O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quinta-feira, 8 de março de 2018




CRISES DE IMAGEM AUTO-INFLIGIDAS: FAKE NEWS NA ERA DA PÓS-VERDADE


Juliano Barreto Rodrigues




Não preste atenção no que escrevem de ti, só meça [o texto] em centímetros”. Andy Warhol


1. Pós-verdade e Fake News


Pós-verdade”, expressão eleita pelo Oxford Dicionaries como a palavra do ano em 2016, é um adjetivo que qualifica uma era em que os fatos objetivos valem menos do que os “achismos”, as conjecturas. Ou seja, um tempo em que o apelo às crenças pessoais e à emoção influenciam mais a opinião pública do que a realidade dos fatos. Na prática, evidencia a criação e utilização deliberada da mentira (pura e simples ou bem elaborada), para determinado fim, alcançável via canais de comunicação.
A maior dificuldade é que a notícia checada e bem veiculada está em baixa e disputa espaço com a notícia informal, produzida e propagada pelas redes sociais. Estas, por sua vez, privilegiam a comunicação 'não oficial' chegando a casos como do Facebook, que alterou seus algoritmos para limitar a postagem dos sites de notícias em benefício das postagens pessoais, meramente opinativas. Pior ainda, estamos na época do “telefone sem fio”, aquela brincadeira em que um enunciado vai sendo repassado (e aumentado ou diminuído, ainda que não intencionalmente), até que se torne totalmente distorcido.
Uma notícia veiculada na rádio no dia 1º de março de 2018 informou que as agências de comunicação estão, preponderantemente, aproveitando conteúdo já repercutido, maquiando-o para não ser considerado plágio, e replicando-o em seus próprios canais. O problema é que, nesse processo de “maquiagem”, quem reconta aumenta um ponto: sem checar ou aprofundar dá sua nuance, sua interpretação, argumenta algo, sugere e supõe. E sempre para mais, para satisfazer aquilo que Guy Debord classificou como a “Sociedade do Espetáculo”, e que Mário Rosa identifica mais apropriadamente – para os fins da discussão deste ensaio – como a “Era do Escândalo”.


2. Novas regras da produção de conteúdo?


A comunicação, a própria construção da informação em si, deixou de ser racional para ser emocional. Ou, talvez, o standard de raciocínio tenha mudado, exigindo superlativos, adjetivações, inferências mediadas pela sensação). Nessa lógica, é preciso certa 'pirotecnia'1 para causar algum efeito: qualquer experiência de êxtase - seja consumista, ou de satisfação com o bem ou mal alheios, ou especulativo, ou sensível, etc.
O alcance de qualquer coisa mediada por tecnologia digital é facilmente mensurável, os próprios sistemas apresentam dados e números de acesso, compartilhamento e interação. Assim, como tem acontecido em outros meios comunicacionais (como o editorial de livros, por exemplo), o critério mercadológico de seleção de produtos de comunicação que tem sido mais usado consiste em aproveitar, ou reaproveitar, aquilo que já está “estourado”, que já repercutiu ou viralizou, cujo retorno já está, portanto, garantido.


3. Fake News


Mesmo no âmbito da comunicação profissional é visível o advento do momento (talvez uma era) da pós-verdade. Um exemplo grotesco é o caso da falsa entrevista com supostos integrantes do PCC no programa do apresentador Gugu Liberato:
No dia 7 de setembro de 2003 o apresentador Gugu Liberato exibiu em seu programa a gravação de uma entrevista, realizada pelo repórter do Programa do Ratinho Wagner Maffezoli, de dois supostos criminosos do PCC.
No vídeo, eles ameaçavam José Luiz Datena, Marcelo Rezende, o prefeito de São Paulo, o comentarista de futebol Oscar Roberto Godói. Apresentaram até uma arma. Ainda disseram ter sido os responsáveis pela tentativa de sequestro do padre Marcelo Rossi.
Tudo mentira. Um dos líderes do PCC chegou a telefonar para Marcelo Rezende contestando que os entrevistados pertencessem à facção. A arma ostentada era de Hamilton Tadeu dos Santos, que trabalha na produção do SBT.
Todos os ameaçados se insurgiram contra a reportagem. Oscar Roberto Godói ganhou na Justiça direito a uma indenização de 250 mil reais (do valor ainda caberia recurso). A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar a falsidade, que foi confirmada. O programa do Gugu ficou uma semana fora do ar e os responsáveis, incluindo Gugu, foram indiciados.
Nesse contexto, a mídia concorrente explorou ao máximo o erro do programa, que passou a procurar meios jurídicos para evitar a superexposição. O programa perdeu, mas muitos ganharam com a crise alheia.
O ano 2012 talvez tenha sido o auge do então chamado Jornalismo Mentira no Brasil. Alegando, em sua defesa, serem de sites humorísticos, jornalistas criavam notícias absurdas e boatos, aparentemente sem qualquer problema de consciência. A questão é que não dá para controlar o caminho da notícia, ela extrapola o site original e vai sendo repassada como verdade até que alguém faça o caminho inverso e descubra que era “brincadeira”.
Benedict Carey, do New York Times, em artigo2 de 2017, disse que “os algoritmos das redes sociais funcionam, de certa maneira, como a seleção evolucionária: a maioria das mentiras e dos rumores falsos não se espalha, mas os raros que possuem ‘mutações’ atraentes de mitos urbanos encontram tração psicológica e então se tornam virais”. Talvez ele seja muito otimista, pois, ao que parece, não é uma minoria de boatos que se espalha, mas a maioria.
Nos últimos anos a pressão – jurídica (através das inúmeras ações pedindo indenização por danos morais) e dos próprios pares (profissionais de comunicação com uma visão ética tradicional e conselhos de classe) – fez com que um maior cuidado3 para lançar mentiras fosse tomado (notícias não assinadas, sites com domínio no exterior, agências somente virtuais, etc.) sem, no entanto, diminuir a ocorrência do problema.
Em 29 de setembro de 2012 o jornalista Nelito Fernandes, do site de humor O Sensacionalista, criou a notícia falsa “Casal de São Paulo batiza o filho como Facebookson e causa polêmica no mundo”. A notícia viralizou e foi replicada por jornais reais, como o “Alagoas 24 Horas” e “O Impacto”, da Paraíba.
Mariana Figueiras, em matéria publicada em 2012 no O Globo, intitulada É Tudo Mentira, falou do caso Facebookson e trouxe mais alguns exemplos:




