O Coletivo
terça-feira, 2 de novembro de 2021
Erro criativo - a la Gianni Rodari
Lista de coisas a não esquecer
LISTAS DE COISAS A NÃO ESQUECER:
1. A aurora dos dedos róseos que li na Odisséia e que
vi tantas vezes em outros contextos;
2. O cachorro que tive na infância, que me comoveu de
uma forma que ninguém mais podia;
3. O cheiro da mãe;
4. Os avós que já se foram;
5. Quem eu era na infância;
6. O primeiro beijo e alguns outros que marcaram;
7. Alguns olhos;
8. Meus erros;
9. Meus acertos;
10. De lembrar.
Exercício recreativo
Fazendo um exercício, que consistia em escrever algo, baseado no poema Palavra Exacta, de
António Gedeão, tratando a palavra 'biltre' como se não conhecesse seu significado, escrevi:
Debate cá, com meus botões

Debate cá, com meus botões
Juliano Barreto Rodrigues
“Si digo agua ¿beberé?
Si digo pan ¿comeré?”
Não nem eu, Pizarnik.
Quem dera,
Um chá de Clarice
Pudesse
Lispectorar o meu peito.
Queria que o vinhedo que criei não fosse de papel
Nem de papel minhas viagens europeias.
E as pessoas incríveis que conheci,
Os Buendia, um Sr. Micawber, Natacha,
Fossem mais de carne e osso
Que de palavras.
Existem para mim,
Mas como um sonho
Ou alguém que já morreu.
Como saudade.
Mas como ter saudade,
De quem jamais viveu?
Literatura é mundo paralelo
Dimensão de fuga mesmo
Então,
Para que tornar a ficção realidade,
Se é de excesso desta que padeço?
Repenso.
“Eu não: quero é uma realidade inventada.”
Na pedra de Drummond não se tropeça.
No meu dicionário não mora o tédio.
Como dizia Leminski,
Suprassumo da quintessência,
“O papel é curto.
Viver é comprido”
Queria então entrar em livros,
Feito Bastian Balthasar Bux,
Na História Sem Fim.
Em vez dos monstros
Das páginas saírem,
Como nos contos de R.L. Stine.
Feitas as pazes com minha vontade
Decidido o que,
Por fim, quero,
Ou seja, a minha situação.
E faço como João Cabral de Mello Neto:
“Saio de meu poema como quem lava as mãos.”
***
Debate cá, com meus botões
Escrito em 28 de outubro de 2021.
Ouça em:
"Debate cá, com meus botões" - podcast
terça-feira, 29 de junho de 2021
Resenha Crítica, impressionista, de "O Evangelho segundo Jesus Cristo", livro de José Saramago.
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| Albrecht-Durer |
O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago
(Resenha Crítica, Impressionista)
SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. – 2ª ed. – São Paulo : Companhia das Letras, 2017. 443 p.
O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, tem, a rigor, um título impróprio, porque dá a entender que o próprio Cristo estaria narrando, quando, na verdade, um narrador é que conta, em terceira pessoa, a vida de Jesus. No entanto, é possível que se entenda o título como significando uma versão que não aquela pretendida por Deus e escrita pelos evangelistas, mas uma assumida pela ótica (não pela mão) do próprio Cristo. Seja como for, é um título que promete algo além do que já se conhece da história corrente.
O narrador é, por assim dizer, atual. Em determinados momentos fala de situações bem mais recentes do que a época em que Jesus viveu (como em “[...] porque uma coisa assim nunca se tinha visto antes, nem tornou a ver-se mais, até aos dias de hoje.” - p. 357), e fala também da própria escrita (se situa como contador de uma história). É o que se evidencia, por exemplo na passagem:
[...] Dizem os entendidos nas regras de bem contar contos que os encontros decisivos, tal como sucede na vida, deverão vir entremeados e entrecruzar-se com mil outros de pouca ou nula importância, a fim de que o herói da história não se veja transformado em um ser de excepção a quem tudo poderá acontecer na vida, salvo vulgaridades. E também dizem que é esse o processo narrativo que melhor serve o sempre desejado efeito de verossimilhança, pois se o episódio imaginado e descrito não é nem poderá tornar-se nunca em facto, em dado da realidade, e nela tomar lugar [...]. (p. 220).
