O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Lalú




LALÚ


Juliano Barreto Rodrigues.


“Ei menino, o que está fazendo aí?”, perguntei vendo o moleque cavoucando o jardim da porta do terreiro. “Ôxe, nhanhá, nada não, estava procurando uma batata doce pra comer.”

Lalú chegou assim, numa segunda-feira cedo, de fins de agosto. Vendo o menino com fome, chamei para dentro. Tinha doze para treze anos e dizia ter vindo lá de Cachoeira, sozinho. Achei esquisito demais e, depois de dar de comer, levei para falar com mãe Deinha de Oxaguiã. Não sei do que falaram, só sei que, quando saíram lá do barracão, estava decidido que o menino ficaria.

Entrão e curioso feito ele só, sempre foi sabido e pitaqueiro, metia o dedo em tudo. Bom para falar até, explicava coisa difícil do jeito mais mastigadinho do mundo, facinho de entender. Mas quando alguém perguntava de sua família em Cachoeira, ou onde morava, desconversava ou confundia tanta história que, no fim, o perguntador saía sem saber mais do que antes.

Engraçado é que, no salão do candomblé, os novos não podiam sentar em cadeira, nem fazer certas coisas, mas Lalú andava onde queria, batia tambor, dançava e, quando mãe Deinha estava cuidando de alguma obrigação por ali, ele sentava no trono dela. Uma coisa de desacreditar. Remexia até na peneira de búzios da mãe, e já o vi até jogar para Yaô, sem nunca ter aprendido. Ou será que veio com isso lá de Cachoeira? Sei lá, o que sei é que não foi feito no terreiro, embora nossa mãe tenha dado obrigação de Exú nele. No santo, ficou sendo chamado Exú Ómókunrin.

Com uns dois anos da chegada de Lalú, mãe Deinha foi ao ló, morreu. Foi feita toda a cerimônia de Axexê, com a ajuda de todos os grandes dos terreiros de Salvador. Todo mundo a considerava. Dias depois já se falava em sucessão. Uma banda pendia para a mãe pequena, a Iyá Kekerê Joaninha de Oyá, a outra para a Mayê Cidélia de Oxum, muito mais nova e filha de sangue de mãe Deinha. O moleque, que se dava com todo mundo, resolveu por conta própria ajudar e, desobedecendo um tabu, catou a peneira da mãinha, como ele a chamava e, escondido, jogou os búzios para saber quem deveria sucedê-la na condução do Ilê. Saiu falando a torto e a direito, tomou bronca, mas deixou todo o mundo com a pulga atrás da orelha: mãe Deinha, quando viva, ouvia o moleque. Ele indicou Mayê Cidélia. A mãe pequena, Joaninha de Oyá, ficou melindrada, começou a destratar o menino. Bateu o pé que a tradição tinha que ser seguida, que um babalaô de fora tinha que vir ao terreiro e, sob o testemunho de pais e mães de outras casas, deveria fazer um jogo para o orixá indicar quem assumiria o posto. Acontecia, às vezes, até de não ser quem se candidatava para o posto.

Babá Martinho, babalaô respeitadíssimo, viajado para a África, vaidoso e importante, foi convidado para presidir a consulta. Ia ser assim: duas iyás fariam seus jogos na presença do povo do terreiro e das testemunhas das outras casas, e ele daria a palavra final, só confirmando se fosse unânime ou, se não, fazendo seu jogo.

Data marcada para daí três meses. Mãe Deinha só podia ser sucedida, efetivamente, com um ano do Axexê. O moleque começou a dar umas saídas. “Onde você vai, Lalú?”, eu perguntava todos os dias. “Vou pras bandas do Mercado das Sete Portas”, respondia. Saía de manhã e voltava só à tardezinha. Dizia que ia ganhar uns trocados. Éramos bem próximos, me chamava de tia, mas mesmo assim eu nunca soube muito sobre ele. Achei que estava aprontando, então, um dia pedi para que o seguissem. Marquinhos disse que Lalú rumou para o rumo oposto ao do mercado, mas que, já bem longe, deu meia volta e foi para o Sete Portas. Deve ter desconfiado e mudou o destino, matreiro que era.

