O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quinta-feira, 20 de agosto de 2015




MINHA REVOLTA


                                 Wanda Barreto Rodrigues


Ouvindo o som da noite
permaneço.

Me encendeio,
me apago.

Vagalume do tempo.
Luz e escuridão,
escuridão e luz.

Olhos sonolentos,
corpo cansado,
me enterneço.

Não me afasto.
Sem pensar
fico e observo.
Uau!

Em que parte do tempo
me perdi?
Anos se passaram,
não percebi.

Estou velha
e não vi.
Onde me perdi?

Vejo varizes...
rugas...
pele flácida...
Onde me perdi?

Olho abismada.
Onde ficou
a juventude,
a energia?

Emergi do marasmo,
caí no tempo real,
sou idosa.

Em que parte eu parei?
Nos 30, nos 40?
Que venda infame
e caridosa tive,
que não me vi?

Cabelos brancos
cobertos por tinturas,
membros nodosos,
só agora vistos.

Catarata, falhas de memória,
onde me perdi?

Na realidade cruel
me desfaço

Quero fechar meus olhos,
dormir.
Mais tarde acordar,
trazer de volta a ilusão que perdi.

Ah! Como é bom
não ver,
não sentir,
só sonhar.

Tenho 20, tenho 30,
tenho sessenta,
não importa.
Quero a ilusão de volta,
doce... mentirosa...
piedosa!

Amanhã já esqueci que sou idosa.
Somente sentirei
que estou viva... maravilhosa.

Sei que o cansaço é preguiça.
Rugas... genes ruins.
Varizes... são arvorezinhas
me enfeitando.
O resto,
é só resto.
Quero a ilusão de volta,
escandalosa e ofuscante.

Quero brilhos,
paetês.
Sons, muitos sons.
Quero a ilusão de volta.

Espero,
fico,
permaneço... ela volta.



quinta-feira, 13 de agosto de 2015



A pessoa é o que tem?

Juliano Barreto Rodrigues.

Olhando em volta enquanto procurava uma ideia sobre o que escrever, fiquei reparando o mobiliário e me lembrei de um livro chamado Viagem à Roda do Meu Quarto. O autor, Xavier de Maistre, fez um exercício que (acredito) todos já fizeram algumas vezes: olhou sossegadamente para as coisas ao seu redor e puxou na memória o momento em que passaram a integrar suas pertenças, de onde vieram, como foram usadas em tempos memoráveis, o que lhes causou um sinal, ou mancha, ou marca, o que representam intima e socialmente e que sensações causam.
As pessoas têm uma interação estranha com os objetos. Alguns falam por si, como os artísticos, por exemplo. Outros, só se exprimem pelo uso. Numa analogia, essa oposição me faz lembrar a diferença entre as pessoas cultivadas e as mecânicas (no sentido metafísico empregado por Alain-Rene LeSage, no livro História de Gil Blas de Santillana). Talvez, os seres inanimados sejam tão representativos quanto nós.
É mágica a forma como o ser se desborda em suas coisas, seja no que veste, na casa que habita, no que coleciona, nos móveis que compra, nas lembrancinhas que guarda... Um Sherlock Homes poderia destrinchar as ocupações, hábitos, manias e tendências de qualquer um, se tivesse acesso a seu santuário completo. O indivíduo não se restringe ao que é in nude – o que também não é estático e livre de interferentes –  é, além disso, o que tem, com o que se relaciona e se utiliza para externalizar seu ego.
Então, os objetos têm vida. Não no sentido fisiológico, logicamente, mas num sentido mais amplo, histórico. A consciência dessa “vida” existe na observação atenta de seu usuário, revelando assim uma relação de dependência entre o material e o imaterial. Mas isso é uma discussão filosófica para outra hora. Assim, deixemos de lado o que não é essencial.
Aproveitando a ideia de outra peça formidável, o livro História do Mundo em 100 Objetos, do historiador Neil McGregor, poderia ser bem interessante realizar biografias a partir do que os biografados têm. Pessoalmente, imagino que podemos falar indefinidamente da gente usando esse artifício, e creio que assim é possível ampliar em muito a consciência da nossa interação com o que nos cerca e do quanto exorbitamos de nós mesmos no que possuímos.
Voltando ao assunto dos indivíduos cultivados e dos mecânicos, é justamente a capacidade de abstrair, de pensar o fazer e o ser, uma das principais habilidades que diferenciam uns e outros. Os mecânicos são seres práticos, que realizam as coisas quase automaticamente, sem crítica, autocrítica ou criatividade mais sofisticada. Seu contraponto é formado por quem estabelece raciocínios mais elaborados sobre o que vê, sente ou faz, que procura razões, melhores formas de fazer, sentidos mais profundos.
Exercícios contemplativos como o que sugeri seriam bem interessantes para uns, mas não para outros. Isso não significa que os mecânicos sejam pessoas menos essenciais à sociedade do que os cultivados. O panegírico a estes seria injusto em relação àqueles. Até porque, é bem mais fácil qualificar quem quer que seja como mecânico do que atribuir a alguém o epíteto de culto. Cultura é algo tão relativo...
Dos utensílios que tenho, os que mais valorizo e com os quais mais me identifico são os meus livros. Dizem tudo sobre minhas preferências e anseios. Lembrei-me de uma obra infanto-juvenil, que li ainda criança, e que marcou minha trajetória de vida: Os Três Irmãos, de Vicente Guimarães. Tendo-o perdido em algum momento da pré-adolescência, tive que reencontrá-lo em um sebo e relê-lo, já adulto. Fala de três irmãos que, podendo escolher entre a riqueza, a força ou a inteligência optam, cada um por uma delas, e o destino deles é descrito na história.
Me identifiquei com a personagem que escolheu a inteligência, recebendo um enorme calhamaço encadernado em que poderia aprender sobre todas as coisas do mundo. E, desde então, vivo a eterna fome de conhecer - que me move, me cerca de textos, filmes e sons, e ocupa meus dias.
Cultos ou incultos, práticos ou teóricos, somos um tanto da matéria que nos cerca. Da forma que com ela lidamos é possível avaliar como tratamos a nós mesmos. Influímos nas coisas e, da mesma forma, somos por elas inspirados ou oprimidos.
De posse dessa consciência, passei a tentar moderar meus apetites super-consumistas, a escolher mais cuidadosamente minhas aquisições e a encarregar-me melhor delas. A organização, a limpeza, a posse do essencial me tornaram mais focado, mais ágil, mais arrumado e feliz. Além disso, fui presenteado com um belo efeito colateral: me sinto, e até pareço, mais inteligente.

“Conhece-te a ti mesmo”! Recomendo a experiência socrática a partir da contemplação do que está a sua volta.


Alienígenas Invadem a Capital do Estado



ALIENÍGENAS INVADEM CAPITAL DO ESTADO
        
Juliano Barreto Rodrigues.

