárias e cinematográficas, com este personagem ou com tramas parecidas.

O tema é o desejo de viver eternamente e numa eterna juventude (semelhanças com os vampiros não são meras coincidências), sofrendo as consequências desse esquema antinatural, que parece mais castigar do que abençoar seus escolhidos. É o retrato narcísico absoluto, de quem quer perpetuar a beleza, sem jamais envelhecer nem morrer. É um tema atual em todos os tempos, o que faz da obra universal e atemporal.

Acredito que a maioria dos leitores tenha lido a obra em outra fase da vida, mais novos que eu, fase em que o proveito com o aprendizado, positivo ou negativo (o livro foi objeto de inúmeras críticas, considerado má influência) deve ter sido ainda maior. Embora seja um romance – pelo tamanho – prefiro pensar nele como uma novela – pela velocidade do enredo, a leveza do texto, o número restrito de personagens.

Embora Dorian seja o protagonista, Lord Henry (a quem Dorian chama de Harry) é muito mais interessante. Harry, assim como o próprio Dorian, é membro da aristocracia e frequenta os salões da corte. Ambos agem como personalidades à frente do seu tempo, mas são exatamente aquilo que se espera deles: extravagantes, cínicos, sem qualquer ocupação útil, bem ao estilo playboy dos nossos tempos. Mas Harry (prefiro falar assim, com intimidade) traz, em todas as suas conversas, uma filosofia hedonista e revolucionária bem interessante. Toca naquilo que comumente se classifica de futilidade como o que realmente importa na vida (por isso me identifico).

O outro personagem, Basil, pintor do retrato, é secundário. Além dele, de Dorian e de Harry, só uma moça a quem Dorian namorou tem importância maior na história. O narrador, onisciente em terceira pessoa, é a voz predominante e possui a qualidade de servir à trama, não se destacando. É possível ver as cenas, sentir os cheiros, gostos e emoções narrados. Há apenas alguns excessos nas descrições de joias, tapeçarias, etc., que tornam chatas umas poucas passagens do livro, mas têm sua importância como registro de época para historiadores e interessados nos assuntos de que tratam.

Considerei superficiais as incursões do narrador na psique dos personagens. Dada a natureza do tema, poderiam ter sido mais profundas e impactantes, valorizando os resultados das ações na alma dos envolvidos. Mas, talvez, o aprofundamento se desse em detrimento da fluidez do texto, então, respeito a escolha do autor. Afinal, o tema é tão bom que fala por si, ficou no imaginário coletivo, o criador conseguiu passar muito bem o recado.

É uma leitura agradável, para ser feita como faço: aos poucos, sem pressa, nada daquilo de “ler de uma sentada só”. É preciso saborear as conversas de Lord Henry, refutá-las ou adotá-las, se transformar com elas, bem como analisar criticamente as ações de Dorian. O certo é que, lendo atentamente, não se sai incólume do contato com este livro.

Ressinto-me do final do livro ser tão apressado. O texto vai indo em um ritmo e, mais ou menos nas últimas seis páginas, corre para a solução, que poderia ser mais trabalhada, mais lenta, mais valorizada.

Saio da leitura como se deve sair da degustação de um bom livro: marcado!



 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"O asno de ouro de Maurizio" (Cattelan), com moedinhas de chocolate: “



PLIM

Juliano Barreto Rodrigues

Desviante.
Um outsider a la Colin Wilson.
Cínico emblasesado e a mil por hora.
Típico desatipado.

Distópico,
Atópico social,
Nietzsche-foucaut-bukowskiano,
E etcetriante.

Às vezes, Mallarmético silente,
Apontando sentido no branco da página.
Gênio encouraçado,
Retrato de barro criado por divinas mãos.
Queimado em forno tosco,
Mas ainda um ás.

Derridamente obscuro.
Asno de Apuleio
Retrato divino com pés de barro.
Intitulado em ouro, mas nem menos asno,
Nem menos homem,
Nem menos ás.

Vituperante gárrulo,
A vociferar contra desimportâncias
E a pouco se importar com o 'relevante'.
Obsceno!