Chegou o dia “D”, todos estavam apreensivos. Como o terreiro estava dividido quase no meio, era certo que uma das metades ficaria insatisfeita. O povo nem comentava o jogo que o Lalú tinha feito, embora ele cutucasse de vez em quando. A cerimônia começou, internamente, de madrugada. Os convidados foram chegando lá pela hora do almoço. Todos os preceitos estavam sendo seguidos direitinho, coisa bonita de se ver.

Noca da Pedreira, mãe de santo da velha geração, rígida, um pouco antipática, mas com uma mão de búzios respeitadíssima, jogou primeiro. Em onze búzios abertos ela declarou: “Deu Oyá, a Iyá Kekerê Joaninha deve assumir. Parte do terreiro comemorou só com os olhos e cutucões de cotovelos uns nos outros.

Mãe Idália de Oxalufã, senhora doce, conciliadora e avoadinha, mas muito cuidadora das tradições e conhecida por ter o terreiro com mais filhos naquelas bandas da Bahia, montou sua linda peneira do lado do poste central do salão. Primeiro fez discurso, cantou, depois rezou a mojuba do jogo e lançou. Depois de esfregar as mãos, fez mais um discurso de meia hora, até que babá Martinho interrompeu e ela teve que dizer, enxugando a testa: “deu Oxê, Oxum fala em cinco búzios. Quem assume é Mayê Cidélia de Oxum.” Ela estava enrolando não era atoa, sabia que não deveria ser assim, o melhor é que as duas tivessem visto a mesma resposta, porque agora quem tinha que decidir era babá Martinho e, quem tivesse o jogo vencido ficaria com o ego meio abalado.

Já beirando às cinco da tarde o babá Martinho pega seus búzios, reza a salva e, para o espanto geral, pede que chamem o filho mais novo do terreiro. Lalú se adianta, de branco alvíssimo, como era seu costume, super arrumado e todo sorriso, parecendo que já estava esperando. Babá Martinho diz que o lançamento será feito pelo mais novo e que ele, babá, só fará a interpretação. A cara de todo mundo estava engraçada. Não é que o moleque estava no centro das atenções? A Iyá Kekerê pede para falar no ouvido do babá, mas Mayê Cidélia interrompe, dizendo que é melhor que a conversa seja a três. Saíram para a camarinha e, por lá, ficaram uma meia hora. Acredito que devem ter falado no jogo que Lalú tinha feito antes e que a Iyá Kekerê deva ter levantado suspeita sobre ele, dizendo que era tendencioso. Sei lá, nunca fiquei sabendo, o fato é que o babá manteve sua decisão. Naquele calor dos infernos, a gente, já cansada, só queria que aquilo acabasse.

Lalú parecia até mais alto, orgulhoso que estava. Eu lá me tremendo de nervoso. Ele pegou com toda a reverência os búzios do babá, esfregou eles nas mãos com toda intimidade – que já tinha de mexer com os búzios dos outros –, olhou para todo mundo com a maior cara de santo e lançou: Xangô respondia em doze búzios abertos. Seria preciso mais uma jogada, para saber qual mãe, ou qual orixá, Xangô indicaria, poderia até ser outra pessoa além das duas. Antes, não sei por que cargas d’água, se para aparecer ou porque achou bonito o porte do moleque, ou para torturar mais ainda quem estava na espera, o babá resolve perguntar para Lalú: “diz aí, menino, o que você acha que o orixá está dizendo?” Foi a deixa, o menino começou: “está falando é do senhor, que o senhor precisa parar de comer tanto feijão fradinho, que está lhe soltando muito o intestino, que o senhor deve olhar mais para aquele outro filho que o senhor tem com a morena lá de Cruz das Almas e que o babá tem que usar cozimento de fava de sucupira no pé direito, para acabar com a dor no Tendão de Aquiles. É esse nome mesmo, não é?” Foi um silêncio geral, os olhos do babá estavam desse tamanho. Depois de uma engasgada ele falou: “Quem é você, moleque? De que orixá você é?” Lalú, que não era bobo nem nada, respondeu seu nome de santo, que já indicava filho de quem era: “Sou Exú Ómókunrin”. O babalaô ficou olhando para ele um tempo, depois mandou que jogasse os búzios. Deu um búzio aberto, respondendo Exú. O normal é que se jogasse novamente até sair Oyá, orixá da Iyá Kekerê, ou Oxum, orixá da Mayê, mas o fato é que o babá pegou na mão do menino, olhou nos olhos dele e disse: “Quem deve ocupar o lugar de mãe Deinha?” Então Lalú sai com “conforme eu já tinha dito pra todo mundo, quem deve tocar o terreiro é a Mayê Cidélia, vi no jogo de mãe Deinha”. Ouvi uns risinhos e uns resmungos. O lado da Iyá Kekerê começou um muxoxo, mas o babá interrompeu perguntando se a Iyá aceitava ou discordava do que foi dito. Ela, que era brava mas muito respeitadora das coisas de santo, chegou perto do menino com cara ruim, olhou bem nos olhos dele, pegou em suas mãos e gritou: “Laroiê Exú!” Depois abriu um sorriso e o abraçou. Tinha acatado. Foi bonito demais. O caso é lembrado até hoje.

