O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quinta-feira, 13 de junho de 2019


PALAVRA-CHAVE

Juliano Barreto Rodrigues

E o verbo se fez substantivo e habitou entre nós.

Elogiando a própria criação, Deus a adjetivou.

No esforço de unir todas as coisas, fez conjunções, preposições e conectivos de forma geral.

O Diabo criou os advérbios, os sobrenomes e palavras novas, tipo “cerca”, “dinheiro”, “meu”, “sou”, “tenho” etc., investiu nos duplos sentidos, estigmatizou a maçã e, principalmente, estimulou a fragmentação, facilitando o surgimento de uma Babel de línguas diferentes.

De modo que a palavra, antes sagrada, dessacralizou-se, profanou-se. A partir dela – que passou a servir, na mesma medida, a Deus e ao Diabo – tornou-se fácil, aos homens, ir ao céu e ao inferno. Assim, de todas, só uma palavra restou definitiva:

ESCOLHA!


Dicas para resenhistas literários (booktubers, blogueiros etc.)

ESCREVENDO RESENHA LITERÁRIA I
Ponderações para booktubers e blogueiros


Juliano Barreto Rodrigues


1. Diferença entre resumo, resenha e crítica especializada

Resumo é uma síntese de texto, seguindo fielmente as ideias do autor. No resumo (que pode ser parágrafo por parágrafo ou mais global) o redator faz a seleção do que considera mais importante e, com suas próprias palavras, escreve um texto que não foge daquele que se está resumindo e nem acrescenta opiniões e anotações pessoais. É objetivo.

A resenha trata do texto (ou vídeo, ou música, etc.) mas é subjetiva, no sentido de que é um comentário crítico acerca daquilo que é resenhado. Pode conter ou não um resumo e, muitas vezes, vai além do seu objeto, dialogando com outros textos, ou com a história, ou com outros campos do saber, etc.

Bater uma resenha” significa, coloquialmente, “bater um papo”. Isso mesmo, conversar com tempo, trocar uma ideia mais a fundo sobre qualquer tema de interesse. É uma definição que me agrada mais do que qualquer outro conceito metodológico científico para definir resenhas literárias. O “papo” pressupõe um assunto pelo qual os resenhistas têm afinidade (e aqui é importante destacar que a resenha – ou sua leitura – é um diálogo1).

Os principais instrumentos de apresentação de argumentos da crítica especializada são a resenha crítica e o ensaio. Esta resenha se diferencia em quê daquela falada no parágrafo anterior? Basicamente, é escrita por especialistas (legitimados de alguma forma, seja pela formação universitária específica ou pela atuação profissional, ou por qualquer outro meio que lhes confira autoridade no assunto). Normalmente tem um viés mais técnico, utilizando uma terminologia comum à Teoria Literária e uma metodologia científica. Mas, na prática, não há regras nesse sentido. Há críticos – principalmente jornalistas e escritores – que escrevem mais “coloquialmente” ou até de forma parecida com a escrita de literatura mesmo.

2. Quem faz a resenha?

- Os que têm obrigação: estudantes; críticos literários; profissionais de cadernos e revistas literários; o pessoal das editoras, para promover suas publicações; leitores beta2; enfim, qualquer um que tenha obrigação funcional de opinar sobre um texto ou livro.

- Os blogueiros e vlogueiros literários3 – boa parte escritores (mas nem todos), querendo criar um público e chamar a atenção do mercado editorial para si e para sua forma de escrita, o que facilita em muito com que sejam aceitos e publicados por alguma editora.

- Qualquer um que queira dar sua opinião e apresentar seus argumentos sobre alguma leitura que o interessou.

3. Para que resenhar?

Primeiramente: para dar opinião (digna de ser ouvida – ou lida) sobre uma obra.

Vários são os motivos que levam alguém a resenhar um livro. Seja como exercício para memorizar melhor seu conteúdo ou para mergulhar mais profundamente no texto (procurando as tais mensagens ocultas nas entrelinhas ou a questão central da obra), seja para atender a uma demanda profissional (caso dos críticos contratados ou de alguém responsável pelo marketing e venda da obra), a resenha é uma forma de dar a conhecer a obra sem, no entanto, detalhar conteúdos que exauram a vontade de ler do leitor nem antecipem as surpresas da trama (ou seja, sem “dar spoiler”).

