O Coletivo
Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com
terça-feira, 28 de julho de 2015
sábado, 25 de julho de 2015
POEIRA DO TEMPO
Juliano Barreto
Rodrigues
Guardo antigas memórias de velhas
bruxas e homens graves,
De erudição profunda, pince-nez,
fraques impolutos,
Internados em seus gabinetes
atemporais.
E dos Ticianos, Michelangelos e
Gauguins que enamorei.
Relembro tempos parados,
Os cerzidos ingleses, os monogramas
bordados,
Armoriais, sapatinhos com laços,
E dos romances franceses proibidos.
Apitos de trens, apitos de bules,
Rendas, chás-das-cinco, coleção de xícaras.
E os cadinhos que tia Úrsula me dava
na infância para curar a febre?
E os degraus da entrada da minha
velha casa?
Saudade das avós, avôs e tutores,
Com seus relicários, breves e
breviários.
E da pedra-de-toque que atestava o
oiro que meu pai comprava.
Adorava os cachinhos de bebês
imortalizados nas fotografias
Espocadas a pólvora de Barcarena.
Tínhamos medo de São Cipriano.
Benzíamos-nos no tilintar dos sinos
da Ave-Maria.
Adorava licor de jabuticaba na
tacinha de cristal.
E dramas, comédias, romances, tragédias.
Meus ‘ais’ de amores, de dor, de
assombro, sumiram.
Quantos protocolos, brasões, beija-anéis.
E mais broquéis, escudos-de-armas.
Cartas ciganas me revelaram labirintos
e rotas dúbias.
Sou baú de bricabraques,
Repleto de impressões, barulhos de
crianças, notícias de longe.
Guardei por anos as medalhas, selos,
ex-libris e meus tinteiros gastos.
Lembro dos candeeiros dos postes acesos
nos fins de tarde,
E dos ladrilhos novos de minha São
Paulo,
A sacudir os coches irritando os
passageiros.
Que saudades dos praças mortos na
guerra.
Ah! Que falta faz minha capa, minha
cartola, minha bengala.
Não me lembro de nenhum dos livros do
meu santuário,
Embora saiba que ainda me inspiram.
Essa minha outra vida é gostosamente
vívida.
Tinha minha oficina de tipos.
Eu era homem do meu tempo.
Lembro vagamente do jornal que
dirigi,
Do estafeta sem-juízo de quem eu ria
escondido,
E da minha querida Dona Inez,
Que hoje ainda adorna os jardins
floridos de minha vida,
Com outro nome.
Agora sou passageiro atrasado de um
novo tempo,
Que vivo bem,
Ainda que com a nostalgia de
antanho.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
DIQUE PARTIDO
Juliano Barreto Rodrigues
Maria
conteve o choro tanto tempo,
Represando
gota a gota,
Que se encheu
feito barriga prenhe.
Mas todo
açude tem que ter dreno, suspiro ou comporta.
Senão um dia
desborda ou rompe barragem,
Alagando o que
está abaixo.
É um
Deus-nos-acuda,
Arrasta tudo à sua volta.
Que houve,
Maria?
Nada, quer
dizer, não sei,
É que...
Choveu muito
em minha vida.
terça-feira, 21 de julho de 2015
ARADO
![]() |
| Mazzaropi - por William Medeiros |
Juliano Barreto
Rodrigues.
Vitorino, um matuto de cara amarrada, rijo
feito aroeira por causa da lida sem trégua na roça era compadre de Juvêncio, um
tipo escorregadio e folgadão com cara de malandro, mas boa gente. Tirando as maneiras
e gestos, que os diferenciavam muito, dormindo eram a cara d’um o focinho do outro,
bem parecidos.
Há muito Juvêncio, padrinho de “Tainha”, o
mais novo dos cinco filhos de Vitorino, procurava um pé para enredar uma
conversa sobre o menino. O moleque era esperto que só vendo, mas estava
internado com o pai nas grotas, abrindo picadas e derribando mato para fazer
pasto, e nada de escola.
Mandou recado ao compadre avisando que iria no
seu rancho, na barra do dia seguinte, para tomar o café da comadre Don’Ana,
depois o ajudaria no curral com a tirada de leite. Senhor de uma lábia
conhecida, iria com os argumentos prontos para chacoalhar o Vitorino. O dedo de
prosa seria ligeiro, já que o compadre era homem de poucas palavras, sujeito
apoquentado, e a Don’Ana – barata de igreja – logo o puxaria pelo pé, para a missa
de domingo.
Avistou a casa de taipa na chapada assim que o
Sol apontou. Foi recebido no alpendre por Vitorino, que o mandou entrar. A
comadre estava no fogão à lenha, acabando de coar o café, e a mesa já estava
posta com cuscuz, bolo de goma, beijú e pêta.
--- Bons dias, cumadi. Como vai vosmicê? O
cheirinho do bule tá de revirar os zói. E a cara do cuscuz? Vosmicê sabe que eu
tenho um apetite de esmeril da França.
--- Bão dia, cumpadi, tô boa. Vamo chegando.
Pegue uma chicrinha aí que eu te sirvo.
Depois do desjejum saíram os dois amigos para
o terreiro a fim de pitar um paiero e jogar conversa fora. Sentaram-se perto da
moita de Maria-sem-vergonha que rodeava uma Coroa-de-frade e ficaram olhando as
criações comendo quirera de arroz e o milho que a comadre debulhava. Ficaram de
conversê fiado um tiquinho até que Juvêncio atalhou a falar do menino:
--- Adiscuipa ser meio entrão meu cumpadi, mas
queria falar com vosmicê do “Tainha”.
--- O que tem ele? Fez arguma malcriação?
--- Né nada disso não, cupadi. Com licença da
palavra, é que já tá em tempo do menino estudá, não tá não?
Vitorino fez cara de quem comeu e não gostou,
arregaçou as mangas, arquejou arreliado, e disse tentando não ser um cavalo:
--- Modi o quê o cumpadi tá preocupado com
isso? Preciso do menino na lida comigo. Já tá aprendendo o ofício que eu
aprendi na idade dele. Todos meus filhos são da terra e tão tudo aí vivendo
bem, assim como eu, como meu finado pai e meu avô. Tenho orguio de ter meu
roçado, ele também vai herdar isso.
Aquela cantoria de pé de parede iria virar um
bafafá se Juvêncio não escolhesse bem as palavras. Sabia da veneração do
compadre pela terra, que vinha sustentando sua família há várias gerações.
--- Sei, cumpadi. Quem sou eu pra meter a
colher na criação dos seus filhos?! São tudo gente de bem. Mas nada impede que
o menino te ajude de tarde e estude de manhã, não é?
--- Óia bem Juvêncio, a escola é a umas três
léguas daqui e começa cedo, na hora de fechar as parida. O “Tainha” é quem me
ajuda na apartação, na separação dus bezerro, na peação das vaca. Quem labuta
na roça não tem tempo pra perder com iscreveção não. Isso vale de que aqui?