É uma literatura um tanto excludente, pela forma que foi construída: tem parágrafos imensos (o primeiro capítulo é a descrição de uma gravura, em um só parágrafo de várias páginas) e não faz marcações claras das falas das personagens, ou seja, não há travessão ou aspas para indicar diálogos, nem pontos de interrogação para marcar perguntas. Só a utilização de iniciais em maiúsculas no início de algumas frases, no meio dos parágrafos narrativos, dão a entender que há uma fala e a intercalação dos falantes. Exemplo:
[...] Uma mulher que atravessava o largo, trazendo uma criança de cinco anos pela mão, parou, olhou com curiosidade o forasteiro e perguntou, Donde vens, e como se achasse necessário justificar a pergunta, Não és daqui, Sou de Nazaré de Galileia, Tens família nestes lugares, Não, vim a Jerusalém e, como estava perto, decidi ver com é Belém, Estás de passagem, Sim, volto para Jerusalém quando a tarde principiar a refrescar. [...]. (p. 212).
Disse “excludente” porque, além da linguagem culta, os parágrafos enormes e a falta de marcação das falas oferecem dificuldades extras para a leitura, o que é, com certeza, desestimulante para leitores menos experientes (mesmo para estes, na verdade) e menos obstinados à leitura do livro. Não é um livro vulgar, literalmente falando, no conteúdo nem na forma.
No entanto, trata-se de uma obra que apresenta grande qualidade narrativa, que engaja rapidamente o leitor que insistir na leitura, apesar da dificuldade acima mencionada. É que o ritmo tem uma constância interessante até o penúltimo quarto da obra (depois do qual a narrativa acelera), parecendo que o autor escreveu três quartos de uma vez só (o que seria impossível, já que o livro tem mais de 400 páginas e entrelinhas reduzidas), e consegue gerar expectativas, tensões e sensações novas em relação a uma história sobre a qual, em tese, todos os leitores ocidentais já conhecem as linhas gerais e o final. Isso acontece, por exemplo, quando José, pai de Jesus, corre para a cova a fim de salvar seu primogênito dos soldados de Herodes, que tinham ordem de matar todas as crianças com até 3 anos. Todos nós sabemos que Jesus não morre naquele episódio, mas, ainda assim, o narrador consegue deixar o leitor verdadeiramente apreensivo e temeroso do destino do protagonista. Isso se dá pelo manejo artificioso e genial das palavras, o que, por si só, faz da obra uma jóia de alto quilate. É a mágica da forma.
Se, por um lado, predomina uma escrita reta, substantiva, também há uma prosa poética, como em:
Mas o mal, que nasceu com o mundo, e dele, quanto sabe, aprendeu, amados irmãos, o mal é como a ave Fénix que, parecendo morrer na fogueira de um ovo que as suas próprias cinzas criaram volta a renascer. O bem é frágil, delicado, basta que o mal lhe lance ao rosto o bafo quente de um simples pecado para que se lhe creste para sempre a pureza, para que se quebre o caule do lírio e murche a flor da laranjeira. (p. 350).
Falando do conteúdo, trata-se de uma releitura (e reescrita, neste caso, porque não mera interpretação) de uma história conhecida, como já dito, que embora não negue a versão oficial, a apresenta de uma perspectiva mais humana, destacando a cotidianidade das personagens bíblicas, a geografia e os costumes, mantendo os milagres mas tornando-os menos fantásticos – e, até por isso mesmo, mais críveis, ainda que dependentes da fé – ou, talvez seria melhor dizer, não lhes dando mais destaque do que devem ter. Também há um foco no crescimento psicológico do Cristo, que tem dúvidas, não sabe que rumo tomar, é grosseiro e ingrato com a mãe, vive com uma ex-prostituta, é mais humano. Humano, demasiado humano. Até ele se considera, tanto que pergunta como, sendo filho de Deus, come, bebe e ama como os homens. Esta humanidade toda já é um provável motivo de polêmica entre cristãos, mas sua relação com Maria de Magdala é, talvez, o ponto mais polêmico do livro.
É muito interessante que Saramago, autoproclamado ateu, tenha se dignado a escrever este Evangelho. Como diz a professora e escritora Tarsilla Couto de Brito (UFG), todos no ocidente são um tanto influenciados pelo cristianismo, mesmo os ateus, já que são todos criados dentro de uma tradição - familiar, escolar e cultural (as festas, feriados e folclore etc.) – eminentemente cristã. Sendo assim, embora incréu, Saramago conhece bem a história que se propôs a contar sob novo viés.
