O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quinta-feira, 21 de julho de 2016



                                                       rIsCaNdO


                                                        Juliano Barreto Rodrigues


Vamos falar de amenidades. Só andar à toa com as palavras, curtindo levemente o ócio criativo. Nada sério ou grave, nenhuma negativa. Deixar fluir, meditativamente, como que vendo aquela chuvinha mole lá fora, deitado na poltrona reclinável, curtindo, sob cobertas, um friozinho de leve, só com o barulho da água caindo. Abstrair.

Coisa de mal abrir os olhos, pegar a caneta despretensiosamente e marcar o papel. Na outra mão, um chá quente de capim-cidreira. Escrever sem conclusão, nem argumento. Nada de preocupação com quem vai ler, só o desbordar de si.

Azeitar as engrenagens mentais e deixá-las funcionando em marcha lenta, sem esforço, quase em silêncio, meramente para exercitar. Nada a dizer, só uma folha a ser largada no fundo da gaveta.

Divagar naquela saudade gostosa dos queridos e das brincadeiras da infância, quando não se sabia o que seria, mas se queria ser tudo. Quando olhar para as estrelas era algo mágico, e na lua havia um dragão. Tempo em que bastava o agora, quando a felicidade se media em um dia.

Escrever assim, com essa sensação. Sem parágrafos, nem corretor ortográfico, sem “obrigado” ou “de nada”. Anonimamente, descuidado do estilo e do temor de julgamento. Bobamente, folgando com a pena na mão e um papel de suporte, numa quase psicografia desmotivada, adorando palavras pelo simples fato de amá-las.

Sossêgo, atemporalidade, ilusão de eternidade. Carimbar as horas com vocábulos, para que existam além de nós.

Pela primeira vez não citar ninguém, não persuadir, nem aparecer. Nudemente grafar, só brincando de a+b, b+r, a+ç, ç+o. E a chuvinha a ressonar, a pele arrepiando de vez em quando.

Momento resumo, aquela hora em que tudo ou nada importam, que o tempo para, que tanto faz a realidade exterior, basta o casulo, o centro do mundo.

Delícia cochilar assim, esticando a letra num traço, que diferente de um laço, não põe fecho em nada. Reticência perfeita para esta escapada sempiterna.




                             CANDEIA

                               Juliano Barreto Rodrigues

Ateio a torcida da lamparina de cristal,
Que bruxuleia a flama num lumaréu anêmico,
E enodoa a griseta de latão doirado,
Mau clarejando um raio curto.

O apetrecho me espelha.
Queimo feito labareda lânguida,
De lume fremilúcilo e raquítico,
Embora cálido e cintilante.

A alvura luminescente
Contrasta com a caligem negra
Que resta da combustão da querosene
E deixa uma fetidez tóxica que identifica a fluida acendalha

Bianco y nero,
Tetro e níveo,
luzente e soturno
lúgubre e rutilante...

A sombra abraça a luz que a cria
Em simbiose perfeita,
Revelando degradês suaves,
Resultantes da dependência orgânica entre ambas.

Assim somos:
Quanto mais luz emanamos, mais intensas as sombras contíguas.
Se em redor há sombras espessas, sinal de que um clarão está vizinho.
A escuridão persegue o fulgor.

E quando o combustível acaba?
A noite engole tudo?
O Sol só permanece vinte e quatro horas no firmamento,
Não se pode contar com Ele o tempo todo.

Para reduzir as trevas, só uma solução:
Várias luzes reunidas lado a lado,
Ocupando sítios estratégicos,
Umas clareando o vácuo deixado pelas outras.





segunda-feira, 11 de julho de 2016



TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO.


                                               Juliano Barreto Rodrigues


Um minutinho só...” é muuuito tempo para quem briga por segundos. Não dá para perder por pouca coisa. Quando me param para algum assunto com o argumento de que “é rapidinho”, fica difícil esconder minha incredulidade e descontentamento. Vivo correndo, faço tudo turbilhonando, bem ao gosto do mainstream Y generation. Só que sou da transição, tenho um pé lá na rua de terra batida, na época do telefone de ficha, da conversa atoa com os vizinhos no portão. E, conforme Cioran (embora em contexto diferente daquele em que ele falou): “Todos somos perseguidos por nossas origens”.

