O Coletivo
Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com
sexta-feira, 28 de junho de 2019
quinta-feira, 27 de junho de 2019
quinta-feira, 13 de junho de 2019
PALAVRA-CHAVE
Juliano Barreto Rodrigues
E o verbo se fez substantivo e habitou entre nós.
Elogiando a própria criação, Deus a adjetivou.
No esforço de unir todas as coisas, fez conjunções,
preposições e conectivos de forma geral.
O Diabo criou os advérbios, os sobrenomes e palavras
novas, tipo “cerca”, “dinheiro”, “meu”, “sou”,
“tenho” etc., investiu nos duplos sentidos, estigmatizou a maçã
e, principalmente, estimulou a fragmentação, facilitando o
surgimento de uma Babel de línguas diferentes.
De modo que a palavra, antes sagrada, dessacralizou-se,
profanou-se. A partir dela – que passou a servir, na mesma medida,
a Deus e ao Diabo – tornou-se fácil, aos homens, ir ao céu e ao
inferno. Assim, de todas, só uma palavra restou definitiva:
ESCOLHA!
Dicas para resenhistas literários (booktubers, blogueiros etc.)
ESCREVENDO
RESENHA LITERÁRIA I
Ponderações
para booktubers e blogueiros
Juliano
Barreto Rodrigues
1. Diferença
entre resumo, resenha e crítica especializada
Resumo é uma
síntese de texto, seguindo fielmente as ideias do autor. No resumo
(que pode ser parágrafo por parágrafo ou mais global) o redator faz
a seleção do que considera mais importante e, com suas próprias
palavras, escreve um texto que não foge daquele que se está
resumindo e nem acrescenta opiniões e anotações pessoais. É
objetivo.
A resenha trata do
texto (ou vídeo, ou música, etc.) mas é subjetiva, no sentido de
que é um comentário crítico acerca daquilo que é resenhado. Pode
conter ou não um resumo e, muitas vezes, vai além do seu objeto,
dialogando com outros textos, ou com a história, ou com outros
campos do saber, etc.
“Bater uma
resenha” significa, coloquialmente, “bater um papo”. Isso
mesmo, conversar com tempo, trocar uma ideia mais a fundo sobre
qualquer tema de interesse. É uma definição que me agrada mais do
que qualquer outro conceito metodológico científico para definir
resenhas literárias. O “papo” pressupõe um assunto pelo qual os
resenhistas têm afinidade (e aqui é importante destacar que a
resenha – ou sua leitura – é um diálogo1).
Os principais
instrumentos de apresentação de argumentos da crítica
especializada são a resenha crítica e o ensaio. Esta resenha se
diferencia em quê daquela falada no parágrafo anterior?
Basicamente, é escrita por especialistas (legitimados de alguma
forma, seja pela formação universitária específica ou pela
atuação profissional, ou por qualquer outro meio que lhes confira
autoridade no assunto). Normalmente tem um viés mais técnico,
utilizando uma terminologia comum à Teoria Literária e uma
metodologia científica. Mas, na prática, não há regras nesse
sentido. Há críticos – principalmente jornalistas e escritores –
que escrevem mais “coloquialmente” ou até de forma parecida com
a escrita de literatura mesmo.
2. Quem faz a
resenha?
- Os que têm
obrigação: estudantes; críticos literários; profissionais de
cadernos e revistas literários; o pessoal das editoras, para
promover suas publicações; leitores beta2;
enfim, qualquer um que tenha obrigação funcional de opinar sobre um
texto ou livro.
- Os blogueiros e
vlogueiros literários3
– boa parte escritores (mas
nem todos),
querendo criar um público e chamar a atenção do mercado editorial
para si e para sua forma de escrita, o que facilita em muito com que
sejam
aceitos
e publicados
por alguma editora.
- Qualquer um que
queira dar sua opinião e apresentar seus argumentos sobre alguma
leitura que o interessou.
3. Para que
resenhar?
Primeiramente: para
dar opinião (digna de ser ouvida – ou lida) sobre uma obra.
Vários são os
motivos que levam alguém a resenhar um livro. Seja como exercício
para memorizar melhor seu conteúdo ou para mergulhar mais
profundamente no texto (procurando as tais mensagens ocultas nas
entrelinhas ou a questão central da obra), seja para atender a uma
demanda profissional (caso dos críticos contratados ou de alguém
responsável pelo marketing e venda da obra), a resenha é uma forma
de dar a conhecer a obra sem, no entanto, detalhar conteúdos que
exauram a vontade de ler do leitor nem antecipem as surpresas da
trama (ou
seja, sem
“dar spoiler”).
