O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Erro criativo - a la Gianni Rodari


 

De vez em quando vou digitar meu nome e sai Juliasno. Como, no teclado, o “a” é encostado no “s”, às vezes meu dedo pega as duas letras. Antes, eu ficava bravo, depois passei a achar que é uma dica (de mim mesmo, do universo, de um gênio mágico etc.) para me lembrar do que não sei, lembrar que preciso aprender. Virou algo a meu favor, um... “mantenha os pés no chão”.


Lista de coisas a não esquecer



LISTAS DE COISAS A NÃO ESQUECER:

1. A aurora dos dedos róseos que li na Odisséia e que vi tantas vezes em outros contextos;

2. O cachorro que tive na infância, que me comoveu de uma forma que ninguém mais podia;

3. O cheiro da mãe;

4. Os avós que já se foram;

5. Quem eu era na infância;

6. O primeiro beijo e alguns outros que marcaram;

7. Alguns olhos;

8. Meus erros;

9. Meus acertos;

10. De lembrar.



 

Exercício recreativo

                                  António Gedeão


Fazendo um exercício, que consistia em escrever algo, baseado no poema Palavra Exacta, de António Gedeão, tratando a palavra 'biltre' como se não conhecesse seu significado, escrevi:


Eu dou-te uma palavra, e tu apostarás com determinação. Seja a palavra "biltre".

Talvez algo místico, mistura mágica de bile com salitre.

Talvez um birra de neném, daquelas de Deus me libre, mas numa língua estranha: “Diox me biltre”.

Talvez uma bela notícia, de bom alvitre.

Talvez um jeito de troçar com um amigo: Ah, seu “biltre”!

Talvez nada, só uma misturinha de letras interessante.

Talvez só o que está no dicionário, Mas [prefiro] não.



Debate cá, com meus botões


Debate cá, com meus botões


Juliano Barreto Rodrigues


“Si digo agua ¿beberé?

Si digo pan ¿comeré?”

Não nem eu, Pizarnik.


Quem dera,

Um chá de Clarice

Pudesse 

Lispectorar o meu peito.


Queria que o vinhedo que criei não fosse de papel

Nem de papel minhas viagens europeias.

E as pessoas incríveis que conheci,

Os Buendia, um Sr. Micawber, Natacha,

Fossem mais de carne e osso 

Que de palavras.


Existem para mim,

Mas como um sonho

Ou alguém que já morreu.

Como saudade.

Mas como ter saudade,

De quem jamais viveu?


Literatura é mundo paralelo

Dimensão de fuga mesmo

Então, 

Para que tornar a ficção realidade,

Se é de excesso desta que padeço?


Repenso.

“Eu não: quero é uma realidade inventada.”

Na pedra de Drummond não se tropeça.

No meu dicionário não mora o tédio.

Como dizia Leminski, 

Suprassumo da quintessência,

“O papel é curto.

Viver é comprido”


Queria então entrar em livros, 

Feito Bastian Balthasar Bux, 

Na História Sem Fim.

Em vez dos monstros

Das páginas saírem,

Como nos contos de R.L. Stine.


Feitas as pazes com minha vontade

Decidido o que, 

Por fim, quero,

Ou seja, a minha situação.

E faço como João Cabral de Mello Neto:

“Saio de meu poema como quem lava as mãos.”


***



Debate cá, com meus botões

Escrito em 28 de outubro de 2021.

Ouça em:

"Debate cá, com meus botões" - podcast





terça-feira, 29 de junho de 2021

Resenha Crítica, impressionista, de "O Evangelho segundo Jesus Cristo", livro de José Saramago.


 

Albrecht-Durer

O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

(Resenha Crítica, Impressionista)


SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. – 2ª ed. – São Paulo : Companhia das Letras, 2017. 443 p.


O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, tem, a rigor, um título impróprio, porque dá a entender que o próprio Cristo estaria narrando, quando, na verdade, um narrador é que conta, em terceira pessoa, a vida de Jesus. No entanto, é possível que se entenda o título como significando uma versão que não aquela pretendida por Deus e escrita pelos evangelistas, mas uma assumida pela ótica (não pela mão) do próprio Cristo. Seja como for, é um título que promete algo além do que já se conhece da história corrente.

O narrador é, por assim dizer, atual. Em determinados momentos fala de situações bem mais recentes do que a época em que Jesus viveu (como em “[...] porque uma coisa assim nunca se tinha visto antes, nem tornou a ver-se mais, até aos dias de hoje.” - p. 357), e fala também da própria escrita (se situa como contador de uma história). É o que se evidencia, por exemplo na passagem:

[...] Dizem os entendidos nas regras de bem contar contos que os encontros decisivos, tal como sucede na vida, deverão vir entremeados e entrecruzar-se com mil outros de pouca ou nula importância, a fim de que o herói da história não se veja transformado em um ser de excepção a quem tudo poderá acontecer na vida, salvo vulgaridades. E também dizem que é esse o processo narrativo que melhor serve o sempre desejado efeito de verossimilhança, pois se o episódio imaginado e descrito não é nem poderá tornar-se nunca em facto, em dado da realidade, e nela tomar lugar [...]. (p. 220).

 

É uma literatura um tanto excludente, pela forma que foi construída: tem parágrafos imensos (o primeiro capítulo é a descrição de uma gravura, em um só parágrafo de várias páginas) e não faz marcações claras das falas das personagens, ou seja, não há travessão ou aspas para indicar diálogos, nem pontos de interrogação para marcar perguntas. Só a utilização de iniciais em maiúsculas no início de algumas frases, no meio dos parágrafos narrativos, dão a entender que há uma fala e a intercalação dos falantes. Exemplo:

[...] Uma mulher que atravessava o largo, trazendo uma criança de cinco anos pela mão, parou, olhou com curiosidade o forasteiro e perguntou, Donde vens, e como se achasse necessário justificar a pergunta, Não és daqui, Sou de Nazaré de Galileia, Tens família nestes lugares, Não, vim a Jerusalém e, como estava perto, decidi ver com é Belém, Estás de passagem, Sim, volto para Jerusalém quando a tarde principiar a refrescar. [...]. (p. 212).

 Disse “excludente” porque, além da linguagem culta, os parágrafos enormes e a falta de marcação das falas oferecem dificuldades extras para a leitura, o que é, com certeza, desestimulante para leitores menos experientes (mesmo para estes, na verdade) e menos obstinados à leitura do livro. Não é um livro vulgar, literalmente falando, no conteúdo nem na forma.