O ritmo das pessoas é diferente. Conversar com quem está aposentado e tem o dia todo para resolver as contingências é bem oposto a falar com o cara que divide o tempo entre o trabalho, a obrigação de levar as crianças ao colégio, o curso que tem para fazer, a atenção à esposa, o almoço, o jantar, e uns 40 minutos para fazer amor umas duas ou três vezes por semana.

Me ressinto com a falta de tempo. Anda difícil parar para ver a arquitetura da cidade, um por-de-sol fora do carro, degustar alguma coisa, deixar de representar o papel de “animal laborans”. Poder viver fazendo exclusivamente o que se gosta então? Nem se fala.

impossível entender o porquê de cada um não estar empenhado só no que deseja. Nós nos perguntamos: “E se ficar difícil se manter?” Como disse o filósofo, sempre dá, na pior das hipóteses, para morrer de fome.

Falando em fazer o que desejamos, lembrei de Fernando Pessoa sentenciando: “[...] Viver não é necessário; o que é necessário é criar. / Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. / Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha / de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. [...]”. Ele alegou querer tornar sua vida 'grande' para a humanidade, ainda que se dissolvesse para isso. Apesar de parecer altruísta, no fundo queria era viver total e egoisticamente seu desejo-paixão em criar.

Um círculo vicioso escraviza aqueles que sonham ser livres: é preciso dinheiro para gozar a vida e, para a maioria dos seres, isso demanda trabalho. Baudelaire, dandi, disse: “o dinheiro é indispensável às pessoas que fazem de suas paixões um culto”. Assim, a solução seria gostar de algo lucrativo. Mas paixão é paixão, e 'álea' está na sua essência.

Lamento porque está se perdendo o tempo da sutileza, das coisas bem-feitas no detalhe, à mão, com valor principalmente por serem únicas nas minúcias. Recordo-me de um artesão que tira dos blocos de barro os santos da devoção das gentes e os vende na porta de sua casa. São peças de uma fina combinação da mão da enxada com o requinte da cabeça do artista. Não negam a ascendência de nenhuma das duas: dá para sentir a força do tato matuto na anatomia das figuras, moldadas por mãos calejadas e dedos grossos e, ainda assim, também se vê as faces puras e delicadíssimas que parecem ter saído de mãos de rendeiras muito caprichosas.

Faz tempo que não sinto alguma sensação levezinha, como a brisa fria na ponta da orelha, um arrepio por uma boa lembrança, um sabor de comida da roça. Sou um homem do meu tempo “não vivo do passado, mas o passado vive em mim” (Paulinho da Viola), não dá para negar. Sou bem adaptado às tecnologias de agora, ao frenesi, aos excessos – inclusive de informação. Mas sofro de uma certa nostalgia e tenho saudades daquela […] aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!” (Casimiro de Abreu).

Então, quando me pedem “um minutinho só...”, sinto que lá se vai um daqueles momentos leves, de abstração, em que poderia estar captando algo de belo, mas terei que gastar tempo com a simples sobrevivência. Sou dependente da reflexão – coisa que não se faz com pressa -, não ajo no automático, gosto de ver sentido nas coisas, e dou valor às frivolidades. Por isso, viver devagar, segundo a segundo, me é tão precioso. Você consegue viver seu tempo?


segunda-feira, 30 de maio de 2016


Depois de um bom tempo sem postar nada (estou preparando um livro técnico) volto a ativa. 