Em julho do ano passado, o vídeo “Camelô vende kit para fabricar falsos mendigos no Centro do Rio” foi debatido, como se fosse real, em programas de rádio. Antes disso, em abril, a tirada “Angela Bismarchi anuncia que vai implantar o terceiro seio” virou ma reportagem na Rede TV!. Em 2010, suposta notícia “Mulher engravida assistindo a filme pornô 3D” foi publicada no português “Diário de Notícias” e até no conceituado site de tecnologia Gizmodo, que logo depois retirou o link do ar.




Rafael Gustavo Neves, editor do jornal real “A Gazeta do Agreste” criou – após ver a repercussão de uma brincadeira que postou (mais de um milhão de visualizações), dizendo que o bilionário Mark Zuckerberg não queria que nós, pobres tupiniquins, “orkutizássemos” seu reino azul-lavanda – um site de humor declarado, o G17, para chamar atenção para seu jornal real, o “Gazeta do Agreste”. A motivação? Disse ter percebido que só notícias curiosas têm muitos acessos.


4. Celebridades e as crises auto-infligidas


Em um âmbito mais particular, das celebridades (consagradas ou instantâneas), um outro fenômeno chama a atenção: a criação deliberada de notícias e flagrantes falsos, pelas suas próprias assessorias de comunicação. Vale tudo para aparecer. “Celebridade requer presença ativa na mídia [...]. Existem então alguns pré-requisitos para chegar lá, e o principal deles é não ter medo do ridículo.” (ARANTES, 2009, pág. 15). Essas falsas crises de imagem são estratégicas e seguem uma lógica maquiavélica do 'crie a crise para se manter no imaginário', por que leitores, expectadores, ouvintes, internautas (toda gente, de forma geral) adoram um enredo, a polêmica. Plantada a querela, a assessoria passa a gerir a crise que criou, de modo a vitimizar e manter em evidência seu assessorado pelo maior tempo possível, revertendo toda a notoriedade positivamente.
Talvez o exemplo mais comum do emprego desse tipo de artifício pelas celebridades belas, que estão com a imagem meio fria, seja a história do vazamento de nudes (muitas vezes com fotografias tratadas, com qualidade de estúdio). O modelo Paulo Zulu disse ter mandado, por erro, suas fotos íntimas para as redes sociais. A apresentadora americana Kim Kardashian já faz até questão de que suas imagens circulem. E o flagrante da troca de roupa de Jéssica Lopes (participante do reality show “Casa Bonita”, do Multishow), no aeroporto de São Paulo, dentro do carro e de porta aberta? É claro que os envolvidos e suas assessorias negam que foi de propósito, mas todas as histórias têm inconsistências que levam a indícios de que foi tudo preparado. Celebridades amam suas carreiras e sabem (suas assessorias também) que estão sempre vigiadas e que em todos os lugares existe gente querendo devassar sua intimidade, ou seja, estão cientes de que estão superexpostas e precisam resguardar sua imagem muito mais do que as pessoas não famosas. Seria muita ingenuidade acreditar que se descuidam tanto com algo tão básico, a exposição de cunho sexual – que sempre gera destaques na mídia.
É comum quem fala de celebridades fazer uma distinção entre celebridade consagrada pelo trabalho sério e celebridade instantânea, que aconteceu por acidente (um vídeo íntimo que vazou na internet ou o namoro com alguém famoso, por exemplo) e cujo trabalho é se manter nos assuntos do dia. Há assessorias para os dois tipos de perfil. Não que algumas celebridades consagradas que estão em baixa às vezes não se valham dos expedientes das instantâneas, contando com todo o suporte e planejamento de suas assessorias.
Danilo Faro assessora celebridades consagradas (Tiago Abravanel, Rodrigo Faro). Cacau Oliver assessora celebridades instantâneas, como Andressa Urach, Joana Machado e a “Peladona de Congonhas”. Em entrevista para o site R7 eles falam um pouco de seu trabalho de assessoria:
O projeto de Oliver para fama demora de três meses a um ano. E, para isso, haja paparazzo de plantão para flagras, roupas coladas nos aeroportos, mudar o nome para deixar mais vendável, maquiagem pesada logo pela manhã e, ops!, uma foto comprometedora em que a assessorada mostra demais. Na agência de Faro, o trabalho é divulgar seus clientes em veículos certeiros, dar conselhos ao assessorado sobre qual campanha fechar contrato, em que evento ir e, até mesmo, opinar no comprimento das roupas das atrizes. [...]Tenho cuidado para que eles não passem a imagem errada. (PERES, 2013).