No entanto, trata-se de uma obra que apresenta grande qualidade narrativa, que engaja rapidamente o leitor que insistir na leitura, apesar da dificuldade acima mencionada. É que o ritmo tem uma constância interessante até o penúltimo quarto da obra (depois do qual a narrativa acelera), parecendo que o autor escreveu três quartos de uma vez só (o que seria impossível, já que o livro tem mais de 400 páginas e entrelinhas reduzidas), e consegue gerar expectativas, tensões e sensações novas em relação a uma história sobre a qual, em tese, todos os leitores ocidentais já conhecem as linhas gerais e o final. Isso acontece, por exemplo, quando José, pai de Jesus, corre para a cova a fim de salvar seu primogênito dos soldados de Herodes, que tinham ordem de matar todas as crianças com até 3 anos. Todos nós sabemos que Jesus não morre naquele episódio, mas, ainda assim, o narrador consegue deixar o leitor verdadeiramente apreensivo e temeroso do destino do protagonista. Isso se dá pelo manejo artificioso e genial das palavras, o que, por si só, faz da obra uma jóia de alto quilate. É a mágica da forma.

Se, por um lado, predomina uma escrita reta, substantiva, também há uma prosa poética, como em:

Mas o mal, que nasceu com o mundo, e dele, quanto sabe, aprendeu, amados irmãos, o mal é como a ave Fénix que, parecendo morrer na fogueira de um ovo que as suas próprias cinzas criaram volta a renascer. O bem é frágil, delicado, basta que o mal lhe lance ao rosto o bafo quente de um simples pecado para que se lhe creste para sempre a pureza, para que se quebre o caule do lírio e murche a flor da laranjeira. (p. 350).

 Falando do conteúdo, trata-se de uma releitura (e reescrita, neste caso, porque não mera interpretação) de uma história conhecida, como já dito, que embora não negue a versão oficial, a apresenta de uma perspectiva mais humana, destacando a cotidianidade das personagens bíblicas, a geografia e os costumes, mantendo os milagres mas tornando-os menos fantásticos – e, até por isso mesmo, mais críveis, ainda que dependentes da fé – ou, talvez seria melhor dizer, não lhes dando mais destaque do que devem ter. Também há um foco no crescimento psicológico do Cristo, que tem dúvidas, não sabe que rumo tomar, é grosseiro e ingrato com a mãe, vive com uma ex-prostituta, é mais humano. Humano, demasiado humano. Até ele se considera, tanto que pergunta como, sendo filho de Deus, come, bebe e ama como os homens. Esta humanidade toda já é um provável motivo de polêmica entre cristãos, mas sua relação com Maria de Magdala é, talvez, o ponto mais polêmico do livro.

É muito interessante que Saramago, autoproclamado ateu, tenha se dignado a escrever este Evangelho. Como diz a professora e escritora Tarsilla Couto de Brito (UFG), todos no ocidente são um tanto influenciados pelo cristianismo, mesmo os ateus, já que são todos criados dentro de uma tradição - familiar, escolar e cultural (as festas, feriados e folclore etc.) – eminentemente cristã. Sendo assim, embora incréu, Saramago conhece bem a história que se propôs a contar sob novo viés.

Gottfried Benn, famoso escritor do Expressionismo alemão disse que um autor religioso não faz boa literatura, porque sua crença o leva a tentar tornar sua arte edificante, banalizando-a. Nesse caso, a crença religiosa será um princípio estilístico ruim. É provável que essa generalização não corresponda tanto à verdade, mas tem um argumento importante que parece bem aplicável ao livro de Saramago: a falta de obrigação com o dogma, a ausência de temor reverencial, o olhar do ficcionista ao invés do olhar do fiel, é que permitiram a criação de uma obra tão ousada, original ao abordar temas negados e ao acrescentar novidades à narrativa-base. Sem a condição irreligiosa de Saramago, provavelmente o resultado do evangelho que escreveu não seria a obra prima que é.

Incomoda o machismo vigente naquele tempo e naquela cultura, que o narrador ressalta em vários momentos. É preciso que se pense que, naquela época, nem a ideia de machismo nem a palavra que o representa existiam. É preciso crer que aquele era o costume, para que o incômodo não antipatize tanto o leitor a ponto de largar o texto ao meio. Também é desagradável ler sobre a forma com que o protagonista trata sua família (sua mãe principalmente) em muitos momentos. Mais isso corrobora a ideia de sua humanidade.

Em O Evangelho segundo Jesus Cristo a mãe de Jesus, Maria, é relegada a um plano inferior, de figura indesejada pelo protagonista. Já Maria de Magdala é alçada a um ponto de destaque. É ela que acompanha Jesus nos seus anos mais importantes e até o momento de sua morte. É ela, mostrada aqui como mulher (de fato) de Jesus, a personagem mais controversa em relação à doutrina universalmente aceita.

A relação entre Deus e o Diabo é interessante e, ao invés de oposta, é complementar (Deus diz para Jesus: “[...] não esqueças o que te vou dizer, tudo quanto interessa a Deus, interessa ao Diabo” – pp. 366-367). São mostrados como semelhantes: “[...] levo-os até a borda para que todos possam, finalmente, ver Deus e o Diabo em figura própria, o bem que se entendem, o parecido que são” (p. 370). E mais, há momentos em que o Diabo parece ser bem mais coerente do que o criador. É marcante, por exemplo, aquele em que Jesus acaba sacrificando a Deus o cordeiro que antes havia salvado, situação após a qual, o Diabo manda Jesus embora, dizendo que ele não aprendeu nada (porque deveria ter lutado pela vida). Noutra parte, o Diabo propõe a Deus que o perdoe e o aceite, para que só exista o bem, sem necessidade de tanta matança em nome de Deus, mas este não aceita e diz preferir assim. Aliás, o Deus deste Evangelho é um Deus arrogante, ambicioso, egoísta, enganador e sanguinário.

É feita uma relação, em várias páginas, dos mártires da Igreja Católica, arrolados em ordem alfabética por nome e tipo de morte violenta, que choca e que, somada às descrições de outros tipos de sacrifícios, apelam para a razão no sentido de induzir à conclusão de que os males causados pela religião podem ser maiores do que seus benefícios.