Gottfried Benn, famoso escritor do Expressionismo alemão disse que um autor religioso não faz boa literatura, porque sua crença o leva a tentar tornar sua arte edificante, banalizando-a. Nesse caso, a crença religiosa será um princípio estilístico ruim. É provável que essa generalização não corresponda tanto à verdade, mas tem um argumento importante que parece bem aplicável ao livro de Saramago: a falta de obrigação com o dogma, a ausência de temor reverencial, o olhar do ficcionista ao invés do olhar do fiel, é que permitiram a criação de uma obra tão ousada, original ao abordar temas negados e ao acrescentar novidades à narrativa-base. Sem a condição irreligiosa de Saramago, provavelmente o resultado do evangelho que escreveu não seria a obra prima que é.
Incomoda o machismo vigente naquele tempo e naquela cultura, que o narrador ressalta em vários momentos. É preciso que se pense que, naquela época, nem a ideia de machismo nem a palavra que o representa existiam. É preciso crer que aquele era o costume, para que o incômodo não antipatize tanto o leitor a ponto de largar o texto ao meio. Também é desagradável ler sobre a forma com que o protagonista trata sua família (sua mãe principalmente) em muitos momentos. Mais isso corrobora a ideia de sua humanidade.
Em O Evangelho segundo Jesus Cristo a mãe de Jesus, Maria, é relegada a um plano inferior, de figura indesejada pelo protagonista. Já Maria de Magdala é alçada a um ponto de destaque. É ela que acompanha Jesus nos seus anos mais importantes e até o momento de sua morte. É ela, mostrada aqui como mulher (de fato) de Jesus, a personagem mais controversa em relação à doutrina universalmente aceita.
A relação entre Deus e o Diabo é interessante e, ao invés de oposta, é complementar (Deus diz para Jesus: “[...] não esqueças o que te vou dizer, tudo quanto interessa a Deus, interessa ao Diabo” – pp. 366-367). São mostrados como semelhantes: “[...] levo-os até a borda para que todos possam, finalmente, ver Deus e o Diabo em figura própria, o bem que se entendem, o parecido que são” (p. 370). E mais, há momentos em que o Diabo parece ser bem mais coerente do que o criador. É marcante, por exemplo, aquele em que Jesus acaba sacrificando a Deus o cordeiro que antes havia salvado, situação após a qual, o Diabo manda Jesus embora, dizendo que ele não aprendeu nada (porque deveria ter lutado pela vida). Noutra parte, o Diabo propõe a Deus que o perdoe e o aceite, para que só exista o bem, sem necessidade de tanta matança em nome de Deus, mas este não aceita e diz preferir assim. Aliás, o Deus deste Evangelho é um Deus arrogante, ambicioso, egoísta, enganador e sanguinário.
É feita uma relação, em várias páginas, dos mártires da Igreja Católica, arrolados em ordem alfabética por nome e tipo de morte violenta, que choca e que, somada às descrições de outros tipos de sacrifícios, apelam para a razão no sentido de induzir à conclusão de que os males causados pela religião podem ser maiores do que seus benefícios.
Jesus pergunta a Deus se ele se serve (usa) dos homens, e Ele responde: “Sim, meu filho, o homem é pau para toda a colher, desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam-no para ali, e ele vai, dizem-lhe que pare, e ele pára [...], falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses” (p. 370).
O que o livro todo parece dizer é que “[...] a história de Deus não é toda divina” (p. 410). Nesse sentido, o texto é quase um manifesto antirreligioso. Há uma crítica clara a esse Deus, à credulidade humana, à igreja. Por outro lado, Jesus é poupado. É fácil se identificar com ele, que, afinal, está pela humanidade, mais do que por Deus.
“[...] e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.” (p. 442). Finalizando a leitura, há como que este “fecho de ouro”, uma frase de grande efeito, que, arrisca-se dizer aqui, ficará gravada na memória de quem ler este Evangelho: “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”.
Só me coube uma crítica impressionista, já que é a primeira leitura que faço de Saramago, não podendo comparar O evangelho segundo Jesus Cristo com o conjunto da obra do autor, nem com a fortuna crítica pertinente, a qual também não tive acesso ainda. Isso, porém, me dá liberdade para fazer um julgamento mais ligado puramente à fruição da leitura única e aos seus efeitos, sem ruídos externos nem pré-julgamentos. No entanto, é importante dizer que já havia assistido ao documentário José e Pilar, de cuja experiência saí com preconceito e impressão ruim acerca do autor, impressão totalmente revertida, logo no início da leitura deste evangelho.