Pelo viés do
leitor editorial,
João Varella, editor da Lote 42, ensina,
no curso Pulse
– Publique Livros, Crie Editoras,
que “se você quiser aprender a dar dicas macro4
para escritores, o melhor caminho é treinar fazendo resenhas de
livros, dizendo o porquê de ter gostado ou não ter gostado”. Isso
serve também para apurar as habilidades do leitor beta, ou do leitor
crítico5,
de repente até de alguns preparadores de texto (revisores) – sei
lá, tudo agrega.
Agora, para quem
pretende ser escritor, ter um canal (blog, site, vlog, etc.) em que
publique resenhas bem-feitas é um ótimo meio de atrair a atenção
das editoras para si e, mais que isso, de formar um público próprio
antes até de escrever o primeiro livro – o que conta imensamente
quando ele estiver pronto e a editora for analisar se é publicável
e promissor, como produto vendável, para eles.
4. Resenhistas em
jornais e revistas, blogueiros e booktubers.
Jornais e revistas
têm linha editorial e um controle profissional de escolha, qualidade
e adequação de conteúdos. Por serem negócios – dependentes de
lucro e com concorrência – não podem se dar ao luxo de permitir
que um resenhista diga o que bem entender, sob pena de criar uma
crise que pode prejudicar o nome da empresa. A própria escolha das
obras a serem resenhadas não é aleatória nem obedece,
necessariamente, ao gosto pessoal do resenhista (é comum que um
editor defina as obras). Assim, sua responsabilidade é grande, já
que é um porta-voz da revista ou jornal que representa. Sua
credibilidade está associada ao grau de liberdade que consegue
apresentar e à força dos seus argumentos na resenha, o que faz com
que os textos profissionais quase sempre sejam mais técnicos e
abalizados do que os dos blogs e vlogs pessoais. Textos mais “leves”,
nas revistas especializadas principalmente, quase sempre vem de
escritores consagrados, celebridades literárias ou jornalísticas,
que são convidadas para falar dos textos alheios.
A grande revolução
trazida pela internet no âmbito da comunicação está no fato de
que o controle saiu das mãos dos meios profissionais de comunicação
e foi para as dos próprios usuários. Hoje, qualquer pessoa produz e
publica o que quer na rede, podendo ser visualizado mundialmente.
Isso vale também para livros e autores, produtos antes publicados só
por editoras e que hoje são autopublicados em blogs, ou no Wattpad,
na Amazon, na Saraiva e em vários outros sites. As pessoas têm voz,
um canal livre para se divulgar e àquilo que fazem.
Nesse contexto de
total independência é que surgiram as resenhas dos blogs e vlogs.
Não há regras fixas, cada um diz o que quer. Há até quem faça,
por incrível que pareça, “resenha” de livro que nem leu ainda.
Os blogs, e principalmente os vlogs (porque seus conteúdos são em
vídeo) têm um alcance de público muito maior do que os jornais e
revistas (e quase sempre diferente, dependendo do formato da
publicação).
A maioria das
resenhas dos booktubers têm um tom muito coloquial e individual, já
que o vlogueiro quer chamar a atenção, antes de tudo (do livro
inclusive), para si e seu canal, alcançando seguidores e números
expressivos de visualização. Para fidelizar seu público, a
frequência de postagens de novos vídeos tem que ser relativamente
grande, o que pode comprometer negativamente a capacidade de leitura
profunda e de resenha das obras.
5. Uma crítica
impressionista.
Pessoas que não
conhecem Teoria Literária podem falar de literatura? Ou isso é
exclusivo a “iniciados”? É claro que podem. Afinal, quem veio
primeiro, o ovo ou a galinha, a teoria literária ou a literatura e o
leitor? Como disse Verônica
Valadares, do canal Vevsvaladares, criticada por falar de
Dostoiévski, “O único pré-requisito para você poder falar sobre
literatura é ler o livro. Isso vai te fazer ter cacife para falar de
literatura”.
Nas
palavras de Cory Doctorow (apud SHIRKY, 2012, p. 86)6:
“O fundamental é a conversa. O conteúdo é só uma coisa sobre a
qual conversar”. As resenhas literárias, profissionais ou
amadoras, sempre tiveram, historicamente, essa função de lançar à
discussão a literatura em si, através das obras literárias, para
que todo o cenário evolua. O preconceito existe apenas dentro da
Academia (Universidade e Associações Literárias), mas
aparentemente não atinge o deus da relação com o livro: o leitor
(que é quem, afinal, interessa).
6. Existe
crítica isenta?
Não. Toda crítica
pressupõe um julgamento, e todo juízo de valor é subjetivo (ainda
que se tente dar ares de objetividade na forma de analisar,
argumentar, redigir e apresentar conclusões). Todo o embasamento que
é feito – trazendo citações, referenciando estudos e pesquisas
importantes, apresentando comparações, estatísticas... – não
passa de justificativa para os próprios argumentos.