Dias depois da festa catei o moleque zanzando pelo terreiro e o chamei num canto. “Como é que você fez aquilo, menino tinhoso? Como é que sabia tanta coisa do babá?” Com a cara mais boa e deslavada ele me respondeu: “Naqueles dias em que saía, não ia pras Sete Portas, eu ia é pra Federação, onde o babá mora. Lá eu assuntei bastante.” Depois da minha bronca ele disse: “O que tá certo tá certo, Exú faz o certo até por linhas tortas.” Só me bastou acreditar.

No dia seguinte à sucessão, dei falta de Lalú pelo quintal. Como, no outro dia, também não apareceu, saí perguntando a todo mundo do terreiro. Ninguém sabia do moleque, então mandei uma yaô lá no bairro da Federação para saber dele. Como o menino andou por lá muito tempo, era certeza que alguém daria notícia. Ela voltou encabulada, dizendo que ninguém viu ou ouviu falar de Lalú, nem em alguém com suas características, por lá. Falou que esteve nos mercados, nas feiras, conversou com os vigilantes e o povo dos candomblés, com os meninos nas ruas, com negociantes, os vadios e os donos de botecos, e nada, nem uma noticiazinha. Nunca mais ficamos sabendo de Lalú. Hoje, lembrando tudo e conhecendo as coisas do santo, eu me pergunto se ele era gente de verdade, assim de carne e osso, ...ou não.




segunda-feira, 15 de julho de 2019

O último Pai do Segredo e Guardião de Almas

Agoli-Agbo, 12º rei do reino do Daomé - Foto: Wiki




O último Pai do Segredo e Guardião de Almas



Juliano Barreto Rodrigues



“Vovó Enitióró, conte uma história lá da África para nós?”

Eu, longíssimo da minha terra e tentando trazer um pouquinho de lá para falar para as meninas, olhei para os lados e vi o livro no criado mudo. Me lembrei, na hora, de algo que tinha ouvido, há muitos e muitos anos.

“Peguem suas esteiras e sentem-se, filhas. Vou contar uma história antiga, coisa da época do meu tataravô, Babá Ofátibá.

Houve um tempo, na época no Dahomey, hoje parte da República do Benin, em que quem mantinha as tradições, os interditos, a genealogia, as leis, relações de poder, eram também adivinhos e conselheiros dos reis. Uns cultuavam voduns, outros orixás. Os adivinhos que cultuavam orixás eram chamados Babalawôs, os Pais do Segredo. Uma casta respeitadíssima e restrita, fechada em si e muito influente, politicamente.

Todo Pai do Segredo, cioso de sua posição e querendo manter o prestígio de sua família, escolhia um de seus filhos para, desde pequenininho, ir memorizando todo o saber da tradição oral.
A derrocada dos últimos grandes reis tribais africanos, não só do Benin, também dissolveu toda essa rede de influência e memória. Os adivinhos passaram a prestar serviços para quem pagasse, mas sofriam o rancor do povo, que ficava feliz em vê-los destituídos daquilo que consideravam privilégios.

Cada Babá tomou rumo próprio, as Ordens Centenárias a que pertenciam se esvaziaram, eles passaram a lutar contra a pobreza, mas mantinham-se fiéis a toda sua vida de repositórios da tradição. Não sabiam fazer qualquer outra coisa. E eram muito necessários, mas seus descendentes já não queriam a mesma profissão.