Conjecturando

Sempre faço relações entre a escrita e as outras formas de arte. A comparação me ajuda a entender de maneira mais fácil tanto uma quanto as outras e, talvez, tenha a ver com minha formação (não acadêmica) em pintura, música e escrita. O contato com essas três formas de expressão me levaram a reconhecer a arte como uma coisa só, suas modalidades aprimorando umas as outras. Meu cérebro artístico funciona assim:
- Ouvir uma boa peça musical (e racionalizá-la) me ajuda, por exemplo, a escrever uma ficção tentando alcançar um ritmo, períodos de calmaria, de pré-climax e de climax, e a terminar com uma cadência perfeita. Se eu for pintar, me ajuda também a imprimir o movimento e a harmonia em uma cena, por exemplo.
- Se vejo uma bela tela, aprendo a redigir de modo a não descrever friamente algo e sim mostrar as cenas com palavras, destacando estados de espírito, estímulos aos sentidos, nuances e expressões, etc.
- Se um texto arrebata, o que pinto deve ter a mesma capacidade de imediatamente tocar, prender e impressionar o admirador.
- Uma música deve ter um colorido e as notas dever compor frases interessantes.
E por aí vai.
A relação entre as artes não é invenção minha e há muito publicado nesse sentido. Como disse, lá no século XVII, o pintor francês Charles Alphonse Du Fresnoy: “Um poema assemelha-se a um quadro; deste modo um quadro deveria também assemelhar-se a um poema… Um quadro é muitas vezes considerado como poesia muda; e a poesia um quadro falante” (FRESNOY apud WIMSATT; BROOKS, 1971, p. 320).
Ainda relacionando literatura e artes visuais, destacam-se os estudos da Retórica Visual, que mescla o conceito de retórica - mais afeto à escrita - às possibilidades do desenho, da pintura, do design, etc..
Também a idéia de Ekphrasis, que em sentido amplo significa a representação verbal da representação visual – conceito que eu amplio mais ainda, propondo o vice-versa – vai no mesmo sentido da prova do mutualismo, que acho natural, entre as artes.
No cinema, a transformação do escrito em imagens, inclusive com efeitos especiais e fundo musical (que dá todo um plus de emoção), revela várias possibilidades da simbiose entre as modalidades artísticas.
Sinceramente, não creio que o artista possa viver circunscrito a sua especialidade. Pode até ser que produza somente esculturas, por exemplo, mas a fonte de que bebe deve ser bem mais ampla. A criatividade se alimenta da vida mas, obviamente, a educação do gosto, a sofisticação dos sentidos, a comparação crítica, a percepção de convenções e tendências artísticas, se adquire muito no convívio com as artes e seu meio – no plural.
Não tenho preguiça de fazer analogias. Pensar uma variante artística através de outras ajuda a aprofundá-la. Ajuda também a manter a mente desperta, receptiva e rica de referências.
No final das contas, tudo se resume a uma coisa só: arte! Tanto faz o meio mais confortável e preferido pelo artista para se expressar (aquele em que é mais competente e livre). Arte é arte. Limitar-se é fechar o foco em uma coisa só e se tornar bem menor do que poderia ser.


REFERÊNCIA

WIMSATT JR., William K.; BROOKS, Cleanth. Crítica literária: breve história. Trad. Ivette Centeio e Armando de Morais. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1971.


