O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

terça-feira, 12 de setembro de 2017


Kafka e a história da boneca

Essa história foi contada durante a viagem de Nathan Glass e de seu sobrinho Tom, que pretendiam levar a pequena Lucy, de apenas nove anos, da cidade de Nova York, onde moravam, até Vermont.

"Kafka não foi apenas um grande escritor, foi também um homem notável. Já ouviu falar da história da boneca?

- Não que eu me lembre.

- Ah. Então eu vou contar. Será minha primeira contribuição para o corpo de provas que vai apoiar minha teoria.

- Acho que não entendi muito bem, Tom.

- É muito simples. Meu objetivo é provar que Kafka foi de fato uma pessoa extraordinária. Mas por que começar por esta história e não por outra qualquer? Não sei. O fato é que desde que a Lucy apareceu, ontem de manhã, não consegui tirá-la da cabeça. Tem de haver uma ligação qualquer. Ainda não consegui descobrir qual é, exatamente, mas acho que há um recado para nós, nela, uma espécie de aviso sobre como deveríamos agir.

- Menos preâmbulos, Tom. Vamos lá, me conte a história e pronto.

- Estou com a corda solta de novo, não é mesmo? A culpa é de todo esse sol, de todos esses carros e eu no meio, rodando a noventa, cem por hora. Meu cérebro está explodindo, Nathan. Eu me sinto cheio de ânimo, pronto para o que der e vier.

- Ótimo. Agora me conte a história.

- Está bem. A história. A história da boneca... É o último ano da vida de Kafka e ele está apaixonado por Dora Diamant, uma jovem de dezenove ou vinte anos que escapuliu da família hassídica e da Polônia para ir morar em Berlim. Dora tinha metade da idade dele, mas lhe deu coragem para sair de Praga – algo que Kafka tinha vontade de fazer havia anos e anos – e ir morar com ela, sua primeira e única mulher. Ele chegou a Berlim no outono de 1923 e morreu na primavera do ano seguinte; no entanto, esses últimos meses muito provavelmente foram os mais felizes de toda a sua vida. Apesar da saúde cada vez mais precária. Apesar das condições sociais de Berlim: falta de comida, distúrbios políticos e a pior inflação da história alemã. Apesar da certeza absoluta de que não ficaria muito mais tempo neste mundo.

Todas as tardes, Kafka saía para dar uma volta no parque. Na maior parte das vezes, Dora o acompanhava. Um belo dia os dois dão de cara com uma menininha soluçando desesperada. Kafka lhe pergunta o que houve e ela conta que perdeu a boneca. Na mesma hora ele se põe a inventar uma história para explicar o que tinha acontecido. ‘Sua boneca foi dar uma viajada’, ele diz. ‘Como é que você sabe?’, pergunta a menina. ‘Porque ela me mandou uma carta.’ Mas a menina não acredita muito na história. ‘Está com ela aí?’, pergunta. ‘Não, sinto muito, deixei em casa por engano, mas amanhã eu trago sem falta.’ Kafka é tão convincente que a menina não sabe mais o que pensar. Será possível que esse homem misterioso esteja dizendo a verdade?

Kafka volta direto para casa para redigir a carta. Senta-se à escrivaninha e, ao vê-lo trabalhar, Dora constata que o escritor está imbuído da mesma seriedade e tensão que dedica à própria obra. Kafka está resolvido a não enganar a pequena. Este é um verdadeiro lavor literário e ele quer sobretudo que saia direito. Se conseguir inventar uma linda e convincente mentira, ela haverá de suplantar a perda sofrida pela menina com uma realidade diferente – falsa, talvez, mas verdadeira e crível segundo as leis da ficção.

No dia seguinte, volta ao parque munido da carta. A pequena está a sua espera e, como ainda não aprendeu a ler, Kafka a lê em voz alta para ela. A boneca sente muito, mas cansou-se de viver com as mesmas pessoas o tempo inteiro. Teve de sair para ver o mundo, fazer novos amigos. Não é que não ame a menina, mas ansiava por uma mudança de ares e, assim sendo, era preciso se separarem por uns tempos. No fim, a boneca promete escrever à menina todos os dias e mantê-la a par de suas atividades.