Nosso ancestral, o velho Babá Ofátibá, sempre vivera das lembranças alheias, mas de repente estava preso às suas próprias lembranças dos tempos áureos. Seus filhos não quiseram seguir seus passos, à exceção da filha mais velha, Ojú Inú, que com sua doçura e boa memória tinha aprendido muito, embora não pudesse servir como oráculo, função, naquele tempo, exclusiva de homens. O pai contava-lhe tudo - mais por desejo de falar do que para satisfazer a própria curiosidade da filha. Se tranquilizava acreditando que com ela a tradição não se perderia, já que estava velha para se casar e era a mais feia das irmãs. Ficaria para sempre em casa. Enganou-se. A filha se casou com um bom homem de outra tribo e foi embora, levando toda a história de seu povo, de nosso povo.

Ninguém aprendia mais o oráculo, ninguém queria mais ser guardião dos segredos. Mas as famílias importantes tinham, ao menos, seus Guardiães de Almas, mantenedores da memória de seus ancestrais, de seus cultos familiares, de suas histórias. Alguns forçavam um escolhido a aprender, mas era sempre um processo frustrante. Também surgiu uma nova classe de gente, os griots, que por vocação e prestígio social recolhiam aleatoriamente a sabedoria oral a que tinham acesso e se apresentavam, contando histórias, fantasiando, entretendo os povoados. Eram artistas, que viviam de andanças e não tinham compromisso nenhum, além de consigo mesmos.

Um dia apresentaram um jovem branco a Ofátibá, já velho e desgostoso da vida. Seu oráculo já o advertira, e tinha sonhado com um pombo branco pousando-lhe no ombro. Pois bem, o rapaz inglês não falava sua língua, mas tinha um bom tradutor. Vivia-se entre franceses, mas era bem esquisito um inglês por lá. Ele dizia algo sobre as tradições, a necessidade de mantê-las, sobre a importância do conhecimento de gerações e gerações, coisas que soavam deliciosas aos ouvidos do velho. Disse que queria aprender. Foi acolhido feito filho.

Em sete anos, Ofátibá já era o último da última linhagem de grandes babalawôs. E nem era procurado mais para o oráculo, mas só para tirar dúvidas a respeito de títulos e terras. Tinha deixado, na prática, de ser um Guardião do Segredo para ser apenas um Guardião de Almas. Tinha esperanças: fazia oferendas para que as divindades mantivessem a memória na cabeça de mais alguém.

Nesse meio tempo as mulheres, contadoras de histórias no âmbito da casa, também começaram a se reunir para trocar histórias. Como as pessoas não contavam mais com babalawôs, mas ainda precisavam de conselhos e oráculos, recorriam a elas, que passaram a manipular as conchas de búzios para consultar os deuses.

Dois anos mais, o velho Ofátibá tinha enterrado todos os Babás da velha tradição. Contava com seu “filho branco inglês” adotado, para continuá-lo. Sonhava casá-lo com alguém da tribo e mantê-lo sob suas asas. Mas o rapaz foi embora, sem muita cerimônia. O pombo nos ombros do Babá tinha voado.

Nonagenário, ressentido com as pessoas e, principalmente, sentindo ter falhado em manter a memória de seus ancestrais, seus cultos e costumes, Ofátibá se entregava ao próprio tempo, só esperando a morte. Pensava nisso dia e noite, deveria ter obrigado os filhos a aprender, nem que fosse à custa de crueldade. Tinha uma dívida para com seus mais velhos, que já tinham partido para o Orun. Sentia vergonha de seus deuses, que o tinham visto cair e cair, sem deixar quem os cultuasse a altura.

Pouco antes de morrer, Ofátibá recebe a visita do estudante inglês, que chega diferente, em roupas importantes, portando um ar professoral. O Babá o repreende por ter ido embora, pede ao tradutor que lhe transmita as esperanças que tinha em relação ao rapaz, e chora. Então o moço, que já nem era mais tão moço, tira da mala dois grandes volumes e os apresenta ao velho. São o resultado de seu doutorado, a transcrição e análise de todas as histórias ouvidas por anos naquelas tribos. O doutor, empolgado, abriu o livro em uma página aleatória e leu um trecho, que foi traduzido para o Babá. Ofátibá não acredita naquele objeto mágico. Do alto da lembrança de sua grandeza, o antigo babalawô, então reduzido a último Guardião de Almas, vira criança. Sorri encantado, mas logo cai em si e se desilude. Os deuses, provavelmente irritados, tinham encontrado uma solução para a manutenção da tradição, mas que parecia um castigo para os ingratos nas tribos: haviam trocado a mente dos homens, seus ouvidos e bocas, seus corações, por um objeto, que cochichava segredos só para quem conseguisse decifrá-lo. E teve ciúme do seu conhecimento todo, de gerações e gerações, nas mãos dos brancos, que eram os que sabiam ler. Também se preocupou com o engessamento do que estava ali, porque a tradição oral era viva, o que era contado ia se modificando aos poucos, de um contador para outro, que acrescentava algo de sua própria intuição ou reinterpretava, enquanto o escrito era aquilo e aquilo mesmo, quase sem margem para crescer.