Pelo viés do leitor editorial, João Varella, editor da Lote 42, ensina, no curso Pulse – Publique Livros, Crie Editoras, que “se você quiser aprender a dar dicas macro4 para escritores, o melhor caminho é treinar fazendo resenhas de livros, dizendo o porquê de ter gostado ou não ter gostado”. Isso serve também para apurar as habilidades do leitor beta, ou do leitor crítico5, de repente até de alguns preparadores de texto (revisores) – sei lá, tudo agrega.

Agora, para quem pretende ser escritor, ter um canal (blog, site, vlog, etc.) em que publique resenhas bem-feitas é um ótimo meio de atrair a atenção das editoras para si e, mais que isso, de formar um público próprio antes até de escrever o primeiro livro – o que conta imensamente quando ele estiver pronto e a editora for analisar se é publicável e promissor, como produto vendável, para eles.

4. Resenhistas em jornais e revistas, blogueiros e booktubers.

Jornais e revistas têm linha editorial e um controle profissional de escolha, qualidade e adequação de conteúdos. Por serem negócios – dependentes de lucro e com concorrência – não podem se dar ao luxo de permitir que um resenhista diga o que bem entender, sob pena de criar uma crise que pode prejudicar o nome da empresa. A própria escolha das obras a serem resenhadas não é aleatória nem obedece, necessariamente, ao gosto pessoal do resenhista (é comum que um editor defina as obras). Assim, sua responsabilidade é grande, já que é um porta-voz da revista ou jornal que representa. Sua credibilidade está associada ao grau de liberdade que consegue apresentar e à força dos seus argumentos na resenha, o que faz com que os textos profissionais quase sempre sejam mais técnicos e abalizados do que os dos blogs e vlogs pessoais. Textos mais “leves”, nas revistas especializadas principalmente, quase sempre vem de escritores consagrados, celebridades literárias ou jornalísticas, que são convidadas para falar dos textos alheios.

A grande revolução trazida pela internet no âmbito da comunicação está no fato de que o controle saiu das mãos dos meios profissionais de comunicação e foi para as dos próprios usuários. Hoje, qualquer pessoa produz e publica o que quer na rede, podendo ser visualizado mundialmente. Isso vale também para livros e autores, produtos antes publicados só por editoras e que hoje são autopublicados em blogs, ou no Wattpad, na Amazon, na Saraiva e em vários outros sites. As pessoas têm voz, um canal livre para se divulgar e àquilo que fazem.

Nesse contexto de total independência é que surgiram as resenhas dos blogs e vlogs. Não há regras fixas, cada um diz o que quer. Há até quem faça, por incrível que pareça, “resenha” de livro que nem leu ainda. Os blogs, e principalmente os vlogs (porque seus conteúdos são em vídeo) têm um alcance de público muito maior do que os jornais e revistas (e quase sempre diferente, dependendo do formato da publicação).

A maioria das resenhas dos booktubers têm um tom muito coloquial e individual, já que o vlogueiro quer chamar a atenção, antes de tudo (do livro inclusive), para si e seu canal, alcançando seguidores e números expressivos de visualização. Para fidelizar seu público, a frequência de postagens de novos vídeos tem que ser relativamente grande, o que pode comprometer negativamente a capacidade de leitura profunda e de resenha das obras.

5. Uma crítica impressionista.

Pessoas que não conhecem Teoria Literária podem falar de literatura? Ou isso é exclusivo a “iniciados”? É claro que podem. Afinal, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, a teoria literária ou a literatura e o leitor? Como disse Verônica Valadares, do canal Vevsvaladares, criticada por falar de Dostoiévski, “O único pré-requisito para você poder falar sobre literatura é ler o livro. Isso vai te fazer ter cacife para falar de literatura”. 
 
Nas palavras de Cory Doctorow (apud SHIRKY, 2012, p. 86)6: “O fundamental é a conversa. O conteúdo é só uma coisa sobre a qual conversar”. As resenhas literárias, profissionais ou amadoras, sempre tiveram, historicamente, essa função de lançar à discussão a literatura em si, através das obras literárias, para que todo o cenário evolua. O preconceito existe apenas dentro da Academia (Universidade e Associações Literárias), mas aparentemente não atinge o deus da relação com o livro: o leitor (que é quem, afinal, interessa).

6. Existe crítica isenta?

Não. Toda crítica pressupõe um julgamento, e todo juízo de valor é subjetivo (ainda que se tente dar ares de objetividade na forma de analisar, argumentar, redigir e apresentar conclusões). Todo o embasamento que é feito – trazendo citações, referenciando estudos e pesquisas importantes, apresentando comparações, estatísticas... – não passa de justificativa para os próprios argumentos. 
 