Tentar parecer o
mais isento possível tem a ver com o público a que a resenha se
dirige. Por exemplo: ao que parece, o público dos booktubers
mais
conhecidos se interessa mais na opinião pessoal de seu vlogueiro
preferido (alçado ao status de celebridade) do que nos argumentos
objetivos da resenha. Para esse público, notas de sinceridade e
referências ao impacto pessoal da leitura são muito mais
interessantes (isenção zero, e sem disfarces).
Se não existe
isenção há, no entanto, modos e modos de dizer: a crítica pode
ser moderada (diplomática), pode ser direta e franca (supersincera),
positiva (de incentivo, destacando as partes positivas) ou negativa
(maldosa, leviana, vingativa), abalizada ou de mera opinião, rasa ou
profunda, e por aí vai. O papel é um burro de carga, carrega o que
se colocar nele, mas é bom lembrar que quase toda crítica gera
respostas e é preciso estar preparado para as consequências.
7. Olhar 180º,
360º ou muito além (olhar de RX e visão além do alcance - “Olho
de Thundera”). Segredos dos bons críticos para os resenhistas.
Quando se abre um
livro completamente, isso é feito em 180º. Nesta posição, o que
se vê é o texto das páginas, só isso. Olhar em 180º é uma
maneira de dizer que o resenhista se aterá somente ao texto em si,
fazendo um close reading, não estendendo sua análise a
elementos extra, como design do livro, capa, tipo de papel,
contextualização com outras obras do autor, etc.
O olhar em 360º
ilustra o movimento de virar o livro em todos os ângulos e discutir
sobre a capa, a composição gráfica, a quarta capa, tipo de papel,
fonte utilizada, design, ou seja, coisas que vão além do texto,
mais ligadas ao objeto livro.
Um olhar de RX consiste, em ver
além do texto, procurando ver mensagens de fundo, intenções do
autor, contextualizando-o historicamente e em relação às outras
obras do escritor e à sua fortuna crítica.
E o que seria a brincadeira do
Olho de Thundera, da “visão além do alcance”? Consiste na
feitura de paralelos com outras áreas do saber, na inter-relação
com outros autores e escolas literárias, com outras formas de arte,
com a política, a religião, etc. Também na cogitação da
influência que a obra analisada tem na obra global do autor, na
evolução literatura em geral, no desenvolvimento do leitor, e assim
por diante, levando a discussões que podem seguir para qualquer
rumo, e que têm como limite apenas o arsenal cultural do resenhista.
8. Crítica e
autoestima dos autores.
Quem ler Um
Editor de Gênios,
de A. Scott Berg (Intrínseca), biografia de Maxwell Perkins, um dos
maiores editores de todos os tempos, verá o quanto a crítica,
principalmente a ruim, afeta a autoestima, a produtividade e a
escrita dos autores. Ele editou F.
Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe e muitos outros.
Alguns chegaram a pensar em deixar de escrever por serem criticados.
Levando
em conta que a crítica ruim afeta o autor, é preciso considerar: 1)
um escritor não nasce pronto, evolui à medida que escreve; 2)
criticar é muuuito mais fácil do que escrever. Se é gasta uma
semana para escrever uma resenha, são gastos meses – até anos –
para escrever um livro.
Portanto,
respeite a carga7,
o trabalho do autor, do editor, etc. Não digo para só falar bem de
tudo, mas vá com cuidado, positivamente, com jeito. Como eu já
disse antes, há formas e formas de dizer verdades, procure a menos
dolorosa e que traga um incentivo para a melhora, não para a
desistência.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BAYARD,
Pierre. Como
falar dos livros que não lemos?
; tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
CANDIDO,
Antonio. Crítica impressionista. Remate
de Males,
Campinas, SP, dez. 2012. ISSN 2316-5758. Disponível em:
<https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8635988>.
Acesso em: 05 abr. 2018.
doi:https://doi.org/10.20396/remate.v0i0.8635988.
JEFFMAN,
T. M. W. . Literatura compartilhada: uma análise da cultura
participativa, consumo e conexões nos booktubers. Revista
Brasileira de História da Mídia
, v. 4, p. 99, 2015.
NINA,
Cláudia. Literatura
nos jornais : A critica literária dos rodapés às
resenhas.
- São Paulo : Summus, 2007.
PROSE,
Francine. Para
ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem
gosta de escrevê-los;
tradução de Maria Luisa X. de A. Borges. - Rio de Janeiro : Zahar,
2008.
SALVADOR,
Vitor Celso. . O
impressionismo crítico de Medeiros e Albuquerque (1867-1934) no
estudo de romances brasileiros (1897-1908).
In: II Colóquio da pós-graduação em Letras, 2010, Assis. Anais
CPGL: II Colóquio da pós-graduação em Letras -"Literatura e
vida social", 2010.