Há uns vinte dias um colega de serviço disse que não tinha dormido direito porque havia sonhado que extraterrestres tentavam implantar um chip em sua cabeça. O sonho fora bem real, motivo pelo qual, ao acordar impressionado no meio da noite, não conseguiu mais pegar no sono.
Querendo me divertir, falei que talvez a experiência tivesse sido real e ele poderia estar realmente com um chip em seu cérebro. Sugestionado, me olhou com uma expressão de dúvida e perguntou: “Será? Vai que estou mesmo?!” Ficou encafifado com isso o dia todo.
A brincadeira me fez pensar na profusão de ideias aparentemente absurdas que pululam nas mentes das pessoas, apesar dos tantos séculos de evolução da humanidade. Ilusão pensar que a era dos mitos acabou. Continuamos inventando explicações mirabolantes para o que não entendemos e criando “realidades” improváveis. Há o sem-número de mitos religiosos, também os pseudo-científicos (do tipo homeopatia, hipnose de regressão a vidas passadas, etc. - que ainda não foram provados pela ciência), e as simples associações supersticiosas que nos fazem interpretar fatos objetivos sob um prisma bem subjetivo.
Não estou dizendo que há algo de errado nos mitos, pelo contrário: são muito saudáveis e necessários, desde que considerados como tal. Nós humanos precisamos de explicação e razão para as coisas – qualquer razão – porque é da nossa essência a dependência de respostas.
Voltemos aos E.T.’s. Coincidentemente, um boato lançou uma nova teoria da conspiração na capital goiana. Os noticiários locais passaram a veicular que várias pessoas teriam tido contatos com seres de outros planetas, tendo algumas desaparecido por até três dias e ressurgido atordoadas. Cogitou-se que uma invasão estaria sendo preparada e que muitos invasores já andavam disfarçados entre nós, ou pior, dentro de nós.
Pânico geral e notícia para mais de mês. Me posicionei com os céticos, mas confesso que vez ou outra, observando algumas pessoas, desconfiei de algum comportamento 'típico de abduzido'. Alguém de meu círculo chegou a me dizer com cara de sabichão: “No creo en ETs, pero que los hay, los hay”. Percebi que, apesar de crescido, ainda tenho presente em mim parte daquela imaginação de criança. Mas confiei (desconfiando) nas minhas convicções e esperei para ver. 
Comecei a questionar essa mania de chip’s. Há uma corrente espírita que afirma que seres do outro mundo se utilizam dessa tecnologia para, implantando-a nos seres viventes, os influenciar positiva ou negativamente. Esse método se chocou com meu arquétipo de seres de além-mundo. Eles, que atuam fluidicamente, estariam utilizando um meio muito atrasado para induzir-nos. A mesma tese argumentei na defesa dos E.T.’s. Me rebateram com MIB, Contatos Imediatos do 3° Grau e até Jornada nas Estrelas (?)
Aspirante a intelectual que sou, logicamente me neguei a acreditar naquilo, mas coloquei em cheque algumas de minhas crenças. Aquelas velhas perguntas que acometem todo mundo me visitaram: Como você acredita em Deus mesmo sem nunca tê-lo visto? Com o tamanho do universo não seria absurdo, e muita pretensão, achar que só há vida na Terra? Apesar de não enxergar as ondas de rádio e a radioatividade elas não existem? Tais questões serviram para me por no meu lugar, me lembrando que só sei que nada sei.
Percebi que somos todos feitos de pré-conceitos, julgamentos apressados e modelos prontos que abraçamos para nos posicionar no degrau do estrado social que acreditamos merecer. 
E o que foi feito da invasão?
A Copa do Mundo arrefeceu os ânimos e poucos ainda falam dos extraterrestres. Eu sou um deles. Ainda procuro pelas testemunhas. Como disse Charles Mackay em 1841, no livro Ilusões Populares e a Loucura das Massas, “As pessoas enlouquecem em manada, mas só recuperam o juizo lentamente, uma por uma.”
Apesar de não ter visto nenhum ser de outro planeta, passei a me dar o benefício da dúvida. Ou será que também me implataram um microchip?



segunda-feira, 3 de agosto de 2015



ENZO

                                                   Wanda B. Rodrigues

Na madrugada fria
penso em você, pequeno ser

Carinha chorosa...
às vezes calmo e tranquilo
no sono
talvez no sonho

Seus olhinhos curiosos
num mundo de luz
de sons
tudo estranho...

Preenche o tempo
entre mamadas
nervosas, irrequietas
gulosas

Permanece presente
no tempo
na vida
no pensamento

Suga o peito
a mamadeira
o sentimento
o nosso amor
para sempre

Tão pequeno
poderoso
Emite sons
ruídos em ouvidos atentos
Reina

Soberano na sua pequenez
Rei na sua graça
sábio na inocência

Ocupa braços
abraços
espaços

És imenso em muitas vidas
cresce no amor
na atenção

Você, meu pequeno,
absorve e absolve
todos os sentimentos
Elo tangível
de muitas vidas

Você Enzo
Para sempre

Vovó



sábado, 25 de julho de 2015



POEIRA DO TEMPO

Juliano Barreto Rodrigues

Guardo antigas memórias de velhas bruxas e homens graves,
De erudição profunda, pince-nez, fraques impolutos,
Internados em seus gabinetes atemporais.
E dos Ticianos, Michelangelos e Gauguins que enamorei.
Relembro tempos parados,
Os cerzidos ingleses, os monogramas bordados,
Armoriais, sapatinhos com laços,
E dos romances franceses proibidos.
Apitos de trens, apitos de bules,
Rendas, chás-das-cinco, coleção de xícaras.
E os cadinhos que tia Úrsula me dava na infância para curar a febre?
E os degraus da entrada da minha velha casa?
Saudade das avós, avôs e tutores,
Com seus relicários, breves e breviários.
E da pedra-de-toque que atestava o oiro que meu pai comprava.
Adorava os cachinhos de bebês imortalizados nas fotografias
Espocadas a pólvora de Barcarena.
Tínhamos medo de São Cipriano.
Benzíamos-nos no tilintar dos sinos da Ave-Maria.
Adorava licor de jabuticaba na tacinha de cristal.
E dramas, comédias, romances, tragédias.
Meus ‘ais’ de amores, de dor, de assombro, sumiram.
Quantos protocolos, brasões, beija-anéis.
E mais broquéis, escudos-de-armas.
Cartas ciganas me revelaram labirintos e rotas dúbias.

Sou baú de bricabraques,
Repleto de impressões, barulhos de crianças, notícias de longe.
Guardei por anos as medalhas, selos, ex-libris e meus tinteiros gastos.
Lembro dos candeeiros dos postes acesos nos fins de tarde,
E dos ladrilhos novos de minha São Paulo,
A sacudir os coches irritando os passageiros.
Que saudades dos praças mortos na guerra.

Ah! Que falta faz minha capa, minha cartola, minha bengala.
Não me lembro de nenhum dos livros do meu santuário,
Embora saiba que ainda me inspiram.

Essa minha outra vida é gostosamente vívida.
Tinha minha oficina de tipos.
Eu era homem do meu tempo.
Lembro vagamente do jornal que dirigi,
Do estafeta sem-juízo de quem eu ria escondido,
E da minha querida Dona Inez,
Que hoje ainda adorna os jardins floridos de minha vida,
Com outro nome.
Agora sou passageiro atrasado de um novo tempo,
Que vivo bem,
Ainda que com a nostalgia de antanho.


quinta-feira, 23 de julho de 2015



                   DIQUE PARTIDO

Juliano Barreto Rodrigues

Maria conteve o choro tanto tempo,
Represando gota a gota,
Que se encheu feito barriga prenhe.
Mas todo açude tem que ter dreno, suspiro ou comporta.
Senão um dia desborda ou rompe barragem,
Alagando o que está abaixo.
É um Deus-nos-acuda,
Arrasta tudo à sua volta.

Que houve, Maria?
Nada, quer dizer, não sei,
É que...
Choveu muito em minha vida.


terça-feira, 21 de julho de 2015

ARADO

Mazzaropi - por William Medeiros

Juliano Barreto Rodrigues.