De dentro da sua fantasia de invisível,
Protubera dardos, jacta desaforos aos quatro ventos.
Figurinha estranha...

(Essa no espelho).


Presente para Madame Heloisa, amiga da família e blogueira.







Eis a transcrição da dedicatória:

Madame Heloisa,

Escrever é como se dedicar à cozinha experimental. De início já se sabe o efeito que se pretende obter, se o resultado será doce, salgado, agridoce... e os ingredientes que serão utilizados. De resto, é pôr mãos na massa, soltar a louca da casa (a imaginação, a criatividade – que é a imaginação aplicada, limitada pelo resultado prático desejado), levar ao misturador, ou à geladeira, ou ao fogo, e torcer para que o produzido fique bom. Sempre se espera algo novo, uma receita original e deliciosa. Mas o mero fato de ser autoral já garante o prazer da criação.
Tanto escritor como o cozinheiro experimental querem protagonizar, não se contentam em copiar. Assim funciona a cabeça de todo artista: revelar a si mesmo, parindo algo novo a cada inspiração. Toda atividade pode ser assim, basta colocar o coração em tudo quanto se ponha as mãos.

Abraço!

Juliano


24/12/2016.



"Em 'A louca da casa', a jornalista e ficcionista Rosa Montero fala da literatura, dos escritores com suas histórias e personagens, da imaginação e da narrativa ficcional. Mas aos poucos, para a surpresa de quem lê, a autora se oferece em espetáculo no ato de imaginar e criar uma narrativa literária com a sua própria biografia, e do mesmo modo vai revelando os segredos da corporação dos escritores. Surgem então os fingimentos de Goethe, a doença de fracasso de Walzer e a síndrome do sucesso de Capote, o drama do reconhecimento póstumo com Melville, o egoísmo de Tolstoi, a vaidade de Calvino, de modo que as entranhas da criação literária vão se tornando íntimas. Enfim, ficção, ou uma fabulação sobre os inventores de fábulas, a obra vai revelando como a vida de qualquer um de nós não funciona de modo diferente das narrativas ficcionais." 

(Fonte: Livraria Cultura. Sinopse disponível em <http://www.livrariacultura.com.br/p/a-louca-da-casa-759868?id_link=13574&gclid=CNT7y--elNECFVIFkQodW3UACA>)


terça-feira, 13 de dezembro de 2016


                        

                        N

Juliano Barreto Rodrigues.

Deriva...
Derriba da pálpebra a lágrima.
À deriva e à pino
Sem tino ou prumo...

Valsando em gume
de navalha cega,
pontificando no vácuo,
repleto de nada por todos os lados.

Veleiro sem farol
Em noite escura e sem brisa.

Vontade de perder-se,
Degenerar,
Afogar no mar de dentro.
Sumir em si
Reduzir até não caber

Deriva...
Derriba da pálpebra a lágrima.
À deriva e à pino
Sem tino ou prumo...
Que rumo?




Tecendo às Cegas

segunda-feira, 17 de outubro de 2016



JARDIM DAS DELÍCIAS


Juliano Barreto Rodrigues.


Te toca a pele deleitável
na arrogancial delicatesse
de quem toca a mais gostosa criação do paraíso:
dolce, macilenta, tenra, quente.

Encendeiam-se as piras colossais
nos baixos ventres alheios
consumindo almas totalmente embevecidas.

No teu centro, todo o jardim das delícias,
A perder em desatinos os descostelados,
A devorar fluidamente Adão.
Fecharam-lhe a porta do Eden?
Não! Abriu-se-lhe o paraíso em Eva.
Por isso, não mais tornou.




terça-feira, 4 de outubro de 2016

Munch. Melancolia.

 MEIO-DIA DA VIDA


Juliano Barreto Rodrigues


Neste meio-dia da vida, todo dia é igual: muita fome de tudo e um cansaço que só permite um cochilo. O tempo já não é tão impressionante como ao amanhecer, com suas cores e cheiros, nem meditativo e calmo como no fim de tarde. É quente, áspero, rápido, longe da partida e longe da chegada. As necessidades são imediatas e relativamente frugais: basta ficar saciado logo, sem muita preparação nem muita coisa para limpar depois.