segunda-feira, 18 de abril de 2016



 TRATO É TRATO


Juliano Barreto Rodrigues


Sofrendo de disenteria e prostração há dias, o coronel Onofre já havia perdido a paciência com o doutor da corrutela e com as raizadas dos palpiteiros. Desaguando daquele jeito, iria acabar morrendo.
A mucama, com dó do sinhô, arriscou sugerir:
– O coroné tá é sofrendo de mal'oiado.
– Quê? Que diabo é isso mulher?
– Mal'oiado, zói gordo, zói grande, inveja.
– Entendi, entendi. Isso é besteira do populacho, superstição da escravaria e de beata cabeça mole.
– Num tá mais aqui quem falô.
Como não sarasse, o velho foi falar com seu compadre Vitorino, homem ilustrado e seu conselheiro fiel. Contou seu calvário e, por último, citou sarcasticamente a sugestão da escrava.
Vitorino riu, recostou na cadeirona maciça de pinho, cruzou as pernas, acendeu um pito, tirou o chapéu e disse olhando com uma cara engraçada para o coronel:
– E o que tá esperando, homem? Mal olhado é coisa brava, derruba até boi no pasto.
– Pare com isso, compadre, desde quando acredita nessas coisas? Vosmicê, um homem viajado e culto... Isso é crendice do poviléu que ignora a ciência.
– Amigo, pau que dá em Chico também bate em Francisco. Sua cabeça pode não acreditar, mas pelo jeito seu intestino acredita – sorriu divertindo-se.
– Será mesmo, compadre?
– Garanto que se a mucama estiver certa, uma benzedura forte te cura daqui para ali. Aplicando no compadre uma boa jaculatória com arruda não há quebranto que resista.
De um salto o coronel se pôs de pé agarrado às calças pelo cinto e, com o rosto em brasa, gritou para Vitorino:
– Ejaculatória? Tá louco homem? Morro mas não tomo desse remédio.
Vitorino também se levanta assustado e quase se acaba de tanto rir da ira do compadre. Após se recompor explica:
– Ejaculatória não, meu amigo. Ja-cu-la-tó-ria! É o nome que se dá às rezas curtas, destinadas uma para cada coisa, que as rezadeiras e feiticeiras repetem na prática de seu ofício.
– Ê, compadre, achei que tava me afrontando, quase perco a cabeça com vosmicê. Inda bem que colocou os pingos nos “i”.
– Quase tomo uns tabefes mas valeu o riso.
A cabana de Don'Ana do Riachão era assustadora. Pau-a-pique, coberta de palha de coqueiro, chão batido, um cachorro furibundo amarrado à porta e um papagaio barulhento a anunciar a chegada de estranhos.
A velha magricela e encurvada sai de lá com uma vara fina de goiabeira, açoita aos gritos o cachorro e ameaça o papagaio. Cospe e pragueja. Com um gesto impaciente manda as visitas entrarem. Dá de costas e vai para dentro.
O interior era mais feio e sinistro do que o exterior. A fumaceira do fogão a lenha tornava o ar irrespirável e neblinava tudo, dando um aspecto de pesadelo. A fuligem tinha empretecido a parte mais alta das paredes e a palha do telhado. Havia um amontoado de penduricalhos para todo o lado que dividia a atenção a tal ponto que não dava para fixar a vista em uma coisa só. A velha então mandou os dois se sentarem.
– Vamo vê que mal aflige vosmicê – disse a senhora enquanto se encaminhava para uma prateleira. Meteu a mão dentro de um caixote onde uma galinha botava e arrancou de baixo da pobre um ovo. Encaminhou-se para a mesinha onde havia uma cuia cheia d'água e quebrou o ovo dentro dela. Conforme a gema e a clara flutuaram formando figuras a velha vaticinou: – Tá com olhado seu dotô, e é coisa séria. Pague a mesa com 300 réis.
– O que? É muito dinheiro para acabar com uma caganeira. Vosmicê tratando de desarranjo daqui a pouco compra minha fazenda.
– O coronel é que sabe.
– Vamos deixar de conversa. Dou 100 e, se ficar bom, volto com mais 100, combinado?
– Tá bão. Mas se o sinhô não voltá, a coisa vai ser pior.
Vendo a cara de ultrajado do coronel, Vitorino pegou-o pelo braço e cochichou em seu ouvido. Onofre sacudiu a cabeça e remexeu impaciente o porta-moedas. Então pôs na mesa o dinheiro.
A anciã mandou o homem ficar de pé no meio do cômodo, deu-lhe um pote com água para segurar, pegou um galho de arruda no quintal, uma pena e um punhal e começou a operação mágica agitando o ramo, como se varresse o corpo do coronel, enquanto dizia:
– Com dois te puseram, eu tiro com três: Arruda, ponteiro e pena de um galo pedrês. Com erva forte e reza brava curo feitiço, olho-gordo e quebranto, mal que fere e mal que mata, tiro e atiro prum canto.
Jogou a planta na mesa e pegou o punhal. Com ele ia fazendo cruzes em todos os lados de Onofre e recitando:
– Com ponteiro corto o mal. Cruzo a proa, cruzo a popa, cruzo bombordo e estibordo, cruzo o mastro e cruzo o casco. E assim corto todo embaraço.
Largou o punhal na mesa junto com a arruda e tomou a pena. Apontou para a cabeça do coronel e fez cruzes de longe.
– A pena traz alívio e proteção, do povo de lá e do povo de cá. Valei-me todos os velhos feiticeiros, que todo mal hão de levar. – daí juntou os utensílios usados e embrulhou com um pano, para despachá-los depois.
Terminada a obra, a velha levou o coronel até o umbral da porta, o fez ficar de costas para fora e mandou que atirasse a água para trás, por sobre a cabeça. Assim feito, mandou os compadres embora.
Dias depois o coronel estava feito novo e recebeu visita de Vitorino.
– Como está meu compadre?
– Muito bão meu amigo. A bruxa parece que tirou com a mão o que tava me aporreando.
– Voltou lá para deixar os 100 réis?
– Qual o que?! Nunca vi cobrar por reza. Ela já foi mais que bem paga pelo que fez. Exploradora!
Vitorino fez cara de reprovação mas não quis prolongar o assunto. Pensou consigo: “rico só é rico porque é muquirana. Espero que meu amigo não se arrependa”. Não deu outra. Pouco tempo depois o coronel foi acometido por uma forte constipação. A mucama alertou:
– Vá em Don'Ana, sinhô. Ela te cura do vento-virado.
– Aquilo foi coincidência, mulher. Ademais, o remédio dela é muito caro. A embusteira vive à custa do desespero dos outros. Não me engana mais.
Dez dias até a morte. O coronel deixou muito dinheiro para seus dois filhos pródigos dizimarem. No enterro deu muita gente. Vitorino lamentou a cabeça dura do compadre e, com a impressão de ter visto a feiticeira no meio da multidão, lembrou-se da frase de Hamlet: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. Pensou consigo que, às vezes, as pessoas põem tudo a perder por pouco. O combinado não sai caro, desde que se cumpra o acertado. De repente, uma dor de barriga pontiaguda o atingiu. Persignou-se e sussurrou para ninguém:

– Não se subestima aquilo que não se entende – então saiu do cemitério às pressas à procura de um banheiro, com a lição aprendida e com mais uma história para contar.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016


                         MÓ

                                                   Juliano Barreto Rodrigues


Roda gira
e de repente pega de birra,
aí é um deus nos acuda:
parece que tudo que andava desanda,
que o leite derrama,
e até óleo engarrancha.


Então, é hora de aquietar um pouquinho,
não se apressar no caminho,
respirar fundo, bem devagarinho.


Que a tempestade passa
e a roda do moinho roda.
Basta não ter desespero
e não fazer qualquer bobagem.
De hora para outra entra a aragem,
trazendo a alegria de volta do desterro
a mó não tritura mais o peito
e a gente lembra que para tudo tem jeito.







quinta-feira, 21 de janeiro de 2016







































Nossa, dando uma olhada em outro blog em que não publico faz tempo, vi um poema bem 'viajante' que escrevi há dez anos e que quero compartilhar:



PROTAGONISTA

                                               Juliano Barreto Rodrigues


Convulsivando escrevo.

Exilado voluntário

Ou, pelo menos, permissivo.

Me submeto!

Já quase sem-vergonha...

Mas ainda esperneando.

"Tesoiros"

Nasci pra viver do luxo,

Debochando da high societ,

Torrando dim-dim àtoa,

Desfilando etiquetas

Visuais da moda e "gatabundas"

(Hum... a elas meu respeito).

Festa todo dia,

1.000.000 de amigos volúveis,

Um montão de inúteis pra gente se distrair.

O + do + são as aparências.

Oscar Wilde já dizia:

"É preciso ser muito superficial

Para não julgar pelas aparências".

Bendita hipocrisia,

Doce falsidade,

Desonrada virtude.

Blablablez quase útil.

Bonjour!

Arigatô!

Fuck you!

OPS!

Pardon!






quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Guilda Familiar



                       GUILDA FAMILIAR

                                                                                Juliano Barreto Rodrigues

Meu pai e meu irmão constroem coisas. Coisas úteis.

Encaixam, acertam, reformam.

[Também construo coisas: Imateriais e concretamente inúteis].

Arrumam a cama quebrada,

[Eu inscrevo os prazeres na cama].

Montam o guarda-roupas,

[Em que minha mocinha esconde o amante].

Fazem casas,

[Onde torno vivos personagens].

Remendam o pneu do carro

[Que meu protagonista usou para fugir].

Batem o prego,

[Que é o mesmo cravo do ataúde do vilão].

Empoam de trabalho as mãos

[Em que a cigana do meu conto lê tantas venturas,

E que são diferentes das minhas mãos lisinhas e limpas de trabalhador da palavra].


Somos iguais! Ambos construtores.

Eles constroem pontes

Para os céus que crio.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016


















Imagem de Henrique Resende. Disponível em: <http://focusfoto.com.br/o-amadorismo-e-uma-dadiva/> .

MANIFESTO EM DEFESA DO AMADORISMO ARTÍSTICO


                                                                                              Juliano Barreto Rodrigues.


A natureza da gente é uma coisa estranha. Apesar de uma certa individualidade, tendemos a ser iguais aos outros na maior parte do tempo. Aliás, é para isso que somos educados, em linha de produção, desde crianças. Somos feitos para seguir padrões, para sermos convenientes, para não causar problemas. Tudo bem, entendo que isso seja necessário para o convívio e a paz social, mas é inegável que tolhe absurdo a criatividade, a autoconfiança e a ousadia.