É nesse ponto que a história começa a me despedaçar o coração. Já é bastante espantoso que Kafka tenha se dado ao trabalho de escrever aquela primeira carta, mas, não contente, ele assume a tarefa de escrever uma nova carta todos os dias – sem nenhum outro motivo que não seja o de consolar uma menina totalmente estranha, uma criança com quem havia cruzado por acaso numa tarde no parque. Que tipo de homem faz algo assim? E ele levou o projeto adiante durante três semanas, Nathan. Três semanas. Um dos escritores mais brilhantes de todos os tempos sacrificando seu tempo – seu tempo cada vez mais precioso e curto – para redigir cartas imaginárias de uma boneca perdida. Dora conta que ele escrevia cada sentença com uma atenção desmedida aos detalhes, que a prosa era precisa, divertida e empolgante. Em outras palavras, era a prosa de Kafka, e todos os dias, durante três semanas, ele foi ao parque e leu em voz alta uma nova carta para a menina. Nesse ínterim a boneca cresce, vai para a escola, conhece pessoas novas. Sempre declarando seu amor pela menina, dá a entender que complicações surgidas em sua vida a impedem de voltar para casa. Pouco a pouco, Kafka via preparando a criança para o momento em que a boneca desaparecerá de sua vida para sempre. Faz o possível para inventar um final satisfatório, pois teme que, se não conseguir, o encanto será rompido. Despois de testar diversas possibilidades, acaba se decidindo por casar a boneca. Descreve o jovem por quem ela se apaixona, a festa de noivado, o casamento no interior, até mesmo a casa onde a boneca e o marido vão viver. E, por fim, na última frase, a boneca se despede de sua antiga e amada amiga.

A essa altura, claro, a menina não sente mais falta da boneca. Kafka lhe deu algo em troca e ao final dessas três semanas as cartas já a curaram da infelicidade. Ela possui a história, e quando a pessoa tem sorte suficiente de viver dentro de uma história, de viver dentro de um mundo imaginário, as dores deste mundo somem. Pelo tempo que durar a história, a realidade deixa de existir.”

Fonte: AUSTER, Paul. Desvarios no brooklyn.Tradução: Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 166-169.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Homenagem ao médico Benedito de Assis


Há pessoas que são diferenciadas. Gente dedicada a uma grande missão. É o caso do médico Benedito de Assis, que minha mãe sempre chamou de "Didizinho", e a quem aprendi nominar também assim. 
Homenageei-o com o livro Sem Causar Mal - Histórias de Vida, Morte e Neurocirurgia, do médico inglês Henry Marsh (Editora nVersos) e compartilho a dedicatória que lhe fiz:

 Didi,
Vocação, sacerdócio. Substantivos próprios da devoção religiosa, mas muito convenientemente empregados ao exercício da medicina. A veste branco-imaculada alimenta ainda mais a aura pia, e a economia e sobriedade na fala do médico, seus gestos práticos, o costume com as sentenças de vida e morte, lembram a gravidade clerical. Mas há Médicos e médicos.
Hoje proliferam, ao lado dos vocacionados, 'vendilhões do templo' de Hipócrates. Gente não “chamada”, que abraça a profissão imperial não como confissão religiosa, mas como mercancia e meio de satisfazer a própria vaidade. Aviltam o santo mister.
Quando se entrega as dores e a própria vida a um médico, se lhe confia a alma. É a entrega máxima, a esperança de que ele, junto a Deus, são a chance de misericordiosa solução para a aflição.
Todos reconhecem um grande médico na frase: “está em boas mãos”. O que posso dizer?
Meu filho está nas melhores mãos que conheço. Antes dele estivemos eu e meu irmão. E, além de nós, tantos e tantos outros.
Não há ouro que pague sua entrega. Peço ao Pai que lhe pague, ampare em Suas mãos sua família, assim como as suas mãos de médico têm abençoado as famílias de seus pacientes.
Nossa Gratidão, Doutor!




segunda-feira, 3 de julho de 2017



                            A Alegria da Escrita

                                                                          Wisława Szymborska

Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiado sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio — também esta palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra “bosque” originou.

Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.

Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.

Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo.

Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece.
Sem meu querer nenhuma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.

Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.
O poder de preservar.
A vingança da mão mortal.