VASCONCELLOS,
Karine Menezes. Narrativas
Migrantes: o papel dos youtubers na construção de um novo discurso
midiático;
Início: 2016; Dissertação (Mestrado em Comunicação) -
Universidade Federal de Juiz de Fora; (Orientador);
Notas
1
Ou, no mínimo, um monólogo. Ainda
que o leitor não responda ao autor do que está lendo, o diálogo
existe na medida em que: 1) o texto só toma existência
(parafraseando Ricardo Piglia em entrevista sobre seu livro O ùltimo
Leitor), só tem vida, quando é lido, o que pressupõe a existência
de uma segunda pessoa além do autor: o leitor; 2) Um texto, como um
rio, nunca é o mesmo quando visto uma segunda vez pela mesma
pessoa, quem dirá por outra. Cada um interpreta o que lê de acordo
com suas próprias experiências prévias (psicológicas, de vida,
de formação, de classe social, etc.). Assim, o texto reverbera
filtrado pela mente do leitor, que o recebe, o questiona (está
questionando o autor), convalida ou não suas partes, de acordo com
seu próprio gosto e vivência.
2
Leitor beta, ou beta
reader,
é uma pessoa que lê criticamente um original assim que o autor
acredita ter uma versão publicável. Ou seja, em tese é o segundo
a ter contato com o texto. A finalidade é apontar falhas e sugerir
opiniões sinceras para melhorá-lo, antes de ser apresentado a uma
editora (onde passará por leitura crítica e revisões antes de ir
para o prelo e ser, finalmente, impresso). Há gente prestando esse
serviço profissionalmente, já que pressupõe certos conhecimentos
que vão além do “leitor ingênuo”.
3
Os vlogueiros literários são chamados booktubers.
4
Sobre estrutura da narrativa,
problemas nos diálogos, questões relativas à concisão, clareza,
precisão, ou incoerências, excessos desnecessários, enfim, o que
funciona e o que não funciona num texto.
5
Referindo-se ao leitor crítico estamos falando de quem faz uma
análise específica com viés editorial (para diferenciar do leitor
beta, embora este também possa ter qualificações nesse sentido).
Pode ser contratado mas, muitas vezes, o próprio editor faz tal
leitura, ou alguém responsável pela análise de originais da
editora.
6
SHIRKY,
Clay. A
cultura da participação:
criatividade e generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro:
Zahar, 2011.
7
Há uma historinha dizendo que Napoleão andava na companhia de uma
princesa por uma passarela quando apareceu um serviçal, empurrando
um carrinho com uma carga pesada, para cruzar-lhes o caminho. Embora
fossem personalidades muito importantes, o que faria com que o
serviçal esperasse, Napoleão parou e fez com que a princesa
passasse dizendo: “respeite a carga”.
quinta-feira, 30 de maio de 2019
POR QUE CALO? - Poema de Neusa Borges
![]() |
| Imagem copiada do blog Coração nos Dedos: <https://coracaonosdedos.blogspot.com/2011/05/voz-do-silencio.html> |
POR QUE
CALO?
Neusa
Borges
O
que eu calo é muito maior do que o que eu falo.
O
que eu calo eu pondero
Oque
eu calo grita dentro de mim
O
que falo é tímido
O
que calo é intenso, fervoroso, eloquente.
Calo
porque me convém
Não
falo porque me contenho
Explicar
o que calo me cansa, irrita, angustia.
Convencer
parece árduo, amargo, enfadonho.
Calar
é mais cômodo,
![]() |
| Neusa Borges |
E
mais covarde também.
Então
devo falar ou calar?
Devo
escutar e ousar,
Manifestar
para expressar:
O
que no peito se cala
É
o que na alma transborda.
_________
Fonte:
Canarinho:
Antologia de Poesias, Contos e Crônicas – edição especial /
Vários autores. – Gramado, RS: Porto de Lenha, 2017. 1ª Edição.
segunda-feira, 13 de maio de 2019
Uma literatura feminista afro-brasileira
Uma
literatura feminista afro-brasileira
Juliano Barreto Rodrigues
CARNEIRO
(2001) afirma que os negros estão entre as populações consideradas
descartáveis, supérfluas, e que o processo de globalização
“acentua o processo de feminização da pobreza”. Isso atinge de
forma central a mulher negra que, para além da luta contra as
desigualdades geradas pela hegemonia histórica dos homens, tem que
lutar contra o racismo, um elemento indissociável nas suas ações
de resistência. Afirma a necessidade de uma articulação das
variáveis de gênero, classe e raça, que o feminismo de origem
branca e eurocentrista não faz, deixando que as mulheres não
brancas e pobres “lutem para integrar em seu ideário as
especificidades raciais, étnicas, culturais e de classe social”
(CARNEIRO, 2001, pág. 4).