Jesus pergunta a Deus se ele se serve (usa) dos homens, e Ele responde: “Sim, meu filho, o homem é pau para toda a colher, desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam-no para ali, e ele vai, dizem-lhe que pare, e ele pára [...], falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses” (p. 370).

O que o livro todo parece dizer é que “[...] a história de Deus não é toda divina” (p. 410). Nesse sentido, o texto é quase um manifesto antirreligioso. Há uma crítica clara a esse Deus, à credulidade humana, à igreja. Por outro lado, Jesus é poupado. É fácil se identificar com ele, que, afinal, está pela humanidade, mais do que por Deus.

“[...] e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.” (p. 442). Finalizando a leitura, há como que este “fecho de ouro”, uma frase de grande efeito, que, arrisca-se dizer aqui, ficará gravada na memória de quem ler este Evangelho: “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”.

Só me coube uma crítica impressionista, já que é a primeira leitura que faço de Saramago, não podendo comparar O evangelho segundo Jesus Cristo com o conjunto da obra do autor, nem com a fortuna crítica pertinente, a qual também não tive acesso ainda. Isso, porém, me dá liberdade para fazer um julgamento mais ligado puramente à fruição da leitura única e aos seus efeitos, sem ruídos externos nem pré-julgamentos. No entanto, é importante dizer que já havia assistido ao documentário José e Pilar, de cuja experiência saí com preconceito e impressão ruim acerca do autor, impressão totalmente revertida, logo no início da leitura deste evangelho.

Querendo classificar o livro em uma só palavra, a que me vem de pronto é “Soberbo!”, assim mesmo, em maiúsculas, exclamando. É um grande monumento literário. Na minha experiência pessoal, afirmo que restei cativado e desejoso de ler todas as outras obras do autor, que, se na pior hipótese, não tivessem 50% da qualidade desta, ainda seriam grandes.


“VÃO FICAR CHORANDO ATÉ QUANDO?”

Cartum de Andrício de Souza. Disponível em: <

https://piaui.folha.uol.com.br/wp-content/uploads/2018/11/147_cartuns11.jpg>. Acesso em 29 jun. 2021.



Vão ficar chorando até quando?”

 

Juliano Barreto Rodrigues

 

E diziam “Deus é brasileiro”. Por isso, esperavam um messias pelas bandas de lá. Já tinham visto alguém feito eles –  pobre, operário, com pouco estudo – sair do rés do chão e chegar aos píncaros da república de bananas. Mas esse não era santo feito o Cristo. Haviam tido o gostinho de um novo milagre brasileiro, as empregadas estavam passeando em Miami. O novo salvador tinha que brotar ali.

(A Terra é redonda... e gira, ainda por cima. O que está em cima daqui a pouco está em baixo e, se bobear, daqui a pouco está no alto de novo. E o povo, crédulo, cordial, ansioso por gurus e capitães que lhes guiem as vidas, até hoje não aprendeu a se equilibrar em cima da bola: sobe no giro e se estabaca em seguida, daí sobe de novo e se estabaca novamente. Fato é que, “a esperança é a última que morre”, nesse clichê todos se fiam. Voltemos...)

Era lá pelos inícios do século XXI. Feito o Nazareno, o novo Messias apareceu do nada, como se sua história só tivesse começado com ele já adulto. Mas este esperado não se parecia tanto com o primeiro: já não gostava de andar entre os pobres, não tinha o dom da palavra, mancomunava com os vendilhões do templo, não curava os doentes (apressava sua morte).

Os olhos claros, que inventaram para o Cristo oriental da pele escura, clareados nas pinturas, o Messias de agora os tinha naturais.

Aquele que sofreu tentações no Deserto da Judéia não se parecia com este, que agora queria tornar onde pisa um deserto. E o temor às tentações? Este já não tinha, pelo contrário. Mentia que a cara nem sentia, e esse era só o mais comum de seus pecados. Este Messias veio cínico, talvez desiludido da humanidade e da divindade que não fosse o próprio umbigo.

Aquele messias de antes estava bem guardado no céu e, parece, nem olhava direito mais para o povo. O novo, ambicionava não só a colônia do Brasil, mas também o reino de debaixo da terra.

E eis que a peste se espalhou pelo mundo inteiro, e o novo Messias lavou suas mãos. Ria da desgraça alheia, a conversa de “imunidade de manada” trazia, no fundo, a mal-disfarçada eugenia. E o povo morria, e ele ajudava a matar. Em vez do remédio, distribuía armas para todos. E houve saudade daquele profeta que antes dele viera (mesmo não sendo santo, mesmo não sendo perfeito, pelo menos era feito eles, tinha humanidade).

Mas o novo Messias não iria largar o osso, queria toda a raça depois de Herodes e de Pilatos condenada, os herdeiros do mundo e o mundo todo. E mil caiam à sua direita e dez mil à sua esquerda, mas ele não pegava nem uma gripe. Instalado no reino, a sua oposição oficial lhe lançava apenas expedientes de festim, para negociar por miudezas. E seu povo à mingua, demandando mais covas do que os coveiros conseguiam cavar. E no auge da segunda onda, até os otimistas do “o céu é aqui” já achavam que o oposto é que era. E o remédio para a peste veio de longe, e o Messias o desacreditou. E quando não pode impedir que chegasse, dificultou seu alcance. E até criticou o profeta antecessor por ter distribuído o pão como o primeiro messias fez.

Mas este Messias também haveria de ser julgado pelo mundo e crucificado, não literalmente, mas pela opinião pública. E todos rezavam para que este, enfim, jamais ressuscitasse.






 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Os mortos também tombam neste poema


 

OS MORTOS TAMBÉM TOMBAM NESTE POEMA

 

Juliano Barreto Rodrigues.

 

“Os mortos tombam no poema”.

Neste também, Nelson Saúte,

Nest’outra pátria dividida,

A quem qualquer janota ilude.

 

Aqui, na nossa semicolônia,

Onde a terra voltou a ser plana,

Falta vacina mas sobra bala,

Rico fura fila e pobre vai pra vala.

 

Aqui sobram engodeiros pulhas.

Ao invés das luzes da ciência,

Apregoam-se placebos e falsas curas.

E dá-lhe Ivermectina, pra quê prova?

 

No Brasil quem fala mais alto

Ganha a briga

Do lado de cá da dos sem mandato,

Faz falta o timbre de arauto

(Povo cordial não é de grita).