O meio-dia da vida é meio chato: a energia é pela metade, a hora do descanso ainda demora, a excessiva claridade zenital revela os vincos na pele que as luzes oblíquas das outras horas disfarça, a preguiça é inevitável.

Falta romance, falta o pitoresco, o encanto. Se ri mas não se gargalha, se suspira mas não se geme alto. Não há brisa capaz de eriçar os pelos. Nada parece tão interessante. Se economiza intensidade.

Raio perpendicular a apontar o dedo bem no meio da cabeça do vivente. Até a sombra companheira se retrai escondida, não refresca nem quem está ao lado. Vendo de cima, o indivíduo vira apenas um ponto mínimo. É tempo do egoismo, da ilusão de auto-bastança, das relações mais fugazes, do beijo como mera formalidade a ser vencida rapidamente para se chegar ao principal.

12 horas. O relógio está com seus braços cruzados, expondo seu maior espaço. Lembra o ser fechado em si e, por isso mesmo, com a retaguarda totalmente vulnerável. É hora grande, se está descuidado o suficiente para arriscar por pouco. É instante de escolher, tendo os olhos ofuscados pelo mundaréu de luz, um dos caminhos da encruzilhada. Não se vê claramente onde cada um pode levar.

O meio dia da vida é meio chato. Por outro lado, agora as cores irradiam, explicitamente, ao máximo. São o que são, sem nuances externos. Dá para ficar nu sem sentir frio, mas é preciso cuidar para o que mostrar não seja feio.

Dá sede, dá sono, o presente balbucia em meio ao passado que ficou e o futuro que se espera. É como este escrito, paupérrimo de interjeições e riquíssimo em conjunções. Só se deseja chegar a algum lugar.

E tantos “se” correndo o texto? Não coincidentemente, são doze. Não é descuido de autor, é vontade de novas possibilidades, desejo de acelerar o coração.

O meio dia da vida não é mais importante por estar no meio. É meio chato, mas é só mais uma hora que passa.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016


 PRECIOSAS RECORDAÇÕES


Juliano Barreto Rodrigues


– Deus te dê o que deu ao bode: rabo, chifre e bigode. – Era assim que minha mãe me abençoava quando eu espirrava (risos). Na hora de dormir, dava proteção dizendo: – Durma com Deus, Nossa Senhora e o Anjinho da Asa Quebrada.

Esse é o tipo de coisa inesquecível que, dentre outras tantas, torna a infância tão maravilhosa.

A lembrança de meu pai passando a ferro as cobertas e colocando bolsa térmica nos meus pés para eu dormir quentinho, ou me enrolando em uma pilha de cobertores para aplacar uma febre, o chá docinho de capim cidreira que minha mãe fazia para facilitar o sono, as gemadas para gripe, são um tesouro mágico que guardo no peito para sempre.

As cantigas de roda, os pirulitos de melado em formato de cone, enrolados em papel e vendidos, plantados de cabeça para baixo, em uma bandeja de isopor ou madeira, os picolezeiros, o algodão doce, o feijão da marmita que comíamos no almoço, a pelada com bola de cobertão, os amigos daquele tempo, quanta saudade. Até as cicatrizes de menino são troféus, enquanto as de adulto lembram dores.

Herdei a música que meu avô cantava para minha mãe e que elejo como fundo musical daquela época:


Pum pum piscatinga-ê
Piscatinga ararubê
Piscatinga-tinga
Aurê sarubê
Arubá
Piscatinga ararubê
Piscatinga-tinga

Clic, clec, cloc
Tararara tirurira
Clic, clec, cloc
Tararara tirurira

Tum-tum.


Brinquei tanto de guerrinha sob o pé de amora, fazendo com que o roxo dos frutos apertados contra o corpo representasse os sinais de tiros... saía todo pintado. Estava sempre descalço e sem camisa, inventando todas as modas possíveis. Falava mais que o homem da cobra e não parava quieto, o que me rendeu o apelido de mosquitinho elétrico.