Adispois, não quero meu filho metido a besta feito os moleques da rua, quero ele
homi de verdade. Pra mim só existe vida pra valer é criando e plantando, e
pronto.
Antes de continuar, pra botar água fria na
fervura, Juvêncio lançou um chiste à comadre, que riu da brincadeira. Vendo que
a coisa estava difícil, resolveu improvisar.
--- Cumpadi, tamo falando da mesma coisa.
--- Ah, num tamo não!
--- Meu amigo, o papel em branco é que nem a
terra nua, que pode dar qualquer coisa. No descampado pode dar mato,
forrageira, Angico, Ipê, planta rasteira ou de floresta, só Deus sabe. Na folha
branca cabe um desenho, um rabisco, letras, palavras, o que quer que seja.
Vosmicê gosta é de plantar, não é?
--- Hum!
--- Pois então! A página pautada é terra
trabalhada. Suas linhas são veios de arado prontos para o cultivo de letras. As
folhas são palavras, as frases são frutos, o texto a colheita inteira – que
pode ser boa ou ruim, dependendo do que se plantou. Como aqui no seu chão, quem
sabe plantar bem terá safras ricas.
O palavrório baqueou Vitorino, que baixou a
crista e desanuviou a cara. Desarmou-se e viu a boa vontade no compadre.
--- Tá bão. Vô sortá o cabresto desse menino e
dá corda pra ele istudá. Vamo ver no que é que dá. Num vai fazê tanta farta pra
mim, ponho os mais véio pra tomá conta da parte dele, e não se fala mais nisso.
--- Ô, meu amigo, vosmicê é um homi que sabe
das coisa. Num é atoa que somos que nem irmão desde pequenos. Deixa que os material
e o uniforme eu compro, afinal, padrim é feito um segundo pai, num é?
“Tainha” apareceu correndo lá de dentro e
pediu a benção ao padrinho.
--- Deus te abençoe, sêo “Tainha”.
Os anos passaram e “Tainha” – quer dizer,
Tarcisio – colou grau em Direito. Na formatura foi o orador da turma. Com a voz
embargada e os olhos marejando pediu a presença dos pais ao seu lado. Agradeceu
a oportunidade de ter estudado e o apoio que lhe deram. Para sua surpresa o pai
quis responder.
--- A oportunidade nóis tem que agradecê ao
seu padrinho, que tá ali sentado se acabando de chorá. Foi ele quem me mostrou
que vaçuncê ia continuá plantando, só que letrinhas, e te deu os campos arados.
Os professores te ensinaram a plantá. Eu só aguei quando vi que tava brotando. Só entendia da terra, meu fio, hoje sei que não é só nela que a gente pode
cultivá.
Doutor “Tainha” se comoveu. A multidão
aplaudiu de pé até não poder mais. O padrinho levantou as mãos para o céu e
agradeceu a inspiração de outrora, que tinha lhe valido tão doce fruto e
transformado a vida da família de seu compadre.
sábado, 18 de julho de 2015
PAI ESCRITOR
Juliano
Barreto Rodrigues.
De repente tenho um bebê. Os nove
meses de barrigão deveriam nos preparar para sua vinda, mas não. Apesar de
vê-lo algumas vezes no ultrassom e ouvir o batimento do coraçãozinho, ele ainda
era meio abstrato. Nossa, ser pai aos 40 é assustador. Se fosse aos vinte teria
mais disposição, talvez fosse mais fácil administrar as noites mal dormidas.
Por outro lado, pode ser que eu não tivesse tido a oportunidade de fazer tantas
coisas que fiz sem ter que cuidar de uma criança. E ainda há a história da ‘experiência’
– atributo elogioso dos mais velhos.
Pensei que a tarefa de ser pai fosse
um fim em si mesmo, como se nada mais importasse tanto, como se todas as minhas
necessidades de repente diminuíssem. Ledo engano. A estrada me tornou complexo
e faminto, um tanto egoísta também. As aspirações são muitas, os planos se
sucedem, não dá para ser apenas uma ou duas coisas.
Por causa Dele (com “D” maiúsculo
mesmo) o tempo de que dispunha, e que já era pouco para fazer tudo o que gosto
de fazer, foi reduzido absurdamente. Nunca pensei que iria ter que dividir em
tantas prestações a simples leitura de um artigozinho de revista. O neném chora,
é preciso ver se está sujo e trocar, depois dar para a mãe por no peito, aí
mamadeira para complementar – lavada, fervida e resfriada – colocar para
arrotar, acalmar o pequeno e rezar para que durma. Nisso já vai quase uma hora, num
processo que deve ser repetido a cada duas ou três horas. E essas são apenas as
tarefas ordinárias, porque ainda há banho, visitas ao médico, arrumar e
desarrumar toda a tralha da criança, que tem um guarda-roupas maior e mais
especializado que o nosso, e um sem-fim de outras coisas. Bebês têm ferramentas
e artefatos que eu nem sequer sabia existirem.
Se quase não consigo ler, quem dirá
escrever. Para começar, a falta de noites bem dormidas prejudica a memória,
tenho dificuldade de lembrar até nome de pessoas próximas. O humor não fica lá
essas coisas, e é preciso um estado de espírito adequado para produzir.
Concentração? Nem se fala. O mais difícil são as interrupções.
A solução é escrever como se o
fizesse escondido, tendo que correr para não ser pego com a mão na massa. Virei
um fugitivo, que tem que sair em disparada o mais depressa possível antes de
ser avistado. É necessário fazer tudo de um só tiro, sem planejar, sem rever, sem
pensar muito, ainda que possa por a perder o resultado final. Melhor do que
nada para quem simplesmente não consegue ficar sem escrever.
Ortega y Gasset disse “eu sou eu e a
minha circunstância”. Ela determina boa parte – talvez a maior – do que somos e
fazemos. É isso: agora sou um escritor com um neném, tendo que me reinventar
com o tempo mais exíguo que me sobrou. Consolo-me na certeza de que sou bom
para trabalhar sob pressão, especialmente de tempo. A diferença atual é que
meus neurônios estão sempre numa Jam Session,
se virando nos trinta.
Dizem que nada amadurece mais um
homem do que a paternidade. Se assim for, minha escrita sairá lucrando. Para
alguém prolixo como eu, talvez uma boa dose de pressa me torne mais sintético,
curto e direto, favorecendo o estilo. Ademais, Ele é mais uma razão para minha
arte melhorar: tenho que dar exemplo e ser motivo de orgulho para meu filhinho.
Por outro lado, “Escrever é esquecer.
A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida” (Fernando Pessoa). Não fosse por outro motivo, já seria uma boa terapia para pais aflitos a fuga momentânea
da realidade escrevendo. Recarrega as pilhas de forma produtiva.