Se essas três qualidades são desejáveis para a maioria das atividades humanas (do sexo às profissões), são essenciais no artista. Romper com os moldes, ir além dos materiais, suportes e limites, parindo algo novo são, nesse métier, o feijão com arroz. Na minha opinião, não há arte sem transgressão, seja da forma, do espaço, do autor, ou do que for. Até por isso, não entendo bem a arte encomendada ou como profissão.

Lendo um texto intitulado “Se Você é Autor”, de Paulo Tedesco1, fiquei sabendo que Dante Alighieri foi quem instituiu o conceito de autor na literatura ocidental, a quem Eduardo Sterzi considera como aquele literato senhor da própria “vontade de dizer”, contrariamente ao escritor, que produz “submisso a vontades alheiras, a expectativas e encomendas senhoriais”.

Trazendo a discussão para minha experiência pessoal, o que tenho pregado, nas coisas que escrevo e faço, é justamente essa preservação da voz própria, da manutenção da autonomia absoluta da vontade, bem como o cultivo e fruição da arte pela arte. Até por isso, o blog em que escrevo não tem meios de gerar qualquer tipo de renda. Vou além: tenho dúvidas se deveria ou não publicar (ou até querer publicar) livros com meus rabiscos. É que tenho medo de ser dirigido, revisto, ou ficar egocentricamente dependente da necessidade da autoafirmação de ter meu nome em livros.

O simples fato de escrever para alguém ler já é um limitador. O controle do que se vai dizer é inevitável, afinal, há um diálogo, com todas as suas regras e moderadores. Nesse sentido, os diários, poemas escondidos, coisas escritas só para si mesmo, para mim têm um valor artístico delicioso. São confidências íntimas, desbordamentos puros da alma. Revelam, sem lapidação, o estilo e o sentimento de quem escreve. Pena, para nós, que esses escritores de alcova raramente se revelem. Imagine quantas maravilhas assim já foram escritas e se dissolveram, com o tempo, no fundo de gavetas.

Esse negócio de “voz própria” tento preservar a todo o custo, especialmente nos poemas. Desde que escrevi o primeiro, aos onze anos, sempre cuidei de praticamente não ler poemas alheios para não contaminar meu estilo com o dos outros. Alguns vão dizer que isso é um absurdo, mas não importa. Sinto liberdade total na poesia. Dou-me o direito de levar a lume só o que quero que os outros leiam, e tenho desapego suficiente para aceitar que alguns vão gostar, outros não – prazer e reflexão são meus únicos objetivos (e acredito que de toda obra artística).

Tenho escrito coisas boas, outras nem tão boas assim e algumas ruins. Há destas publicadas no blog. 'Por que não publica só o que tem de melhor?' - você pode me indagar. Melhor para quem? Gosto é subjetivo e, além disso, a ditadura da beleza convencional é um saco. Publico o que sou: uma hora estou no ápice, noutra para baixo, de repente superficial, daqui a pouco profundo, é basicamente isso.

Não é que não tenha respeito pelo leitor. Muito pelo contrário. Quando publico estou escrevendo para ele, sem máscaras nem medo de me expor. Além disso, tenho muita consideração comigo mesmo e com a arte que professo. Se posto algo é porque acredito no seu valor estético, ou intelectual, ou na sua capacidade de deleitar de alguma forma (ou tudo isso junto).

Fico pasmo quando um artista me diz que descobriu seu estilo e que tem que ser fiel a ele, não podendo mudar aquele feitio, que faz com que sua obra seja reconhecida de pronto, ainda que seu nome não esteja escrito nela. Aí, o criador vem antes da criatura, esta que, no caso da arte, deveria ser a coisa mais importante. Esse artista relega para segundo plano todas as incontáveis possibilidades criativas que teria, só porque quer ser conhecido. Na minha forma de ver, corrompeu-se. Como disse o ator Marco Nanini, o artista que se acha acabado [pronto, completo], realmente está acabado.