Tentar parecer o mais isento possível tem a ver com o público a que a resenha se dirige. Por exemplo: ao que parece, o público dos booktubers mais conhecidos se interessa mais na opinião pessoal de seu vlogueiro preferido (alçado ao status de celebridade) do que nos argumentos objetivos da resenha. Para esse público, notas de sinceridade e referências ao impacto pessoal da leitura são muito mais interessantes (isenção zero, e sem disfarces).

Se não existe isenção há, no entanto, modos e modos de dizer: a crítica pode ser moderada (diplomática), pode ser direta e franca (supersincera), positiva (de incentivo, destacando as partes positivas) ou negativa (maldosa, leviana, vingativa), abalizada ou de mera opinião, rasa ou profunda, e por aí vai. O papel é um burro de carga, carrega o que se colocar nele, mas é bom lembrar que quase toda crítica gera respostas e é preciso estar preparado para as consequências.

7. Olhar 180º, 360º ou muito além (olhar de RX e visão além do alcance - “Olho de Thundera”). Segredos dos bons críticos para os resenhistas.

Quando se abre um livro completamente, isso é feito em 180º. Nesta posição, o que se vê é o texto das páginas, só isso. Olhar em 180º é uma maneira de dizer que o resenhista se aterá somente ao texto em si, fazendo um close reading, não estendendo sua análise a elementos extra, como design do livro, capa, tipo de papel, contextualização com outras obras do autor, etc.

O olhar em 360º ilustra o movimento de virar o livro em todos os ângulos e discutir sobre a capa, a composição gráfica, a quarta capa, tipo de papel, fonte utilizada, design, ou seja, coisas que vão além do texto, mais ligadas ao objeto livro.

Um olhar de RX consiste, em ver além do texto, procurando ver mensagens de fundo, intenções do autor, contextualizando-o historicamente e em relação às outras obras do escritor e à sua fortuna crítica. 
 
E o que seria a brincadeira do Olho de Thundera, da “visão além do alcance”? Consiste na feitura de paralelos com outras áreas do saber, na inter-relação com outros autores e escolas literárias, com outras formas de arte, com a política, a religião, etc. Também na cogitação da influência que a obra analisada tem na obra global do autor, na evolução literatura em geral, no desenvolvimento do leitor, e assim por diante, levando a discussões que podem seguir para qualquer rumo, e que têm como limite apenas o arsenal cultural do resenhista.

8. Crítica e autoestima dos autores.

Quem ler Um Editor de Gênios, de A. Scott Berg (Intrínseca), biografia de Maxwell Perkins, um dos maiores editores de todos os tempos, verá o quanto a crítica, principalmente a ruim, afeta a autoestima, a produtividade e a escrita dos autores. Ele editou F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe e muitos outros. Alguns chegaram a pensar em deixar de escrever por serem criticados.

Levando em conta que a crítica ruim afeta o autor, é preciso considerar: 1) um escritor não nasce pronto, evolui à medida que escreve; 2) criticar é muuuito mais fácil do que escrever. Se é gasta uma semana para escrever uma resenha, são gastos meses – até anos – para escrever um livro. 
 
Portanto, respeite a carga7, o trabalho do autor, do editor, etc. Não digo para só falar bem de tudo, mas vá com cuidado, positivamente, com jeito. Como eu já disse antes, há formas e formas de dizer verdades, procure a menos dolorosa e que traga um incentivo para a melhora, não para a desistência.


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BAYARD, Pierre. Como falar dos livros que não lemos? ; tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

CANDIDO, Antonio. Crítica impressionista. Remate de Males, Campinas, SP, dez. 2012. ISSN 2316-5758. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8635988>. Acesso em: 05 abr. 2018. doi:https://doi.org/10.20396/remate.v0i0.8635988.

JEFFMAN, T. M. W. . Literatura compartilhada: uma análise da cultura participativa, consumo e conexões nos booktubers. Revista Brasileira de História da Mídia , v. 4, p. 99, 2015.

NINA, Cláudia. Literatura nos jornais : A critica literária dos rodapés às resenhas. - São Paulo : Summus, 2007.

PROSE, Francine. Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem gosta de escrevê-los; tradução de Maria Luisa X. de A. Borges. - Rio de Janeiro : Zahar, 2008.

SALVADOR, Vitor Celso. . O impressionismo crítico de Medeiros e Albuquerque (1867-1934) no estudo de romances brasileiros (1897-1908). In: II Colóquio da pós-graduação em Letras, 2010, Assis. Anais CPGL: II Colóquio da pós-graduação em Letras -"Literatura e vida social", 2010.