O doutor, que ia autografar o livro para Ofátibá, também tem uma revelação e se inquieta. Vê que transpôs para o papel centenas de histórias, de crenças, de receitas, disso e daquilo, mas que mutilou a alma daquilo tudo, que só podia ser efetivamente entendido e sentido do lado de dentro daquela cultura, e transmitido conforme eles recebiam: da boca para o ouvido, da mão que faz para a mão que imita. Saiu de lá sem autografar livro nenhum, menos orgulhoso, menor de ego, mas maior de espírito.

Fato é que Ofátibá morreu dali há dias e, com ele, toda uma forma de pensar. O velho babalawô já se havia ido há muito tempo, mas agora partira o que restara dele, o último Guardião de Almas.”




quinta-feira, 13 de junho de 2019


PALAVRA-CHAVE

Juliano Barreto Rodrigues

E o verbo se fez substantivo e habitou entre nós.

Elogiando a própria criação, Deus a adjetivou.

No esforço de unir todas as coisas, fez conjunções, preposições e conectivos de forma geral.

O Diabo criou os advérbios, os sobrenomes e palavras novas, tipo “cerca”, “dinheiro”, “meu”, “sou”, “tenho” etc., investiu nos duplos sentidos, estigmatizou a maçã e, principalmente, estimulou a fragmentação, facilitando o surgimento de uma Babel de línguas diferentes.

De modo que a palavra, antes sagrada, dessacralizou-se, profanou-se. A partir dela – que passou a servir, na mesma medida, a Deus e ao Diabo – tornou-se fácil, aos homens, ir ao céu e ao inferno. Assim, de todas, só uma palavra restou definitiva:

ESCOLHA!


Dicas para resenhistas literários (booktubers, blogueiros etc.)

ESCREVENDO RESENHA LITERÁRIA I
Ponderações para booktubers e blogueiros


Juliano Barreto Rodrigues


1. Diferença entre resumo, resenha e crítica especializada

Resumo é uma síntese de texto, seguindo fielmente as ideias do autor. No resumo (que pode ser parágrafo por parágrafo ou mais global) o redator faz a seleção do que considera mais importante e, com suas próprias palavras, escreve um texto que não foge daquele que se está resumindo e nem acrescenta opiniões e anotações pessoais. É objetivo.

A resenha trata do texto (ou vídeo, ou música, etc.) mas é subjetiva, no sentido de que é um comentário crítico acerca daquilo que é resenhado. Pode conter ou não um resumo e, muitas vezes, vai além do seu objeto, dialogando com outros textos, ou com a história, ou com outros campos do saber, etc.

Bater uma resenha” significa, coloquialmente, “bater um papo”. Isso mesmo, conversar com tempo, trocar uma ideia mais a fundo sobre qualquer tema de interesse. É uma definição que me agrada mais do que qualquer outro conceito metodológico científico para definir resenhas literárias. O “papo” pressupõe um assunto pelo qual os resenhistas têm afinidade (e aqui é importante destacar que a resenha – ou sua leitura – é um diálogo1).

Os principais instrumentos de apresentação de argumentos da crítica especializada são a resenha crítica e o ensaio. Esta resenha se diferencia em quê daquela falada no parágrafo anterior? Basicamente, é escrita por especialistas (legitimados de alguma forma, seja pela formação universitária específica ou pela atuação profissional, ou por qualquer outro meio que lhes confira autoridade no assunto). Normalmente tem um viés mais técnico, utilizando uma terminologia comum à Teoria Literária e uma metodologia científica. Mas, na prática, não há regras nesse sentido. Há críticos – principalmente jornalistas e escritores – que escrevem mais “coloquialmente” ou até de forma parecida com a escrita de literatura mesmo.

2. Quem faz a resenha?

- Os que têm obrigação: estudantes; críticos literários; profissionais de cadernos e revistas literários; o pessoal das editoras, para promover suas publicações; leitores beta2; enfim, qualquer um que tenha obrigação funcional de opinar sobre um texto ou livro.