Sei que ganhei. Não sei se minha escrita
ganhará, mas tenho esperança que sim. Eis a contingência da minha
circunstância.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
ESTULTÍCIA
Juliano
Barreto Rodrigues
Mania estranha aquela. Pouco depois
que teve contato com seu primeiro computador passou a migrar tudo o que lhe
interessava para disquetes. Era adolescente na época e a mãe achava útil aquela
brincadeira: fazia com que o menino se concentrasse em coisas importantes –
textos, imagens, músicas, vídeos, etc. – em vez de pensar bobagens. Melhor ainda
que começou a escrever um diário, também digital. Ia tudo para a pequena pilha
de disquetes, que crescia ano a ano.
O surgimento do pendrive deu um upgrade
na esquisitice do garoto. Após ter passado tudo que tinha nos disquetes para a
nova tecnologia – que pendurava no pescoço atada a um colar – começou a gastar
todo o dinheiro do primeiro emprego digitalizando os livros que lera, as
matérias de jornais e revistas que lhe interessavam, os documentos que
guardava, as fotos de família, para incluir no arquivo digital.
Já adulto ficou maravilhado com o HD
externo. Passava seus dias juntando aquilo que considerava o “resumo de sua vida”.
A filosofia era absurdamente minimalista: guardar todas as suas referências,
tudo o que lhe importava, dentro de algo pequeno que pudesse segurar entre as
mãos. Aquela obsessão o fez impopular e motivo de riso.
Não se achava estranho,
principalmente levando em conta seu melhor amigo, o Derick, que não punha a mão
em dinheiro de jeito nenhum, fosse de metal ou papel. Valia-se das amizades e
da sua habilidade de bom amante para conseguir o que precisava com os
companheiros e com as malucas com quem ficava.
Numa dessas encruzilhadas da vida,
preocupado com alguns sonhos que andava tendo, o colecionador se viu na casa de
uma cartomante amiga de uma amiga. A coroa falou de amores, de decepções, de
inimigos, e disse que cuidasse de seu pequeno mundo, que estava para ser posto
a perder. Nosso herói agradeceu sem entusiasmo, sentindo-se enganado, e
perguntou se a mulher aceitaria o pagamento em cocaína.
--- O que vou fazer com isso, rapaz?
--- Ué, a senhora pode cheirar,
aplicar, ou vender para alguém.
A mulher pensou consigo "Que moleque louco, cocaína não. Mas até
aceitaria uns amassos desse malandro se não fosse o risco das más línguas". Disse
ao cliente que voltasse depois para pagá-la em dinheiro – assim, pensou, também
teria tempo para avaliar o risco de abusar daquele corpo com cheiro de moleque.
Dois meses depois, seguindo aquela
vida deslocada de outsider, o maluco
acorda de uma bebedeira de comemoração de aniversário e procura por suas
memórias virtuais, e nada. Lembra-se da cartomante com a história da perda. Revira
o quarto, revira a casa, põe abaixo o escritório em que trabalhava, liga para
amigos, colegas, parentes, sem solução.
O desespero de ter todas as suas
referências perdidas por aí o desorienta tanto que não consegue mais dormir,
nem trabalhar, nem comer direito. Vai à polícia, investiga sozinho, promete
recompensa. Meu Deus, não tinha feito sequer um backup, não havia cópia de nada. Parte da sua ideia era justamente ir
se desfazendo de todas as fontes e acumulando todos os dados em um só lugar,
que seria seu templo, sua memória extracorpórea.
Noite em sua vida. Não voltava mais
para casa, não tinha paciência com ninguém. O delegado chegou a ouvir um
receptador, que disse ter comprado o HD de alguém na rua. O idiota disse que
apagou o hardware, de forma
irrecuperável, porque estava cheio de coisas imprestáveis. Só pegou uma pena de
pagamento de cestas básicas. Era o fim.
Sem identidade, sem memória, agora
sem endereço, sem amigos e sem emprego, o rapaz chegou ao fundo do poço. Não se
reconhecia em mais nada, estava despojado de tudo que o representava. Pensou na
morte.
--- Que lixo, morrer sem deixar nenhum
sinal de mim... Eu sou um corpo vazio, uma cabeça oca, meu mundo estava naquele
HD.
Teve uma iluminação quando leu a
palavra “niilismo” na capa da revista Seleções. No raso que se tornara
relembrou superficialmente do que achava significar: 'não acreditar em nada'.
Pronto, esse agora era ele, o símbolo da negação, do pós-tudo, inclusive do
pós-si-mesmo (Só não desacreditava das cartomantes). Daí começou a juntar grão
a grão novas histórias, novas memórias, sem aquela mania besta de guardar as
coisas fora da própria cabeça.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
CONSUMIDO PELA VINGANÇA
Após vários dias sem postar - em que estava absorvido por outros projetos - trago a primeira parte de uma novela que estou escrevendo. Acho que seria bem adaptada para HQ. Ainda está sem revisão, mas quero compartilhar:
CONSUMIDO PELA VINGANÇA
CONSUMIDO PELA VINGANÇA
I
Parou o Buick num posto caindo aos pedaços,
no meio do nada. “Quem é que monta um negócio a quilômetros de qualquer coisa?”
De um salto pulou fora do conversível, que era só poeira, e se esticou para
fazer o sangue fluir. Olhou para as botas de vaqueiro, acendeu um cigarro e foi
procurar um frentista.
O lugar inspiraria receio em uma pessoa comum. Achou um banheiro
antes de ver alma viva. Aliviado, andou até o que deveria ter sido
uma loja de conveniência mas não viu ninguém. Por sorte havia algumas garrafas
de tequila atrás do balcão. Agarrou-se a uma e, cuidadosamente, voltou a
vasculhar o lugar.
Apesar da bagulheira toda, deu para ver que alguém
vivia ali ou, pelo menos, vez por outra pernoitava lá. Um colchão no chão e
umas peças de roupa jogadas em cadeiras de bar davam-lhe essa certeza. “Será
que este muquifo funciona? Preciso de combustível”. Saiu instintivamente para
testar a bomba.
Uma, duas, nada! Nenhuma funcionando. Olhou para a estrada,
passou as mãos nos cabelos, avaliou a remotíssima possibilidade de algum
ser errante passar por ali e ajudá-lo com a gasolina e, por fim, olhou para o
relógio: seis e vinte. “Merda! Vou ter que dormir nesse inferno?”
Poderia pegar a estrada e tocar até o carro apagar, aí
teria que dormir na beira da rodovia. Se ficasse ali, pelo menos se esticaria
naquele projeto de cama, beberia, fumaria e sairia pela manhã. Não é possível
que, durante o dia todo, não encontraria alguém na estrada.
Meteu a mão sob o banco do passageiro e pegou seu
Smith Wesson, calibre 44, que apelidara de La Cenicienta. Decidiu levar o Buik para os fundos do
posto, onde não denunciasse sua presença. Deu uma olhada no horizonte, o
vento árido já estava esfriando. Dali a pouco o calor causticante do dia seria
substituído pelo frio noturno do deserto de Zacatecas. O sol embaciado parecia
estar se derretendo na terra. Seria bonito, se não fosse a situação de estar
perdido ali.