VASCONCELLOS, Karine Menezes. Narrativas Migrantes: o papel dos youtubers na construção de um novo discurso midiático; Início: 2016; Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Universidade Federal de Juiz de Fora; (Orientador);



Notas
1 Ou, no mínimo, um monólogo. Ainda que o leitor não responda ao autor do que está lendo, o diálogo existe na medida em que: 1) o texto só toma existência (parafraseando Ricardo Piglia em entrevista sobre seu livro O ùltimo Leitor), só tem vida, quando é lido, o que pressupõe a existência de uma segunda pessoa além do autor: o leitor; 2) Um texto, como um rio, nunca é o mesmo quando visto uma segunda vez pela mesma pessoa, quem dirá por outra. Cada um interpreta o que lê de acordo com suas próprias experiências prévias (psicológicas, de vida, de formação, de classe social, etc.). Assim, o texto reverbera filtrado pela mente do leitor, que o recebe, o questiona (está questionando o autor), convalida ou não suas partes, de acordo com seu próprio gosto e vivência.

2 Leitor beta, ou beta reader, é uma pessoa que lê criticamente um original assim que o autor acredita ter uma versão publicável. Ou seja, em tese é o segundo a ter contato com o texto. A finalidade é apontar falhas e sugerir opiniões sinceras para melhorá-lo, antes de ser apresentado a uma editora (onde passará por leitura crítica e revisões antes de ir para o prelo e ser, finalmente, impresso). Há gente prestando esse serviço profissionalmente, já que pressupõe certos conhecimentos que vão além do “leitor ingênuo”. 
 
3 Os vlogueiros literários são chamados booktubers.

4 Sobre estrutura da narrativa, problemas nos diálogos, questões relativas à concisão, clareza, precisão, ou incoerências, excessos desnecessários, enfim, o que funciona e o que não funciona num texto.

5 Referindo-se ao leitor crítico estamos falando de quem faz uma análise específica com viés editorial (para diferenciar do leitor beta, embora este também possa ter qualificações nesse sentido). Pode ser contratado mas, muitas vezes, o próprio editor faz tal leitura, ou alguém responsável pela análise de originais da editora.

6 SHIRKY, Clay. A cultura da participação: criatividade e ge­nerosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. 
 
7 Há uma historinha dizendo que Napoleão andava na companhia de uma princesa por uma passarela quando apareceu um serviçal, empurrando um carrinho com uma carga pesada, para cruzar-lhes o caminho. Embora fossem personalidades muito importantes, o que faria com que o serviçal esperasse, Napoleão parou e fez com que a princesa passasse dizendo: “respeite a carga”.




Balatrácio Egopoético





quinta-feira, 30 de maio de 2019

POR QUE CALO? - Poema de Neusa Borges

Imagem copiada do blog Coração nos Dedos:
<https://coracaonosdedos.blogspot.com/2011/05/voz-do-silencio.html>



POR QUE CALO?

Neusa Borges                               


O que eu calo é muito maior do que o que eu falo.

O que eu calo eu pondero

Oque eu calo grita dentro de mim

O que falo é tímido

O que calo é intenso, fervoroso, eloquente.

Calo porque me convém

Não falo porque me contenho

Explicar o que calo me cansa, irrita, angustia.

Convencer parece árduo, amargo, enfadonho.

Calar é mais cômodo,
Neusa Borges

E mais covarde também.

Então devo falar ou calar?

Devo escutar e ousar,

Manifestar para expressar:

O que no peito se cala

É o que na alma transborda.



_________

Fonte:

Canarinho: Antologia de Poesias, Contos e Crônicas – edição especial / Vários autores. – Gramado, RS: Porto de Lenha, 2017. 1ª Edição.



segunda-feira, 13 de maio de 2019

Uma literatura feminista afro-brasileira


Uma literatura feminista afro-brasileira

Juliano Barreto Rodrigues

CARNEIRO (2001) afirma que os negros estão entre as populações consideradas descartáveis, supérfluas, e que o processo de globalização “acentua o processo de feminização da pobreza”. Isso atinge de forma central a mulher negra que, para além da luta contra as desigualdades geradas pela hegemonia histórica dos homens, tem que lutar contra o racismo, um elemento indissociável nas suas ações de resistência. Afirma a necessidade de uma articulação das variáveis de gênero, classe e raça, que o feminismo de origem branca e eurocentrista não faz, deixando que as mulheres não brancas e pobres “lutem para integrar em seu ideário as especificidades raciais, étnicas, culturais e de classe social” (CARNEIRO, 2001, pág. 4). 
 