[…]
segundo Lélia Gonzales, […] a inclinação eurocentrista do
feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais da
democracia racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter
central da questão da raça nas hierarquias de gênero e ao
universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para
o conjunto das mulheres. (ibidem).
Tratando
da mesma questão, Conceição Evaristo acrescenta que, entre
mulheres brancas e as mulheres negras:
[…]
há uma condição que nos une, a de gênero. Há, entretanto, uma
outra condição para ambas, o pertencimento racial, que coloca as
mulheres brancas em um lugar de superioridade – às vezes, só
simbolicamente, reconheço – frente às outras mulheres, não
brancas. E desse lugar, muitas vezes, a mulher branca pode e pode se
transformar em opressora, tanto quando o homem branco (EVARISTO,
2009, pág. 18, Nota de Rodapé).
Essa
falta de identificação completa determina uma cisão? Djamila
Ribeiro, escritora, pesquisadora e ativista do feminismo negro no
Brasil, diz que “O
feminismo negro não é um recorte. Muito pelo contrário, a gente
que pensa feminismo precisa pensar essencialmente por uma perspectiva
de classe e de raça. O feminismo negro não exclui, amplia”
(BECHARA, pág. 1, 2019).
A
imagem da mulher negra foi historicamente construída sobre a figura
da escrava ou empregada, marginalizada por ser mulher, por ser negra,
por ser pobre. Luiza Barros diz que “essa marginalidade peculiar é
o que estimula um ponto de vista especial da mulher negra,
(permitindo) uma visão distinta das contradições nas ações e
ideologia do grupo dominante” (BARROS apud CARNEIRO, 2001, pág.
5). Ela indica que essa visão tem que ser potencializada pela
reflexão para a ação política. Haydée Paixão Fiorino fala que:
Realmente,
é repulsiva a formulação discursiva sobre a imagem da mulher negra
que a encerra tanto como a criatura ultrassexual da propaganda quanto
como a figura da “mãe preta”, aquela escrava/empregada que cuida
de todos, que serve a todos. Esse discurso atua para tornar o domínio
intelectual um lugar proibido para as negras, já que, mais do que
qualquer grupo de mulheres nesta sociedade – ao lado, talvez, das
mulheres indígenas –, elas têm sido consideradas “só corpo,
sem mente” (FIORINO, 2016, pág. 1).
Surge
daí o ponto mais importante de resistência da mulher negra, sua
afirmação intelectual, a autodeterminação através da sua voz.
Patrícia
Collins (2002),
apontada como uma das grandes referências do feminismo negro
norte-americano [...] Destaca o combate aos estereótipos por meio da
autodefinição a partir da produção intelectual negra, ao
valorizar as atuações enquanto mães, professoras e líderes
comunitárias. Para essa autora, o ponto de vista das mulheres negras
é definido com base na opressão vivenciada por elas, ou seja, a
partir do lugar que ocupam na estrutura social. (ibidem)
Patrícia
Collins diz que é necessária a construção de “espaços seguros”
para as mulheres negras, espaços independentes das “'imagens'
controladoras de sua condição, como maneira de resistir à
ideologia hegemônica reproduzida pelas escolas, pelas mídias
impressas e pelos meios de comunicação, agências governamentais e
outras instituições do ramo da informação” (ibidem). Supõe-se
que os espaços seguros a que se refere são espaços de pensamento e
de fala, mais do que espaços de reunião exclusivos (que também
podem ser segregatórios). Quando se fala em “espaço seguro”,
acreditamos que se está referindo a um lugar de fala respeitado e
reconhecido, tanto pelas próprias falantes quanto pelo meio
hegemônico, coisa que só se impõe intelectualmente.
A
literatura é o espaço, por excelência, em que o pensamento, as
vivências, as diferenças culturais e de existência podem ser
expressos evidenciando os valores e o imaginário de um povo, de uma
comunidade, de um grupo (étnico, ou profissional, ou artístico
etc.), de forma muito mais íntima e pessoal do que um ensaio e
outras pesquisas acadêmicas, ou até outra forma de arte, podem
mostrar. A literatura afro-brasileira, marcada por essa subjetividade
étnica, literatura a que Conceição Evaristo chama “escrevivência”,
tem, com sua força e falta de limites por ser arte, esse papel de
dar voz – no meio escrito, que é mais perene do que a fala ou a
performance e alcança os meios intelectuais – às mulheres e
homens negros até então silenciados. Nas palavras do professor
Flávio Pereira Camargo,
Esta
literatura contribui de modo significativo para o debate em torno da
situação das mulheres negras em nossa sociedade, problematizando
questões referentes à representação do corpo, do desejo, da
identidade e da condição feminina dessas mulheres. (CAMARGO, pág.