“Dane-se, já passei a
noite em lugares piores”. Um trago na tequila e mãos à obra, o negócio era
verificar se havia energia elétrica e algo para comer. Surpresa boa e ruim:
dentro de um frigobar, perdido perto de um corredor, havia pedaços de tacos e
quesadillas, além de algumas cervejas e um pouco de leite. Alguém teria estado
ali muito recentemente. Será que voltaria? Haveria algum risco de ser atacado? “E
daí? Estou armado. Basta não beber demais e cair em sono profundo. Ademais,
perigoso sou eu” - e riu-se por um instante.
Fartou-se de comida, bebida e cigarro. Acendeu só
uma luz no fundo e refugiou-se em um ponto mais escuro. Cedeu ao sono e acordou
sobressaltado sem saber o porquê. Afiou os ouvidos e alongou a vista na
penumbra. Sentiu um cheiro diferente, deveria ser coisa da sua cabeça.
Esticou a mão e conferiu se La
Cenicienta estava
sob a perna. Afagou-a como a um animal de estimação. Mais tranquilo,
espichou-se para o outro lado a fim de pegar a garrafa, mas deu com o vazio.
Arregalou os olhos e pensou ter cometido um ato falho; deveria tê-la colocado
noutro lugar. A dúvida, porém, o deixou um pouco eufórico. O instinto o fez
apanhar um cigarro. Teve medo de acendê-lo e chamar a atenção de um possível
invasor.
Um trovão ao longe, naquele lugar de um silêncio
gritante, pareceu um rufar de tambores. Uma gota de suor escorreu da testa. Só
aí percebeu que estava com medo. “O que? Que estúpido! Eu que já enfrentei
carniceiros e mercenários, assustar com um barulhinho?” Sacou a arma e
levantou-se bem devagar. Esgueirou-se sem as botas, cuidadosamente, com o
objetivo de checar em volta.
Olhou para o balcão e imaginou que alguém
poderia estar escondido atrás. Apontou o cano da 44 para lá e foi engatinhando
lentamente. Respirou profundamente e, de um salto se jogou no vão. Um gato lhe
pulou numa velocidade enorme. No susto saiu um tiro que, naquele lugar fechado
e vazio, pareceu de um canhão. Num salto estava de pé. As mãos tremiam que mal
dava para segurar o revólver. Nem notícia do gato.
O cigarro veio à boca automaticamente. Dessa vez nem
pestanejou em acendê-lo. Deu uma tragada fundíssima, que até tonteou.
Desabotoou mais a camisa, agora ensopada, e procurou pelas botas. “Que horas são?
Meu Deus, que porcaria, por que não amanhece logo?”. Três da madrugada. O som
do vento nas frestas assoviava sinistramente. Nada para aplacar a tensão. Não
iria mais beber, ficaria lúcido e de olhos bem abertos.
Falta de ar, aperto no peito, claustrofobia. “Tenho
que ir lá fora. Quer saber, vou pegar o carro e vou embora. Não! Se a gasolina
acaba no caminho, fico pior. Acalme-se cabròn
hijo de puta!”
Foi até a janela suja e passou-lhe a mão na
tentativa de ver as bombas do posto. Com as duas mãos espalmadas sobre as
sobrancelhas encostou no vidro e forçou a vista. Nada. Um breu total. Surgiu a
vontade de urinar, lembrou-se que o banheiro era externo. “Foda-se, vou mijar
numa garrafa vazia”.
Tic-tac, tic-tac, o tempo vai gota-a-gota, como se teimando em não
andar. No vácuo, as lembranças começam a assombrar: coisas da infância, brigas,
mulheres, bebedeiras, sangue. As quatro mortes que colecionava algum dia seriam
cobradas? A simples lembrança de cada episódio fez sua adrenalina subir.
Acendeu o último cigarro da carteira.
Um estalo nos fundos o despertou do devaneio com um arrepio na
espinha. O pio comprido de um pássaro agourento piorou a sensação. Por que
o pio? Haveria alguém lá fora? Lembrou-se de já ter acreditado em alguma coisa
além deste mundo, então pediu proteção a Jesus Malverde, o santo chamado de
bandido generoso, el rey de Sinaloa. Em outros tempos já tinha até ido à capela de Culiacán e, noutra ocasião, já tinha
jogado um pedregulho no monte de pedras que cobre sua cova. Voltou a si. Seria
melhor procurar um disjuntor em qualquer lugar que acendesse uma luz externa. “Devia
ter pensado nisso antes”.
Passou longos minutos nessa distração, só os ouvidos, hiperexcitados, monitorando o entorno. O cansaço
foi pesando e uma pausa para descanso, sentado numa cadeira, se tornou um sono
de mais de duas horas. Acordou com ressaca de insone e ficou muito feliz ao perceber
o dia começando a clarear. Sentiu-se meio ridículo por ter tido medo de nada e
se lembrou que quando criança a escuridão era um terror.
“Cigarro!
Preciso de um cigarro e de um belo trago.” Abriu a porta e foi até o carro.
Enquanto fumava o dirigiu até próximo às bombas. Olhou aquele céu pintado e se
sentiu bem disposto. Foi pegar alguma coisa no frigobar e umas duas garrafas de
tequila para levar. Quando voltou, o carro não quis dar partida. Abriu o capô e
ouviu um som na estrada. Correu para lá e acenou para um furgão que estava a
quilômetro, mais ou menos.
A família de turistas estava indo para uma reserva em Sierra de Santa
Rosa, a cerca de trezentos quilômetros dali e foi gentil em lhe vender um pouco
de gasolina. Transfundiram o combustível com uma mangueira e foram embora.
Estava dando tudo certo. Agora era pegar a estrada. Girou a chave na ignição e
nada. Desceu, olhou para dentro do motor V8 e verificou os cabos das velas.
Estranhamente, o cabo da bobina estava solto.
“Click”,
ouviu atrás de si. Num milésimo de segundo reconheceu aquele som de arma sendo
engalilhada. “Finalmente te encontrei desgraciado. Estou atrás de ti desde Cincinnatti. Opa, opa, mantenha suas mãos
quietinhas nessa lata velha. Você vai pagar pelo que fez ao Curralito e ao Dom. Agora vire-se,
bem devagar.”
O rosto que viu era vagamente conhecido. Na verdade,
não dava para esquecer um sujeito tão feio com uma catrina tatuada
no pescoço. O chapelão engordurado e os óculos escuros tornavam a figura ainda
mais grotesca. Estava cedo e frio e, mesmo assim, o indivíduo suava feito um
porco esfolado. Falava arreganhando a boca brilhante com alguns dentes de ouro.
Não é possível que iria morrer ali, naquele buraco, e pelas mãos daquele
traste.
Antes de tentar argumentar
levou um tiro nos testículos e caiu, urrando, no chão.
Quando o gordo apontou para sua cabeça teve um instinto de defesa e pôs a mão
na frente.
II
Abriu os olhos mas não via nada.