- Os blogueiros e vlogueiros literários3 – boa parte escritores (mas nem todos), querendo criar um público e chamar a atenção do mercado editorial para si e para sua forma de escrita, o que facilita em muito com que sejam aceitos e publicados por alguma editora.

- Qualquer um que queira dar sua opinião e apresentar seus argumentos sobre alguma leitura que o interessou.

3. Para que resenhar?

Primeiramente: para dar opinião (digna de ser ouvida – ou lida) sobre uma obra.

Vários são os motivos que levam alguém a resenhar um livro. Seja como exercício para memorizar melhor seu conteúdo ou para mergulhar mais profundamente no texto (procurando as tais mensagens ocultas nas entrelinhas ou a questão central da obra), seja para atender a uma demanda profissional (caso dos críticos contratados ou de alguém responsável pelo marketing e venda da obra), a resenha é uma forma de dar a conhecer a obra sem, no entanto, detalhar conteúdos que exauram a vontade de ler do leitor nem antecipem as surpresas da trama (ou seja, sem “dar spoiler”).

Pelo viés do leitor editorial, João Varella, editor da Lote 42, ensina, no curso Pulse – Publique Livros, Crie Editoras, que “se você quiser aprender a dar dicas macro4 para escritores, o melhor caminho é treinar fazendo resenhas de livros, dizendo o porquê de ter gostado ou não ter gostado”. Isso serve também para apurar as habilidades do leitor beta, ou do leitor crítico5, de repente até de alguns preparadores de texto (revisores) – sei lá, tudo agrega.

Agora, para quem pretende ser escritor, ter um canal (blog, site, vlog, etc.) em que publique resenhas bem-feitas é um ótimo meio de atrair a atenção das editoras para si e, mais que isso, de formar um público próprio antes até de escrever o primeiro livro – o que conta imensamente quando ele estiver pronto e a editora for analisar se é publicável e promissor, como produto vendável, para eles.

4. Resenhistas em jornais e revistas, blogueiros e booktubers.

Jornais e revistas têm linha editorial e um controle profissional de escolha, qualidade e adequação de conteúdos. Por serem negócios – dependentes de lucro e com concorrência – não podem se dar ao luxo de permitir que um resenhista diga o que bem entender, sob pena de criar uma crise que pode prejudicar o nome da empresa. A própria escolha das obras a serem resenhadas não é aleatória nem obedece, necessariamente, ao gosto pessoal do resenhista (é comum que um editor defina as obras). Assim, sua responsabilidade é grande, já que é um porta-voz da revista ou jornal que representa. Sua credibilidade está associada ao grau de liberdade que consegue apresentar e à força dos seus argumentos na resenha, o que faz com que os textos profissionais quase sempre sejam mais técnicos e abalizados do que os dos blogs e vlogs pessoais. Textos mais “leves”, nas revistas especializadas principalmente, quase sempre vem de escritores consagrados, celebridades literárias ou jornalísticas, que são convidadas para falar dos textos alheios.

A grande revolução trazida pela internet no âmbito da comunicação está no fato de que o controle saiu das mãos dos meios profissionais de comunicação e foi para as dos próprios usuários. Hoje, qualquer pessoa produz e publica o que quer na rede, podendo ser visualizado mundialmente. Isso vale também para livros e autores, produtos antes publicados só por editoras e que hoje são autopublicados em blogs, ou no Wattpad, na Amazon, na Saraiva e em vários outros sites. As pessoas têm voz, um canal livre para se divulgar e àquilo que fazem.

Nesse contexto de total independência é que surgiram as resenhas dos blogs e vlogs. Não há regras fixas, cada um diz o que quer. Há até quem faça, por incrível que pareça, “resenha” de livro que nem leu ainda. Os blogs, e principalmente os vlogs (porque seus conteúdos são em vídeo) têm um alcance de público muito maior do que os jornais e revistas (e quase sempre diferente, dependendo do formato da publicação).

A maioria das resenhas dos booktubers têm um tom muito coloquial e individual, já que o vlogueiro quer chamar a atenção, antes de tudo (do livro inclusive), para si e seu canal, alcançando seguidores e números expressivos de visualização. Para fidelizar seu público, a frequência de postagens de novos vídeos tem que ser relativamente grande, o que pode comprometer negativamente a capacidade de leitura profunda e de resenha das obras.