Falando da crises de conveniência, armadas como estratégia de projeção, há casos em que é mais difícil entender como determinadas fakes podem ser vantajosas para os assessorados. Mas tudo é questão de ver em um nível abaixo do 'circo' apresentado: é o caso de cantores que têm sucesso desde a infância com músicas pop e que, de repente, querem partir para uma carreira de roqueiros, por exemplo. Para desvencilharem-se daquela imagem 'boazinha', associada à sua trajetória, são flagrados em brigas forjadas, ou pichando muros, ou usando drogas, etc. Têm que ter a representação de rebeldia que se espera deles.
As razões para tal comportamento são as mesmas que levam, por exemplo, alguns jovens condenados criminalmente a usar tornozeleira eletrônica a andarem de bermuda de modo a ostentar o “assessório” como um troféu. Se a imagem, para o público geral é negativa, é adequada para certos públicos que quer atingir, passando a impressão de forte, perigoso, etc. A ideia é trocar a macro-opinião negativa pela positiva do nicho em que estão inseridos.
Sobre o consenso social tácito acerca da 'necessidade' da construção da imagem pessoal ideal – ainda que falsa:
Goffman, em seu livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana, demonstrou como os atores da vida social são levados a representar os papéis que deles se espera e que há uma certa polícia dos costumes que rechaça aqueles que trazem discursos discrepantes. […].
Nesse jogo não há ética, vale a roupa falsificada, os óculos emprestados, tirar foto no carro do vizinho. […]. (RODRIGUES, 2018)


E, logicamente, inventar ou aumentar histórias, criar cenas, montar flagrantes.
A imagem em si representa um certo tipo de capital (Cf., nesse sentido, o livro Capital Erótico, de Catherine Hakim). As redes sociais, mais que outros meios, facilitam a hiperexposição e o alcance – sem filtro ou censura – da voz individual, estimulando o sonho da celebrização (ainda que por “15 segundos de fama”) ou a permanência, a todo custo, da situação de celebridade já alcançada.
Qualquer polêmica ou bizarrice ‘vende’. Quem depende de mídia não pode apresentar rotina. Nisso, vale até aparecer “se dando mal”. Antiético? Até aí, não! Mas quando se passa a inventar histórias, enganando o público, sim! Porque é diferente inventar, por exemplo, um roteiro de filme, uma ficção literária, uma peça de teatro: embora as pessoas ‘entrem’ na história, não estão sendo enganadas, sabem que é invenção, compactuam conscientemente com uma ilusão.


5. Ponderações éticas


Redações de jornais, Assessorias de comunicação, Agências publicitárias, etc., são empresas compostas por profissões formais, representadas por conselhos ciosos pela boa imagem de seu segmento. Hoje, os indivíduos têm por sobrenome a profissão e cargo que ocupam: “Fulano, advogado sênior da...”, ou seja, ações alheias que denigrem seu ofício os atingem, consequentemente. Assim, no âmbito do assunto em discussão, quem cria incêndios para, em seguida, ter que apagar, está prestando um desserviço, ocupando o tempo e os recursos dos interessados (de boa fé) de forma inútil, socialmente falando. ‘Queimam’ o conceito que as pessoas têm de uma profissão, o que atinge diretamente todos os profissionais da área.
Aceitar uma era da pós-verdade é dizer que a verdade simplesmente deixou de ter valor e que a realidade pode ser apenas virtual, não precisa ser fática. É tomar o imaginado por concreto, como acreditar na fantasia que se veste ou construir para si uma casa de tijolos de fumaça. É preciso puxar o “freio de emergência”, de que falava Turke (2010). Fugir da realidade até pode ser terapêutico, mas no mundo real as pessoas têm fome real - de comida, cultura, afeto, informação, respeito, etc. –, não dá para perder tempo brincando com o que é sério. Toda profissão tem uma função social. Se, pelo menos os profissionais (de comunicação), resgatarem essa consciência, muito já terá sido feito.


Notas:

1 No sentido foucaultiano mesmo, de sempre pôr um “mas” diante de uma afirmação, axioma ou dogma, futricando e conjecturando, criando um círculo interminável de mexericos e tagarelice, estendendo o fio dos argumentos além dos limites, até desconstruir o objeto da discussão. Desconstruído o ponto pelo desgaste, e sem deixar qualquer proposta de construção de alternativa, simplesmente passa-se para o próximo alvo. A crítica, a polêmica, é que protagonizam (porque causam efeito).

2 Cf. CAREY, Benedict. Psicologia explica circulação de ‘fake news’, dizem especialistas. Folha de São Paulo. 28 out. 2017.

3 Um jogo, lançado pela Universidade de Cambridge em 20 de fevereiro de 2018, chamado fakenewsgame.org, estimula estudantes a criar boatos e notícias falsas para, com essa experiência, aprender a combatê-los melhor. Como justificou Sander van del Linden, diretor do Laboratório de Tomada de Decisões da Universidade, "Se você sabe como é estar na pele de uma pessoa que tenta ativamente te enganar, sua capacidade de perceber e resistir a tais técnicas aumenta". É o que ele chama de “teoria da inoculação”.