 

O ar continental, o sopro do pulmão do mundo,

Falta no peito manauara, bem ali do lado.

É que no desgoverno do Brasil,

Governante considera Pandemia ardil.

 

E do falso inimigo,

A Venezuela,

Na verdade irmão de lida,

É que vem a solução.

 

Os médicos de Cuba,

Que também mandamos embora,

Vendo nosso desespero,

Voltaram a nos dar a mão.

 

Choro o choro dos enlutados

Mas o povo só se preocupa com o carnaval ser adiado

Quem tripudia da gente indo para a festa e batendo no peito,

Deveria abrir mão de ter um leito.

 

Os mortos tombam no poema.

Misericórdia!

Falta consciência.

Os mortos continuam tombando, aos milhares, no poema.

 

 

 

 

 


terça-feira, 20 de outubro de 2020

Crítica Literária (verbete criado para o curso de Letras da UnB)

©Disney Enterprises, Inc. and Pixar Animation Studios




CRÍTICA LITERÁRIA

Juliano Barreto Rodrigues

Crítica, do latim critĭcus, advém, originariamente, do grego antigo kritikḗ (κριτική), e significa ‘apreciação, julgamento’. Critica literária consiste, portanto, na apreciação (discussão, interpretação) e julgamento (avaliação) das obras literárias, baseando-se na teoria da literatura ou em outro parametrizador específico qualquer (científico, disciplinar, estético, moral, comparativo...). Tanto a crítica quanto a própria literatura objeto da crítica são historicamente situadas, ainda que a resenha se atenha, em alguns casos, exclusivamente ao texto e este não traga indicações claras de época. Todo texto analisado foi escrito em algum momento e a crítica sempre será feita por um sujeito também presente em tempo específico, o que determina muito da leitura que o crítico faz do texto. Nesse sentido, o método aplicado sempre será uma atualização histórica. A crítica literária, conforme Esterhammer (20??), tem funções de avaliação, de informação, de orientação, de didática e de entretenimento.

 Silva (2012), destaca três momentos históricos paradigmáticos do desenvolvimento da crítica literária: 1) a sua gênese na antiguidade clássica, a partir das reflexões dos filósofos (especialmente Platão e Aristóteles ); 2) o período em que esteve praticamente sob o domínio dos religiosos, na Idade Média e início da Modernidade, época em que a crítica se baseava na escolástica, método que visava conciliar os princípios da fé cristã com o pensamento racional. Os primeiros ensaios de crítica literária ocidentais são sobre a exegese bíblica e dos clássicos antigos (LA CRITIQUE LITTÉRAIRE, 20??); 3) a fase Moderna, que firma o conceito de crítica literária a partir da investigação científica (destacam-se, para essa evolução da crítica literária, as obras Crítica da Razão Pura e Crítica da Faculdade do Juízo, de Immanuel Kant). A partir daí  a crítica especializada, assumindo (alguns a contragosto) o caráter intrinsecamente subjetivo da atividade,  teria definido correntes, diferenciadas pelos estilos dos críticos.

Na modernidade, os franceses tinham a crítica como simples “jogo do espírito” (CARDOSO, 2017). No século XVIII, o poeta, dramaturgo, filósofo e crítico de arte alemão Gotthold Ephraim Lessing mudou isso, destacando que a arte se origina de um estado emocional real, é uma produção resultante das aptidões psicológicas e não mera intuição ou acaso. Assim aproximou não só arte e ciência, mas a própria Crítica dos métodos científicos.

Contemporaneamente (Cf. CRÍTICA LITERÁRIA, 2020), Northrop Frye influenciou a crítica literária com seu livro ensaístico Anatomia da Crítica. Destacou que os críticos julgam de acordo com a ideologia que adotam. Jürgen Habermas (em Erkenntnis und Interesse [Conhecimento e interesses humanos]) tratou a teoria crítica como forma de hermenêutica, abrangendo a interpretação dos textos literários e suas expressões simbólicas, incluindo na análise os textos que os interpretaram. Na década de 60 do século passado, desenvolveu-se a chamada Nova Crítica, que passou a considerar o próprio estudo teórico das formas literárias como literatura. René Girard, posteriormente, investigando o desejo humano (e seus conflitos) na literatura, apontou alguns critérios específicos para a pesquisa interpretativa (REYES, 2015). Mas há muitas teorias e classificações para além dessas. O importante é destacar que a crítica literária evolui no tempo, há muito se aproxima mais da ciência e é frequentemente informada pela teoria literária, mas não se restringe a conceitos ou métodos únicos.

O senso comum significa a crítica pejorativamente, como atividade de alguém especialista em falar mal de alguém ou de algo, bem como perito em encontrar defeitos nas obras alheias. Mas a crítica vai bem além disso e tem uma função importante na regulação, contextualização e perspectivação das realizações humanas. 

A atividade da crítica literária é vista com ressentimento por parte da maioria dos autores – especialmente daqueles que não caíram nas graças dos críticos – várias declarações suas provam isso. Ninguém se sente à vontade em ser julgado, especialmente quando um julgamento especializado influencia tantas pessoas e repercute de forma tão cabal na aceitação da sua obra, na sua imagem pessoal e nos seus rendimentos. 

A crítica é formadora de opinião (positiva ou negativa) e, como palavra de autoridade, é naturalmente temida por quem traz a público uma obra de arte (literária, musical, plástica etc.).   Ademais, questiona-se a legitimidade dos críticos, haja vista que seu julgamento será sempre subjetivo-opinativo, mesmo que lastreado em fundamentos, métodos e autores que justifiquem seu ponto de vista. 

Segundo Martins (2009), o crítico literário “[...] relaciona-se com a literatura, sobretudo com aquela que é sua contemporânea, [...] através de uma espécie de cegueira interessada que leva o crítico a unicamente ver aquilo que quer ou pode ver.” Acrescenta ainda que, “No domínio da crítica literária, faz plenamente sentido a afirmação de M. Merlau-Ponty de que "só encontramos nos textos aquilo que colocamos neles", ou seja, o crítico só elabora suas reflexões com base na fortuna cultural que tenha em si mesmo.

É fácil duvidar da isenção dos críticos, seja porque estão sujeitos (como todas as pessoas) à influência social, religiosa, moral, política, ou porque podem ter algum interesse pessoal inconfessado. Também é comum o argumento de que quem não ajudou na realização de um trabalho, nem apresentou coisa melhor, não deveria ser autorizado a arbitrar sobre o valor artístico de algo ou alguém. Mas tudo isso constitui uma visão simplista. 