Sentiu o gosto ferroso de sangue na boca e uma dor aguda na cabeça. Também
sentiu doer a mão e as bolas. A pele estava queimando e ainda assim tremeu de
frio. Estava delirando? Ficou nesta situação por tempo indeterminado e
conseguiu visualizar vultos que acreditou serem de abutres. Apagou!
Acordou num hospital mal equipado, em alguma cidadezinha
horrível. Dessa vez conseguiu enxergar tudo embaçado e ficou feliz por
não estar cego. Levou a mão na cabeça e ambas, mão e cabeça, doeram. Estavam
enfaixadas. Lembrou que tinha levado um tiro nos bagos. Puxou o lençol com a mão
do soro e se assustou com o que viu. Aparentemente estava capado. Se agitou
muito e gritou por ajuda.
Antes de qualquer enfermeira, entraram dois
policiais dizendo que precisavam fazer algumas perguntas. Se ajeitaram com
dificuldade no cubículo. Disseram que fora
resgatado por policiais rodoviários e, ao que parece, teria passado dois dias
esturricando sob o Sol do deserto. Estava internado há uma semana. Seu carro
tinha sido encontrado queimado atrás do posto e seus documentos deviam estar
dentro dele. Quem era ele? Quem teria tentado matá-lo?
Acostumado a viver fugindo, deu um nome falso e
acrescentou que fora assaltado. Inventou que tinha cerca de trinta mil e
trezentos pesos e que estava a caminho de Tijuana para tocar em bares. Por ora, a desculpa daria jeito. Os policiais
disseram que as informações de identificação não
conferiam com os dados puxados a partir da placa do carro. Escapulir dessa foi
fácil. Disse ter comprado o carro em Veracruz, a quase mil quilômetros dali e
que não tinha feito a transferência ainda, mas que o trânsito estava
autorizado.
“Estou
inteiro?” - perguntou olhando para a genitália. “A enfermeira disse que você
está sem os bagos e que não sabe se o resto ainda vai servir para alguma coisa.
Filhos, pelo menos, você não vai ter nunca mais”. Impacientes, foram embora
dizendo voltar no outro dia.
Tinha que sair dali, o pulha que tentou matá-lo tentaria acabar o serviço. Primeiro tinha que ligar para a única
família que lhe sobrara, seu irmão John e seu sobrinho. Tentou se levantar e não
conseguiu. Apertou a campainha pendurada na cama e, dessa vez, uma enfermeira
gorda e com cara de poucos amigos apareceu. “Por favor, preciso fazer uma ligação.
Quando é que terei alta?” Desfazendo a cara ruim a mulher disse: “Tem um
telefone do seu lado, a ligação será cobrada quando assinar a alta, que deve
acontecer daqui uns três dias. Você teve sorte de não morrer, mas vai ter que
ficar sem experimentar um rabo de saia por um bom tempo.”
Quem atendeu do outro lado da linha foi alguém que se identificou como senhorio do apartamento que seu irmão
alugava. Sem meias palavras o homem contou que havia ocorrido um crime bárbaro
e seu irmão havia sido espancado e jogado pela janela. Tinham cortado o pescoço
do filho dele e estavam, os dois, mortos.
Sentiu uma solidão e uma dor
tão profunda que desejou ter morrido. Mas a dor imediatamente se tornou um ódio
feroz. Ele e seu irmão não eram próximos há tempos, mas tinha por ele carinho e
respeito reais. John era mais velho e sempre fôra direito e trabalhador, além
de nunca ter lhe virado as costas. O baque o atingiu de cheio. Largou o
telefone pendurado sem se dar ao trabalho de desligar. Naquele instante fez um
pacto com o que tinha de pior em si mesmo. Decidiu que iria deixar de fugir e
sairia à caça. Não tinha mais nada e nem ninguém, viveria para sua vendeta.
Precisaria de identidade falsa, um carro, dinheiro,
teria que mudar de aparência. O homem que o baleou
provavelmente teria levado La Cenicienta, teria que arrumar outra arma.
Ah, antes de tudo, fugir e sarar das lesões.
Arranjou forças sem saber
de onde e arrancou o soro do braço com dificuldade. Pisou no chão gelado e
analisou as possibilidades. Onde poderia encontrar roupas de algum funcionário
para pôr no lugar daquele camisolão? De preferência com um chapéu ou bandana
para não precisar desenfaixar a cabeça. Abriu a porta do quartinho, olhou para
um lado e para o outro e caminhou aleatoriamente para o lado esquerdo. Sorte de
desesperado: a terceira portinhola que testou deu para uma lavanderia. Uma
funcionária o viu e ficou atônita. Mandou que ficasse calada levando o
indicador aos lábios. Deveria estar muito feio, porque ela obedeceu sem
discutir e ficou apenas olhando com cara de medo enquanto ele procurava o que
vestir.
Saiu do hospital pela porta dos fundos, se
esgueirando pelas lixeiras que ladeiam o muro do estacionamento de funcionários. Não tinha a menor ideia de onde estava. Avistou uma mulher
indo para o carro e abordou-a assim que abriu a porta. Rispidamente mandou que
ficasse quieta e a empurrou para o banco do passageiro, fazendo-a saltar por
cima da alavanca de câmbio. Dirigiu por três quarteirões, perguntou o nome da
cidade, pegou o dinheiro que ela tinha na bolsa e mandou-a sair do carro.
Sua intenção era
partir para o Texas, onde encontraria Maria Mercez, garota de programa
porto-riquenha, que era o mais próximo de uma namorada que já possuíra.
Roubaria outro carro, tocaria de onde estava, Los Condes, até Monterrey e
contactaria um coyote conhecido seu, que o passaria pela fronterira com os
Estados Unidos. O plano estava traçado.
III
Os policiais que estiveram no
hospital já deveriam saber da sua fuga. Tinha roubado um carro e o dinheiro
da proprietária. Estava ferido e nem sabia ao certo a gravidade do que tinha
lhe acontecido, mas tudo estava doendo. Pegou uma via vicinal bem estreita e
deu em uma pequena fazenda. Parou atrás de uma pedreira, perto da porteira, e
entrou à pé.
Se esgueirou até uma caminhonete velha, fez ligação direta
e saiu dali como se nada tivesse acontecido. Viu, pelo retrovisor, um homem de
macacão correndo da casa com os braços extendidos. “Hasta la vista, amigo” - resmungou consigo.
Rumou para Monterrey onde comprou cigarros, cervejas, comida, óleo
diesel, remédio para dor e algumas peças de roupa. Era preciso não parar, tinha
mais de seis horas de viagem. O melhor seria tocar a noite toda e se esconder
durante o dia.
Chegou na cidade por volta de quatro da manhã.
Estacionou a caminhonete em uma ruazinha escura e dormiu até as seis e pouco.
Acordou, tirou a faixa da cabeça enquanto olhava no retrovisor e concluiu: “Aquele
vagabundo me acertou de raspão aqui, mas furou minha mão bem no meio e arrancou
minhas bolas. Um chapéu de vaqueiro encobrirá o ferimento da cabeça. Vou
comprar luvas de lenhador para esconder a mão ferida”. Comeu um pouco, bebeu
duas latas de cerveja e fumou alguns cigarros até a cidade começar a se mexer.