Referências

ARANTES, Marcelo. A antietiqueta dos novos famosos: Guia para uma celebridade instantânea. Rio de Janeiro: Frutos, 2009.

CAREY, Benedict. Psicologia explica circulação de ‘fake news’, dizem especialistas. New York Times. Folha de São Paulo. 28 out. 2017. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/10/1931213-psicologia-explica-circulacao-de-fake-news-dizem-especialistas.shtml> . Acessado em 03 mar. 2018.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Projeto Perifeira, 2003. Disponível em: <http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/socespetaculo.pdf> . Acessado em 02, mar. 2018.

FOUCAULT, Michel. Eu Sou Um Pirotécnico. In: POL-DROIT, R. ; FOUCAULT, M. Entrevistas. São Paulo: Graal, 2006, p. 67-100. 

GOFFMAN, Erving. A representação do Eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes , 1985.

HAKIM, Catherine. Capital erótico: Pessoas atraentes são mais vem sucedidas. A ciência garante. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

PERES, Thalita. Subcelebridades X celebridades: entenda como se cria a imagem pública de um famoso – Aassessores explicam como aconselham seus clientes famosos para conseguir um lugar ao sol. R7. 01 set. 2013. Disponível em: <https://diversao.r7.com/tv-e-entretenimento/subcelebridades-x-celebridades-entenda-como-se-cria-a-imagem-publica-de-um-famoso-09062017> . Acessado em 04 mar. 2018.

RODRIGUES, Juliano Barreto. Ostentando o Ouro de Tolo. Coletivo sem Ponto. 2015. Disponível em <http://coletivosemponto.blogspot.com.br/2015/03/ostentantdo-o-ouro-de-tolo.html> . Acessado em 02 mar. 2018. 

ROSA, Mário. A Era do Escândalo. São Paulo: Geração Editorial, 2013.

TURCKE, Christoph. Sociedade Excitada: Filosofia da sensação. Campinas: Ed. Unicamp, 2010.



Resumo
O texto, um artigo de opinião, trata das Fake News (notícias falsas), dentro do contexto filosófico de Pós-verdade que, segundo muitos estudiosos dos fenômenos atuais de comunicação, caracteriza nossa interlocução contemporânea, ultramediada pela tecnologia. Nessa perspectiva, especifica-se o tema fechando o foco sobre as crises de imagens auto-infligidas: crises criadas por notícias ou flagrantes, “montados”, pelas celebridades e suas assessorias, com o fim de manter a celebridade na mídia a todo custo. Esse fenômeno é tratado como reflexo do deslocamento da titularidade da comunicação midiatizada - dos órgãos para os usuários - consequência das redes sociais e das outras formas de interação via internet e tecnologia mobile. Por fim, após apresentar exemplos e comentários, são feitas ponderações éticas sobre os profissionais de comunicação, principalmente as assessorias de celebridades, para justificar a necessidade de “puxar o freio de emergência” com o fim de garantir o respeito à função social das profissões de comunicação.

Palavras-chave
Crises de imagem; Fake News; Pós-verdade; Assessorias de Comunicação; ética profissional


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Resenha de "A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón





A SOMBRA DO VENTO – Livro de Carlos Ruiz Zafón
Resenha

                                                     Juliano Barreto Rodrigues

Um dos melhores livros que já li.

O título, que não antecipa ou sugere o enredo, é um substantivo próprio: o nome de um livro dentro da história. É ambíguo e dá ideia de fluidez, irrealidade, sonho, fugacidade. Diferente, provoca no leitor a tentativa de criar mentalmente uma imagem impossível: a sombra do vento. Dessa impressão confusa surge a força do título, aguçando a curiosidade e estimulando a leitura.

É o primeiro de quatro livros (aclamado, já passou de 6,5 milhões de unidades vendidas desde o lançamento em 2001, segundo a Wikipédia), que têm a característica de poderem ser lidos de forma independente, porque cada um tem enredos com começo, meio e fim, embora trabalhem as mesmas personagens. Minha intenção inicial era ler só o primeiro livro mas, antes de terminá-lo, adquiri os outros três.

São 464 páginas absolutamente necessárias, numa edição primorosa da Suma das Letras (hoje SUMA), selo do Grupo Companhia das Letras.

A capa, de Cláudia Espínola de Carvalho, é linda, um destaque. Figurativa, enquadra pai e filho apressados rumo a algum lugar, que a sinopse na quarta capa indica como o Cemitério dos Livros Esquecidos. As duas figuras são emolduradas por um cenário nebuloso e frio, totalmente condizente com os descritos no livro – neste sentido, ecoam no texto as palavras “vapores”, “azul” ou “azuis” (até a repetição ficar meio excessiva) e “ocre”. Talvez outro capista, que não tivesse lido o livro, pudesse ter usado a imagem de uma livraria antiga, mas Cláudia Espínola teve a sensibilidade de apresentar o recorte de uma emoção: a expectativa da criança por conhecer aquele lugar mágico.

A ideia de um Cemitério dos Livros Esquecidos, onde são guardados os últimos exemplares de obras que estão se extinguindo é, por si só, preciosa a todos os amantes de livros. O tema prende, a velocidade da trama é constante, há altos e baixos perfeitamente conectados, os efeitos causados no leitor parecem milimetricamente calculados.