É inegável que a crítica ocupa um espaço essencial no sistema literário. Faz parte, junto com os editores, os agentes literários, os leitores, a academia e os livreiros, daquele complexo de freios e contrapesos que, no jogo de tensão entre esses ‘sujeitos’, auto-organiza o próprio sistema. Seguindo a lógica da “mão invisível do mercado”, de Adam Smith (e literatura é também um grande mercado), chega-se, dentro da crise permanente dos antagonismos, a um meio-termo razoável e mutável o tempo todo. Isso também explica o sucesso, a heterogeneidade e a convivência entre best-sellers, livros eruditos, auto-ajuda, ficção e não-ficção, títulos estrangeiros e nacionais,  autores de literatura ‘popular’ vendendo tanto quando autores de literatura consagrada ,assim por diante, além do caso, comum em literatura e nas artes em geral, do reconhecimento de obras e autores em períodos históricos posteriores à morte desses autores, em épocas mais afins às suas ideias. Os críticos (especializados e não especializados) são peças poderosas na co-orientação do mercado do livro. 

O blog da Livraria Saraiva (SARAIVA CONTEÚDO, 2017) destacou 10 críticos literários que fizeram história. Como toda lista, deixa muitos nomes importantes de fora (neste caso, especialmente os mais atuais). Ainda assim, é uma boa referência. Segue um breve extrato:
 
1. SÍLVIO ROMERO (1851-1914)
Sergipano, fez crítica e história literária de forma sistemática e técnica. Defendia que a realidade deveria ser a base da literatura. Conforme Antônio Cândido, ele “firmou o cânon da história literária brasileira”. Silvio Romero foi professor e historiador de literatura brasileira, crítico literário, ensaísta e folclorista. Obra destacada: História da Literatura Brasileira – Tomos I e II (Imago).

2. JOSÉ VERÍSSIMO (1857-1916)
Paraense, influenciado pelo crítico francês Hippolyte Taine, foi um dos primeiros a destacar a importância de Machado de Assis. José Veríssimo pensava o homem histórico-socialmente situado, bem como sob o aspecto de raça.  Foi escritor, crítico e historiador literário, educador e jornalista. Obra destacada: História da Literatura Brasileira (Letras e Letras).

3. ARARIPE JUNIOR (1848-1911)
Cearense, nacionalista, criativo e sensível ao fato estético, integrou, junto com Sílvio Romero e José Veríssimo, a destacada intelectualidade da época chamada de “geração de 1870”. Foi advogado, político e crítico literário. Obra destacada: Cartas Sobre a Literatura Brasileira

4. AGRIPPINO GRIECO (1888-1973)
Fluminense, foi temido por suas colunas nos jornais, em tom satírico e polêmico (1920-1950). Sua crítica era impressionista e ele também tinha um interesse humanista. Foi crítico literário, jornalista, tradutor, contista e poeta. Obra destacada: Poetas e Prosadores do Brasil (Livros do Brasil).

5. ALCEU AMOROSO LIMA (1893-1983)
Fluminense, tido como crítico do modernismo, foi uma importante liderança da inteligência católica brasileira. Considerava a crítica uma atividade autônoma e fazia uma crítica expressionista e de cunho satírico. Também era conhecido por seu pseudônimo Tristão de Ataíde. Foi crítico, professor e ensaísta. Obra destacada: O Crítico Literário

6. AFRÂNIO COUTINHO (1911-2000)
Baiano, introduziu os conceitos do New Criticism na crítica brasileira. Foi professor, crítico literário e ensaísta. Obra destacada: Enciclopédia de Literatura Brasileira (Global).

7. ÁLVARO LINS (1912-1970)
Pernanbucano, rechaçava a ideia de que a crítica era apenas um julgamento subjetivo. Sua crítica era impressionista e de cunho humanista. Foi professor, redator-chefe do Correio da Manhã, e crítico literário. Obra destacada: Filosofia, História e Crítica na Literatura Brasileira.

8. ANTONIO CANDIDO (1918-2017)
Carioca, exercitou uma crítica de cunho social e histórico. Desenvolveu estudos sobre autor-obra-público, sobre literatura e também pedagogia. Foi escritor, sociólogo, professor e crítico literário. Obra destacada: Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos (Ouro Sobre Azul).

9. ALFREDO BOSI (1936)
Paulistano, caracterizado em sua produção crítica pelo formalismo literário e suas implicações históricas. É professor emérito da Universidade de São Paulo, crítico e historiador da literatura brasileira, membro da Academia Brasileira de Letras. Obra destacada: História Concisa da Literatura Brasileira (Cultrix).

10. WILSON MARTINS (1921-2010)
Paulistano, se denominava “o último crítico literário em atividade”. Crítico impressionista que publicava em jornais, colecionou inimigos. Analisava obras contemporâneas, valendo-se da comparação histórica. Foi professor, escritor, magistrado, jornalista, historiador e crítico literário. Obra destacada: A Crítica Literária no Brasil – Vols. I e II (Francisco Alves).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADHIKARY, Ramesh. A History of Literaty Criticism – Harry Blamiers. In: History of Literary Criticism B.A. 1ST Year Major English – Eng-422. Blogspot. 2019. Disponível em: <http://rameshadhikary.blogspot.com/2019/12/history-of-literary-criticism-ba-1st.html>. Acesso em 15 out. 2020.

CARDOSO, Camila Chaves. Os condeitos de literatura e crítica literaria em dois textos de Silvio Romero. Unicamp, 2017. Disponível em: <https://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/c00017.htm> . Acesso em: 15 out. 2020.

CRÍTICA LITERÁRIA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Cr%C3%ADtica_liter%C3%A1ria&oldid=58998864>. Acesso em: 9 ago. 2020.

ESTERHAMMER, Ruth. Das Buch und die Kritik: Theorie versus Praxis. Literaturkritik.at. Universidade de Innsbruck, Áustria. 20??. Disponível em: <https://www.uibk.ac.at/literaturkritik/zeitschrift/471992.html> . Acesso em 15 out. 2020.

LA CRITIQUE LITTÉRAIRE. Book Wiki – enciclopédie libre. Italy, 20??. Disponível em: <https://boowiki.info/art/la-critique-litteraire-3/la-critique-litteraire-2.html> . Acesso em: 15 out. 2020.