1, 2019).
CAMARGO
(2019) diz em suas aulas, que o sujeito negro tem que falar por si,
do seu lugar de fala. Que há diferença entre as pesquisas e
literaturas de brancos tratando de temas dos negros e aquelas
escritas pelas próprias mãos de quem está, como diz a personagem
Ana Davenga, da autora Conceição Evaristo, “vestido com aquela
pele negra” (EVARISTO, 2016, pág. 29), ou seja, que vive a
situação e carrega toda uma bagagem cultural, estética e de
representação.
A
própria Conceição Evaristo afirma que este posicionamento em
relação a uma literatura afro-brasileira não é unânime, nem
entre os escritores afrodescendentes. Alguns defendem que a arte é
universal e não pode ser rotulada ou definida por gêneros, raças1
ou o que quer que seja. Mas Conceição argumenta que
o
texto, com seu ponto de vista, não é fruto de uma geração
espontânea. Ele tem uma autoria, um sujeito, homem ou mulher, que
com uma “subjetividade” própria vai construindo a sua escrita,
vai “inventando, criando” o pondo de vista do texto. Em síntese,
quando escrevo, quando invento, quando crio a minha ficção, não me
desvencilho de um “corpo-mulher-negra em vivência” […]. (idem,
2009, pág. 18, nota de rodapé).
Pode-se
contra-argumentar alegando que se está negando ao autor singular,
enquanto artista de qualquer raça ou gênero, justamente sua
capacidade de representar, de se colocar no lugar do outro (um outro
real ou fictício) e ver por seus olhos, olhos da ficção, de sentir
na sua pele. Até por isso, por exemplo, o narrador de um romance
raramente se confunde com o autor. Se não, um negro não poderia
escrever sob o ponto de vista de um branco2
(coisa que Chimamanda Adichie disse que fazia no início de sua
literatura3,
antes de optar
por
uma literatura engajada),
um autor branco não poderia ter uma personagem negra, ou índia, ou
japonesa , ou ciborgue, ou animal etc., nem, ampliando a ilustração,
um budista poderia criar uma história sobre um cristão.
Aderindo
a esse posicionamento, consideramos que tais encapsulamentos, que
negam o acesso, a produção ou a vivência de sujeitos diferentes em
diferentes meios, são redutores, geram também preconceitos, como o
purismo fundamentalista (cultural, ou de raça, ou de religião
etc.). São também uma forma de preconceito. O que seria, por
exemplo, do legado de Pierre Fatumbi
Verger,
Giselle Cossard Binon (Yalorixá Omindarewa), Bernard Malpoil,
Natalia Bolívar Aróstegui, Roger Bastide, Lydia Cabrera, Juana
Elbein dos Santos e tantos outros não negros que tanto produziram
para o resgate das raízes religiosas afro, principalmente no Brasil
e em Cuba?4
Se só se legitimar uma literatura escrita por quem pertence ao
próprio grupo, classe, raça, ou gênero referido, quase nada do que
se produziu de literatura até hoje, no mundo, pode ser aproveitado.
Há
argumentos da Teoria Literária para os dois lados, e é preciso
lembrar, por exemplo, que a antiga classificação e discussão sobre
literatura escrita por mulheres – literatura que sofreu, podemos
dizer, o complô masculino para classificá-la como literatura menor
– provavelmente tenha trazido mais prejuízo e preconceito para as
autoras (e nem foram elas que fizeram tal classificação, mas os
homens) do que se não houvesse tal rotulação. A literatura de
autoria feminina se impôs por sua força, trazendo as autoras à
tona de forma inevitável, o que deveria ter tornado indiferente e
descabida, para a crítica e apreciação artística, qualquer
discussão acerca do sexo de quem a produziu.
Seja
como for, a autora de literatura Conceição Evaristo se posiciona
como escritora feminista afro-brasileira, de forma condizente com seu
discurso acadêmico de ensaísta e de ativista. E, independentemente
de se concordar com ela a respeito da existência (ou da necessidade
da classificação) de uma literatura feminista afro-brasileira ou
não, o essencial e urgente é ampliar a presença (visibilizar) e o
foco dados aos personagens negros, fugindo dos estereótipos. Como
ela mesma diz, referindo-se a uma textualidade afro-brasileira, já
tem ocorrido mudanças:
Personagens
são descritos sem a intenção de esconder uma identidade negra e,
muitas vezes, são apresentados a partir de uma valorização da
pele, dos traços físicos, das heranças culturais oriundas de povos
africanos e da inserção/exclusão que os afrodescendentes sofrem na
sociedade brasileira (EVARISTO, 2009, págs. 19-20).