5. Uma crítica impressionista.

Pessoas que não conhecem Teoria Literária podem falar de literatura? Ou isso é exclusivo a “iniciados”? É claro que podem. Afinal, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, a teoria literária ou a literatura e o leitor? Como disse Verônica Valadares, do canal Vevsvaladares, criticada por falar de Dostoiévski, “O único pré-requisito para você poder falar sobre literatura é ler o livro. Isso vai te fazer ter cacife para falar de literatura”. 
 
Nas palavras de Cory Doctorow (apud SHIRKY, 2012, p. 86)6: “O fundamental é a conversa. O conteúdo é só uma coisa sobre a qual conversar”. As resenhas literárias, profissionais ou amadoras, sempre tiveram, historicamente, essa função de lançar à discussão a literatura em si, através das obras literárias, para que todo o cenário evolua. O preconceito existe apenas dentro da Academia (Universidade e Associações Literárias), mas aparentemente não atinge o deus da relação com o livro: o leitor (que é quem, afinal, interessa).

6. Existe crítica isenta?

Não. Toda crítica pressupõe um julgamento, e todo juízo de valor é subjetivo (ainda que se tente dar ares de objetividade na forma de analisar, argumentar, redigir e apresentar conclusões). Todo o embasamento que é feito – trazendo citações, referenciando estudos e pesquisas importantes, apresentando comparações, estatísticas... – não passa de justificativa para os próprios argumentos. 
 
Tentar parecer o mais isento possível tem a ver com o público a que a resenha se dirige. Por exemplo: ao que parece, o público dos booktubers mais conhecidos se interessa mais na opinião pessoal de seu vlogueiro preferido (alçado ao status de celebridade) do que nos argumentos objetivos da resenha. Para esse público, notas de sinceridade e referências ao impacto pessoal da leitura são muito mais interessantes (isenção zero, e sem disfarces).

Se não existe isenção há, no entanto, modos e modos de dizer: a crítica pode ser moderada (diplomática), pode ser direta e franca (supersincera), positiva (de incentivo, destacando as partes positivas) ou negativa (maldosa, leviana, vingativa), abalizada ou de mera opinião, rasa ou profunda, e por aí vai. O papel é um burro de carga, carrega o que se colocar nele, mas é bom lembrar que quase toda crítica gera respostas e é preciso estar preparado para as consequências.

7. Olhar 180º, 360º ou muito além (olhar de RX e visão além do alcance - “Olho de Thundera”). Segredos dos bons críticos para os resenhistas.

Quando se abre um livro completamente, isso é feito em 180º. Nesta posição, o que se vê é o texto das páginas, só isso. Olhar em 180º é uma maneira de dizer que o resenhista se aterá somente ao texto em si, fazendo um close reading, não estendendo sua análise a elementos extra, como design do livro, capa, tipo de papel, contextualização com outras obras do autor, etc.

O olhar em 360º ilustra o movimento de virar o livro em todos os ângulos e discutir sobre a capa, a composição gráfica, a quarta capa, tipo de papel, fonte utilizada, design, ou seja, coisas que vão além do texto, mais ligadas ao objeto livro.

Um olhar de RX consiste, em ver além do texto, procurando ver mensagens de fundo, intenções do autor, contextualizando-o historicamente e em relação às outras obras do escritor e à sua fortuna crítica. 
 
E o que seria a brincadeira do Olho de Thundera, da “visão além do alcance”? Consiste na feitura de paralelos com outras áreas do saber, na inter-relação com outros autores e escolas literárias, com outras formas de arte, com a política, a religião, etc. Também na cogitação da influência que a obra analisada tem na obra global do autor, na evolução literatura em geral, no desenvolvimento do leitor, e assim por diante, levando a discussões que podem seguir para qualquer rumo, e que têm como limite apenas o arsenal cultural do resenhista.

8. Crítica e autoestima dos autores.

Quem ler Um Editor de Gênios, de A. Scott Berg (Intrínseca), biografia de Maxwell Perkins, um dos maiores editores de todos os tempos, verá o quanto a crítica, principalmente a ruim, afeta a autoestima, a produtividade e a escrita dos autores. Ele editou F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe e muitos outros. Alguns chegaram a pensar em deixar de escrever por serem criticados.