Dirigiu até um mercado onde comprou chapéu e luvas e,
ali mesmo, deixou a caminhonte. Andou até um cortiço que bem conhecia, onde
funcionava uma famosa rinha de galos, e perguntou a um moleque por seu amigo
Aaron. O menino o levou até as escadas estreitas de ferro e apontou uma
portinhola no segundo andar.
“Ramirez”, gritou Aaron, “Há
quanto tempo, seu puto.” Se abraçaram e entraram juntos no quarto
e sala todo bagunçado. Aaron estava sem camisa, ostentando um grande número
catorze tatuado em vermelho no meio do peito, símbolo da Nuestra
Família, facção nortista rival da Máfia
Mexicana sulista. Tirou a bandana rubra e apontou a mesinha de centro, onde
havia quatro grossas carreiras de cocaína, uma garrafa de mezcal pelo meio -
com a larva de borboleta dentro, garantia do alto teor de álcool - e dois
cinzeiros abarrotados.
Aaron cheirou uma fiada, pegou a garrafa, deu dois goles e
passou para Ramirez, que bebeu um pouco mais. Aaron estranhou o fato do amigo
ter entrado de chapéu em sua casa e fez um gesto mandando-o
tirar, o que obedeceu de imediato dizendo: “Desculpe, meu irmão, estava
cobrindo um ferimento”. Teve que contar em detalhes tudo o que aconteceu.
Lá por volta das dez chegaram dois amigos de
Aaron. Após as apresentações ele mandou que arranjassem para Ramirez uma arma,
dinheiro mexicano e americano, um carro “limpo” e procurassem o Papa para lhe
providenciar documentos falsos. Antes de saírem, tirou do fundo do sofá um
pacote com meio quilo de cocaína e jogou-lhes nas mãos.
A polícia era conivente com o tráfico local de
drogas e armas e não se metia desde que recebesse seu suborno semanal. Enquanto
os limites da Nuestra Família
eram respeitados pelos membros da Máfia
Mexicana, as coisas permaneciam tranquilas na região. Estavam em tempo de trégua,
negociada por líderes dentro da prisão. Aaron deu um quarto em outro andar para
Ramirez ficar e mandou um enfermeiro sujismundo para cuidar de seus ferimentos.
Se tudo desse certo, em uma semana estaria atravessando a fronteira com outra
identidade.
O enfermeiro disse que a mão demoraria mais a
recuperar do que os outros ferimentos. Disse que, sem os testículos, seria
necessário tomar testosterona pelo resto da vida. Se prontificou a dar-lhe
alguns vidros de hormônio para cavalos.
Depois dessa visita, quando se preparava para descansar, Ramirez
ouve baterem na porta novamente. Resmungou uma reclamação
e abriu a porta. Assustou-se com o inusitado de ver uma senhora de seus setenta
e tantos anos, baixa e roliça, com roupas coloridas e um chapéu curto na cabeça,
enfeitado com uma enorme pena verde e brilhante de quetzal. Seus dedos curtos
cheios de anéis tornavam suas mãos bem estranhas. Usava colares e penduricalhos
nas roupas. “Buenos días”,
disse a senhora. “Buenos dias abuela, o que deseja ?”
Antes da resposta da velha, Aaron apareceu às
suas costas e entrou porta adentro puxando-a pelo braço. Sem se sentar disse: “Esta
é Mirella, uma… ‘madrinha’ de nossa gangue. Veio de Catemaco, é conhecida como
a Gran-bruxa de Vera Cruz. Traz proteção para a Família
e fiz questão que viesse te ver.
Sente-se aí”. Ramirez fez o que Aaron mandou e observou a velha.
A mulher ficou parada no meio da saleta um tempo, olhando para
todos os lados sem dizer uma palavra. Meteu as mãos nos bolsos, tirou um
punhado de pó perfumado, esfregou com ele as mãos e só então puxou uma
banqueta, sentando-se em frente a Ramirez, perto demais para seu gosto. Olhou
profundamente em seus olhos, gerando um desconforto maior ainda. Antes de falar
segurou suas mãos e, surpreendentemente, soprou entre os olhos de Ramirez. “Devo
estar sonhando, que diabos de maluquice é essa”, ele pensou.
“Sei que não acredita ‘nessas
coisas’, mas deixe que te diga: Você quase morreu várias vezes e, nessa última,
passou perto demais. Está meio lá meio cá, ainda não se recuperou direito. Não
se pode dizer que você nasceu de novo, isso ainda está em processo. Tudo o que
tinha de valor ficou para trás, você não se lembra do seu pai e mal se lembra
da sua finada mãe. Vive fugindo e deseja assumir uma nova identidade, que se
alimentará de sangue dos seus inimigos. Estou aqui para te ajudar nisso, vou
precisar que venha comigo por três dias. Não poderá beber, nem fumar, nem se
drogar. Sexo eu sei que você não consegue fazer”.
Pasmado, Ramirez pensou um instante e disse: “Tudo
bem, não estou fazendo nada mesmo, vou ter que esperar até as coisas estarem
preparadas para minha viagem. Vai ser bom passar uns dias sem cigarros e
bebida. Preciso me fortalecer”. Aaron riu, deu um tapa no braço de Ramirez e
emendou: “Você sabe que o considero, seu puto. Vá com a velha que eu cuido de tudo aqui.
Mas deixe para trás suas preocupações, esvazie a cabeça. Nos vemos na quinta”.
Deu-lhe um cumprimento e saiu apressado. A velha esperou na porta.
Levando apenas algumas peças de roupa entraram,
ele e a velha, em um carro - com motorista - estacionado lá embaixo. Partiram
para uma fazenda nos arredores da cidade e, chegando lá, se reuniram com cerca
de outras quinze pessoas. Elas encaminharam Ramirez para um banheiro e a velha
mandou que se despisse, se lavasse com o líquido escuro que estava num pote de
barro e se vestisse com o pijamão dobrado sobre a cadeira. Depois foi
encaminhado para um quartinho vazio onde só havia uma mesinha, sobre a qual
repousava um pão e uma moringa com água. Comeu e bebeu. Uns dez minutos depois
levaram-no para um lugar escuro, semelhante a uma tenda, onde todos estavam
sentados em círculo entoando cânticos e tocando tambores e outros instrumentos
metálicos de percussão.
Foi vendado e fizeram-no girar e dançar
assim, sem ver nada. O cheiro de defumadores e tabaco era sufocante. Deu para
ouvir o som de pólvora sendo queimada e fizeram-lhe beber uma cuia grande de
balché. À medida que dançava suas dores iam diminuido e sua disposição e força
aumentando. De tempo em tempo paravam-no, passavam coisas em seus braços e dava
para ouvir que rezavam. O som dos canticos ficava cada vez mais alto. Apagou!