O público-alvo é o leitor amante da escrita ficcional, dos livros, das livrarias, do mundo dos escritores, embora qualquer pessoa que goste de aventura, tragédia e romance terá ali entretenimento de primeira qualidade.

O livro fictício A Sombra do Vento é tratado como um “romance para romancistas”, aquele tipo de obra de excelente qualidade mas que não alcança o leitor médio (pelo tipo de linguagem ou pela profundidade das divagações, etc.). Esta tragédia não deixa de ser uma crítica e uma lição para quem escreve.

A personagem mais marcante para mim é Fermín Romero, o velho cheio de histórias e experiências de vida, munido de aforismos e conselhos certos (alguns engraçados) para todo tipo de situação. Sofrido mas forte, coadjuva com o protagonista Daniel Sempere, como um fiel escudeiro.

O enredo tem – sem faltar nada – tudo que marca as melhores ficções: tragédia; amor; violência; mistério; morte e vida; sucessos e fracassos financeiros; personagens verossímeis; diálogos marcantes; encontros e rompimentos; tempo histórico bem definido (que facilita imaginar a sucessão de acontecimentos); cenas construídas só com os detalhes que importam (sem excessos nem faltas); tessitura do enredo sem brechas; uma prosa simples sem ser simplória; algumas frases aforísticas muito boas; o tema “grande”, no sentido de atemporal, válido para além do recorte escolhido para a ocorrência da trama, bem como para além dos leitores da época em que o livro foi lançado; contém grandes lições metafísicas – mas dentro da concreção dos fatos ocorridos com os personagens, de modo que as transcendências nascem da capacidade de divagação do leitor analisando as situações – sem advirem de narrações professorais pedantes; capítulos nem tão curtos nem tão longos; estrutura impecável. Ou seja, é um clássico inato, com todo o arsenal para hipnotizar o leitor e fazê-lo submergir nas imagens em movimento (as palavras são, no bom sentido, quase invisíveis, um instrumental a serviço do fluxo das sequências).

Várias vezes me peguei tampando parte da página com a mão para não cair na tentação de ver, nem com a visão periférica, a solução de um suspense nas linhas seguintes (os olhos teimavam em escorregar para lá, por causa da expectativa).

O final do livro é parecido com os finais de novela de TV: nos últimos momentos todos os acontecimentos, referentes a todas as personagens, se resolvem, para um "the end" quase literal.

Distingue-se a excelente revisão textual (só vi um erro de concordância, por volta da página 280). Sendo um volume relativamente grosso, o manuseio é facilitado pelo tamanho da impressão. Colaboram para a boa leitura a escolha tipográfica da fonte Capitolina Regular, o bom tamanho das letras e localização da mancha de texto (com margens adequadas e ótimo espaço entre as linhas). Também realço a escolha do papel Pólen Soft (da Suzano), de textura, brilho e cor bem agradáveis.

Não vou falar da trama, porque não tenho a intenção frustrar o prazer do leitor, adiantando qualquer coisa além daquilo que está na sinopse e nas orelhas do livro. Limito-me aos contornos. O livro é o resultado de uma arquitetura perfeita, funcional e bela. Fica evidente que foi pensado e planejado pelo autor e teve um primoroso trabalho de edição e desing. Sobram adjetivos para qualificá-lo. Meu escolhido é “imperdível!”.





segunda-feira, 29 de janeiro de 2018




JARDIM FLORIDO

     (Para Yasmine)

                                        Juliano B. Rodrigues.

E as mini rosas desabrocham luxuosas,
Numa cama imensa de suaves Carolinas.
Vi Anas relutantes tentarem resistir ao cortejar do Sol,
Mas natureza tem seu tempo,
O que é para ser, sempre é.
Rompida a resistência petalar,
As láureas lindas irrompem inteiras.
Só ares de amor!
Majestades absolutas pontificando torres aculeares,
Brilhando sua cor irresistível e movediça.
Jardim florido em rosas.
Rosas...
São mulheres em gala e perfume:
Solares conquistadoras a dançar ao vento.
Atemporais.




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sugestão de leitura – COMO ESCREVER PARA WEB : elementos para a discussão e construção de manuais de redação online





FRANCO, Guillermo. Como Escrever para WEB : elementos para a discussão e construção de manuais de redação online. Knight Center for Journalism in the Americas. 200? Disponível em: 




Juliano Barreto Rodrigues

Livro escrito, essencialmente, para jornalistas. Mas o autor assegura que é proveitoso para a redação de todo texto a ser publicado na Web. Tem toda a razão, embora eu acrescente que é muito proveitoso para quem escreve o que quer que seja, em qualquer lugar ou suporte, não apenas na internet.

Por que apresento este livro em um blog de criação literária? Porque, dentre minhas leituras, considerei este um livro essencial, também, para quem faz literatura (principalmente a ser disponibilizada na Web). Traz uma radiografia do texto, uma visão de seus elementos, sempre com vistas a despertar imediatamente o interesse do leitor e a prendê-lo, fazendo com que o leia (e que também interaja, clicando para outras páginas disponíveis), e tenha, enfim, uma experiência positiva no contato com nosso site, ou blog, ou rede social. A radiografia, de que falei, faz com nós que escrevemos tenhamos um novo olhar sobre cada palavra, sua função, sua disposição, sobre as frases, parágrafos, o bloco do texto, etc. Parece que, de repente, o que víamos como um todo bom ou ruim passa a ser visto nas suas pequenas partes, ficando fácil identificar onde está o que é bom e o que é ruim, o que destacar, permitindo modificar, consertando o texto.