[…] segundo Lélia Gonzales, […] a inclinação eurocentrista do feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais da democracia racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter central da questão da raça nas hierarquias de gênero e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres. (ibidem).

Tratando da mesma questão, Conceição Evaristo acrescenta que, entre mulheres brancas e as mulheres negras:

[…] há uma condição que nos une, a de gênero. Há, entretanto, uma outra condição para ambas, o pertencimento racial, que coloca as mulheres brancas em um lugar de superioridade – às vezes, só simbolicamente, reconheço – frente às outras mulheres, não brancas. E desse lugar, muitas vezes, a mulher branca pode e pode se transformar em opressora, tanto quando o homem branco (EVARISTO, 2009, pág. 18, Nota de Rodapé).

Essa falta de identificação completa determina uma cisão? Djamila Ribeiro, escritora, pesquisadora e ativista do feminismo negro no Brasil, diz que O feminismo negro não é um recorte. Muito pelo contrário, a gente que pensa feminismo precisa pensar essencialmente por uma perspectiva de classe e de raça. O feminismo negro não exclui, amplia” (BECHARA, pág. 1, 2019).

A imagem da mulher negra foi historicamente construída sobre a figura da escrava ou empregada, marginalizada por ser mulher, por ser negra, por ser pobre. Luiza Barros diz que “essa marginalidade peculiar é o que estimula um ponto de vista especial da mulher negra, (permitindo) uma visão distinta das contradições nas ações e ideologia do grupo dominante” (BARROS apud CARNEIRO, 2001, pág. 5). Ela indica que essa visão tem que ser potencializada pela reflexão para a ação política. Haydée Paixão Fiorino fala que: 
 
Realmente, é repulsiva a formulação discursiva sobre a imagem da mulher negra que a encerra tanto como a criatura ultrassexual da propaganda quanto como a figura da “mãe preta”, aquela escrava/empregada que cuida de todos, que serve a todos. Esse discurso atua para tornar o domínio intelectual um lugar proibido para as negras, já que, mais do que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade – ao lado, talvez, das mulheres indígenas –, elas têm sido consideradas “só corpo, sem mente” (FIORINO, 2016, pág. 1).

Surge daí o ponto mais importante de resistência da mulher negra, sua afirmação intelectual, a autodeterminação através da sua voz.

Patrícia Collins (2002), apontada como uma das grandes referências do feminismo negro norte-americano [...] Destaca o combate aos estereótipos por meio da autodefinição a partir da produção intelectual negra, ao valorizar as atuações enquanto mães, professoras e líderes comunitárias. Para essa autora, o ponto de vista das mulheres negras é definido com base na opressão vivenciada por elas, ou seja, a partir do lugar que ocupam na estrutura social. (ibidem)

Patrícia Collins diz que é necessária a construção de “espaços seguros” para as mulheres negras, espaços independentes das “'imagens' controladoras de sua condição, como maneira de resistir à ideologia hegemônica reproduzida pelas escolas, pelas mídias impressas e pelos meios de comunicação, agências governamentais e outras instituições do ramo da informação” (ibidem). Supõe-se que os espaços seguros a que se refere são espaços de pensamento e de fala, mais do que espaços de reunião exclusivos (que também podem ser segregatórios). Quando se fala em “espaço seguro”, acreditamos que se está referindo a um lugar de fala respeitado e reconhecido, tanto pelas próprias falantes quanto pelo meio hegemônico, coisa que só se impõe intelectualmente.

A literatura é o espaço, por excelência, em que o pensamento, as vivências, as diferenças culturais e de existência podem ser expressos evidenciando os valores e o imaginário de um povo, de uma comunidade, de um grupo (étnico, ou profissional, ou artístico etc.), de forma muito mais íntima e pessoal do que um ensaio e outras pesquisas acadêmicas, ou até outra forma de arte, podem mostrar. A literatura afro-brasileira, marcada por essa subjetividade étnica, literatura a que Conceição Evaristo chama “escrevivência”, tem, com sua força e falta de limites por ser arte, esse papel de dar voz – no meio escrito, que é mais perene do que a fala ou a performance e alcança os meios intelectuais – às mulheres e homens negros até então silenciados. Nas palavras do professor Flávio Pereira Camargo, 
 
Esta literatura contribui de modo significativo para o debate em torno da situação das mulheres negras em nossa sociedade, problematizando questões referentes à representação do corpo, do desejo, da identidade e da condição feminina dessas mulheres. (CAMARGO, pág. 1, 2019).