MARTINS, Manuel Frias. Crítica Literária [verbete]. E-Dicionário de Termos Literários de Carlos Ceia. 2009. Disponível em: <https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/critica-literaria/> . Acesso em 15 out. 2020.

REYES, Júlia. Conhecimento: uma leitura de René Girard. Abralic. XIV Congresso Internacional Fluxos e Correntes:  trânsitos e traduções literárias. Universidade Federal do Pará. Belém – Pará. 2015. Disponível em: < https://abralic.org.br/anais/arquivos/2015_1464284337.pdf> . Acesso em: 15 out. 2020.

SARAIVA CONTEÚDO. Dez críticos literários brasileiros que fizeram história. SARAIVA [blog]. São Paulo, 2017. Disponível em: <https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:EW1wDWauK1IJ:https://blog.saraiva.com.br/dez-criticos-literarios-brasileiros-que-fizeram-historia/+&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br> . Acesso em 16 out. 2020.

SILVA, Daniele Cristina Afostinho. Crítica Literária. Info Escola. 2019. Disponível em: < https://www.infoescola.com/literatura/critica-literaria/> . Acesso em 15 out. 2020.





Literatura Oral

 

By Geledés

LITERATURA ORAL

 

Juliano Barreto Rodrigues

 

Entendendo que, etimologicamente, literatura advém do radical latino littera, que significa letra do alfabeto, caractér da escrita, alguns podem ver contradição em tratar algo que circula, às vezes exclusivamente na forma oral, como sendo literatura. Por isso mesmo, achei interessante tratar da literatura oral como gênero.

Segundo o Glossário Ceale (SOUZA, 20??), a expressão Literatura Oral foi utilizada pela primeira vez em 1881, pelo pintor, folclorista e escritor francês Paul Sébillot, no livro Littérature Orale de la Haute-Bretagne. Literatura Oral designa os textos (em sentido amplo, significando um entrelaçamento de signos linguísticos que produzem sentido), em prosa e verso, transmitidos oralmente. É o caso das lendas, mitos, parlendas, adivinhas, provérbios etc.

Essa literatura existia antes mesmo da invenção da escrita. Mas, ainda hoje, há culturas que mantém a tradição de repassar manifestações literárias oralmente (poemas, contos, rezas...). Nas religiões de origem bantu e nagô, aqui mesmo no Brasil, os mitos e costumes são transmitidos através de versos (ingorossis, itans, orikis etc.); na África Ocidental há os Griots. Nas tribos indígenas também se mantém a literatura oral. Mesmo entre os habitantes urbanos, que aparentemente não têm uma cultura tradicional preservada tão oralmente, também há algumas manifestações do tipo, como as lendas urbanas, as cantigas de roda, as adivinhações. Ao conjunto das ocorrências orais de fundo literário alguns estudiosos têm chamado “oratura” (de orature, uma aglutinação entre os termos em inglês oral + literature).

Muito da literatura fundadora que conhecemos e estudamos hoje por escrito, nasceu oralmente (é o caso da Ilíada e da Odisseia, de Homero). Também nasceram oralmente Beowulf, e os contos de fadas antigos. Alguém contesta que se tratem de literatura?

A Wikipédia (2020) destaca o caráter de arte “improvisacional” da literatura oral. Diz que, normalmente [não exclusivamente] o narrador aprende um conjunto de sequências “roteirizáveis” ao invés de decorar, ao pé da letra, um conjunto de textos. A partir daí, cria uma trama com início, meio e fim. Visualiza os personagens, as cenas e cenários, e improvisa a forma de contar. Disso decorre que nunca a mesma história será contada exatamente do mesmo jeito. Isso pode valer para contos e outras formas em prosa, mas talvez não para cantigas e versos, que geralmente são aprendidos e repetidos palavra por palavra. Nesse sentido,


Zumthor (1997) esclarece que o texto oral é realizado sem rascunhos – ou melhor dizendo, “sem borracha” –, por mais que cantadores populares possam ensaiar e aprimorar seus versos antes das apresentações. O momento onde o texto toma forma é circunstancial. Por isso mesmo, é certo dizer que nenhuma performance é igual a outra. (LÚCIO; CUNHA, 2017, p. 4701).

 

A consignação por escrito da Literatura Oral é polêmica. Se, por um lado, evita que muitas de suas manifestações sumam, se extinguam, por outro, a transcrição representa uma apropriaçao por parte do transcritor, que passa a ser autor (lembra o caso dos Irmãos Grimm?); engessa ou deturpa uma versão de algo que, por ser oral e contado por diferentes pessoas, é naturalmente modificável no tempo e no espaço; além disso, altera as próprias características da fala popular.

No entanto, ainda que oralidade e escrita tenham diferenças muito evidentes, devem ser vistas em suas peculiaridades, mas não como coisas opostas, porque comumente se entrecruzam. SOUZA (20??) demonstra a defesa dessa ideia por nosso sistema escolar:


Na alfabetização, tais entrecruzamentos [entre oralidade e escrita] se revelam importantes. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) dos anos iniciais do Ensino Fundamental, por exemplo, aproximam o ensino da escrita da oralidade, ao sugerir a valorização da cultura oral como forma de iniciar o aluno no mundo da escrita, apresentando perspectivas teórico-metodológicas que envolvem a narração e a escuta de histórias, o levantamento de narrativas que circulam nas famílias e o trabalho com gêneros orais, tais como cordel, canções e parlendas.

 

Entendendo “literatura” e mesmo “texto” como algo mais amplo, neles podem se enquadrar os quadrinhos, o cinema, as novelas de TV, as canções populares, o repente, o improviso, o graffiti e o pixo nos muros (Cf. LÚCIO; CUNHA, 2017) e  - por que não? - os Storytellings do mundo institucional e corporativo. É preciso considerar, inclusive, o caso de algumas obras de arte não autônomas que dependem de significados externos, escritos, que completem ou traduzam significados (WILLIAMS, 2007, p. 259) - é o caso de algumas pinturas, filmes, músicas, por exemplo. Não sendo primariamente literárias, secundariamente podem ser lidas pelo viés literário.

