O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quarta-feira, 15 de julho de 2015

ESTULTÍCIA


Juliano Barreto Rodrigues

Mania estranha aquela. Pouco depois que teve contato com seu primeiro computador passou a migrar tudo o que lhe interessava para disquetes. Era adolescente na época e a mãe achava útil aquela brincadeira: fazia com que o menino se concentrasse em coisas importantes – textos, imagens, músicas, vídeos, etc. – em vez de pensar bobagens. Melhor ainda que começou a escrever um diário, também digital. Ia tudo para a pequena pilha de disquetes, que crescia ano a ano.
O surgimento do pendrive deu um upgrade na esquisitice do garoto. Após ter passado tudo que tinha nos disquetes para a nova tecnologia – que pendurava no pescoço atada a um colar – começou a gastar todo o dinheiro do primeiro emprego digitalizando os livros que lera, as matérias de jornais e revistas que lhe interessavam, os documentos que guardava, as fotos de família, para incluir no arquivo digital.
Já adulto ficou maravilhado com o HD externo. Passava seus dias juntando aquilo que considerava o “resumo de sua vida”. A filosofia era absurdamente minimalista: guardar todas as suas referências, tudo o que lhe importava, dentro de algo pequeno que pudesse segurar entre as mãos. Aquela obsessão o fez impopular e motivo de riso.
Não se achava estranho, principalmente levando em conta seu melhor amigo, o Derick, que não punha a mão em dinheiro de jeito nenhum, fosse de metal ou papel. Valia-se das amizades e da sua habilidade de bom amante para conseguir o que precisava com os companheiros e com as malucas com quem ficava.
Numa dessas encruzilhadas da vida, preocupado com alguns sonhos que andava tendo, o colecionador se viu na casa de uma cartomante amiga de uma amiga. A coroa falou de amores, de decepções, de inimigos, e disse que cuidasse de seu pequeno mundo, que estava para ser posto a perder. Nosso herói agradeceu sem entusiasmo, sentindo-se enganado, e perguntou se a mulher aceitaria o pagamento em cocaína.
--- O que vou fazer com isso, rapaz?
--- Ué, a senhora pode cheirar, aplicar, ou vender para alguém.
A mulher pensou consigo "Que moleque louco, cocaína não. Mas até aceitaria uns amassos desse malandro se não fosse o risco das más línguas". Disse ao cliente que voltasse depois para pagá-la em dinheiro – assim, pensou, também teria tempo para avaliar o risco de abusar daquele corpo com cheiro de moleque.
Dois meses depois, seguindo aquela vida deslocada de outsider, o maluco acorda de uma bebedeira de comemoração de aniversário e procura por suas memórias virtuais, e nada. Lembra-se da cartomante com a história da perda. Revira o quarto, revira a casa, põe abaixo o escritório em que trabalhava, liga para amigos, colegas, parentes, sem solução.
O desespero de ter todas as suas referências perdidas por aí o desorienta tanto que não consegue mais dormir, nem trabalhar, nem comer direito. Vai à polícia, investiga sozinho, promete recompensa. Meu Deus, não tinha feito sequer um backup, não havia cópia de nada. Parte da sua ideia era justamente ir se desfazendo de todas as fontes e acumulando todos os dados em um só lugar, que seria seu templo, sua memória extracorpórea.
Noite em sua vida. Não voltava mais para casa, não tinha paciência com ninguém. O delegado chegou a ouvir um receptador, que disse ter comprado o HD de alguém na rua. O idiota disse que apagou o hardware, de forma irrecuperável, porque estava cheio de coisas imprestáveis. Só pegou uma pena de pagamento de cestas básicas. Era o fim.
Sem identidade, sem memória, agora sem endereço, sem amigos e sem emprego, o rapaz chegou ao fundo do poço. Não se reconhecia em mais nada, estava despojado de tudo que o representava. Pensou na morte.
--- Que lixo, morrer sem deixar nenhum sinal de mim... Eu sou um corpo vazio, uma cabeça oca, meu mundo estava naquele HD.

Teve uma iluminação quando leu a palavra “niilismo” na capa da revista Seleções. No raso que se tornara relembrou superficialmente do que achava significar: 'não acreditar em nada'. Pronto, esse agora era ele, o símbolo da negação, do pós-tudo, inclusive do pós-si-mesmo (Só não desacreditava das cartomantes). Daí começou a juntar grão a grão novas histórias, novas memórias, sem aquela mania besta de guardar as coisas fora da própria cabeça.