Na escrita para a Web, por causa da função dos textos e da peculiaridade do suporte em que são apresentados – a tela luminosa do computador –, os títulos, primeiras palavras, primeiras frases são fundamentais para captar e prender o leitor, que na Web escaneia a página antes de ser fisgado, decidindo-se a ler. Assim, intertítulos, parágrafos curtos, textos curtos, facilitam a leitura e contribuem para que um texto seja lido até o final. Para tornar o texto enxuto, conciso, cada palavra deve ser bem escolhida (curta, clara e exata), atraente e estrategicamente bem colocada. A ideia que mais chama a atenção deve vir primeiro. É uma escrita que têm muito de publicidade, de “vender” o texto.

O autor faz um histórico da utilização da pirâmide invertida, lembrando a importância do seu surgimento, o momento em que ela passou (antes do advento da internet) a ser considerada obsoleta, sendo rechaçada pelos jornalistas, até seu resgate, a partir da universalização da rede mundial de computadores.

Pirâmide invertida é uma técnica de hierarquização de conteúdo que consiste em colocar, logo no início do texto, as informações mais interessantes ou importantes, e ir decrescendo, nos outros parágrafos, para as menos importantes (contexto, detalhes secundários, etc.). A pirâmide invertida horizontal traz a mesma ideia para dentro de cada parágrafo, levando o redator a colocar o prioritário na primeira frase, nas primeiras palavras, e ir decrescendo para as informações menores.

Guillermo Franco considera que, talvez, o modelo de pirâmide invertida não seja interessante para o artista, o escritor de ficção, o literato, o cronista, nem para quem faz um certo tipo de jornalismo literário. Mas, na minha opinião, podemos aproveitar, mesmo nas criações ficcionais, muito do que ele traz no livro – principalmente a questão de prioridades no texto. Ele trata do tamanho das frases, dos parágrafos... Para você dar ênfase a alguma ideia, por exemplo, é interessante alternar um parágrafo longo com um curto, ou colocar entre dois parágrafos longos um curto – o parágrafo curto provavelmente vai se destacar. O mesmo ocorre com as frases curtas: uma frase curta colocada entre frases mais longas, a frase curta vai chamar a atenção. O autor também trabalha a questão da adjetivação e do uso de adverbios, observações que podem ser aproveitadas por quem escreve literatura ou qualquer outro gênero.

Respeitado o bom senso e a questão de conveniência, dá para aproveitar na criação literária muito do que é apresentado no livro. Da comparação consciente entre as diferenças (técnicas, de estilo e de função) da escrita para Web e da escrita literária impressa, extrai-se elementos que podem se modificar ou misturar para fazer de um texto algo melhor.

A obra traz uma profusão de exemplos e comparações, que ensinam, na prática, como identificar um texto bom ou ruim para Web, permitindo melhorar ou fazer do zero algo mais adequado para internet. No livro há gráficos e tabelas que facilitam o entendimento e visão do todo. Um defeito a ser destacado é que, toda vez que o autor cita parte de outra obra ele faz a referência completa dentro do próprio corpo do texto, tornando enjoativo o fato do leitor ter que ver a mesma referência 10 ou 15 vezes. 

É um livro que veio atender à necessidade de formação específica de jornalistas (mas não se restringe a eles). Muito didático, as informações são todas muito pertinentes e importantes. É um livro em que o leitor realmente aprende aquilo a que ele se propõe. O fato de ser disponibilizado gratuitamente é ótimo, porque facilita o acesso.

Dentre os materiais que tratam de escrita para a WEB com os quais tive contato até agora, este é, com certeza, o mais direto, interessante e rico de conteúdo.

ANÁLISE CRÍTICA DO MINICONTO “VOCÊ LIGA PRA CÁ E CONTA QUAIS SÃO OS SEUS CAMINHOS EM SÃO PAULO”, DE BRUNO ZENI.






Por Juliano Barreto Rodrigues


Referência:
ZENI, Bruno. O fluxo silencioso das máquinas: pequenas iluminações asfálticas. São Paulo : Ateliê Editorial, 2002. Págs. 61-62.

O porquê da classificação como miniconto:
Miniconto, microrelato, termos ainda não pacíficos e de significado não unânime na academia, mas cada vez mais utilizados, definem: 1) textos concisos (mais do que simplesmente breves); 2) com narratividade que mostre a progressão de uma personagem de um determinado estado a outro; 3) Que cause um efeito (empático, antipático, de perplexidade, de estranhamento) – através de forçada adesão do leitor, causada por determinado uso deliberado da linguagem; 4) seja aberto, no sentido de não trazer todas as conclusões, deixando que o leitor as tire; 5) e exato, na medida em que o autor consiga direcionar o leitor ao efeito pretendido, e não a outro (por isso a escolha e posição das palavras e frases – da forma, enfim – são muito importantes neste gênero).
Todos esses elementos característicos estão presentes no texto estudado. Há ainda a falta de parágrafos, a forma de utilização do título, da pontuação, das palavras, que reforçam a classificação no gênero miniconto.