CAMARGO (2019) diz em suas aulas, que o sujeito negro tem que falar por si, do seu lugar de fala. Que há diferença entre as pesquisas e literaturas de brancos tratando de temas dos negros e aquelas escritas pelas próprias mãos de quem está, como diz a personagem Ana Davenga, da autora Conceição Evaristo, “vestido com aquela pele negra” (EVARISTO, 2016, pág. 29), ou seja, que vive a situação e carrega toda uma bagagem cultural, estética e de representação.

A própria Conceição Evaristo afirma que este posicionamento em relação a uma literatura afro-brasileira não é unânime, nem entre os escritores afrodescendentes. Alguns defendem que a arte é universal e não pode ser rotulada ou definida por gêneros, raças1 ou o que quer que seja. Mas Conceição argumenta que 
 
o texto, com seu ponto de vista, não é fruto de uma geração espontânea. Ele tem uma autoria, um sujeito, homem ou mulher, que com uma “subjetividade” própria vai construindo a sua escrita, vai “inventando, criando” o pondo de vista do texto. Em síntese, quando escrevo, quando invento, quando crio a minha ficção, não me desvencilho de um “corpo-mulher-negra em vivência” […]. (idem, 2009, pág. 18, nota de rodapé).

Pode-se contra-argumentar alegando que se está negando ao autor singular, enquanto artista de qualquer raça ou gênero, justamente sua capacidade de representar, de se colocar no lugar do outro (um outro real ou fictício) e ver por seus olhos, olhos da ficção, de sentir na sua pele. Até por isso, por exemplo, o narrador de um romance raramente se confunde com o autor. Se não, um negro não poderia escrever sob o ponto de vista de um branco2 (coisa que Chimamanda Adichie disse que fazia no início de sua literatura3, antes de optar por uma literatura engajada), um autor branco não poderia ter uma personagem negra, ou índia, ou japonesa , ou ciborgue, ou animal etc., nem, ampliando a ilustração, um budista poderia criar uma história sobre um cristão. 
 
Aderindo a esse posicionamento, consideramos que tais encapsulamentos, que negam o acesso, a produção ou a vivência de sujeitos diferentes em diferentes meios, são redutores, geram também preconceitos, como o purismo fundamentalista (cultural, ou de raça, ou de religião etc.). São também uma forma de preconceito. O que seria, por exemplo, do legado de Pierre Fatumbi Verger, Giselle Cossard Binon (Yalorixá Omindarewa), Bernard Malpoil, Natalia Bolívar Aróstegui, Roger Bastide, Lydia Cabrera, Juana Elbein dos Santos e tantos outros não negros que tanto produziram para o resgate das raízes religiosas afro, principalmente no Brasil e em Cuba?4 Se só se legitimar uma literatura escrita por quem pertence ao próprio grupo, classe, raça, ou gênero referido, quase nada do que se produziu de literatura até hoje, no mundo, pode ser aproveitado.

Há argumentos da Teoria Literária para os dois lados, e é preciso lembrar, por exemplo, que a antiga classificação e discussão sobre literatura escrita por mulheres – literatura que sofreu, podemos dizer, o complô masculino para classificá-la como literatura menor – provavelmente tenha trazido mais prejuízo e preconceito para as autoras (e nem foram elas que fizeram tal classificação, mas os homens) do que se não houvesse tal rotulação. A literatura de autoria feminina se impôs por sua força, trazendo as autoras à tona de forma inevitável, o que deveria ter tornado indiferente e descabida, para a crítica e apreciação artística, qualquer discussão acerca do sexo de quem a produziu.

Seja como for, a autora de literatura Conceição Evaristo se posiciona como escritora feminista afro-brasileira, de forma condizente com seu discurso acadêmico de ensaísta e de ativista. E, independentemente de se concordar com ela a respeito da existência (ou da necessidade da classificação) de uma literatura feminista afro-brasileira ou não, o essencial e urgente é ampliar a presença (visibilizar) e o foco dados aos personagens negros, fugindo dos estereótipos. Como ela mesma diz, referindo-se a uma textualidade afro-brasileira, já tem ocorrido mudanças:

Personagens são descritos sem a intenção de esconder uma identidade negra e, muitas vezes, são apresentados a partir de uma valorização da pele, dos traços físicos, das heranças culturais oriundas de povos africanos e da inserção/exclusão que os afrodescendentes sofrem na sociedade brasileira (EVARISTO, 2009, págs. 19-20).