Às sextas-feiras sempre íamos à benzedeira. Tia Luzia era uma preta linda e redonda, com o abraço mais aconchegante do mundo, cheirando a sabonete. Nunca a vi sem o lenço na cabeça, o crucifixo no pescoço e os óculos enormes de resina transparente. Eu e meu irmão sentávamos em tamboretezinhos em frente ao altar, montado em uma cantoneira na sala de visitas. Diante das imagens de santos católicos juntas as de caboclos, pretos velhos, vó Maria Conga, Iemanjá e Zé-Pelintra, todos iluminados com velas e tendo a seus pés copinhos com bebida – que tinham um cheiro inigualável quando misturados ao aroma da queima de defumador Espiritual – esperávamos o deleite de um momento delicioso. Nossos pais ficavam de pé às nossas costas e a Tia atrás de todos, rezando enquanto gesticulava cruzes e bocejava enormemente, dependendo do carrego que tivéssemos. Saíamos de lá levinhos.

Tive a companhia de tantos cachorros, gatos, papagaios, tartarugas, tracajás, além de uma ovelha, um macaco e um bezerro que pisava com seus cascos em meus pés descalços e causava um estrago. Foi crescendo e se tornou enorme para uma casa de conjunto. Teve que ir embora. Esses amigos moldaram meus afetos e minha comunicação. Ensinaram o amor a toda criatura viva e a tolerância com a morte.

Vó Mili fazia beijú fininho, que servia com “café de menino”, um café bem doce e aguado. Tinha uma daquelas geladeironas antigas que davam choque. Eu, meu irmão e os primos dávamos as mãos e esperávamos o primeiro pegar no puxador para sentir a corrente passar. Saíamos pulando, gritando e dando gargalhadas pela cozinha. Isso era o menor que aprontávamos.

As Sextas-feiras Santas na roça, com suas proibições, histórias de assombrações e feiticeiras, instigavam minha imaginação e alimentavam a fé e respeito ao sagrado. Quem já viveu aquelas sensações de vigília lá na fazenda sabe do que estou falando.

Cresci em frente a uma praça de terra nua, em que havia uma feira todas as terças. Naquela época, boa parte dos feirantes ia de carroça. Lá pelas quatro e meia da manhã eu era acordado com o barulho de cavalos e com a velha moda de viola que tocava alto em um rádio. Que tempos, que tempos! Houve um ano em que um urubu criado por uma mulher saia pelas ruas da feira furando as sacolas com as compras das senhoras e esparramando tudo pelo chão. Era um Deus nos acuda. Isso quando não era o homem da barraca de carnes indo lá em casa reclamar que nosso cachorro tinha roubado alguma peça.

Badia, nossa passadeira, virou gente da família, está há tanto tempo conosco que não tem mais cerimônias. Faz e desfaz, diz e desdiz. Mulher de aço, trabalhadeira e mãe extremosa. Liga o radinho de pilha e amansa de pé a roupa, horas e horas, sem reclamar. Nunca agradeci pela presença e apoio que deu quando disseram que meu pai havia morrido em uma queda de avião. Graças a Deus era apenas um boato de gente maldosa, mas foi um susto enorme e mais uma história para contar.

Vô Djalma ia lá em casa nos fins de tarde e, para desespero de minha mãe e graça para nós, amarrava o rabo do cão no pé da cadeira enrolada com fios de plástico. Adorava o malfeito. Todos os dias chegava com um saquinho de papel cheio de balas. Vô Rocha, padrinho de minha mãe, também tinha esse costume de nos agradar com guloseimas. Sempre o visitávamos à noite na ourivesaria, que era em sua casa, ou no bar da esquina, onde estava sempre de pé no balcão tomando um copo de cerveja. Insistia para que eu e meu irmão pegássemos um Prestígio ou um Choquito. Fazia um carneiro frito com farinha que jamais vi igual.

Brincadeira de menino era finca, bola, peão, bola de gude, pique pega, bicicleta. Minha rua não tinha asfalto, e quando chovia a enxurrada nos levava. Como era bom tomar banho de chuva. Eu sempre tive uma imaginação muito fértil, inventava brincadeiras de guerreiros, bruxos e jornadas longínquas. Criava paisagens cinematográficas e universos paralelos. O cabo de vassoura ora era espada, ora cajado, noutras vezes um cavalo.