Vitorino, um matuto de cara amarrada, rijo feito aroeira por causa da lida sem trégua na roça era compadre de Juvêncio, um tipo escorregadio e folgadão com cara de malandro, mas boa gente. Tirando as maneiras e gestos, que os diferenciavam muito, dormindo eram a cara d’um o focinho do outro, bem parecidos.
Há muito Juvêncio, padrinho de “Tainha”, o mais novo dos cinco filhos de Vitorino, procurava um pé para enredar uma conversa sobre o menino. O moleque era esperto que só vendo, mas estava internado com o pai nas grotas, abrindo picadas e derribando mato para fazer pasto, e nada de escola.
Mandou recado ao compadre avisando que iria no seu rancho, na barra do dia seguinte, para tomar o café da comadre Don’Ana, depois o ajudaria no curral com a tirada de leite. Senhor de uma lábia conhecida, iria com os argumentos prontos para chacoalhar o Vitorino. O dedo de prosa seria ligeiro, já que o compadre era homem de poucas palavras, sujeito apoquentado, e a Don’Ana – barata de igreja – logo o puxaria pelo pé, para a missa de domingo.
Avistou a casa de taipa na chapada assim que o Sol apontou. Foi recebido no alpendre por Vitorino, que o mandou entrar. A comadre estava no fogão à lenha, acabando de coar o café, e a mesa já estava posta com cuscuz, bolo de goma, beijú e pêta.
--- Bons dias, cumadi. Como vai vosmicê? O cheirinho do bule tá de revirar os zói. E a cara do cuscuz? Vosmicê sabe que eu tenho um apetite de esmeril da França.
--- Bão dia, cumpadi, tô boa. Vamo chegando. Pegue uma chicrinha aí que eu te sirvo.
Depois do desjejum saíram os dois amigos para o terreiro a fim de pitar um paiero e jogar conversa fora. Sentaram-se perto da moita de Maria-sem-vergonha que rodeava uma Coroa-de-frade e ficaram olhando as criações comendo quirera de arroz e o milho que a comadre debulhava. Ficaram de conversê fiado um tiquinho até que Juvêncio atalhou a falar do menino:
--- Adiscuipa ser meio entrão meu cumpadi, mas queria falar com vosmicê do “Tainha”.
--- O que tem ele? Fez arguma malcriação?
--- Né nada disso não, cupadi. Com licença da palavra, é que já tá em tempo do menino estudá, não tá não?
Vitorino fez cara de quem comeu e não gostou, arregaçou as mangas, arquejou arreliado, e disse tentando não ser um cavalo:
--- Modi o quê o cumpadi tá preocupado com isso? Preciso do menino na lida comigo. Já tá aprendendo o ofício que eu aprendi na idade dele. Todos meus filhos são da terra e tão tudo aí vivendo bem, assim como eu, como meu finado pai e meu avô. Tenho orguio de ter meu roçado, ele também vai herdar isso.
Aquela cantoria de pé de parede iria virar um bafafá se Juvêncio não escolhesse bem as palavras. Sabia da veneração do compadre pela terra, que vinha sustentando sua família há várias gerações.
--- Sei, cumpadi. Quem sou eu pra meter a colher na criação dos seus filhos?! São tudo gente de bem. Mas nada impede que o menino te ajude de tarde e estude de manhã, não é?
--- Óia bem Juvêncio, a escola é a umas três léguas daqui e começa cedo, na hora de fechar as parida. O “Tainha” é quem me ajuda na apartação, na separação dus bezerro, na peação das vaca. Quem labuta na roça não tem tempo pra perder com iscreveção não. Isso vale de que aqui? Adispois, não quero meu filho metido a besta feito os moleques da rua, quero ele homi de verdade. Pra mim só existe vida pra valer é criando e plantando, e pronto.
Antes de continuar, pra botar água fria na fervura, Juvêncio lançou um chiste à comadre, que riu da brincadeira. Vendo que a coisa estava difícil, resolveu improvisar.
--- Cumpadi, tamo falando da mesma coisa.
--- Ah, num tamo não!
--- Meu amigo, o papel em branco é que nem a terra nua, que pode dar qualquer coisa. No descampado pode dar mato, forrageira, Angico, Ipê, planta rasteira ou de floresta, só Deus sabe. Na folha branca cabe um desenho, um rabisco, letras, palavras, o que quer que seja. Vosmicê gosta é de plantar, não é?
--- Hum!
--- Pois então! A página pautada é terra trabalhada. Suas linhas são veios de arado prontos para o cultivo de letras. As folhas são palavras, as frases são frutos, o texto a colheita inteira – que pode ser boa ou ruim, dependendo do que se plantou. Como aqui no seu chão, quem sabe plantar bem terá safras ricas.
O palavrório baqueou Vitorino, que baixou a crista e desanuviou a cara. Desarmou-se e viu a boa vontade no compadre.
--- Tá bão. Vô sortá o cabresto desse menino e dá corda pra ele istudá. Vamo ver no que é que dá. Num vai fazê tanta farta pra mim, ponho os mais véio pra tomá conta da parte dele, e não se fala mais nisso.
--- Ô, meu amigo, vosmicê é um homi que sabe das coisa. Num é atoa que somos que nem irmão desde pequenos. Deixa que os material e o uniforme eu compro, afinal, padrim é feito um segundo pai, num é?
“Tainha” apareceu correndo lá de dentro e pediu a benção ao padrinho.
--- Deus te abençoe, sêo “Tainha”.
Os anos passaram e “Tainha” – quer dizer, Tarcisio – colou grau em Direito. Na formatura foi o orador da turma. Com a voz embargada e os olhos marejando pediu a presença dos pais ao seu lado. Agradeceu a oportunidade de ter estudado e o apoio que lhe deram. Para sua surpresa o pai quis responder.
--- A oportunidade nóis tem que agradecê ao seu padrinho, que tá ali sentado se acabando de chorá. Foi ele quem me mostrou que vaçuncê ia continuá plantando, só que letrinhas, e te deu os campos arados. Os professores te ensinaram a plantá. Eu só aguei quando vi que tava brotando. Só entendia da terra, meu fio, hoje sei que não é só nela que a gente pode cultivá.
Doutor “Tainha” se comoveu. A multidão aplaudiu de pé até não poder mais. O padrinho levantou as mãos para o céu e agradeceu a inspiração de outrora, que tinha lhe valido tão doce fruto e transformado a vida da família de seu compadre.



sábado, 18 de julho de 2015

PAI ESCRITOR


Juliano Barreto Rodrigues.

De repente tenho um bebê. Os nove meses de barrigão deveriam nos preparar para sua vinda, mas não. Apesar de vê-lo algumas vezes no ultrassom e ouvir o batimento do coraçãozinho, ele ainda era meio abstrato. Nossa, ser pai aos 40 é assustador. Se fosse aos vinte teria mais disposição, talvez fosse mais fácil administrar as noites mal dormidas. Por outro lado, pode ser que eu não tivesse tido a oportunidade de fazer tantas coisas que fiz sem ter que cuidar de uma criança. E ainda há a história da ‘experiência’ – atributo elogioso dos mais velhos.
Pensei que a tarefa de ser pai fosse um fim em si mesmo, como se nada mais importasse tanto, como se todas as minhas necessidades de repente diminuíssem. Ledo engano. A estrada me tornou complexo e faminto, um tanto egoísta também. As aspirações são muitas, os planos se sucedem, não dá para ser apenas uma ou duas coisas.
Por causa Dele (com “D” maiúsculo mesmo) o tempo de que dispunha, e que já era pouco para fazer tudo o que gosto de fazer, foi reduzido absurdamente. Nunca pensei que iria ter que dividir em tantas prestações a simples leitura de um artigozinho de revista. O neném chora, é preciso ver se está sujo e trocar, depois dar para a mãe por no peito, aí mamadeira para complementar – lavada, fervida e resfriada – colocar para arrotar, acalmar o pequeno e rezar para que durma. Nisso já vai quase uma hora, num processo que deve ser repetido a cada duas ou três horas. E essas são apenas as tarefas ordinárias, porque ainda há banho, visitas ao médico, arrumar e desarrumar toda a tralha da criança, que tem um guarda-roupas maior e mais especializado que o nosso, e um sem-fim de outras coisas. Bebês têm ferramentas e artefatos que eu nem sequer sabia existirem.
Se quase não consigo ler, quem dirá escrever. Para começar, a falta de noites bem dormidas prejudica a memória, tenho dificuldade de lembrar até nome de pessoas próximas. O humor não fica lá essas coisas, e é preciso um estado de espírito adequado para produzir. Concentração? Nem se fala. O mais difícil são as interrupções.
A solução é escrever como se o fizesse escondido, tendo que correr para não ser pego com a mão na massa. Virei um fugitivo, que tem que sair em disparada o mais depressa possível antes de ser avistado. É necessário fazer tudo de um só tiro, sem planejar, sem rever, sem pensar muito, ainda que possa por a perder o resultado final. Melhor do que nada para quem simplesmente não consegue ficar sem escrever.
Ortega y Gasset disse “eu sou eu e a minha circunstância”. Ela determina boa parte – talvez a maior – do que somos e fazemos. É isso: agora sou um escritor com um neném, tendo que me reinventar com o tempo mais exíguo que me sobrou. Consolo-me na certeza de que sou bom para trabalhar sob pressão, especialmente de tempo. A diferença atual é que meus neurônios estão sempre numa Jam Session, se virando nos trinta.
Dizem que nada amadurece mais um homem do que a paternidade. Se assim for, minha escrita sairá lucrando. Para alguém prolixo como eu, talvez uma boa dose de pressa me torne mais sintético, curto e direto, favorecendo o estilo. Ademais, Ele é mais uma razão para minha arte melhorar: tenho que dar exemplo e ser motivo de orgulho para meu filhinho.
Por outro lado, “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida” (Fernando Pessoa). Não fosse por outro motivo, já seria uma boa terapia para pais aflitos a fuga momentânea da realidade escrevendo. Recarrega as pilhas de forma produtiva.
Sei que ganhei. Não sei se minha escrita ganhará, mas tenho esperança que sim. Eis a contingência da minha circunstância.