SZYMBORSKA Wisława. “A alegria da escrita”. In: Poemas, seleção, tradução e prefácio de Regina Prybycien. Companhia das Letras, São Paulo – 2011. p. p. 36, 37.



segunda-feira, 5 de junho de 2017



A FORÇA DAS (NOVAS) CONVICÇÕES

                                                         Juliano Barreto Rodrigues

Curioso admirador dos tipos humanos – hábito que talvez tenha adquirido por transitar muito, observando diferentes pessoas o tempo todo –, fui elaborando um repertório de padrões de reconhecimento dos espécimes que me permite hoje, por exemplo, associar novos ricos, novos convertidos e intelectuais recém-admitidos, num mesmo balaio. Todos têm uma listinha de afirmações e negações a bater até interiorizarem e serem aceitos nos seus grupos. São chatos.

Voo Brasília-Porto Seguro. Senta ao meu lado uma figura carregando um livro grossíssimo, óculos de resina colorida, paletó mal caído cheirando a naftalina, caneta na mão. Como todo aparecido, o homem puxa conversa e, daí a pouco, conheço todas as suas credenciais, nome do cachorro, endereço...

Ateu. Se declara e me olha para ver o efeito. Penso comigo: “a mais velha modinha entre todo novo intelectual. Acho até que quase inexista algum intelectual de escol que não tenha sido ateu por, pelo menos, cinco minutos”.

Não disse nada, mas o homem disparou seus motivos. Elucubrou por meia hora, um saco.

Solavanco. Turbulência. Meu vizinho virou a descompostura em pessoa:

– Ai meu Deus, ai meu Deus, Nossa Senhora, Diviiiino Espírito Santo – repetia sem parar agarrado ao meu braço e suando rios.

No ridículo da situação eu disse:

– Calma, calma, Deus ajuda quem tem fé.

Passados os quebra-molas aéreos, o tipo se virou para o corredor e nem olhou mais para mim. Quando foi desembarcar eu ainda arrisquei um “vá com Deus”. Acredita que o desaforado nem me respondeu?



Resenha de meia leitura do livro "A Insustentável Leveza do Ser"


                                                                                               
                                                                                                          Juliano Barreto Rodrigues

Dia desses cometi o sacrilégio de ler o comecinho de um livro e, logo em seguida, correr para o final para ver o que tinha acontecido.

A despeito dos meus motivos – não era um livro meu e nem estava na minha infindável lista de leituras urgentes – foi uma experiência inédita e gratificante, que pretendo (confesso!) repetir.

Explico: o título “A Insustentável leveza do ser” (Milan Kundera) induz, por si só, divagações filosóficas e levanta possibilidades narrativas mais ou menos previsíveis. Não vou me aprofundar dizendo o que pensei e previ para não frustrar quem queira repetir o experimento. Li, então, as primeiras quatro páginas, que deram mais pistas, e elaborei uma hipótese de fim da história. Daí parti para a leitura das últimas páginas para ver se confirmavam minha ideia.

Foi muito interessante. O título é incrível e resume o enredo. Obviamente, um grande texto literário é muito maior do que a história que conta. A forma de contar é que protagoniza. Mas o fato que interessa aqui é que acertei o final.

Pretendo me redimir do meu pecado, lendo o livro todo. Mas também pretendo fazer a mesma experiência com outras obras com títulos igualmente sugestivos, do tipo “Tudo que é sólido desmancha no ar” (Marshall Berman), ou “Amor é tudo que nós dissemos que não era” (Bukowski).

Posso falar bastante do livro de Kundera sem conhecê-lo a fundo. Mas o que diria seria uma aproximação leviana a qual recorreria só se me apertassem (me lembrei da obra “Como falar dos livros que não lemos”, de Pierre Bayard). De toda forma, reitero que foi um exercício produtivo e prazeroso (mas não sem alguma talisca de culpa). Tentem.




sexta-feira, 26 de maio de 2017


Dedicatória que fiz em livro que presenteei a uma colega que pretende ser escritora:


Quer ser escritora?

1) Escreva. Vá para a poesia para encontrar sua voz. Solte-se. Esqueça as regras de escrita que sua formação lhe deu. Volte a imaginar feito criança. Já na prosa, preze pela escrita de processo, de que falou César Aira, porque a de resultado é fácil e vulgar, e para ela há muitas receitinhas de bolo.

2) Exponha-se aos leitores. É como postar-se nua na praça. Seja exorbitante, superlativa. Se está nua na praça, pule e rebole. Desavergonhe as vergonhas (naturalize-as). Sabe aquelas pessoas filmadas dançando na rua? Ou são ridicularizadas e viralizam como piada na internet ou saem consagradas e aplaudidas. É assim que acontece.