No conto Maria, do livro Olhos d'agua, Conceição Evaristo fala de uma empregada doméstica, negra, sozinha, mãe de três filhos, cada um de um pai. Maria leva para casa, do serviço, um osso de pernil e frutas para os filhos famintos. Encontra no ônibus seu antigo companheiro, pai de seu primeiro filho, que lhe fala de saudade, da vida que tinham, manda um abraço, um beijo e um carinho para o filho. De repente ele se levanta do lado dela, onde havia se sentado, e anuncia um assalto no ônibus. Não pega nada de Maria. Depois que ele e um comparsa descem, levando os pertences dos passageiros, Maria é acusada de estar com os ladrões e é linchada.

Maria sintetiza vários elementos vitimizados pela desigualdade em uma só personagem: mulher, negra, pobre, em uma profissão subalterna, sem acesso à justiça institucionalizada. Mas ela é, antes disso, protagonista, romântica, MÃE. E tudo isso faz com que o leitor se identifique com ela, tenha empatia e compaixão. A construção literária vai ao encontro daquilo que Homi Bhabha5 chama de “direito de significar” (BHABHA apud EVARISTO, 2009, pág. 24) e na contramão daquilo que a militante Conceição Evaristo critica:

Percebe-se que a personagem feminina negra não aparece como musa, heroína romântica ou mãe. Mata-se no discurso literário a prole da mulher negra, não lhe conferindo nenhum papel no qual ela se afirme como centro de uma descendência.
[…] O que se busca argumentar, aqui, é o que essa falta de representação materna para a mulher negra, na literatura brasileira, pode significar. Estaria a literatura procurando apagar os sentidos de uma matriz africana na sociedade brasileira? O imaginário da literatura tenderia a ignorar o papel da mulher negra na formação da cultura nacional? (EVARISTO, 2009, págs. 23-24).

O que Conceição Evaristo faz, em seu conto, é afirmar aquilo que ela chama de contra-discurso à literatura hegemônica, trazendo textos “pautados pela vivência de sujeitos negros/as na sociedade brasileira […] (ibidem, pág. 27).

Maria é um texto “pesado”, que toca, que fica na memória porque choca o leitor com a crueza dos fatos e porque tem verossimilhança, é uma daquelas histórias bem possíveis de já ter acontecido, com poucas diferenças (nesse aspecto lembra o conto Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca). Faz pensar. 
 
Quanto faz diferença a autoria se o texto já diz tudo por si? É um conto que poderia ser analisado da mesma forma se não fosse de Conceição Evaristo? Sim e não. Literariamente poderia ser, e até as referências aos estudos de gênero, raça, classe social e injustiça social poderiam se realizar da mesma forma. Por outro lado, a autoria acrescenta no sentido de se cotejar o conto com a fortuna crítica da autora e com seu discurso político (sentido lato), de militante feminista afro-brasileira. Nesse tipo de análise crescem os argumentos, mas afasta-se do texto pelo texto, como arte literária per se. Aí, chega-se na questão das preferências críticas: fazer o close reading do texto, tendo-o como fim em si, ou analisá-lo em relação ao conjunto da obra da autora, ou até das várias autoras que tratam dos mesmos temas ou, ainda, contextualizando-o historicamente e dentro de determinados movimentos etc.?

Para melhor proveito, é necessário avaliar em que contexto a obra será lida. Por exemplo, atendo-se a adoção da literatura afro-brasileira na escola,

A formação dos estudantes com base em uma vertente literária que mostre o protagonismo afro-brasileiro e dê oportunidade ao(à) aluno(a) por meio da literatura de conhecer e de mergulhar em um universo onde as culturas africana e afro-brasileira sejam vistas de maneira positiva e livre dos estereótipos de sub-raça, de escravismo, de inferioridade, entre outros; é um modo eficaz de fazer com que a escola colabore de forma efetiva e definitiva para reconstrução da história dos povos africanos e afro-brasileiros. (MELO; GONÇALO, 2017, pág. 97).

Sem dúvida, nesse caso (e também para problematizar o cânone literário) a autoria faz toda a diferença, porque enriquece, aprofunda e complexifica a questão, sendo o conto (ou qualquer de seus textos literários) apenas porta de entrada para o conjunto de sua literatura e, mais ainda, para toda a discussão que Conceição faz sobre a questão de gênero, raça, classe, conhecimento, história e poder. 
 