Entendo que há fases, como do pintor que passa um período obcecado pelos tons pastéis ou por pintar naturezas mortas. Mas isso não o prende. Porém, quando se bitola, fazendo só uma coisa porque teve sucesso com ela, se torna comercial. Ouso dizer que deveria ser desclassificado como artista. Vira artesão, repetidor do modelo que criou. Em sua defesa, pode dizer que está explorando todas as possibilidades do veio que descobriu, mas acredito mais na vaidade. Já ouvi dizer: 'para que mexer no que está dando certo?'. Certo em que sentido? Em arte não existe certo ou errado, há o que toca e o que não. Ainda assim, o que toca Mariana não toca Jasmim. Aliás, até a obediência da arte ao mainstream deve ser rechaçada em favor da plena liberdade imaginativa.

O rótulo é o problema. Por isso não escrevo só poemas, ou contos, ou crônicas, escrevo o que dá na cabeça, pinto quadros, ouço e toco músicas, me envolvo com qualquer coisa criativa que me interesse (grande pecado em tempos de endeusamento da especialização). Também por isso, tenho restrições à ideia de viver de arte. Quero lançar livros somente se eu sentir que é o meio para dizer o que desejo, e não por dinheiro ou pelo status de ter meu nome numa capa. Gasto tempo, muitas vezes dinheiro, para produzir minha arte. 'Qual o retorno?' - podem perguntar. Não há um retorno capitalista, socialista, ou qualquer outro “ista”. É pressuposto da arte sua inutilidade prática. O que se espera dela é sensível e espiritual, num sentido intelectual. Não me dá dinheiro, mas satisfações outras, que fazem com que sempre compense.

Em tese, basta um diletantismo ativo, ou seja, que o artista se dedique e produza por amor ao que faz. Defendo esse amadorismo (no sentido que o senso comum empresta, equivocadamente, à palavra, considerando-a antônimo de atividade profissional). Para mim, todo aquele que pode ser denominado “artista” é um amador, não um trabalhador ou empresário da arte.

Mas minha opinião seria muito excludente – e não me deixaria contra-argumento no caso de algum dia a arte me enriquecer – se não considerasse que há artistas de verdade que ganham muito dinheiro com suas obras sem, no entanto, caírem no defeito da produção por encomenda ou da produção de quase-cópias dos feitos que os distinguiram. A questão está na liberdade e no sentido do que geram. Se simplesmente o fazem porque amam e não conseguem deixar de fazer, e o fariam mesmo que tivessem que dividir o tempo com uma profissão propriamente dita; se criam o que querem, quando e como querem, sem olhos para o mercado – mesmo que fiquem ricos com arte, não a viverão como profissionais, no sentido comum da palavra.

Considerar a arte uma profissão é destituí-la de sua aura mágica, acabando com o romantismo. Acho esquisito ouvir cantores dando entrevista e dizendo “essa á minha música de trabalho...”. Pergunto: “trabalho?”. É uma visão completamente voltada ao mercado de consumo. O que se pretende é ganhar dinheiro. Tanto assim que, várias bandas que começam tocando e compondo Rock and Roll por afinidade e paixão, de repente passam a tocar pagode e, daí a pouco, música sertaneja, seguindo qualquer rumo lucrativo. E a arte? Morreu lá atrás, quando se vendeu a alma. Entendo que, profissionalmente, se faz o necessário, às vezes o que se detesta fazer, porque o contexto exige. Mas isso não combina com arte. Então, defendo o amadorismo e afirmo: Arte é Arte, não profissão. Palavra de artista!


1 disponível em <http://www.oficinaliterariaonline.com.br/?cid=5246&wd=Reflex%F5es>



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

















INHO EXUPERÍLICO

                              Juliano Barreto Rodrigues


Sou uma alma ator... mentada
Ou, antes, caberia 'mentolada'.
Feérica alegoria em-si-crispada
Em recidiva adolescência agoniada.

Estou cada vez mais velho
E tão mais inocente que uma criança
(como dizia Pastinha)
Sou espantalho vesgo de Aurora.

Menino bobo que Deus protege.
Chinelinho gasto e ombros largos.
Feinho feito a menina da ponte da Lapa,
Olhos gulosos de comilão de papéis.

Sou o abraçado pela alfombra, pela alcova, e pela sova,
Abocanhado pelos livros e as sobras.
Sou ninguém e um talzinho,
Resumo de tudo e um pouquinho.

Caibo em três palavras
E em nada.
Cópia do criador!
Mas inacabada e enviesada.
E, ainda assim, dono de uma enorme estrela,
Bela e rara.