3) Afie o detector de merda hemingwayniano e aponte-o principalmente para seus próprios textos.

Se for para ser escritora, fatalmente o será, simplesmente por não conseguir não escrever. É como se as palavras - um Sol dentro de ti a te queimar as tripas - precisassem sair. É a lição de Bukowski, que conseguiu ser um grande escritor apesar de ser o maior escroto do mundo.

Desejo-te paixão pela senda.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

L.I.V.R.O. (Millor Fernandes)
Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.
Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.
L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhasnumeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO Tecnologia do Papel Opaco – os fabricantes de L.I.V.R.O.Spodem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!
Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazerL.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade deprocessamento do usuário.
Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta "ERRO FATAL DE SENHA", nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.
O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.
Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo deL.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O.suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.
Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.
Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.
E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!


Os fantásticos livros voadores do Senhor Lessmore

APRESENTANDO O LIVRO

"It's a Book" - Book Trailer - Legendado

terça-feira, 28 de março de 2017




 COLÓQUIO ENTRE IRMÃOS


Juliano B. Rodrigues.


Na penumbra do gabinete, iluminado apenas por uma luminária pendente, que incide a luz diretamente sobre o tabuleiro de xadrez na mesinha de centro, encontram-se, sentados frente a frente, duas figuras bem extravagantes. Lembram a história do primo pobre e o primo rico: um é elegante, usa um chapéu bicorne meio exagerado, terno alinhado, colarinho branco, calças de veludo, anelão de ouro e florezinhas de figueira-brava na lapela. O outro, mais mirrado, veste uma bata muito simples e calçolão parecendo de pijama. Calça sandálias gastas e tem um estilo displicente de vestir. Ambos barbudos, mas o primeiro com barba e cabelo impecavelmente aparados, enquanto o segundo 'ao natural'. São irmãos. Assim, e como estão sozinhos, conversam sem nenhuma cerimônia. O engomadinho, agarrado a um peão, começa o assunto sem levantar os olhos do jogo:

– Você supervaloriza essas criaturas.

– Não é isso, irmão. Cada um se apega ao que tem.

– São todos uns ingratos. Vivem comigo e depois falam mal de mim. Fazem suas porcarias e a culpa botam em quem? Em mim. E depois, com a cara mais deslavada, falam para Ele e para os outros que estão na sua, maninho.

– Sei disso, mas não fui eu quem os criou assim.

– Não venha tirar o corpo fora. Você pode não tê-los feito, mas me sacaneou feio naquela história de Novo Testamento. Os profetas que armaram sua vinda já me passavam a perna, mas a sua estratégia de marketing foi violenta: além de pintar minha caveira por escrito e fazer todos acreditarem que estou do lado oposto do Pai, ainda saiu de escolhido, de Filho de Deus.

– Lú, não seja rancoroso. Não fui eu quem escreveu a Bíblia. Você já tinha se dado mal com o Velho Testamento e vacilou, deixou que um Novo fosse feito. Demorou a ver que a ideia, que nem foi minha mas dos homens, de criar um roteiro fantástico nos mitificando, era ótima. Quer dizer, pelo menos foi para mim.

– Rapaz, você armou um complô tão infernal, que me escorraçou até da Trindade. Meteram um tal Espírito Santo no meu lugar. E olha que eu e você somos gêmeos idênticos, fomos criados juntos lá na origem. Daí você reaparece e apronta: brota no meio deles com um nome impactante, uma cara de anjo, um discurso inédito e bum! De repente, todo o prestígio é seu. E ainda me acusam de tentar usurpar o trono do Pai. Eu devia é ter aulas contigo.

– Seu ciúme é porque todos me amam, Lú.

– Isso é o que não entendo. Você é tão econômico nas suas benesses... Já eu, sou pródigo em divertir, estou em quase todos os prazeres, boto graça em tudo. É um tédio sua carolice.

– Pode ser, pode ser. E até acho que o problema talvez esteja aí. A maioria se aproveita tanto do que eu ofereço quanto do que você dá. O rebanho é corrupto, não há meus e seus, dividimos as mesmas cabeças. Fica difícil essa contabilidade e a prestação de contas.