Despertou deitado e ainda vendado. Sentiu que estava na terra
macia. Mexeu os braços para os lados e percebeu que estava em
uma cova. O coração foi a mil e quiz levantar. ‘Pof’, uma pá de terra foi
jogada no seu peito. Alguém lhe disse: “Calma, tenha confiança”. Obedeceu e se
aquietou, embora não gostasse nada da idéia de ser enterrado. Mais duas pás de
terra e a cantiga virou lamento. Cobriram-lhe com um pano e silenciaram.
Pareceu uma eternidade, achou novamente que estava sonhando. Agarraram-no pelos
braços e o arrancaram do buraco. Rasgaram metade das pernas de suas calças, as
mangas de sua camisa, e abriram os botões, deixando o peito desnudo. Os
canticos recomeçaram. Foi levantado do chão e circularam com ele nos braços
algumas vezes. Sentaram-no em um toco.
Foi pintado. A voz da velha chegou a seu ouvido: “Morreu
e renasceu. Antes de perder o sentido e ser colocado na cova nós invocamos a
criança jaguar-homem e ela identificou seu animal correspondente - o
monstro-de-gila. Há inúmeros lagartos pelo mundo e ele é um dos dois únicos que
são venenosos. Esse é você. Pela sua aparência pode ser confundido com qualquer
outro, em qualquer lugar, mas esconde um veneno perigoso aí dentro. Vou te
dizer uma coisa: O mal tem três partes. Para fazer o mal ao seu inimigo você
primeiro alimenta o veneno dentro de si e se contamina, depois você o lança
contra o alvo e, por último, o mal que tenha feito a ele atinge, em maior ou
menor grau, seus dependentes e amigos. Aquele primeiro mal que você alimenta
envenena a si mesmo e o aniquila, a não ser que, como no seu caso, você tenha
feito um pacto com o mal e tenha se assumido parte dele. Em vez dele o
parasitar, ele vai te dar força e proteger. Levante-se.” Ela tirou a venda.
Um dos homens do círculo veio com uma cuia
cheia de líquido preto em uma mão e um espeto de osso na outra. Puxou a mão de
Ramirez e tatuou, usando o espeto, um cruzeiro de cemitério em seu antebraço. A
velha colocou um colar com uma medalha antiga em seu pescoço e uma pulseira de
sementes em seu pulso. Disse que jamais os tirasse. A cerimônia durou até quase
o nascer do Sol. Dormiu um dia inteiro e sonhou com seres fantásticos, viagens
e cânticos e com o monstro-de-gila, personagem que se tornaria recorrente em
seus sonhos. O restante do tempo foi de descanso e cuidado dos ferimentos.
Sentia-se revigorado e limpo, preparado para a missão
que escolhera. Despediu-se da velha prometendo voltar se sobrevivesse. Ela não
pôs fé na promessa, pegou um pó e soprou-o em seu peito, então saiu sem dizer
adeus. Deixaram-no no apartamento de onde tinham-no levado.
IV
Não
tinha sentido falta da tequila, até porque o balché o deixara bem saciado de álcool.
Também havia aspirado tanta fumaça que nem se lembrou do cigarro. Mas Aaron o
aguardava para uma festa com todos os excessos que podia imaginar. Haveria
muita droga, bebida, mulheres e música, mas não estava pronto para sexo e nem
para o resto junto. Queria dormir, mas seria uma desfeita não ir. Esperaria o
amigo chapar e sairia de fininho.
Valeu a pena ter ido. Conheceu alguns caras da pesada que tinham
conexões
além-fronteira e, por coincidência, um deles deu notícias do sujeito que o
havia baleado. O vagabundo contou-lhe, bêbado, que aquele tipo estava em maus
lençóis com seu chefe em Cincinatti porque não tinha terminado o serviço,
estando proibido de voltar até pôr um ponto final no alvo. Falou que quando ele
soube que Ramirez tinha sobrevivido voltou até a cidade e, por pouco, não o
matou no hospital. Se desencontraram por questão de meia hora. Não esperava que
fugisse tão rápido. Estava no seu encalço, agora com mais um assassino
contratado.
Essa notícia soou meio indefinida para Ramirez. Se,
por um lado, queria topar o desgraçado, por outro tinha receio de ser
surpreendido, ainda por cima desarmado, já que não tinham lhe dado uma arma até
agora. A sensação, já sua companheira, de estar sendo caçado o trouxe de volta à
realidade que bem conhecia. Tinha que ter foco, não estava de férias. Insistiu
com Aaron que apressasse a papelada e lhe desse uma arma. Seu amigo mandou um
de seus homens levá-lo a um paiol e lhe dar as armas que quisesse. Os documentos
ainda não estavam prontos.
Ramirez escolheu uma Desert Eagle calibre cinquenta, uma
pistolinha nove milímetros para portar escondida na bota,
junto com uma faca, e pegou também uma espingarda de cabo curto com dois canos
cortados, calibre doze. Testou todas elas em garrafas nos fundos do casarão da
festa. Agora sim, se sentia um homem completo novamente. Estava se sentindo nu
desarmado. Relaxou e curtiu a bagunça.
Acordou quase duas da tarde com uma ressaca leve e saiu a
procura de Aaron. Seu amigo estava altíssimo de cocaína e
falava tudo muito rápido. Mandou Ramirez ir com seus homens até um galpão e
pegar um Chevy Impala “limpo” e depois deveriam buscar os documentos com o
Papa. “E só saiam de lá quando ele entregar tudo”, gritou.
Após pegarem o carro foram até o Papa. O cara
era um tipo de meia idade, asqueroso, viciado e agitado. Deu para ver que tinha
muito serviço. Em sua mesa havia uma grande quantidade de fotografias,
documentos verdadeiros e falsos, carimbos e chancelas, selos, pó e mais pó,
revistas pornográficas, pincéis, canetas, lupas... tudo que um falsário
gabaritado precisava. Do lado da mesa havia uma cama e uma televisão. Havia um
banheiro fedendo nos fundos. Papa era um indivíduo horrível, mas admirável por
suas habilidades. Ramirez agora era José Calderón Flores e tinha ficha limpa.
Aaron, que há muito havia se aposentado do ofício de
coyote, designou um de sua confiança
para acompanhar seu amigo até mais próximo da fronteira e mandou que esperassem
até que pusesse a mão nos dois que estavam atrás de Ramirez. Mandaria as cabeças
num saco. “Não, meu irmão! Agradeço o que tem feito por mim, mas sou eu quem
deve matá-lo. Primeiro preciso saber onde está e quem é seu chefe. Pode fazer
mais isso por mim?” Aaron abriu os braços e balançou a cabeça para trás, num
gesto que significava “claro, idiota!”
Dia e meio depois chegou a notícia de que os seus
perseguidores estavam em um rancho nos arredores da cidade. Ele e o coyote
iriam fazer-lhes uma surpresa. Seria dois contra dois.