Querendo classificar o livro em uma só palavra, a que me vem de pronto é “Soberbo!”, assim mesmo, em maiúsculas, exclamando. É um grande monumento literário. Na minha experiência pessoal, afirmo que restei cativado e desejoso de ler todas as outras obras do autor, que, se na pior hipótese, não tivessem 50% da qualidade desta, ainda seriam grandes.
“VÃO FICAR CHORANDO ATÉ QUANDO?”
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| Cartum de Andrício de Souza. Disponível em: < |
“Vão ficar chorando
até quando?”
Juliano Barreto Rodrigues
E
diziam “Deus é brasileiro”. Por isso, esperavam um messias pelas bandas de lá.
Já tinham visto alguém feito eles – pobre,
operário, com pouco estudo – sair do rés do chão e chegar aos píncaros da
república de bananas. Mas esse não era santo feito o Cristo. Haviam tido o
gostinho de um novo milagre brasileiro, as empregadas estavam passeando em
Miami. O novo salvador tinha que brotar ali.
(A Terra
é redonda... e gira, ainda por cima. O que está em cima daqui a pouco está em
baixo e, se bobear, daqui a pouco está no alto de novo. E o povo, crédulo,
cordial, ansioso por gurus e capitães que lhes guiem as vidas, até hoje não
aprendeu a se equilibrar em cima da bola: sobe no giro e se estabaca em
seguida, daí sobe de novo e se estabaca novamente. Fato é que, “a esperança é a
última que morre”, nesse clichê todos se fiam. Voltemos...)
Era lá
pelos inícios do século XXI. Feito o Nazareno, o novo Messias apareceu do nada,
como se sua história só tivesse começado com ele já adulto. Mas este esperado
não se parecia tanto com o primeiro: já não gostava de andar entre os pobres,
não tinha o dom da palavra, mancomunava com os vendilhões do templo, não curava
os doentes (apressava sua morte).
Os
olhos claros, que inventaram para o Cristo oriental da pele escura, clareados
nas pinturas, o Messias de agora os tinha naturais.
Aquele
que sofreu tentações no Deserto da Judéia não se parecia com este, que agora
queria tornar onde pisa um deserto. E o temor às tentações? Este já não tinha,
pelo contrário. Mentia que a cara nem sentia, e esse era só o mais comum de
seus pecados. Este Messias veio cínico, talvez desiludido da humanidade e da
divindade que não fosse o próprio umbigo.
Aquele
messias de antes estava bem guardado no céu e, parece, nem olhava direito mais
para o povo. O novo, ambicionava não só a colônia do Brasil, mas também o reino
de debaixo da terra.
E eis
que a peste se espalhou pelo mundo inteiro, e o novo Messias lavou suas mãos.
Ria da desgraça alheia, a conversa de “imunidade de manada” trazia, no fundo, a
mal-disfarçada eugenia. E o povo morria, e ele ajudava a matar. Em vez do
remédio, distribuía armas para todos. E houve saudade daquele profeta que antes
dele viera (mesmo não sendo santo, mesmo não sendo perfeito, pelo menos era
feito eles, tinha humanidade).
Mas o
novo Messias não iria largar o osso, queria toda a raça depois de Herodes e de
Pilatos condenada, os herdeiros do mundo e o mundo todo. E mil caiam à sua
direita e dez mil à sua esquerda, mas ele não pegava nem uma gripe. Instalado
no reino, a sua oposição oficial lhe lançava apenas expedientes de festim, para
negociar por miudezas. E seu povo à mingua, demandando mais covas do que os
coveiros conseguiam cavar. E no auge da segunda onda, até os otimistas do “o
céu é aqui” já achavam que o oposto é que era. E o remédio para a peste veio de
longe, e o Messias o desacreditou. E quando não pode impedir que chegasse,
dificultou seu alcance. E até criticou o profeta antecessor por ter distribuído
o pão como o primeiro messias fez.
Mas
este Messias também haveria de ser julgado pelo mundo e crucificado, não
literalmente, mas pela opinião pública. E todos rezavam para que este, enfim, jamais
ressuscitasse.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021
Os mortos também tombam neste poema
OS MORTOS TAMBÉM
TOMBAM NESTE POEMA
Juliano Barreto
Rodrigues.
“Os mortos tombam no poema”.