quarta-feira, 15 de julho de 2015

ESTULTÍCIA


Juliano Barreto Rodrigues

Mania estranha aquela. Pouco depois que teve contato com seu primeiro computador passou a migrar tudo o que lhe interessava para disquetes. Era adolescente na época e a mãe achava útil aquela brincadeira: fazia com que o menino se concentrasse em coisas importantes – textos, imagens, músicas, vídeos, etc. – em vez de pensar bobagens. Melhor ainda que começou a escrever um diário, também digital. Ia tudo para a pequena pilha de disquetes, que crescia ano a ano.
O surgimento do pendrive deu um upgrade na esquisitice do garoto. Após ter passado tudo que tinha nos disquetes para a nova tecnologia – que pendurava no pescoço atada a um colar – começou a gastar todo o dinheiro do primeiro emprego digitalizando os livros que lera, as matérias de jornais e revistas que lhe interessavam, os documentos que guardava, as fotos de família, para incluir no arquivo digital.
Já adulto ficou maravilhado com o HD externo. Passava seus dias juntando aquilo que considerava o “resumo de sua vida”. A filosofia era absurdamente minimalista: guardar todas as suas referências, tudo o que lhe importava, dentro de algo pequeno que pudesse segurar entre as mãos. Aquela obsessão o fez impopular e motivo de riso.
Não se achava estranho, principalmente levando em conta seu melhor amigo, o Derick, que não punha a mão em dinheiro de jeito nenhum, fosse de metal ou papel. Valia-se das amizades e da sua habilidade de bom amante para conseguir o que precisava com os companheiros e com as malucas com quem ficava.
Numa dessas encruzilhadas da vida, preocupado com alguns sonhos que andava tendo, o colecionador se viu na casa de uma cartomante amiga de uma amiga. A coroa falou de amores, de decepções, de inimigos, e disse que cuidasse de seu pequeno mundo, que estava para ser posto a perder. Nosso herói agradeceu sem entusiasmo, sentindo-se enganado, e perguntou se a mulher aceitaria o pagamento em cocaína.
--- O que vou fazer com isso, rapaz?
--- Ué, a senhora pode cheirar, aplicar, ou vender para alguém.
A mulher pensou consigo "Que moleque louco, cocaína não. Mas até aceitaria uns amassos desse malandro se não fosse o risco das más línguas". Disse ao cliente que voltasse depois para pagá-la em dinheiro – assim, pensou, também teria tempo para avaliar o risco de abusar daquele corpo com cheiro de moleque.
Dois meses depois, seguindo aquela vida deslocada de outsider, o maluco acorda de uma bebedeira de comemoração de aniversário e procura por suas memórias virtuais, e nada. Lembra-se da cartomante com a história da perda. Revira o quarto, revira a casa, põe abaixo o escritório em que trabalhava, liga para amigos, colegas, parentes, sem solução.
O desespero de ter todas as suas referências perdidas por aí o desorienta tanto que não consegue mais dormir, nem trabalhar, nem comer direito. Vai à polícia, investiga sozinho, promete recompensa. Meu Deus, não tinha feito sequer um backup, não havia cópia de nada. Parte da sua ideia era justamente ir se desfazendo de todas as fontes e acumulando todos os dados em um só lugar, que seria seu templo, sua memória extracorpórea.
Noite em sua vida. Não voltava mais para casa, não tinha paciência com ninguém. O delegado chegou a ouvir um receptador, que disse ter comprado o HD de alguém na rua. O idiota disse que apagou o hardware, de forma irrecuperável, porque estava cheio de coisas imprestáveis. Só pegou uma pena de pagamento de cestas básicas. Era o fim.
Sem identidade, sem memória, agora sem endereço, sem amigos e sem emprego, o rapaz chegou ao fundo do poço. Não se reconhecia em mais nada, estava despojado de tudo que o representava. Pensou na morte.
--- Que lixo, morrer sem deixar nenhum sinal de mim... Eu sou um corpo vazio, uma cabeça oca, meu mundo estava naquele HD.

Teve uma iluminação quando leu a palavra “niilismo” na capa da revista Seleções. No raso que se tornara relembrou superficialmente do que achava significar: 'não acreditar em nada'. Pronto, esse agora era ele, o símbolo da negação, do pós-tudo, inclusive do pós-si-mesmo (Só não desacreditava das cartomantes). Daí começou a juntar grão a grão novas histórias, novas memórias, sem aquela mania besta de guardar as coisas fora da própria cabeça.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

CONSUMIDO PELA VINGANÇA

          Após vários dias sem postar - em que estava absorvido por outros projetos - trago a primeira parte de uma novela que estou escrevendo. Acho que seria bem adaptada para HQ. Ainda está sem revisão, mas quero compartilhar:


          CONSUMIDO PELA VINGANÇA


I

Parou o Buick num posto caindo aos pedaços, no meio do nada. “Quem é que monta um negócio a quilômetros de qualquer coisa?” De um salto pulou fora do conversível, que era só poeira, e se esticou para fazer o sangue fluir. Olhou para as botas de vaqueiro, acendeu um cigarro e foi procurar um frentista.
O lugar inspiraria receio em uma pessoa comum. Achou um banheiro antes de ver alma viva. Aliviado, andou até o que deveria ter sido uma loja de conveniência mas não viu ninguém. Por sorte havia algumas garrafas de tequila atrás do balcão. Agarrou-se a uma e, cuidadosamente, voltou a vasculhar o lugar.
Apesar da bagulheira toda, deu para ver que alguém vivia ali ou, pelo menos, vez por outra pernoitava lá. Um colchão no chão e umas peças de roupa jogadas em cadeiras de bar davam-lhe essa certeza. “Será que este muquifo funciona? Preciso de combustível”. Saiu instintivamente para testar a bomba.
Uma, duas, nada! Nenhuma funcionando. Olhou para a estrada, passou as mãos nos cabelos, avaliou a remotíssima possibilidade de algum ser errante passar por ali e ajudá-lo com a gasolina e, por fim, olhou para o relógio: seis e vinte. “Merda! Vou ter que dormir nesse inferno?”
Poderia pegar a estrada e tocar até o carro apagar, aí teria que dormir na beira da rodovia. Se ficasse ali, pelo menos se esticaria naquele projeto de cama, beberia, fumaria e sairia pela manhã. Não é possível que, durante o dia todo, não encontraria alguém na estrada.
Meteu a mão sob o banco do passageiro e pegou seu Smith Wesson, calibre 44, que apelidara de La Cenicienta. Decidiu levar o Buik para os fundos do posto, onde não denunciasse sua presença. Deu uma olhada no horizonte, o vento árido já estava esfriando. Dali a pouco o calor causticante do dia seria substituído pelo frio noturno do deserto de Zacatecas. O sol embaciado parecia estar se derretendo na terra. Seria bonito, se não fosse a situação de estar perdido ali.
“Dane-se, já passei a noite em lugares piores”. Um trago na tequila e mãos à obra, o negócio era verificar se havia energia elétrica e algo para comer. Surpresa boa e ruim: dentro de um frigobar, perdido perto de um corredor, havia pedaços de tacos e quesadillas, além de algumas cervejas e um pouco de leite. Alguém teria estado ali muito recentemente. Será que voltaria? Haveria algum risco de ser atacado? “E daí? Estou armado. Basta não beber demais e cair em sono profundo. Ademais, perigoso sou eu” - e riu-se por um instante.
Fartou-se de comida, bebida e cigarro. Acendeu só uma luz no fundo e refugiou-se em um ponto mais escuro. Cedeu ao sono e acordou sobressaltado sem saber o porquê. Afiou os ouvidos e alongou a vista na penumbra. Sentiu um cheiro diferente, deveria ser coisa da sua cabeça.
Esticou a mão e conferiu se La Cenicienta estava sob a perna. Afagou-a como a um animal de estimação. Mais tranquilo, espichou-se para o outro lado a fim de pegar a garrafa, mas deu com o vazio. Arregalou os olhos e pensou ter cometido um ato falho; deveria tê-la colocado noutro lugar. A dúvida, porém, o deixou um pouco eufórico. O instinto o fez apanhar um cigarro. Teve medo de acendê-lo e chamar a atenção de um possível invasor.
Um trovão ao longe, naquele lugar de um silêncio gritante, pareceu um rufar de tambores. Uma gota de suor escorreu da testa. Só aí percebeu que estava com medo. “O que? Que estúpido! Eu que já enfrentei carniceiros e mercenários, assustar com um barulhinho?” Sacou a arma e levantou-se bem devagar. Esgueirou-se sem as botas, cuidadosamente, com o objetivo de checar em volta.
Olhou para o balcão e imaginou que alguém poderia estar escondido atrás. Apontou o cano da 44 para lá e foi engatinhando lentamente. Respirou profundamente e, de um salto se jogou no vão. Um gato lhe pulou numa velocidade enorme. No susto saiu um tiro que, naquele lugar fechado e vazio, pareceu de um canhão. Num salto estava de pé. As mãos tremiam que mal dava para segurar o revólver. Nem notícia do gato.
O cigarro veio à boca automaticamente. Dessa vez nem pestanejou em acendê-lo. Deu uma tragada fundíssima, que até tonteou. Desabotoou mais a camisa, agora ensopada, e procurou pelas botas. “Que horas são? Meu Deus, que porcaria, por que não amanhece logo?”. Três da madrugada. O som do vento nas frestas assoviava sinistramente. Nada para aplacar a tensão. Não iria mais beber, ficaria lúcido e de olhos bem abertos.
Falta de ar, aperto no peito, claustrofobia. “Tenho que ir lá fora. Quer saber, vou pegar o carro e vou embora. Não! Se a gasolina acaba no caminho, fico pior. Acalme-se cabròn hijo de puta!
Foi até a janela suja e passou-lhe a mão na tentativa de ver as bombas do posto. Com as duas mãos espalmadas sobre as sobrancelhas encostou no vidro e forçou a vista. Nada. Um breu total. Surgiu a vontade de urinar, lembrou-se que o banheiro era externo. “Foda-se, vou mijar numa garrafa vazia”.
Tic-tac, tic-tac, o tempo vai gota-a-gota, como se teimando em não andar. No vácuo, as lembranças começam a assombrar: coisas da infância, brigas, mulheres, bebedeiras, sangue. As quatro mortes que colecionava algum dia seriam cobradas? A simples lembrança de cada episódio fez sua adrenalina subir. Acendeu o último cigarro da carteira.
Um estalo nos fundos o despertou do devaneio com um arrepio na espinha. O pio comprido de um pássaro agourento piorou a sensação. Por que o pio? Haveria alguém lá fora? Lembrou-se de já ter acreditado em alguma coisa além deste mundo, então pediu proteção a Jesus Malverde, o santo chamado de bandido generoso, el rey de Sinaloa. Em outros tempos já tinha até ido à capela de Culiacán e, noutra ocasião, já tinha jogado um pedregulho no monte de pedras que cobre sua cova. Voltou a si. Seria melhor procurar um disjuntor em qualquer lugar que acendesse uma luz externa. “Devia ter pensado nisso antes”.
Passou longos minutos nessa distração, só os ouvidos, hiperexcitados, monitorando o entorno. O cansaço foi pesando e uma pausa para descanso, sentado numa cadeira, se tornou um sono de mais de duas horas. Acordou com ressaca de insone e ficou muito feliz ao perceber o dia começando a clarear. Sentiu-se meio ridículo por ter tido medo de nada e se lembrou que quando criança a escuridão era um terror.
“Cigarro! Preciso de um cigarro e de um belo trago.” Abriu a porta e foi até o carro. Enquanto fumava o dirigiu até próximo às bombas. Olhou aquele céu pintado e se sentiu bem disposto. Foi pegar alguma coisa no frigobar e umas duas garrafas de tequila para levar. Quando voltou, o carro não quis dar partida. Abriu o capô e ouviu um som na estrada. Correu para lá e acenou para um furgão que estava a quilômetro, mais ou menos.
A família de turistas estava indo para uma reserva em Sierra de Santa Rosa, a cerca de trezentos quilômetros dali e foi gentil em lhe vender um pouco de gasolina. Transfundiram o combustível com uma mangueira e foram embora. Estava dando tudo certo. Agora era pegar a estrada. Girou a chave na ignição e nada. Desceu, olhou para dentro do motor V8 e verificou os cabos das velas. Estranhamente, o cabo da bobina estava solto.
“Click”, ouviu atrás de si. Num milésimo de segundo reconheceu aquele som de arma sendo engalilhada. “Finalmente te encontrei desgraciado. Estou atrás de ti desde Cincinnatti. Opa, opa, mantenha suas mãos quietinhas nessa lata velha. Você vai pagar pelo que fez ao Curralito e ao Dom. Agora vire-se, bem devagar.
O rosto que viu era vagamente conhecido. Na verdade, não dava para esquecer um sujeito tão feio com uma catrina tatuada no pescoço. O chapelão engordurado e os óculos escuros tornavam a figura ainda mais grotesca. Estava cedo e frio e, mesmo assim, o indivíduo suava feito um porco esfolado. Falava arreganhando a boca brilhante com alguns dentes de ouro. Não é possível que iria morrer ali, naquele buraco, e pelas mãos daquele traste.
Antes de tentar argumentar levou um tiro nos testículos e caiu, urrando, no chão. Quando o gordo apontou para sua cabeça teve um instinto de defesa e pôs a mão na frente.
II