Contextualização do texto com o título do livro

O título do livro de Bruno Zeni é “O fluxo silencioso das máquinas”. No miniconto específico, um de vários, a ideia de fluxo das máquinas - coincidente com o título do livro - está presente, embora o texto contradiga o adjetivo “silencioso”, acrescido ao substantivo “fluxo” do título da obra. Sons estão referidos o tempo todo, inclusive no não mencionado toque do telefone celular que interrompe quatro vezes o trajeto do protagonista. Há música, som de carros, até de um helicóptero, comparado ao som da cidade: “Por que o barulho das pás de um helicóptero parece tão alto, como se tomasse conta da cidade, como se fosse mesmo o barulho da cidade?”
Há correlação direta com o subtítulo do livro, “pequenas iluminações asfálticas”: a pequenez do corriqueiro, da rotina, do dia-a-dia que se repete na cidade, no asfalto (no trânsito, neste texto em particular). São inúmeras as referências às luzes - de carros (que se deduz pelo horário em que se passa o enredo: início da noite), do telão luminoso de cristal líquido, da parede do prédio “cintilando” a imagem de uma mulher, dos giroflex das ambulâncias (também só sugeridos, não ditos).


Impressão visual

Um só bloco de texto desalinhado do lado direito, sem parágrafos, que tem como facilitador da leitura da mancha gráfica apenas as margens, as entrelinhas e a serifa da fonte utilizada. A escolha da edição casa bem com o conteúdo: o desalinhamento dá ideia do caos do tema, a falta de parágrafos insinua um fluxo constante, o bloco gráfico maciço remete à concisão do texto e, psicologicamente, ao peso e cansaço da situação vivida pelo narrador.


Título do texto

Há a diferenciação ortográfica da primeira frase, que funciona, assim, como título, a exemplo do que se ensina em manuais de escrita para web. O mecanismo serve para facilitar que se acrescente o texto em dispositivos móveis sem que haja desconfiguração de formatação. Também é meio para que o título não seja deslocado, e sim faça parte do próprio texto (sem ser necessário repetir sua informação no restante do corpo). Recurso muito usado no jornalismo digital (Bruno Zeni é jornalista).


O narrador

Narrador personagem em segunda pessoa, que faz com que o leitor se envolva de forma mais intensa com o que está lendo, percebendo as coisas de forma mais real, mais profunda. “Você” é o interlocutor do diálogo telefônico apenas insinuado. Para um leitor que não é de São Paulo, talvez a associação pessoal não aconteça. Noutros pontos, o narrador alterna entre segunda e primeiras pessoas do singular e do plural, o que reforça o tom dialogal:
[Eu] Não sei se propaganda de roupa [...]” – primeira pessoa do singular.
[...] vamos esperar um pouco” – nós, primeira pessoa do plural.
No entanto, na maior parte do tempo, o narrador está falando consigo mesmo, realizando um monólogo interior direto, demonstrando impressões internas sobre o trajeto, os sons, imagens, sensações e sentimentos que está tendo. Isso é trabalhado à maneira de um fluxo de consciência, evidenciado pela forma de pontuação e alternância desordenada entre informações objetivas e subjetivas, pela interrogação para si mesmo (“Por que o barulho das pás de um helicóptero parece tão alto, como se tomasse conta da cidade, como se fosse mesmo o barulho da cidade?”).
No final, há uma parte que representa bem claramente a fragmentação característica do fluxo de consciência: “Todo mundo na rua. Todo dia. Me tira daqui. Me leva pra casa. Me beija. Dezenove e cinquenta e dois. Pensando em nós dois. Depois que tudo isso passar. Vai ser melhor.”
O narrador é protagonista, sua narração se limita a seu ponto de vista, não tendo acesso aos pensamentos da outra personagem (não identificável se homem ou mulher. Se o leitor se identificar – como é possível pela narração em segunda pessoa – o sexo será o seu).


Parágrafos

Não há parágrafos explícitos para o leitor “respirar”. As frases são curtas. Uso dos dois pontos: 4 vezes, três deles muito próximos – aceleram a leitura. À rapidez do texto se contrapõe a lentidão do trânsito descrito, indicando a tensão (e estresse) entre a pressa do narrador personagem e a arrastada fluidez do tráfego.
Você liga pra [ou para] cá e conta [...]”. Usado 5 vezes. Cada entrada, em discurso indireto livre, corta a cena, fazendo as vezes de um parágrafo.
Em todo o texto, embora os deduzidos parágrafos (que não existem de fato) tragam basicamente a repetição da mesma frase inicial, a preposição pra é utilizada duas vezes, nas frases de início e de final apenas, trazendo uma contradição com a forma para (mais formal) utilizada no interior do texto. A sensação é de que usa o coloquial pra como se estivesse se referindo diretamente ao interlocutor no telefone e o para quando está falando consigo mesmo.
Esses “parágrafos” (embora não explícitos) vão diminuindo de tamanho (como a distância até o destino do narrador) até que o último seja apenas uma frase.
O texto começa e termina com elocução parecida, dando a ideia de um ciclo ruim que se repete todo o dia, mas há um alento na última frase que parece dar sentido ao caos que é suportado: “Você liga pra cá e conta como se ama em São Paulo”.