Neste também, Nelson Saúte,
Nest’outra pátria dividida,
A quem qualquer janota ilude.
Aqui, na nossa semicolônia,
Onde a terra voltou a ser plana,
Falta vacina mas sobra bala,
Rico fura fila e pobre vai pra vala.
Aqui sobram engodeiros pulhas.
Ao invés das luzes da ciência,
Apregoam-se placebos e falsas curas.
E dá-lhe Ivermectina, pra quê prova?
No Brasil quem fala mais alto
Ganha a briga
Do lado de cá da dos sem mandato,
Faz falta o timbre de arauto
(Povo cordial não é de grita).
O ar continental, o sopro do pulmão do mundo,
Falta no peito manauara, bem ali do lado.
É que no desgoverno do Brasil,
Governante considera Pandemia ardil.
E do falso inimigo,
A Venezuela,
Na verdade irmão de lida,
É que vem a solução.
Os médicos de Cuba,
Que também mandamos embora,
Vendo nosso desespero,
Voltaram a nos dar a mão.
Choro o choro dos enlutados
Mas o povo só se preocupa com o carnaval ser adiado
Quem tripudia da gente indo para a festa e batendo no peito,
Deveria abrir mão de ter um leito.
Os mortos tombam no poema.
Misericórdia!
Falta consciência.
Os mortos continuam tombando, aos milhares, no poema.
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Crítica Literária (verbete criado para o curso de Letras da UnB)
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| ©Disney Enterprises, Inc. and Pixar Animation Studios |
Literatura Oral
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| By Geledés |
LITERATURA ORAL
Juliano Barreto Rodrigues
Entendendo que, etimologicamente,
literatura advém do radical latino littera,
que significa letra do alfabeto, caractér da escrita, alguns podem ver
contradição em tratar algo que circula, às vezes exclusivamente na forma oral,
como sendo literatura. Por isso mesmo, achei interessante tratar da literatura
oral como gênero.
Segundo o Glossário Ceale (SOUZA,
20??), a expressão Literatura Oral
foi utilizada pela primeira vez em 1881, pelo pintor, folclorista e escritor
francês Paul Sébillot, no livro Littérature
Orale de la Haute-Bretagne. Literatura Oral designa os textos (em sentido
amplo, significando um entrelaçamento de signos linguísticos que produzem
sentido), em prosa e verso, transmitidos oralmente. É o caso das lendas, mitos,
parlendas, adivinhas, provérbios etc.
Essa literatura existia antes
mesmo da invenção da escrita. Mas, ainda hoje, há culturas que mantém a
tradição de repassar manifestações literárias oralmente (poemas, contos,
rezas...). Nas religiões de origem bantu e nagô, aqui mesmo no Brasil, os mitos
e costumes são transmitidos através de versos (ingorossis, itans, orikis etc.);
na África Ocidental há os Griots. Nas tribos indígenas também se mantém a
literatura oral. Mesmo entre os habitantes urbanos, que aparentemente não têm
uma cultura tradicional preservada tão oralmente, também há algumas
manifestações do tipo, como as lendas urbanas, as cantigas de roda, as
adivinhações. Ao conjunto das ocorrências orais de fundo literário alguns
estudiosos têm chamado “oratura” (de orature, uma aglutinação entre os termos em
inglês oral + literature).
Muito da literatura fundadora que
conhecemos e estudamos hoje por escrito, nasceu oralmente (é o caso da Ilíada e
da Odisseia, de Homero). Também nasceram oralmente Beowulf, e os contos de
fadas antigos. Alguém contesta que se tratem de literatura?
A Wikipédia (2020) destaca o
caráter de arte “improvisacional” da literatura oral. Diz que, normalmente [não
exclusivamente] o narrador aprende um conjunto de sequências “roteirizáveis” ao
invés de decorar, ao pé da letra, um conjunto de textos. A partir daí, cria uma
trama com início, meio e fim. Visualiza os personagens, as cenas e cenários, e
improvisa a forma de contar. Disso decorre que nunca a mesma história será
contada exatamente do mesmo jeito. Isso pode valer para contos e outras formas
em prosa, mas talvez não para cantigas e versos, que geralmente são aprendidos
e repetidos palavra por palavra. Nesse sentido,
Zumthor (1997) esclarece que o texto oral é realizado
sem rascunhos – ou melhor dizendo, “sem borracha” –, por mais que cantadores
populares possam ensaiar e aprimorar seus versos antes das apresentações. O
momento onde o texto toma forma é circunstancial. Por isso mesmo, é certo dizer
que nenhuma performance é igual a outra. (LÚCIO; CUNHA, 2017, p. 4701).