Costumo dizer que há várias vidas dentro de uma vida. A infância é uma delas, talvez a mais incrível. Tudo é novidade, há urgência e intensidade em cada coisa, não há nada que não vire brincadeira. Ainda sou aquela criança. Como disse Paulinho da Viola, “eu não vivo no passado, [mas] o passado vive em mim”.

Infância. É dessa água, desse cimento e dessa areia que sou feito. Se escrevo, a matéria vem daí, das peripécias que contei e de tantas outras que vivi.

A quem me ouviu vai a benção impregnada de boas recordações:

– Deus te dê o que deu ao bode: rabo, chifre e bigode *.


* Na minha interpretação, as partes referidas do bode simbolicamente significam: notoriedade, inteligência e poder.



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nova Babélia

Da animação "Matuto no Cinema", de Jessier Quirino.

NOVA BABÉLIA

 

 Juliano Barreto Rodrigues

 

Inácio deu um pulo quando viu o anúncio da vaga. Recém-formado em Jornalismo, na capital goiana, não a via hora de deixar o açougue em que trabalhava. A vaga era num vilarejo em Minas Gerais, uma corrutela rica chamada Nova Babélia, quase na divisa com Goiás. Precisavam de um repórter que fosse “bom com as palavras”, só isso. Salário? Três vezes o que ganhava destrinchando carne.

Como não tinha periquito a quem dar água, nem medo de aventura, Inácio partiu, convicto, para o interior mineiro. Foi recebido por um contínuo na rodoviária e encaminhado para a sede do jornal. No caminho, o menino lhe advertiu que o Sêo Neném, apelido de Pedro Roseta, homem mais entendido das coisas da região, é quem o entrevistaria para a vaga.

Em frente à edificação do Folha de Babélia havia uma pracinha de uma árvore só, cheirando a rosas e esterco de cavalo. Seu interlocutor estava lá, sentado no banco de ipê, fumando um pitinho de palha. Chapelão de piaçava na cabeça, camisa listrada, calça marrom pega marreco e botina com sola de pneu. Destoou do paletó preto do candidato e de seu cabelo amansado a base de goma. Este pensou consigo: “deixa estar, melhor passar de almofadinha do que de desleixado para o patrão”.

Sêo Neném foi simpático. Disse que o serviço era “sossegadim”, bastava ir onde houvesse notícia, principalmente política, falar com as pessoas e fazer a resenha para o jornal. Encaminharam-se para a porta do Diário e avistaram uma figura elegante vindo em sua direção.

– Dotô presidente Enrico, como está passando, cumpadre véio? – disse Sêo Neném. – Soube de um fuzuê envolvendo aqueles dois vereadores mal'amados ontem. Ah, péra um cadim, deixe eu fazer as honras – Virou-se para nosso ainda açogueiro e falou: – Rapaz, espia só: este é Dotô Enrico, presidente da Câmara de Vereadores daqui de Babélia, homem batuta, cultíssimo, descendente dos Paraguaçu, lá de Sucupira na Bahia.

– Boas tardes, mancebo. O que o traz a nossa bela urbe?

Com a cara apatetada, o candidato ia responder mas foi interrompido por Sêo Neném:

– Tá aí sua primeira prestância, moço. Nosso presidente traz uma notícia que o povo daqui vai adorar, uai. Picuinha de gente graúda. Mexerico que vai dar falatório pra semana toda. Diz aí, meu cumpadre. Que troço foi aquele?

– O edil assestado, engalanado na beca, eclodiu do átrio com as fácies descortinando um ar lustral, pendeu a ilharga sestra e deu-se com o êmulo camarista ventrudo de dedo em riste e tendente a lhe esbordoar. Se bem que cabido, o vetusto agonista não anelava embater-se com um antagonista finório, traquejado no ofício do aliciamento, capaz de embuçar o abalo, salientando uma efígie distensa, para vergar toda a sanha em serventia própria. O marau urdiu uma tergiversação bem-lançada, desalinhou o siso do rixento vituperante, mitigando a bile a tal passo que o primata lhe obsecrou escusas e apercebeu-se tão pecante, a altura de hipotecar todos seus votos da legislatura corrente. Que azêmola!