Abriu os olhos mas não via nada. Sentiu o gosto ferroso de sangue na boca e uma dor aguda na cabeça. Também sentiu doer a mão e as bolas. A pele estava queimando e ainda assim tremeu de frio. Estava delirando? Ficou nesta situação por tempo indeterminado e conseguiu visualizar vultos que acreditou serem de abutres. Apagou!
Acordou num hospital mal equipado, em alguma cidadezinha horrível. Dessa vez conseguiu enxergar tudo embaçado e ficou feliz por não estar cego. Levou a mão na cabeça e ambas, mão e cabeça, doeram. Estavam enfaixadas. Lembrou que tinha levado um tiro nos bagos. Puxou o lençol com a mão do soro e se assustou com o que viu. Aparentemente estava capado. Se agitou muito e gritou por ajuda.
Antes de qualquer enfermeira, entraram dois policiais dizendo que precisavam fazer algumas perguntas. Se ajeitaram com dificuldade no cubículo. Disseram que fora resgatado por policiais rodoviários e, ao que parece, teria passado dois dias esturricando sob o Sol do deserto. Estava internado há uma semana. Seu carro tinha sido encontrado queimado atrás do posto e seus documentos deviam estar dentro dele. Quem era ele? Quem teria tentado matá-lo?
Acostumado a viver fugindo, deu um nome falso e acrescentou que fora assaltado. Inventou que tinha cerca de trinta mil e trezentos pesos e que estava a caminho de Tijuana para tocar em bares. Por ora, a desculpa daria jeito. Os policiais disseram que as informações de identificação não conferiam com os dados puxados a partir da placa do carro. Escapulir dessa foi fácil. Disse ter comprado o carro em Veracruz, a quase mil quilômetros dali e que não tinha feito a transferência ainda, mas que o trânsito estava autorizado.
“Estou inteiro?” - perguntou olhando para a genitália. “A enfermeira disse que você está sem os bagos e que não sabe se o resto ainda vai servir para alguma coisa. Filhos, pelo menos, você não vai ter nunca mais”. Impacientes, foram embora dizendo voltar no outro dia.
Tinha que sair dali, o pulha que tentou matá-lo tentaria acabar o serviço. Primeiro tinha que ligar para a única família que lhe sobrara, seu irmão John e seu sobrinho. Tentou se levantar e não conseguiu. Apertou a campainha pendurada na cama e, dessa vez, uma enfermeira gorda e com cara de poucos amigos apareceu. “Por favor, preciso fazer uma ligação. Quando é que terei alta?” Desfazendo a cara ruim a mulher disse: “Tem um telefone do seu lado, a ligação será cobrada quando assinar a alta, que deve acontecer daqui uns três dias. Você teve sorte de não morrer, mas vai ter que ficar sem experimentar um rabo de saia por um bom tempo.”
Quem atendeu do outro lado da linha foi alguém que se identificou como senhorio do apartamento que seu irmão alugava. Sem meias palavras o homem contou que havia ocorrido um crime bárbaro e seu irmão havia sido espancado e jogado pela janela. Tinham cortado o pescoço do filho dele e estavam, os dois, mortos.
Sentiu uma solidão e uma dor tão profunda que desejou ter morrido. Mas a dor imediatamente se tornou um ódio feroz. Ele e seu irmão não eram próximos há tempos, mas tinha por ele carinho e respeito reais. John era mais velho e sempre fôra direito e trabalhador, além de nunca ter lhe virado as costas. O baque o atingiu de cheio. Largou o telefone pendurado sem se dar ao trabalho de desligar. Naquele instante fez um pacto com o que tinha de pior em si mesmo. Decidiu que iria deixar de fugir e sairia à caça. Não tinha mais nada e nem ninguém, viveria para sua vendeta.
Precisaria de identidade falsa, um carro, dinheiro, teria que mudar de aparência. O homem que o baleou provavelmente teria levado La Cenicienta, teria que arrumar outra arma. Ah, antes de tudo, fugir e sarar das lesões.
Arranjou forças sem saber de onde e arrancou o soro do braço com dificuldade. Pisou no chão gelado e analisou as possibilidades. Onde poderia encontrar roupas de algum funcionário para pôr no lugar daquele camisolão? De preferência com um chapéu ou bandana para não precisar desenfaixar a cabeça. Abriu a porta do quartinho, olhou para um lado e para o outro e caminhou aleatoriamente para o lado esquerdo. Sorte de desesperado: a terceira portinhola que testou deu para uma lavanderia. Uma funcionária o viu e ficou atônita. Mandou que ficasse calada levando o indicador aos lábios. Deveria estar muito feio, porque ela obedeceu sem discutir e ficou apenas olhando com cara de medo enquanto ele procurava o que vestir.
Saiu do hospital pela porta dos fundos, se esgueirando pelas lixeiras que ladeiam o muro do estacionamento de funcionários. Não tinha a menor ideia de onde estava. Avistou uma mulher indo para o carro e abordou-a assim que abriu a porta. Rispidamente mandou que ficasse quieta e a empurrou para o banco do passageiro, fazendo-a saltar por cima da alavanca de câmbio. Dirigiu por três quarteirões, perguntou o nome da cidade, pegou o dinheiro que ela tinha na bolsa e mandou-a sair do carro.
Sua intenção era partir para o Texas, onde encontraria Maria Mercez, garota de programa porto-riquenha, que era o mais próximo de uma namorada que já possuíra. Roubaria outro carro, tocaria de onde estava, Los Condes, até Monterrey e contactaria um coyote conhecido seu, que o passaria pela fronterira com os Estados Unidos. O plano estava traçado.