Levando em conta que a crítica ruim afeta o autor, é preciso considerar: 1) um escritor não nasce pronto, evolui à medida que escreve; 2) criticar é muuuito mais fácil do que escrever. Se é gasta uma semana para escrever uma resenha, são gastos meses – até anos – para escrever um livro. 
 
Portanto, respeite a carga7, o trabalho do autor, do editor, etc. Não digo para só falar bem de tudo, mas vá com cuidado, positivamente, com jeito. Como eu já disse antes, há formas e formas de dizer verdades, procure a menos dolorosa e que traga um incentivo para a melhora, não para a desistência.


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BAYARD, Pierre. Como falar dos livros que não lemos? ; tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

CANDIDO, Antonio. Crítica impressionista. Remate de Males, Campinas, SP, dez. 2012. ISSN 2316-5758. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8635988>. Acesso em: 05 abr. 2018. doi:https://doi.org/10.20396/remate.v0i0.8635988.

JEFFMAN, T. M. W. . Literatura compartilhada: uma análise da cultura participativa, consumo e conexões nos booktubers. Revista Brasileira de História da Mídia , v. 4, p. 99, 2015.

NINA, Cláudia. Literatura nos jornais : A critica literária dos rodapés às resenhas. - São Paulo : Summus, 2007.

PROSE, Francine. Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem gosta de escrevê-los; tradução de Maria Luisa X. de A. Borges. - Rio de Janeiro : Zahar, 2008.

SALVADOR, Vitor Celso. . O impressionismo crítico de Medeiros e Albuquerque (1867-1934) no estudo de romances brasileiros (1897-1908). In: II Colóquio da pós-graduação em Letras, 2010, Assis. Anais CPGL: II Colóquio da pós-graduação em Letras -"Literatura e vida social", 2010.

VASCONCELLOS, Karine Menezes. Narrativas Migrantes: o papel dos youtubers na construção de um novo discurso midiático; Início: 2016; Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Universidade Federal de Juiz de Fora; (Orientador);



Notas
1 Ou, no mínimo, um monólogo. Ainda que o leitor não responda ao autor do que está lendo, o diálogo existe na medida em que: 1) o texto só toma existência (parafraseando Ricardo Piglia em entrevista sobre seu livro O ùltimo Leitor), só tem vida, quando é lido, o que pressupõe a existência de uma segunda pessoa além do autor: o leitor; 2) Um texto, como um rio, nunca é o mesmo quando visto uma segunda vez pela mesma pessoa, quem dirá por outra. Cada um interpreta o que lê de acordo com suas próprias experiências prévias (psicológicas, de vida, de formação, de classe social, etc.). Assim, o texto reverbera filtrado pela mente do leitor, que o recebe, o questiona (está questionando o autor), convalida ou não suas partes, de acordo com seu próprio gosto e vivência.

2 Leitor beta, ou beta reader, é uma pessoa que lê criticamente um original assim que o autor acredita ter uma versão publicável. Ou seja, em tese é o segundo a ter contato com o texto. A finalidade é apontar falhas e sugerir opiniões sinceras para melhorá-lo, antes de ser apresentado a uma editora (onde passará por leitura crítica e revisões antes de ir para o prelo e ser, finalmente, impresso). Há gente prestando esse serviço profissionalmente, já que pressupõe certos conhecimentos que vão além do “leitor ingênuo”. 
 
3 Os vlogueiros literários são chamados booktubers.

4 Sobre estrutura da narrativa, problemas nos diálogos, questões relativas à concisão, clareza, precisão, ou incoerências, excessos desnecessários, enfim, o que funciona e o que não funciona num texto.

5 Referindo-se ao leitor crítico estamos falando de quem faz uma análise específica com viés editorial (para diferenciar do leitor beta, embora este também possa ter qualificações nesse sentido). Pode ser contratado mas, muitas vezes, o próprio editor faz tal leitura, ou alguém responsável pela análise de originais da editora.

6 SHIRKY, Clay. A cultura da participação: criatividade e ge­nerosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. 
 
7 Há uma historinha dizendo que Napoleão andava na companhia de uma princesa por uma passarela quando apareceu um serviçal, empurrando um carrinho com uma carga pesada, para cruzar-lhes o caminho. Embora fossem personalidades muito importantes, o que faria com que o serviçal esperasse, Napoleão parou e fez com que a princesa passasse dizendo: “respeite a carga”.




Balatrácio Egopoético