No
conto Maria,
do
livro Olhos
d'agua,
Conceição Evaristo fala de uma empregada doméstica, negra,
sozinha, mãe de três filhos, cada um de um pai. Maria leva para
casa, do serviço, um osso de pernil e frutas para os filhos
famintos. Encontra no ônibus seu antigo companheiro, pai de seu
primeiro filho, que lhe fala de saudade, da vida que tinham, manda um
abraço, um beijo e um carinho para o filho. De repente ele se
levanta do lado dela, onde havia se sentado, e anuncia um assalto no
ônibus. Não pega nada de Maria. Depois que ele e um comparsa
descem, levando os pertences dos passageiros, Maria é acusada de
estar com os ladrões e é linchada.
Maria
sintetiza vários elementos vitimizados pela desigualdade em uma só
personagem: mulher, negra, pobre, em uma profissão subalterna, sem
acesso à justiça institucionalizada. Mas ela é, antes disso,
protagonista, romântica, MÃE. E tudo isso faz com que o leitor se
identifique com ela, tenha empatia e compaixão. A construção
literária vai ao encontro daquilo que Homi Bhabha5
chama de “direito de significar” (BHABHA apud EVARISTO, 2009,
pág. 24) e na contramão daquilo que a militante Conceição
Evaristo critica:
Percebe-se
que a personagem feminina negra não aparece como musa, heroína
romântica ou mãe. Mata-se no discurso literário a prole da mulher
negra, não lhe conferindo nenhum papel no qual ela se afirme como
centro de uma descendência.
[…]
O que se busca argumentar, aqui, é o que essa falta de representação
materna para a mulher negra, na literatura brasileira, pode
significar. Estaria a literatura procurando apagar os sentidos de uma
matriz africana na sociedade brasileira? O imaginário da literatura
tenderia a ignorar o papel da mulher negra na formação da cultura
nacional? (EVARISTO, 2009, págs. 23-24).
O
que Conceição Evaristo faz, em seu conto, é afirmar aquilo que ela
chama de contra-discurso à literatura hegemônica, trazendo textos
“pautados pela vivência de sujeitos negros/as na sociedade
brasileira […] (ibidem, pág. 27).
Maria
é
um texto “pesado”, que toca, que fica na memória porque choca o
leitor com a crueza dos fatos e porque tem verossimilhança, é uma
daquelas histórias bem possíveis de já ter acontecido, com poucas
diferenças (nesse aspecto lembra o conto Feliz
Ano Novo,
de Rubem Fonseca). Faz pensar.
Quanto
faz diferença a autoria se o texto já diz tudo por si? É um conto
que poderia ser analisado da mesma forma se não fosse de Conceição
Evaristo? Sim e não. Literariamente poderia ser, e até as
referências aos estudos de gênero, raça, classe social e injustiça
social poderiam se realizar da mesma forma. Por outro lado, a autoria
acrescenta no sentido de se cotejar o conto com a fortuna crítica da
autora e com seu discurso político (sentido lato), de militante
feminista afro-brasileira. Nesse tipo de análise crescem os
argumentos, mas afasta-se do texto pelo texto, como arte literária
per
se.
Aí, chega-se na questão das preferências críticas: fazer o close
reading do
texto, tendo-o como fim em si, ou analisá-lo em relação ao
conjunto da obra da autora, ou até das várias autoras que tratam
dos mesmos temas ou, ainda, contextualizando-o historicamente e
dentro de determinados movimentos etc.?
Para
melhor proveito, é necessário avaliar em que contexto a obra será
lida. Por exemplo, atendo-se a adoção da literatura afro-brasileira
na escola,
A
formação dos estudantes com base em uma vertente literária que
mostre o protagonismo afro-brasileiro e dê oportunidade ao(à)
aluno(a) por meio da literatura de conhecer e de mergulhar em um
universo onde as culturas africana e afro-brasileira sejam vistas de
maneira positiva e livre dos estereótipos de sub-raça, de
escravismo, de inferioridade, entre outros; é um modo eficaz de
fazer com que a escola colabore de forma efetiva e definitiva para
reconstrução da história dos povos africanos e afro-brasileiros.
(MELO; GONÇALO, 2017, pág. 97).
Sem
dúvida, nesse caso (e também para problematizar o cânone
literário) a autoria faz toda a diferença, porque enriquece,
aprofunda e complexifica a questão, sendo o conto (ou qualquer de
seus textos literários) apenas porta de entrada para o conjunto de
sua literatura e, mais ainda, para toda a discussão que Conceição
faz sobre a questão de gênero, raça, classe, conhecimento,
história e poder.