III

Os policiais que estiveram no hospital já deveriam saber da sua fuga. Tinha roubado um carro e o dinheiro da proprietária. Estava ferido e nem sabia ao certo a gravidade do que tinha lhe acontecido, mas tudo estava doendo. Pegou uma via vicinal bem estreita e deu em uma pequena fazenda. Parou atrás de uma pedreira, perto da porteira, e entrou à pé.
Se esgueirou até uma caminhonete velha, fez ligação direta e saiu dali como se nada tivesse acontecido. Viu, pelo retrovisor, um homem de macacão correndo da casa com os braços extendidos. “Hasta la vista, amigo” - resmungou consigo.
Rumou para Monterrey onde comprou cigarros, cervejas, comida, óleo diesel, remédio para dor e algumas peças de roupa. Era preciso não parar, tinha mais de seis horas de viagem. O melhor seria tocar a noite toda e se esconder durante o dia.
Chegou na cidade por volta de quatro da manhã. Estacionou a caminhonete em uma ruazinha escura e dormiu até as seis e pouco. Acordou, tirou a faixa da cabeça enquanto olhava no retrovisor e concluiu: “Aquele vagabundo me acertou de raspão aqui, mas furou minha mão bem no meio e arrancou minhas bolas. Um chapéu de vaqueiro encobrirá o ferimento da cabeça. Vou comprar luvas de lenhador para esconder a mão ferida”. Comeu um pouco, bebeu duas latas de cerveja e fumou alguns cigarros até a cidade começar a se mexer.
Dirigiu até um mercado onde comprou chapéu e luvas e, ali mesmo, deixou a caminhonte. Andou até um cortiço que bem conhecia, onde funcionava uma famosa rinha de galos, e perguntou a um moleque por seu amigo Aaron. O menino o levou até as escadas estreitas de ferro e apontou uma portinhola no segundo andar.
“Ramirez”, gritou Aaron, “Há quanto tempo, seu puto.” Se abraçaram e entraram juntos no quarto e sala todo bagunçado. Aaron estava sem camisa, ostentando um grande número catorze tatuado em vermelho no meio do peito, símbolo da Nuestra Família, facção nortista rival da Máfia Mexicana sulista. Tirou a bandana rubra e apontou a mesinha de centro, onde havia quatro grossas carreiras de cocaína, uma garrafa de mezcal pelo meio - com a larva de borboleta dentro, garantia do alto teor de álcool - e dois cinzeiros abarrotados.
Aaron cheirou uma fiada, pegou a garrafa, deu dois goles e passou para Ramirez, que bebeu um pouco mais. Aaron estranhou o fato do amigo ter entrado de chapéu em sua casa e fez um gesto mandando-o tirar, o que obedeceu de imediato dizendo: “Desculpe, meu irmão, estava cobrindo um ferimento”. Teve que contar em detalhes tudo o que aconteceu.
Lá por volta das dez chegaram dois amigos de Aaron. Após as apresentações ele mandou que arranjassem para Ramirez uma arma, dinheiro mexicano e americano, um carro “limpo” e procurassem o Papa para lhe providenciar documentos falsos. Antes de saírem, tirou do fundo do sofá um pacote com meio quilo de cocaína e jogou-lhes nas mãos.
A polícia era conivente com o tráfico local de drogas e armas e não se metia desde que recebesse seu suborno semanal. Enquanto os limites da Nuestra Família eram respeitados pelos membros da Máfia Mexicana, as coisas permaneciam tranquilas na região. Estavam em tempo de trégua, negociada por líderes dentro da prisão. Aaron deu um quarto em outro andar para Ramirez ficar e mandou um enfermeiro sujismundo para cuidar de seus ferimentos. Se tudo desse certo, em uma semana estaria atravessando a fronteira com outra identidade.
O enfermeiro disse que a mão demoraria mais a recuperar do que os outros ferimentos. Disse que, sem os testículos, seria necessário tomar testosterona pelo resto da vida. Se prontificou a dar-lhe alguns vidros de hormônio para cavalos.
Depois dessa visita, quando se preparava para descansar, Ramirez ouve baterem na porta novamente. Resmungou uma reclamação e abriu a porta. Assustou-se com o inusitado de ver uma senhora de seus setenta e tantos anos, baixa e roliça, com roupas coloridas e um chapéu curto na cabeça, enfeitado com uma enorme pena verde e brilhante de quetzal. Seus dedos curtos cheios de anéis tornavam suas mãos bem estranhas. Usava colares e penduricalhos nas roupas. “Buenos días”, disse a senhora. “Buenos dias abuela, o que deseja ?
Antes da resposta da velha, Aaron apareceu às suas costas e entrou porta adentro puxando-a pelo braço. Sem se sentar disse: “Esta é Mirella, uma… ‘madrinha’ de nossa gangue. Veio de Catemaco, é conhecida como a Gran-bruxa de Vera Cruz. Traz proteção para a Família e fiz questão que viesse te ver. Sente-se aí”. Ramirez fez o que Aaron mandou e observou a velha.
A mulher ficou parada no meio da saleta um tempo, olhando para todos os lados sem dizer uma palavra. Meteu as mãos nos bolsos, tirou um punhado de pó perfumado, esfregou com ele as mãos e só então puxou uma banqueta, sentando-se em frente a Ramirez, perto demais para seu gosto. Olhou profundamente em seus olhos, gerando um desconforto maior ainda. Antes de falar segurou suas mãos e, surpreendentemente, soprou entre os olhos de Ramirez. “Devo estar sonhando, que diabos de maluquice é essa”, ele pensou.
“Sei que não acredita ‘nessas coisas’, mas deixe que te diga: Você quase morreu várias vezes e, nessa última, passou perto demais. Está meio lá meio cá, ainda não se recuperou direito. Não se pode dizer que você nasceu de novo, isso ainda está em processo. Tudo o que tinha de valor ficou para trás, você não se lembra do seu pai e mal se lembra da sua finada mãe. Vive fugindo e deseja assumir uma nova identidade, que se alimentará de sangue dos seus inimigos. Estou aqui para te ajudar nisso, vou precisar que venha comigo por três dias. Não poderá beber, nem fumar, nem se drogar. Sexo eu sei que você não consegue fazer”.
Pasmado, Ramirez pensou um instante e disse: “Tudo bem, não estou fazendo nada mesmo, vou ter que esperar até as coisas estarem preparadas para minha viagem. Vai ser bom passar uns dias sem cigarros e bebida. Preciso me fortalecer”. Aaron riu, deu um tapa no braço de Ramirez e emendou: “Você sabe que o considero, seu puto. Vá com a velha que eu cuido de tudo aqui. Mas deixe para trás suas preocupações, esvazie a cabeça. Nos vemos na quinta”. Deu-lhe um cumprimento e saiu apressado. A velha esperou na porta.
Levando apenas algumas peças de roupa entraram, ele e a velha, em um carro - com motorista - estacionado lá embaixo. Partiram para uma fazenda nos arredores da cidade e, chegando lá, se reuniram com cerca de outras quinze pessoas. Elas encaminharam Ramirez para um banheiro e a velha mandou que se despisse, se lavasse com o líquido escuro que estava num pote de barro e se vestisse com o pijamão dobrado sobre a cadeira. Depois foi encaminhado para um quartinho vazio onde só havia uma mesinha, sobre a qual repousava um pão e uma moringa com água. Comeu e bebeu. Uns dez minutos depois levaram-no para um lugar escuro, semelhante a uma tenda, onde todos estavam sentados em círculo entoando cânticos e tocando tambores e outros instrumentos metálicos de percussão.
Foi vendado e fizeram-no girar e dançar assim, sem ver nada. O cheiro de defumadores e tabaco era sufocante. Deu para ouvir o som de pólvora sendo queimada e fizeram-lhe beber uma cuia grande de balché. À medida que dançava suas dores iam diminuido e sua disposição e força aumentando. De tempo em tempo paravam-no, passavam coisas em seus braços e dava para ouvir que rezavam. O som dos canticos ficava cada vez mais alto. Apagou!
Despertou deitado e ainda vendado. Sentiu que estava na terra macia. Mexeu os braços para os lados e percebeu que estava em uma cova. O coração foi a mil e quiz levantar. ‘Pof’, uma pá de terra foi jogada no seu peito. Alguém lhe disse: “Calma, tenha confiança”. Obedeceu e se aquietou, embora não gostasse nada da idéia de ser enterrado. Mais duas pás de terra e a cantiga virou lamento. Cobriram-lhe com um pano e silenciaram. Pareceu uma eternidade, achou novamente que estava sonhando. Agarraram-no pelos braços e o arrancaram do buraco. Rasgaram metade das pernas de suas calças, as mangas de sua camisa, e abriram os botões, deixando o peito desnudo. Os canticos recomeçaram. Foi levantado do chão e circularam com ele nos braços algumas vezes. Sentaram-no em um toco.
Foi pintado. A voz da velha chegou a seu ouvido: “Morreu e renasceu. Antes de perder o sentido e ser colocado na cova nós invocamos a criança jaguar-homem e ela identificou seu animal correspondente - o monstro-de-gila. Há inúmeros lagartos pelo mundo e ele é um dos dois únicos que são venenosos. Esse é você. Pela sua aparência pode ser confundido com qualquer outro, em qualquer lugar, mas esconde um veneno perigoso aí dentro. Vou te dizer uma coisa: O mal tem três partes. Para fazer o mal ao seu inimigo você primeiro alimenta o veneno dentro de si e se contamina, depois você o lança contra o alvo e, por último, o mal que tenha feito a ele atinge, em maior ou menor grau, seus dependentes e amigos. Aquele primeiro mal que você alimenta envenena a si mesmo e o aniquila, a não ser que, como no seu caso, você tenha feito um pacto com o mal e tenha se assumido parte dele. Em vez dele o parasitar, ele vai te dar força e proteger. Levante-se.” Ela tirou a venda.
Um dos homens do círculo veio com uma cuia cheia de líquido preto em uma mão e um espeto de osso na outra. Puxou a mão de Ramirez e tatuou, usando o espeto, um cruzeiro de cemitério em seu antebraço. A velha colocou um colar com uma medalha antiga em seu pescoço e uma pulseira de sementes em seu pulso. Disse que jamais os tirasse. A cerimônia durou até quase o nascer do Sol. Dormiu um dia inteiro e sonhou com seres fantásticos, viagens e cânticos e com o monstro-de-gila, personagem que se tornaria recorrente em seus sonhos. O restante do tempo foi de descanso e cuidado dos ferimentos.
Sentia-se revigorado e limpo, preparado para a missão que escolhera. Despediu-se da velha prometendo voltar se sobrevivesse. Ela não pôs fé na promessa, pegou um pó e soprou-o em seu peito, então saiu sem dizer adeus. Deixaram-no no apartamento de onde tinham-no levado.