Por tudo que foi dito, Literatura Oral é, sim, literatura. E a ela deve ser reconhecido o valor que se dá a algo escasso, em vias de desaparecimento caso não continue a ser repassado. Se pensarmos pos este viés, em muitos casos a maioria das narrativas orais tradicionais são muito mais preciosas do que as escritas. Aquelas foram construídas por gerações (nesse sentido são coletivas) e continuam vivas, se transformando um pouco a cada recontagem (por esta ótica, tem algo do gênero dramático, dependem de uma certa performance do contador). Já as escritas, viraram mercadoria corrente e perene, abundam. Têm mutio valor, mas é preciso que as pessoas, inclusive os literatos e as universidades, confiram à boa literatura oral o lugar que merece, junto à literatura com “L” maiúsculo, posto quase exclusivamente conferido aos cânones escritos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

LITERATURA ORAL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Literatura_oral&oldid=59490160>. Acesso em: 9 out. 2020.

 LÚCIO, Ana Cristina Marinho; CUNHA, Thiago da Silveira Cunha. Literatura e outras linguagens: exemplo do testemunho de pichadores em João Pessoa. XV Congresso Internacional da Abralic. Universidade Federal da Paraíba. 2017. Disponível em: <https://abralic.org.br/anais/arquivos/2017_1522243505.pdf> . Acesso em 09 out. 2020.

SOUZA, Josiley Francisco de. Literatura Oral. In: Termos de Alfabetização, Leitura e Escrita para educadores. Glossário Ceale. Faculdade de Educação da UFMG. 20??. Disponível em: <http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/literatura-oral#:~:text=Literatura%20oral%20%C3%A9%20uma%20express%C3%A3o,modo%20diferente%20do%20falar%20cotidiano> . Acesso em 09 out. 2020.

WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave : um vocabulário de cultura e sociedade; traduçãode Sandra Guardini Vasconcelos, - São Paulo : Boitempo, 2007. 464 p.

 


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Falando um pouco sobre o gênero Romance

 

Falando um pouco sobre o gênero Romance


Juliano Barreto Rodrigues


“Há controvérsia!” - Surgimento do romance moderno

A origem do romance moderno não é consensual (FUKS, 2016). Se convencionou considerar Dom Quixote, surgido em 1605, como o primeiro romance moderno. Mas isso é problemático, já que a modernidade ainda não havia sido estabelecida, isso só acontecendo mais tarde. O foco no indivíduo e algumas outras peculiaridades, dentre outras características do romance propriamente dito, seriam somente intuitivas, ocupando Dom Quixote apenas o lugar de precursor do romance moderno, não sendo, ele próprio, o primeiro do gênero.

Levando em conta a modernidade historicamente situada, burguesa, capitalista, individualista, alguns dizem que o primeiro romance efetivamente moderno foi Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, escrito em 1719. Mas há quem também o considere um precursor do verdadeiro primeiro romance moderno. 

Auerbach, filólogo alemão, crítico literário e estudioso de literatura comparada, defendeu O Vermelho e o Negro, publicado por Sthendal em 1830, como o fundador do romance moderno e do próprio realismo moderno. O protagonista, situado em um momento histórico concreto, evolui em uma sociedade que considera hipócrita e vai questionando as bases em que está assentada.


Por que ler romances?

A revista Super Interessante (2013) disse, em primeiro lugar, que “Ler romances torna você uma pessoa melhor”. Em uma matéria publicada, em 2013, com esse título, afirma que os romances fazem isso porque permite que o leitor entre em outro mundo e confronte suas próprias incertezas, ambiguidades, situações críticas e ofensivas, sem sofrer riscos reais. Isso “abre a cabeça”, permitindo pensar situações sem ter que vivê-las efetivamente. Romances são representações da realidade sob um novo ponto de vista – do narrador e dos personagens. O leitor cria empatia ou antipatia por alguns, concorda ou discorda de situações e comportamentos, reflete sobre a história, pensa no que faria se estivesse no lugar de alguns, vive aquela ‘vida paralela’ contada no texto. Nesse sentido, Adolfo Bioy Casares disse que “ler é a outra aventura, e a primeira é, provavelmente, a vida mesma.”

Romances têm sua singularidade, enquanto gênero, mas são muito versáteis. A ensaísta e tradutora francesa Marthe Robert (2009), resumiu bem uma das características do romance, dizendo que nele cabem elementos do drama, da epopeia, da fábula, do ensaio, cabe o monólogo, a comédia etc. Ou seja, nos romances há inúmeras possibilidades para agradar diferentes gostos. Eles ensinam, divertem, nos permitem ver o mundo sob outras óticas, conhecer culturas e lugares em que nunca iremos, observar pessoas sem incomodá-las, testar nossas próprias convicções e conceitos, tudo sem sofrermos nenhum arranhão.

Sem contar, que o romance é o gênero literário mais prestigiado na atualidade. Há best sellers mundiais e, em muitos círculos sociais, confessar nunca ter sequer ouvido falar de certos livros e autores é ser classificado como alguém, no mínimo, muito ‘por fora’. Quem não conhece Harry Potter? E o Senhor dos Anéis? O Drácula, de Bram Stoker? Antes de serem filmes, são livros. 
 

O que são os clássicos?

Clássicos são, grosso modo, romances que sobreviveram ao tempo, ou seja, que mesmo refletindo, às vezes, épocas distantes e lugares desaparecidos, permanecem por terem sua qualidade reconhecida, mantendo o interesse dos leitores e dos outros atores do universo literário: críticos, editores, universidades, livreiros etc. Foram testados pelo tempo e não desapareceram, continuam agradando e sendo lidos.

Dentre as características dos clássicos, uma que muitos citam é a atemporalidade, ou seja, tratam de temas universais, que nunca saem de moda, como o amor, a morte, a vida. Outra característica importante dos romances é a originalidade, que consiste em um ponto de vista único (e, às vezes um tipo de linguagem também) para tratar de algo conhecido. Isso surpreende o leitor, que passa a ver as coisas por outro ângulo. 

Além disso, clássicos são desafiadores, sempre provocam nossa Inteligência, seja para decifrar o que realmente quer dizer ou para aprender novas palavras, ou então nos inquietam para solucionarmos mistérios ou tentarmos antecipar o que os personagens vão fazer.
 

Por que se escrevem romances hoje?

Resposta fácil: para contar histórias.