Transgressões à linguagem formal

Algumas transgressões da linguagem formal são evidentes, como o uso da preposição reduzida pra, que dá o tom coloquial ao escrito (embora seja forma dicionarizada e aceita pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa).
A Avenida Paulista segue parada” – transgressão. O verbo seguir se refere a passagem de tempo e não ao espaço da Avenida Paulista, como a frase parece mostrar.
Os carros andam um pouco melhor [...]” – para indicar “um pouco mais rápido”.
[...]o desespero das sirentes.”
Vai ser melhor” – em vez de será melhor.
Depois que tudo isso passar. Vai ser melhor”. A transgressão está na ênfase da pausa causada pelo uso do ponto em vez de vírgula.
Todo mundo na rua. Todo dia. Me tira daqui. Me leva pra casa. Me beija.” – uso de pontos, em vez de vírgulas. Há uma reclamação explícita. Transgressão da ordem formal: me leva, em vez de leve-me; me tira, em lugar de tire-me; me beija, e não, beije-me.


Outras considerações


Não fica claro se o interlocutor ao telefone está longe, ensinando melhores rotas, ou dizendo que também está em outra parte do trânsito paulistano, rumando para o mesmo destino.


O substantivo “São Paulo” é um eco recorrente no texto. Usado seis vezes em quatro parágrafos (apenas deduzidos, como já dito).


No rádio, temos música, pelo menos” – uma escapada, uma fuga a suavizar a espera. O “pelo menos” demonstra insatisfação de estar naquela situação. O “temos” reflete a alternância para 1ª pessoa do plural.


Há referências à meteorologia, distâncias, horários, cotações, datas, informações tão comuns e buscadas, com maior ou menor interesse (e de importância variável), por quem transita diariamente pelas cidades.


A imagem da mulher na parede impõe, “prende”, a atenção de quem passa. A potência daquele apelo publicitário é irresistível. Mais uma marca – além do congestionamento do trânsito, do tempo exíguo, dos excessos de sons, luzes, sensações e imagens, e da própria forma do texto – da Pós-modernidade.


Verbos, advérbios, substantivos e adjetivos

Parece haver uma escolha deliberada pela construção textual substantiva, tentando economizar em verbos, o que se reflete também na reduzida utilização de advérbios (de modo e intensidade) e locuções adverbiais em comparação com a profusão de adjetivos e locuções adjetivas. Visão rápida:
1. ADVÉRBIOS E LOCUÇÕES ADVERBIAIS
- segue parada
- parece tão alto
- lentidão
- andam um pouco melhor
- vai ser melhor
2. ADJETIVOS E LOCUÇÕES ADJETIVAS
- imagens líquidas
- imagens líquidas
- cores irreais
- parcialmente nublado
- céu avermelhado
- fluxo lento
- trânsito intenso, mas correndo
- figura enorme
- corpo inteiro
- quadris enormes
- mulher quente
- cores quentes
- mulher quente cintilando
- trânsito está completamente parado
- trânsito complicado
- trânsito bom

Chamam a atenção o uso de “líquidas” (adjetivo) e “cristal líquido” (substantivo composto) porque o primeiro uso conota, e o segundo denota, fluidez, coerente com fluxo de trânsito e, além disso, termos muito utilizados para tratar os fenômenos de convivência, comunicação, interação com o meio e com as tecnologias, na Pós-modernidade.


Uma tentativa de interpretação à guisa de conclusão

Toda interpretação é subjetiva, parcial e lacunosa, mas isto é característica da literatura: o sentido do texto só se completa na medida do leitor, que entende de uma ou de outra forma – conforme sua vivência, seu repertório de leitura, suas capacidades culturais, sociais, intelectuais, etc. – o que está lendo. Dito isso, parto para uma sucinta interpretação crítica, que exatamente por ser crítica, não vai isenta de juízo de valor.
A informação de 182 km de congestionamento já situa o leitor na sensação angustiante e claustrofóbica de estar preso no trânsito. O horário de pico intensifica a impressão. O conflito é exatamente a agonia da distância diante da vontade de chegar logo (a um ponto de chegada/destino, e a um alguém).
Diante da impotência diante da situação do tráfego, o impulso é só não parar, continuar indo, tentando não surtar, porque vai passar, vai ser melhor (parafraseando as penúltimas frases do texto).
O que se vê no trajeto, não por querer, mas obrigatoriamente, vai enchendo o tempo e as sensações do narrador personagem, ativo-passivo diante do trânsito. Os elementos descritivos são direcionados para imergir o leitor nessa atmosfera maçante do congestionado de fim de tarde. Os estímulos distraem o motorista e ele leva o leitor neste processo. Daí a importância da forma, mais do que do enredo neste caso, para causar uma impressão marcante do texto.
De tempos em tempos os telefonemas, que bem podem ser só reminiscências, sem estar acontecendo realmente – mas não foi assim que entendi – ressituam o narrador personagem no seu objetivo: chegar, encontrar aquela pessoa referida, sair da angústia.
É um texto de resignação momentânea, em que o indivíduo (micro) está engolido pela cidade (macro), na esperança de chegar àquilo que finalmente lhe interessa. Indica assim a esperança de todos os que vivem situação semelhante hoje em dia: ser um pouco mais dono de seu tempo, de seu espaço, de si.
O miniconto me remete ao conceito de sociedade do tempo livre, em que os sujeitos só se sentem inteiros e felizes no espaço temporal em que não estão obrigados ao trabalho, ou seja, em exíguos momentos de fuga e liberdade. Assim, o efeito que o texto me causou foi a angústia de reviver aquele tipo de situação ruim, com a pressa impotente diante da contingência do trânsito.
As escolhas do autor são impressionantes, foi muito competente na maneira de apresentar sua ideia. Independente de se gostar ou não do tema ou do entrecho, é um texto admirável.