Quem
melhor sabe o que lhe aflige é quem vive na pele a situação. Isso
vale para qualquer pessoa ou grupo. Desse lugar de fala é que nascem
os
meios
específicos
para fazer chegar o discurso. Se a melhor forma for a classificação,
a especialização ou singularização, de uma área ou vertente
artística, técnica, política ou científica, que seja! O que
importa é que as disparidades, silenciamentos, lacunas,
desigualdades e injustiças sejam evidenciados
e tratados.
Aí
as teorias (literárias, sociais, políticas etc.) e senãos têm o
papel, prévio ou contemporâneo, de municiar os atores da mudança
(no caso deste texto as mulheres negras) com as estratégias
potencialmente melhores. Mas, se as teorias não estiverem a serviço
do que realmente importa – neste caso a atividade transformadora –,
que cedam lugar ao fluxo prático, até instintivo às vezes, de quem
está engajado nas mudanças, ficando então, as teorias, com a
tarefa posterior de justificar as ações argumentativamente.
Referências
Teórico-críticas
BECHARA,
Márcia. “Feminismo negro não exclui, amplia”: Djamila Ribeiro
debate ativismos a convite da França. 16 mar. 2019. In: África
e sua diáspora, Mulher Negra.
Disponível em:
<https://www.geledes.org.br/feminismo-negro-nao-exclui-amplia-djamila-ribeiro-debate-ativismos-a-convite-da-franca/>
Acesso em 20 mar. 2019.
CAMARGO,
Flávio Pereira. Estudo
dirigido / Das margens ao centro – em
cena o corpo e a identidade feminina negra.
Universidade
Federal de Goiás. Programa de Especialização em Estudos Literários
e Ensino de Literatura. Faculdade de Letras. Goiânia, 2019.
CARNEIRO,
Sueli. Enegrecer
o Feminismo:
a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma
perspectiva de gênero. Geledés Instituto da Mulher Negra. São
Paulo, 2001. Disponível em:
<https://www.geledes.org.br/enegrecer-o-feminismo-situacao-da-mulher-negra-na-america-latina-partir-de-uma-perspectiva-de-genero/>
ou disponível em formato PDF em:
<https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/375003/mod_resource/content/0/Carneiro_Feminismo%20negro.pdf>
. Acesso em 20 mar. 2019.
EVARISTO,
Conceição. Literatura negra: uma poética de nossa
afro-brasilidade. In: Scripta,
v. 13, nº 25, jul. - dez., 2009, p. 17-31.
FIORINO,
Haydée Paixão. Tributo a elas: considerações sobre a produção
intelectual de mulheres negras. IBCCRIM – Instituto Brasileiro de
Ciências Criminais. Boletim 280. São Paulo, mar. 2016. Disponível
em:
<https://www.ibccrim.org.br/boletim_artigo/5728-Tributo-a-elas-consideracoes-sobre-a-producao-intelectual-de-mulheres-negras>
Acessado em: 19 mar. 2019.
MELO,
Carlos Augusto; GONÇALO, Sandra Regina Pereira. Uma proposta de
intervenção para o ensino da literatura afro-brasileira nas aulas
de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental. Letras
& Letras
| Uberlândia | vol 33 / 1 | jan/jul 2017. Disponível em:
<file:///C:/Users/julianobr/Downloads/35361-Texto%20do%20artigo-163490-2-10-20170813.pdf>.
Acessado em 21 mar. 2019.
Literária
___________________.
Olhos
d'agua.
Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016, págs.
21-30, 39-42.
Vídeo
ADICHIE,
Chimamanda Ngozi. Os perigos de uma história única. TED
TALKS.
2012. (18m50s). Disponível em: <https://youtu.be/EC-bh1YARsc>
. Acesso em: 18 mar. 2019.
Notas:
2
O que falar de Machado de Assis então, um escritor negro que
escreveu sobre tipos os mais diversos? (A título de curiosidade, há
um interessante artigo que afirma que as elites intelectuais da sua
época não admitiam a origem africana do “maior nome das letra
nacionais” e teriam, após sua morte, supostamente realizado um
“embranquecimento” na sua biografia e, talvez, até em suas
fotografia. Cf. NOBRE, Carlos. As
duas cores de Machado de Assis. Afro-brasileiros,
Patrimônio Cultural. 28 set.
2011. Disponível em:
<https://www.geledes.org.br/duas-cores-de-machado-de-assis/>.
Acessado em: 20 mar. 2019.
3
Cf. vídeo Chimamanda Adichie: O perigo da história única.Vide
Referências.
4
Há falhas em suas obras? Claro que sim. É a perspectiva de um
branco sobre a cultura do negro? Sim. Mas basta lê-los com
criticidade. É preciso considerar que a cultura e as tradições
africanas não elitizadas são transmitidas de forma
predominantemente oral e que, por isso, muito se perdeu e tem se
perdido com o tempo. Independentemente de quem movimente esforços
para resgatá-las e preservadas, é muito bem-vindo.
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