Chegaram na boca da noite e deixaram o carro escondido em um
declive que ficava a uns quinhentos metros da entrada do terreno.
Aproximaram-se lentamente e com as armas nas mãos. Ramirez preferiu
portar a menorzinha, porque não aguentaria o coice das outras duas em sua mão
ainda dolorida. O lugar era um lixo, mais parecia um ferro-velho, com carcaças
de carros, geladeiras e peças para todo lado. Havia uma luz fraca no fundo de um galpão cheio de entulhos. Os
dois deviam estar lá. Ele e o coyote se separaram.
Parou atrás de um enorme tonel para observar quando
ouviu atrás de si aquele “click” que bem conhecia. Largou a arma e virou-se com
as mãos para o alto. Não reconheceu seu agressor, devia ser o assassino
contratado. “Pouuu!”, o coyote - de longe - atirou no homem que o ameaçava e
depois atirou para outro rumo, em algum alvo que Ramirez não conseguiu
visualizar. Só teve tempo de pegar a arma no chão e se jogar para baixo de uma
carreta. Tiros para todos os lados. Com certeza havia mais do que duas pessoas
atirando.
Apurou a vista e, pelo buraco de uma manilha, viu que a segunda
pessoa em quem o coyote tinha atirado era um policial com uniforme. Não
estava morto. Parecia com um daqueles que tinham-no visitado no hospital. “Merda!
Era só o que faltava.” O outro deveria estar lá também. Viu o coyote correr
para a direção da saída e ser alvejado na perna. Um vulto ia na direção dele.
Novos tiros e o coyote parou de se mexer. O vulto se virou para o rumo de
Ramirez, mas estava a cerca de uns oitenta metros. Seria o outro policial ou o assassino?
Ramirez viu uma caminhonete parada na lateral do galpão
e correu para ela. Quando abriu a porta deu de cara com o assassino. Ele estava
sangrando e apertava uma estopa no peito. Estava desarmado e tombado, tentando
se esconder. Novos tiros quebraram o vidro traseiro. Ramirez pulou para dentro,
deu partida e acelerou à toda, desviando dos entulhos. Arrebentou uma cerca e
rumou, aos solavancos, para o primeiro lugar habitado que encontrou. Se
embrenhou em uma vila e parou no lugar mais escuro que encontrou. Deu dois
socos no ferido e verificou a si mesmo, procurando algum novo buraco de bala.
O assassino estava péssimo, balbuciava
algumas coisas e gemia de dor. Pedia “Pelo amor de Deus, não me mate”. Ramirez
colocou o cano da pistola em sua testa e não parava de perguntar quem era seu
chefe. Quando o homem viu que não tinha jeito, que iria morrer de qualquer
forma, entregou o nome do patrão e disse onde poderia ser encontrado. Então
amaldiçoou quem o ameaçava e riu de escárnio. Ramirez olhou em seus olhos e
disse “Ainda não, verme!”, então deu um tiro em seus bagos. O homem estava
agonizando, mas não dava para contar com a sorte, “vai que ele sobrevive...”,
pensou. Então tirou a faca da bota e passou-lhe o fio no pescoço, garantindo
que morresse, mas não tão rápido. Cuspiu na cara do homem e fugiu a pé.
V
Passou a noite se esgueirando
evitando ser visto e, na manhã seguinte, encontrou com Aaron, que estava
furioso: “Que merda você aprontou? Um policial ferido, um coyote morto e outro
policial furioso perguntando de você. Sorte a sua que os policiais daqui estão
nos ajudando, te pintando de vítima de uma perseguição injusta. Mas a
historinha não é lá essas coisas. E a porra do corpo que você deixou na
caminhonete?! Não bastava dar um tiro no sujeito? Cortar a garganta? E pior,
explodindo os colhões dele você assinou sua obra. Pô, hermano, te considero como meu sangue, mas sou um
dos gerentes da Nuestra Familia e
aqui não
agimos com interesses pessoais, mas do grupo. Você pôs a tranquilidade da família
em xeque e já há quem te queira morto. Não tem mais tempo e não é bem-vindo
aqui. Vou limpar a sujeira que você deixou e também vou cumprir com minha palavra
de te deixar do outro lado da fronteira, mas aí você estará por sua conta. E vê
se não aparece por aqui por uns bons anos.”
Aaron mandou um dos homens contactar outro coyote para
providenciar a travessia da fronteira. Não quis saber de qualquer
explicação de Ramirez. Tinha pressa de se livrar dele. Do outro lado os
policiais que o tinham seguido não iriam, então voltariam para o buraco de onde
tinham vindo.
Ramirez voltou a sentir aquela solidão
que o acompanhava há tanto tempo. Não tinha lugar certo nem ninguém de quem
pudesse ficar perto sem prejudicar. Sobrevivia um dia após o outro avidamente,
por instintinto, embora soubesse que viver assim era quase insuportável. “O que
aprontei para chegar a esse ponto? Nem me pareço com o menino que fui. Ah, dane-se,
preciso de um trago”.
Por volta das onze o coyote estava a postos. Ramirez arrumou as
trouxas, apanhou as armas - a pistola calibre ponto cinquenta, que batizou de
Hidalga; a doze, chamada Consuelo; e La Niña, a pistolinha da bota
- e foi se despedir de Aaron. Comeram tortillas juntos e beberam duas garrafas
de Torito. Se abraçaram à moda dos gangsters e partiram em sentido contrário
um do outro.
Enquanto saiam da cidade, ele e o coyote, pensou na atitude de
amizade incondicional que Aaron tinha por ele. Tinham crescido juntos até
quase a adolescência, quando se distanciaram, mudando de cidade e de propósitos.
Enquanto Aaron subia no mundo do crime, ele descia, se tornando criminoso sem
querer. Por tantas vezes tinha precisado do socorro do amigo, e todas as vezes
fora atendido tão prontamente, que se envergonhava de só lhe levar problemas,
sem nunca ter retribuído. O amigo, um criminoso temido e violento, sempre
estava lá, nunca exigia nada, o tratava com uma consideração enorme. “Mundo
estranho esse! A Virgem de Guadalupe proteja meu único, mas verdadeiro, amigo”.
Pegariam a Carretera Federal 85 até as proximidades de
Nuevo Laredo, uma viagem de cerca de duas horas e quinze. Lá, em cerca de
dezoito horas atravessariam o Rio Bravo e o deserto até San Antônio, nos
Estados Unidos. O frio da noite seria o maior desafio. Quando chegasse em San
Antonio entraria em contato com um conhecido seu com quem fizera muitos negócios
em outros tempos, um capitão do Syndicato Tejano - grande gangue texana - que
poderia ajudá-lo.
Passaria bem por um texano tradicional daqueles meados de
oitenta. Usava chapéu de vaqueiro, cabelos quase nos ombros,
deixara bigode e barba, seu jeans era preso por um cinturão com detalhes em
metal e suas botas chamavam atenção. Não seria difícil se misturar. Queria ver
Maria Mercez em Dallas e partir para sua vingança.
Continua em breve...
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