– Então. O pior é que o trabalho tem sido muito mais meu. Te solicitam muito mais, mas quando vão para a ação, quando querem pôr a mão na massa, meter o pé na jaca, aí a coisa é comigo. Você sabe que até para ir além da natureza e fazer milagres minha ajuda é essencial. Não tenho um minuto de descanso. Salário então? Nem pensar. Pelo jeito, vou viver eternamente de mesada. Eu gostava quando me chamavam de deus da preguiça, mas isso é o que não sou faz tempo. Trabalho feito um burro de carga. E até hoje me condenam pela rebeliãozinha que causei tentando alcançar a coroa: quem aguenta viver sendo “braço esquerdo” a eternidade inteira, sem chance de promoção? Nem você, “braço direito”!

– Tá, e o que propõe, meu irmão? Fazer um piquete e dividir o rebanho meio a meio, ou deixar que se virem, ou pior: fazer logo um Apocalipse?

– O “Pai” não aceitaria nenhuma das três opções. Se não tivesse criado a porcaria do livre arbítrio, o plano ”a” até seria interessante. Mas eles escolheram servir tanto a mim quanto a você, e se aparecer mais um brilhante, seguem também. O saco é que nós dois nem servimos para sócios, você é luz que ilumina, eu sou luz que ofusca; você freia, eu acelero; você adula, eu castigo; você gosta da pasmaceira e eu quero é ver o circo pegar fogo; íamos quebrar. Mas é tããão chato vivermos disputando...

– Lú, não dá para te tirar de cena e nem você a mim. Se o Pai quisesse diferente não teria feito dois. Seja resignado.

– Tá vendo? Não suporto essa conversa de cordeirinho. Você ainda leva alguém com esse papo? Não que eu dê muita bola para o destino da humanidade, mas como disse você, é só o que temos. Preciso lucrar de algum modo.

– Solução? O que sugere?

Após alguns minutos de silêncio, Cristo e Lúcifer brindam, um com água outro com licor, se olham e dizem em uníssono, como fazem muitos univitelinos:

– Tem jeito não, joga nas mãos de Deus.

Levantam-se e saem rindo abraçados, naquele abraço fraterno de irmãos que se querem muito, ainda que tenham escolhido posições opostas.



Observação necessária: Embora seja o autor quem crie o narrador, este é um “ser” independente, às vezes com opiniões absolutamente opostas as do seu criador. Como o que escrevo já me surge pronto na cabeça, faço de tudo para não me meter na opinião do narrador, apenas modero minimamente a sua linguagem. No texto acima, quero deixar claro que as opiniões, crenças e conclusões são do narrador, não correspondendo em muita coisa com as minhas. O texto é ficcional. Não tenciono ofender qualquer crença ou religião, muito pelo contrário, sou defensor da liberdade religiosa e de credo e, mais que isso, da liberdade de opinião. A quem não tenha gostado, não leve a sério o texto, é mera ficção. Peço vênia: Arte é arte, feita para ser bela, romper com o cristalizado, extrapolar as velhas estruturas. Como já disse muitas vezes, 'valei-me a licença poética'.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Manual do Relatório de Investigação Criminal para Download




Disponibilizo aos interessados uma produção técnica de minha autoria e de Yasmine C. V. Soares para download.
Trata-se de obra já registrada, portanto com direitos autorais protegidos, a ser publicada em breve.
Alguns itens não estão disponíveis para visualização.
É uma minuta não revista e corrigida, por isso ainda contém alguns erros de concordância.

Para fazer o download do arquivo em PDF, clique no link:



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017




CANINANA

Juliano Barreto Rodrigues

Tem coisa na vida da gente que se contar ninguém querdita. Nos fim de semana eu e os cumpadre se reune debaixo do pé de manga pra jogar um truco e beber umas pinga de jeito. Tem vez que junta umas três ou quatro mesa de truquêro. Quase sempre dá alguma arrelia, mas todo mundo gosta.

Numa veis dessa, cachaça vai, cachaça vem, começaram a falar da tal da caninana, dona da matinha onde brota e desce o corguinho que passa na roça. É costume algum mamado se achar o bãozão e querer subir lá com um pedaço de pau pra tentar matar a cobrona. Tudo quanto é metido a besta vorta de lá correno e branco feito defunto.

Naquele dia, eu, o Zé da Venda, o Tonico e o Jão tava jogando e o povo da outra mesa só no mocotó e na branquinha, contando valentia e brincando uns com os outro. Daí a pouco o mais barulhento veio me estrovar. Falou que ia lá pegar a cobra. Pronto, todo mundo queria dar um pitaco, dizer que fizesse assim e assado, que não virasse as costas pra ela porque a tinhosa corria atrás dando chicotada. A mesma lorota de sempre.