A consignação por escrito da Literatura Oral é polêmica. Se,
por um lado, evita que muitas de suas manifestações sumam, se extinguam, por
outro, a transcrição representa uma apropriaçao por parte do transcritor, que
passa a ser autor (lembra o caso dos Irmãos Grimm?); engessa ou deturpa uma
versão de algo que, por ser oral e contado por diferentes pessoas, é
naturalmente modificável no tempo e no espaço; além disso, altera as próprias
características da fala popular.
No entanto, ainda que oralidade e
escrita tenham diferenças muito evidentes, devem ser vistas em suas
peculiaridades, mas não como coisas opostas, porque comumente se entrecruzam.
SOUZA (20??) demonstra a defesa dessa ideia por nosso sistema escolar:
Na alfabetização, tais entrecruzamentos [entre
oralidade e escrita] se revelam importantes. Os Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCN) dos anos iniciais do Ensino Fundamental, por exemplo, aproximam
o ensino da escrita da oralidade, ao sugerir a valorização da cultura oral como
forma de iniciar o aluno no mundo da escrita, apresentando perspectivas
teórico-metodológicas que envolvem a narração e a escuta de histórias, o
levantamento de narrativas que circulam nas famílias e o trabalho com gêneros
orais, tais como cordel, canções e parlendas.
Entendendo “literatura” e mesmo “texto” como algo mais amplo,
neles podem se enquadrar os quadrinhos, o cinema, as novelas de TV, as canções
populares, o repente, o improviso, o graffiti e o pixo nos muros (Cf. LÚCIO;
CUNHA, 2017) e - por que não? - os
Storytellings do mundo institucional e corporativo. É preciso considerar,
inclusive, o caso de algumas obras de arte não autônomas que dependem de
significados externos, escritos, que completem ou traduzam significados
(WILLIAMS, 2007, p. 259) - é o caso de algumas pinturas, filmes, músicas, por
exemplo. Não sendo primariamente literárias, secundariamente podem ser lidas
pelo viés literário.
Por tudo que foi dito, Literatura Oral é, sim, literatura. E
a ela deve ser reconhecido o valor que se dá a algo escasso, em vias de
desaparecimento caso não continue a ser repassado. Se pensarmos pos este viés,
em muitos casos a maioria das narrativas orais tradicionais são muito mais
preciosas do que as escritas. Aquelas foram construídas por gerações (nesse
sentido são coletivas) e continuam vivas, se transformando um pouco a cada
recontagem (por esta ótica, tem algo do gênero dramático, dependem de uma certa
performance do contador). Já as escritas, viraram mercadoria corrente e perene,
abundam. Têm mutio valor, mas é preciso que as pessoas, inclusive os literatos
e as universidades, confiram à boa literatura oral o lugar que merece, junto à
literatura com “L” maiúsculo, posto quase exclusivamente conferido aos cânones
escritos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LITERATURA
ORAL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia
livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Literatura_oral&oldid=59490160>.
Acesso em: 9 out. 2020.
LÚCIO, Ana Cristina
Marinho; CUNHA, Thiago da Silveira Cunha. Literatura e outras linguagens:
exemplo do testemunho de pichadores em João Pessoa. XV Congresso Internacional da Abralic. Universidade Federal da Paraíba.
2017. Disponível em:
<https://abralic.org.br/anais/arquivos/2017_1522243505.pdf> . Acesso em
09 out. 2020.
SOUZA,
Josiley Francisco de. Literatura Oral. In: Termos de Alfabetização, Leitura e
Escrita para educadores. Glossário Ceale.
Faculdade de Educação da UFMG. 20??. Disponível em: <http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/literatura-oral#:~:text=Literatura%20oral%20%C3%A9%20uma%20express%C3%A3o,modo%20diferente%20do%20falar%20cotidiano>
. Acesso em 09 out. 2020.
WILLIAMS,
Raymond. Palavras-chave : um vocabulário de cultura e sociedade; traduçãode
Sandra Guardini Vasconcelos, - São Paulo : Boitempo, 2007. 464 p.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
Falando um pouco sobre o gênero Romance
Falando um pouco sobre o gênero Romance
Juliano Barreto Rodrigues