IV

Não tinha sentido falta da tequila, até porque o balché o deixara bem saciado de álcool. Também havia aspirado tanta fumaça que nem se lembrou do cigarro. Mas Aaron o aguardava para uma festa com todos os excessos que podia imaginar. Haveria muita droga, bebida, mulheres e música, mas não estava pronto para sexo e nem para o resto junto. Queria dormir, mas seria uma desfeita não ir. Esperaria o amigo chapar e sairia de fininho.
Valeu a pena ter ido. Conheceu alguns caras da pesada que tinham conexões além-fronteira e, por coincidência, um deles deu notícias do sujeito que o havia baleado. O vagabundo contou-lhe, bêbado, que aquele tipo estava em maus lençóis com seu chefe em Cincinatti porque não tinha terminado o serviço, estando proibido de voltar até pôr um ponto final no alvo. Falou que quando ele soube que Ramirez tinha sobrevivido voltou até a cidade e, por pouco, não o matou no hospital. Se desencontraram por questão de meia hora. Não esperava que fugisse tão rápido. Estava no seu encalço, agora com mais um assassino contratado.
Essa notícia soou meio indefinida para Ramirez. Se, por um lado, queria topar o desgraçado, por outro tinha receio de ser surpreendido, ainda por cima desarmado, já que não tinham lhe dado uma arma até agora. A sensação, já sua companheira, de estar sendo caçado o trouxe de volta à realidade que bem conhecia. Tinha que ter foco, não estava de férias. Insistiu com Aaron que apressasse a papelada e lhe desse uma arma. Seu amigo mandou um de seus homens levá-lo a um paiol e lhe dar as armas que quisesse. Os documentos ainda não estavam prontos.
Ramirez escolheu uma Desert Eagle calibre cinquenta, uma pistolinha nove milímetros para portar escondida na bota, junto com uma faca, e pegou também uma espingarda de cabo curto com dois canos cortados, calibre doze. Testou todas elas em garrafas nos fundos do casarão da festa. Agora sim, se sentia um homem completo novamente. Estava se sentindo nu desarmado. Relaxou e curtiu a bagunça.
Acordou quase duas da tarde com uma ressaca leve e saiu a procura de Aaron. Seu amigo estava altíssimo de cocaína e falava tudo muito rápido. Mandou Ramirez ir com seus homens até um galpão e pegar um Chevy Impala “limpo” e depois deveriam buscar os documentos com o Papa. “E só saiam de lá quando ele entregar tudo”, gritou.
Após pegarem o carro foram até o Papa. O cara era um tipo de meia idade, asqueroso, viciado e agitado. Deu para ver que tinha muito serviço. Em sua mesa havia uma grande quantidade de fotografias, documentos verdadeiros e falsos, carimbos e chancelas, selos, pó e mais pó, revistas pornográficas, pincéis, canetas, lupas... tudo que um falsário gabaritado precisava. Do lado da mesa havia uma cama e uma televisão. Havia um banheiro fedendo nos fundos. Papa era um indivíduo horrível, mas admirável por suas habilidades. Ramirez agora era José Calderón Flores e tinha ficha limpa.
Aaron, que há muito havia se aposentado do ofício de coyote,  designou um de sua confiança para acompanhar seu amigo até mais próximo da fronteira e mandou que esperassem até que pusesse a mão nos dois que estavam atrás de Ramirez. Mandaria as cabeças num saco. “Não, meu irmão! Agradeço o que tem feito por mim, mas sou eu quem deve matá-lo. Primeiro preciso saber onde está e quem é seu chefe. Pode fazer mais isso por mim?” Aaron abriu os braços e balançou a cabeça para trás, num gesto que significava “claro, idiota!”
Dia e meio depois chegou a notícia de que os seus perseguidores estavam em um rancho nos arredores da cidade. Ele e o coyote iriam fazer-lhes uma surpresa. Seria dois contra dois.
Chegaram na boca da noite e deixaram o carro escondido em um declive que ficava a uns quinhentos metros da entrada do terreno. Aproximaram-se lentamente e com as armas nas mãos. Ramirez preferiu portar a menorzinha, porque não aguentaria o coice das outras duas em sua mão ainda dolorida. O lugar era um lixo, mais parecia um ferro-velho, com carcaças de carros, geladeiras e peças para todo lado. Havia uma luz fraca  no fundo de um galpão cheio de entulhos. Os dois deviam estar lá. Ele e o coyote se separaram.
Parou atrás de um enorme tonel para observar quando ouviu atrás de si aquele “click” que bem conhecia. Largou a arma e virou-se com as mãos para o alto. Não reconheceu seu agressor, devia ser o assassino contratado. “Pouuu!”, o coyote - de longe - atirou no homem que o ameaçava e depois atirou para outro rumo, em algum alvo que Ramirez não conseguiu visualizar. Só teve tempo de pegar a arma no chão e se jogar para baixo de uma carreta. Tiros para todos os lados. Com certeza havia mais do que duas pessoas atirando.
Apurou a vista e, pelo buraco de uma manilha, viu que a segunda pessoa em quem o coyote tinha atirado era um policial com uniforme. Não estava morto. Parecia com um daqueles que tinham-no visitado no hospital. “Merda! Era só o que faltava.” O outro deveria estar lá também. Viu o coyote correr para a direção da saída e ser alvejado na perna. Um vulto ia na direção dele. Novos tiros e o coyote parou de se mexer. O vulto se virou para o rumo de Ramirez, mas estava a cerca de uns oitenta metros. Seria o  outro policial ou o assassino?
Ramirez viu uma caminhonete parada na lateral do galpão e correu para ela. Quando abriu a porta deu de cara com o assassino. Ele estava sangrando e apertava uma estopa no peito. Estava desarmado e tombado, tentando se esconder. Novos tiros quebraram o vidro traseiro. Ramirez pulou para dentro, deu partida e acelerou à toda, desviando dos entulhos. Arrebentou uma cerca e rumou, aos solavancos, para o primeiro lugar habitado que encontrou. Se embrenhou em uma vila e parou no lugar mais escuro que encontrou. Deu dois socos no ferido e verificou a si mesmo, procurando algum novo buraco de bala.
O assassino estava péssimo, balbuciava algumas coisas e gemia de dor. Pedia “Pelo amor de Deus, não me mate”. Ramirez colocou o cano da pistola em sua testa e não parava de perguntar quem era seu chefe. Quando o homem viu que não tinha jeito, que iria morrer de qualquer forma, entregou o nome do patrão e disse onde poderia ser encontrado. Então amaldiçoou quem o ameaçava e riu de escárnio. Ramirez olhou em seus olhos e disse “Ainda não, verme!”, então deu um tiro em seus bagos. O homem estava agonizando, mas não dava para contar com a sorte, “vai que ele sobrevive...”, pensou. Então tirou a faca da bota e passou-lhe o fio no pescoço, garantindo que morresse, mas não tão rápido. Cuspiu na cara do homem e fugiu a pé.

V

Passou a noite se esgueirando evitando ser visto e, na manhã seguinte, encontrou com Aaron, que estava furioso: “Que merda você aprontou? Um policial ferido, um coyote morto e outro policial furioso perguntando de você. Sorte a sua que os policiais daqui estão nos ajudando, te pintando de vítima de uma perseguição injusta. Mas a historinha não é lá essas coisas. E a porra do corpo que você deixou na caminhonete?! Não bastava dar um tiro no sujeito? Cortar a garganta? E pior, explodindo os colhões dele você assinou sua obra. Pô, hermano, te considero como meu sangue, mas sou um dos gerentes da Nuestra Familia e aqui não agimos com interesses pessoais, mas do grupo. Você pôs a tranquilidade da família em xeque e já há quem te queira morto. Não tem mais tempo e não é bem-vindo aqui. Vou limpar a sujeira que você deixou e também vou cumprir com minha palavra de te deixar do outro lado da fronteira, mas aí você estará por sua conta. E vê se não aparece por aqui por uns bons anos.”
Aaron mandou um dos homens contactar outro coyote para providenciar a travessia da fronteira. Não quis saber de qualquer explicação de Ramirez. Tinha pressa de se livrar dele. Do outro lado os policiais que o tinham seguido não iriam, então voltariam para o buraco de onde tinham vindo.
Ramirez voltou a sentir aquela solidão que o acompanhava há tanto tempo. Não tinha lugar certo nem ninguém de quem pudesse ficar perto sem prejudicar. Sobrevivia um dia após o outro avidamente, por instintinto, embora soubesse que viver assim era quase insuportável. “O que aprontei para chegar a esse ponto? Nem me pareço com o menino que fui. Ah, dane-se, preciso de um trago”.
Por volta das onze o coyote estava a postos. Ramirez arrumou as trouxas, apanhou as armas - a pistola calibre ponto cinquenta, que batizou de Hidalga; a doze, chamada Consuelo; e La Niña, a pistolinha da bota - e foi se despedir de Aaron. Comeram tortillas juntos e beberam duas garrafas de Torito. Se abraçaram à moda dos gangsters e partiram em sentido contrário um do outro.
Enquanto saiam da cidade, ele e o coyote, pensou na atitude de amizade incondicional que Aaron tinha por ele. Tinham crescido juntos até quase a adolescência, quando se distanciaram, mudando de cidade e de propósitos. Enquanto Aaron subia no mundo do crime, ele descia, se tornando criminoso sem querer. Por tantas vezes tinha precisado do socorro do amigo, e todas as vezes fora atendido tão prontamente, que se envergonhava de só lhe levar problemas, sem nunca ter retribuído. O amigo, um criminoso temido e violento, sempre estava lá, nunca exigia nada, o tratava com uma consideração enorme. “Mundo estranho esse! A Virgem de Guadalupe proteja meu único, mas verdadeiro, amigo”.
Pegariam a Carretera Federal 85 até as proximidades de Nuevo Laredo, uma viagem de cerca de duas horas e quinze. Lá, em cerca de dezoito horas atravessariam o Rio Bravo e o deserto até San Antônio, nos Estados Unidos. O frio da noite seria o maior desafio. Quando chegasse em San Antonio entraria em contato com um conhecido seu com quem fizera muitos negócios em outros tempos, um capitão do Syndicato Tejano - grande gangue texana - que poderia ajudá-lo.
Passaria bem por um texano tradicional daqueles meados de oitenta. Usava chapéu de vaqueiro, cabelos quase nos ombros, deixara bigode e barba, seu jeans era preso por um cinturão com detalhes em metal e suas botas chamavam atenção. Não seria difícil se misturar. Queria ver Maria Mercez em Dallas e partir para sua vingança.

Continua em breve...