James Salter, romancista norte-americano, falou disso em três palestras que publicou em forma de livro pouco antes de morrer, em 2015. Disse que as histórias são a essência das coisas, o elemento fundamental. Sherazade, a filha do vizir em As mil e uma noites, só sobrevive, segundo outro romancista, o britânico Edward Morgan Forster, porque compôs histórias de um jeito que sempre houvesse um “gancho” deixando o rei sempre curioso sobre o que aconteceria em seguida. Isso, mais do que suas habilidades de criar personagens, narrar acontecimentos, fazer boas descrições, é que fez a diferença entre sua vida ou sua morte. “O que aconteceria depois? A vontade de saber é o motor da literatura: [então,] por favor, continue contando a história” (El País, 2018).

Ouvir, ou ler, e contar histórias são inerentes à nossa natureza e fez com que evoluíssemos como humanos. Contar histórias é, normalmente, um fenômeno narrativo, realizado utilizando primeira ou terceira pessoa pronominal, e que só dá certo se prender o interesse das pessoas. O romance é uma forma de contar grandes histórias, envolvendo muitos personagens e tramas complexas, com a possibilidade de idas e vindas no tempo, utilizando como suporte o livro, tecnologia que permite, conforme um texto incrível de Millor Fernandes (chamado L.I.V.R.O. ), “ser retomado a qualquer momento”, sem a obrigação da pessoa ter que ficar ouvindo a história até o fim, sem parar. 

Contos, crônicas, notícias, filmes, também contam histórias. O diferencial do romance é sua extensão, com a possibilidade de aprofundamento nas situações e na psique das personagens (coisa que uma notícia não consegue, por exemplo, porque só a ficção dá a possibilidade de um narrador estar na cabeça da personagem). Ficção não é incomum em outros gêneros, narrativa também não, e nem diálogos. Mas no romance há espaço para várias personagens, trama e subtramas, maior liberdade espaço-temporal para histórias de maior fôlego.


Por que falaríamos sobre romances com alunos da Educação Básica? 

Por vários motivos: 

Falar sobre romances é falar sobre o gênero literário mais em voga dos últimos três séculos, pelo menos. Só por isso já podemos considerar ser inevitável falar sobre romances com os alunos da Educação Básica (no mínimo nas aulas de literatura). É um gênero muito conhecido e a partir do qual é possível tratar da evolução dos gêneros literários, dos conceitos de arte, do que é mercado editorial, economia criativa, capital simbólico, mobilidade social a partir da educação e cultura etc.

Os livros escolares de história normalmente se atém a fatos e personalidades emblemáticos e que tiveram grande repercussão regional, nacional ou mundial. Pouco revelam da vida privada, dos costumes e reflexões individuais das pessoas de uma época, de como pensavam, o que amavam ou temiam, como se comportavam. A narrativa estritamente histórica costuma ser o mais objetiva possível, contando o que aconteceu e qual a participação das figuras centrais dos acontecimentos. Nos romances - que por serem romances não têm obrigação com a verdade histórica - o que mais chama a atenção nem são tanto os fatos em si, mas como as personagens participam deles, o que sentem, o que pensam. Apresentar essa subjetividade aproxima os leitores dos personagens, aumenta o interesse na trama, que parece ser algo muito mais ao nível da vida real (embora isso seja um paradoxo, já que provavelmente o contrário é que é correto). Nos empolgamos com a evolução dos personagens, com eles nos identificamos, sofremos ou sorrimos. O romance é o espelho social de uma época, permite imaginarmo-nos no seu cotidiano, entender como determinada sociedade era e o que a movia. As ficções de época, mesmo sendo ficções, procuram apresentar a melhor ambientação e caracterização possíveis dos personagens, para garantir a verossimilhança.

Romances são ótimas formas de entretenimento aliado a aprendizado – de vocabulário, de história (quase sempre), de comunicação (já que em bons romances nenhum diálogo é desproposital nem descuidado), de criatividade (imaginar a partir de descrições e narrações é trabalho do leitor), de como agir diante das situações (a gente aprende com os personagens, sem ter que passar pelo que passaram), de cultura, de senso estético, de vida (ler é como viver outras vidas em outras peles) etc.

Grande parte dos filmes de sucesso é baseada em romances, outra parte teve os roteiros escritos por autores de romances. E filmes concorrem com as redes sociais, os jogos e outros programas multimídia pela preferência de entretenimento dos indivíduos em idade escolar. São um excelente gancho para atraí-los para a leitura de romances. Quem lê o livro que inspirou um filme que adorou quase sempre acha o livro incrível, porque conta a história com mais detalhes, num tempo em que cabem mais subtramas, minuciosas construções das emoções e das ações, por exemplo. E mais, cabem interpretação e imaginação, meios de interação do leitor com a trama; dela participa imaginando as cenas (que por mais bem descritas que sejam, jamais serão imaginadas de forma idêntica por duas pessoas), coisa que os filmes já entregam prontas. 

Ler romances, sem exclusividade nem estar na defensiva ou ter pré-julgamentos, “abre a cabeça”, permite construir uma forma crítica de ver o mundo. O leitor contumaz vai aprendendo a perceber as várias camadas dos textos, assim identificando intenções inconfessadas, ideologias subjacentes, contradições, artifícios, marcos, abrandamentos (para fugir de censura do governo de uma época, por exemplo) etc.
 
A partir dos romances é possível fazer links com as disciplinas escolares. Por exemplo: é possível estudar matemática a partir de O homem que calculava, de Malba Tahan; física, a partir de E se…, de Giovanna Vaccaro;  Geografia em Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freire; e assim por diante. Matérias consideradas áridas por alguns alunos podem se tornar muito interessantes se contextualizadas a partir da leitura de um romance. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTRO, Carol. Ler romances torna você uma pessoa melhor. Super Interessante. Brasil,4 out. 2013. Disponível em: <https://super.abril.com.br/blog/cienciamaluca/ler-romances-torna-voce-uma-pessoa-melhor/> . Acesso em 30 set. 2020.

FUKS, Julián Miguel Barbero. História abstrata do romance. São Paulo: USP, 2016. Tese (Doutorado em Letras), Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada; Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-14032017-160249/publico/2016_JulianMiguelBarberoFuks_VOrig.pdf> . Acesso em 30 set. 2020.

ROBERT, Marthe. Roman des origines et origines du Roman. Paris: Gallimard, 2009, p. 14.

SALTER, James. Vou tentar falar sobre escrever romances. El País. Brasil. 22 abr.2018. Disponível em: <https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qdmA5IyzUuUJ:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/03/cultura/1522766904_519483.html+&cd=8&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br> . Acesso em 30 set. 2020.