– ? – foi o que significou o queixo caído e a expressão de Pedro Bó do candidato. Aturdido, perguntou ao seu patrono: – Me desculpe Sêo Neném, o senhor poderia me explicar melhor o acontecido?

– Claro, meu caro. O nobre amigo quis dizer que o parlamentário da cara azeitada, um mutreco tinhoso, entrando no paço deu a banda pra sinistra, topando a fuça com o dedão do abatufado garnizé, que lhe queria dar com os cascos. Intão, desprecavido, acabou abraçando a própria serpente da macieira. O maganão veio com uma lenga-lenga aprumada, mutreta de profissional, sabe? Espiticou a cacholinha do balofo, que vergou tanto, até mostrar os fundilhos, uai. Mansinho feito cordeirinho, ficou tão encabulado, achando que tinha feito feio, que não só pediu 'discuipa', como ainda ofereceu as patas pra corrente: disse que conluiava com a raposa até o fim do mandato. Eita trem besta!

Assombrado, nosso moço perguntou: – Todo mundo aqui fala assim?

– Assim como? Português? – respondeu Pedro Roseta, que continuou: – Não. Temos uma vila de japoneses que falam lá a língua deles.

Depois de um minutinho de silêncio, em que o rapaz ficou olhando a rua por onde tinha chegado e lembrando do anúncio de emprego, que dizia “bom com as palavras”, teve saudade do açougue. Então, surpreendeu seus novos conhecidos:

– Licença, vou só ali comprar uns cigarros.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Van Gogh , 1890. No Limiar da Eternidade

E SE SOUBÉSSEMOS O DIA DE NOSSA MORTE?

Juliano Barreto Rodrigues

Desde criança Teobaldo se preocupava com o diacho da incerteza sobre quando morreria. Uma daquelas encafifações que se metem na cabeça da gente sem serem convidadas, surgidas sabe-se lá de onde. Fato é que todos os dias martelava a cabeça de dona Isaura, sua mãe, com essa tétrica obsessão.

Adolescente, recorreu a todos os videntes da cidade. Houve quem dissesse que passaria dos noventa, outro que morreria de desastre aos vinte e cinco, um falou que teria um infarto aos quarenta e poucos, mas ninguém arriscou uma data.

Inconformado, ficou sabendo de uma oração portuguesa muito antiga, chamada Sonho de Nossa Senhora, que prometia o aviso da data do finamento, com antecedência de três dias, a quem a rezasse uma trinca de vezes diariamente. Achou o contrato muito econômico: “só três dias?”. Melhor do que nada. Passou a fazer a oração não três, mas quatro vezes, para ver se conseguia como bônus alguma antecedência no comunicado.

Já na meia idade, casado, três filhos, o sonho de vê-los adultos e pai de seus netos, Teobaldo mudou de ideia. Veio o medo de morrer cedo e ter seus planos frustrados. Foi consultar a mãe sobre como voltar atrás com Nossa Senhora. Dona Isaura viu, no homem-feito, os olhos infantis que há muito não via e, tomando suas mãos, disse: “Você foi bulir com a santa por capricho, meu filho. Ela já é tão ocupada, agora vai ter que desfazer o bem bolado há tanto acertado? Não vejo outro jeito, o trabalho vai ter que ser seu: reze todos os dias a oração e, na parte que diz 'Três antes da sua morte minha Mãe Maria Santíssima aparecerá', você mude para 'não aparecerá'. E torça para não chegar perto de morrer antes de compensar o mesmo número de vezes que rezou pedindo para saber.”

Seis vezes por dia. Teobaldo parava tudo para desrezar aquela parte. Pelo menos havia uma solução. Se pulava uma, fazia duas. Com os cinquenta anos lhe pesando no lombo, já tinha dois netos crescidinhos. Pelas suas contas, faltava pouco para saldar o distrato. Logo dormiria aliviado. Naquela noite, bebeu seu chá ali pelas dez e se deitou. Foi quando teve O Sonho.