Quem melhor sabe o que lhe aflige é quem vive na pele a situação. Isso vale para qualquer pessoa ou grupo. Desse lugar de fala é que nascem os meios específicos para fazer chegar o discurso. Se a melhor forma for a classificação, a especialização ou singularização, de uma área ou vertente artística, técnica, política ou científica, que seja! O que importa é que as disparidades, silenciamentos, lacunas, desigualdades e injustiças sejam evidenciados e tratados. Aí as teorias (literárias, sociais, políticas etc.) e senãos têm o papel, prévio ou contemporâneo, de municiar os atores da mudança (no caso deste texto as mulheres negras) com as estratégias potencialmente melhores. Mas, se as teorias não estiverem a serviço do que realmente importa – neste caso a atividade transformadora –, que cedam lugar ao fluxo prático, até instintivo às vezes, de quem está engajado nas mudanças, ficando então, as teorias, com a tarefa posterior de justificar as ações argumentativamente.

Referências

Teórico-críticas
BECHARA, Márcia. “Feminismo negro não exclui, amplia”: Djamila Ribeiro debate ativismos a convite da França. 16 mar. 2019. In: África e sua diáspora, Mulher Negra. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/feminismo-negro-nao-exclui-amplia-djamila-ribeiro-debate-ativismos-a-convite-da-franca/> Acesso em 20 mar. 2019.

CAMARGO, Flávio Pereira. Estudo dirigido / Das margens ao centro – em cena o corpo e a identidade feminina negra. Universidade Federal de Goiás. Programa de Especialização em Estudos Literários e Ensino de Literatura. Faculdade de Letras. Goiânia, 2019.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o Feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Geledés Instituto da Mulher Negra. São Paulo, 2001. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/enegrecer-o-feminismo-situacao-da-mulher-negra-na-america-latina-partir-de-uma-perspectiva-de-genero/> ou disponível em formato PDF em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/375003/mod_resource/content/0/Carneiro_Feminismo%20negro.pdf> . Acesso em 20 mar. 2019.

EVARISTO, Conceição. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. In: Scripta, v. 13, nº 25, jul. - dez., 2009, p. 17-31.

FIORINO, Haydée Paixão. Tributo a elas: considerações sobre a produção intelectual de mulheres negras. IBCCRIM – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Boletim 280. São Paulo, mar. 2016. Disponível em: <https://www.ibccrim.org.br/boletim_artigo/5728-Tributo-a-elas-consideracoes-sobre-a-producao-intelectual-de-mulheres-negras> Acessado em: 19 mar. 2019.

MELO, Carlos Augusto; GONÇALO, Sandra Regina Pereira. Uma proposta de intervenção para o ensino da literatura afro-brasileira nas aulas de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental. Letras & Letras | Uberlândia | vol 33 / 1 | jan/jul 2017. Disponível em: <file:///C:/Users/julianobr/Downloads/35361-Texto%20do%20artigo-163490-2-10-20170813.pdf>. Acessado em 21 mar. 2019.

Literária
___________________. Olhos d'agua. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016, págs. 21-30, 39-42.

Vídeo
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Os perigos de uma história única. TED TALKS. 2012. (18m50s). Disponível em: <https://youtu.be/EC-bh1YARsc> . Acesso em: 18 mar. 2019.



Notas:

1 Entenda-se “raça” como construto social, não categoria biológica.

2 O que falar de Machado de Assis então, um escritor negro que escreveu sobre tipos os mais diversos? (A título de curiosidade, há um interessante artigo que afirma que as elites intelectuais da sua época não admitiam a origem africana do “maior nome das letra nacionais” e teriam, após sua morte, supostamente realizado um “embranquecimento” na sua biografia e, talvez, até em suas fotografia. Cf. NOBRE, Carlos. As duas cores de Machado de Assis. Afro-brasileiros, Patrimônio Cultural. 28 set. 2011. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/duas-cores-de-machado-de-assis/>. Acessado em: 20 mar. 2019.

3 Cf. vídeo Chimamanda Adichie: O perigo da história única.Vide Referências.

4 Há falhas em suas obras? Claro que sim. É a perspectiva de um branco sobre a cultura do negro? Sim. Mas basta lê-los com criticidade. É preciso considerar que a cultura e as tradições africanas não elitizadas são transmitidas de forma predominantemente oral e que, por isso, muito se perdeu e tem se perdido com o tempo. Independentemente de quem movimente esforços para resgatá-las e preservadas, é muito bem-vindo.

5 Cf. BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte : Editora UFMG, 1998.