Depois de quase uma hora de fuzarca, dois resolveram ir com o Meleta. Os três já tavam daquele jeito, se acendessem um cigarro era capaz deles explodir. Num tem nada pra dar mais coragem num homem do que a mardita.

Na portinha da macega um já tremeu e deu pra trás. Vortou fazendo graça pra amenizar a vergonha. Os outros dois chucharam na mata. Daí um tempo ouvimos uns grito e a pauzera quebrano. Sai de lá, na carreira, o companheiro do Meleta, parecendo que viu o diabo e berrando por ajuda.

O Meleta tinha ido até a grota da mina e espiticado uma galhada, quando deu de cara com o rabo da chicotêra alaranjada. No que acompanhou o corpo dela, viu que já tava armada pro bote. Só foi o prazim de pular e correr. A bicha saiu no rumo dele que, acostumado a correr de boi brabo, subiu no primeiro pé de pau que achou. O bestão só esqueceu é que cobra sobe em árvore.

Coragem era pouca, mas nóis não podia deixar um amigo naquela situação. Fomos acudir. Que situação. O peão tava lá trepado na árvore, lá na grimpinha, com a bichona lambendo os beiço pra pegar ele, pertinho, pertinho. Ele já tinha obrado na roupa e, cada vez que ela dava um bote ele gritava, saia prum lado, saia pro outro, parecia que tava dançando na brasa, e a bosta escorria pelas perna.

O Zé da venda rancou o tresoitão da cintura e tascou um tiro pro rumo. Pulei e ranquei o revolver da mão dele, se não, ele é que ia acabar matano o Meleta. Não tinha muito o que fazer, ninguém tinha colhão pra chegar muito perto. Jogar toco não tava adiantando. “Ai meu Deus, ai meu Deus”, relinchava o encurralado.

Quando pensa que não, o peão me cai lá de cima com cobra e tudo. O tombo foi tão feio que todo mundo pensou: morreu! O cabra caiu sentadão bem no meio da bicha. Deve ter sido com tanta força, ou ela não aguentou o cheiro, que na mesma hora arrastou, manqueba, pra grota suja. Nessa hora foi muita graça ver aquele mutamo de homem esborrachado lá no chão, sem um pinguinho de sangue na cara. Até a cana tinha evaporado.

Dali pra frente, Meleta passou a ser chamado de Melado, o herói todo cagado, que tinha muntado na cobra e sobrevivido pra contar a história.

A danada tinha ganhado de novo, mas deve ter brotado um bico-de-papagaio no espinhaço, que não deixa ela esquecer do Melado. Pelo menos até hoje ela pôde descansar. Demora algum bocoió se meter com a descadeirada de novo. Ela vai tá prontinha.

Fico matutano... Me fala: pra quê bulir com quem tá queto, heim? Pra quê?

Vai sê bobo pra lá.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017



IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO

O RETRATO DE DORIAN GRAY


Juliano Barreto Rodrigues.


Li O Retrato de Dorian Gray em PDF no celular, numa versão em espanhol. A base da história todo mundo conhece: o protagonista Dorian é pintado por alguém e, a partir daí, só seu retrato envelhece, ele não, o que gera consequências funestas para Dorian e os que com ele convivem. Parece simples, mas é claro que não é só isso e, pela gama de situações suscitadas, rendeu um romance que virou um clássico, inspirador de várias outras obras literárias e cinematográficas, com este personagem ou com tramas parecidas.

Acredito que a maioria dos leitores tenha lido o livro em outra fase da vida, mais novos que eu, fase em que o proveito com o aprendizado, positivo ou negativo (foi objeto de inúmeras críticas, considerado má influência) deve ter sido ainda maior. Embora seja um romance – pelo tamanho – prefiro pensar nele como uma novela – pela velocidade do enredo, a leveza do texto, o número restrito de personagens.

Embora Dorian seja o protagonista, Lord Henry (a quem Dorian chama de Harry) é muito mais interessante. Harry, assim como o próprio Dorian, é membro da aristocracia e frequenta os salões da corte. Ambos agem como personalidades a frente do seu tempo, mas são exatamente aquilo que se espera deles: extravagantes, cínicos, sem qualquer ocupação útil, bem ao estilo playboy dos nossos tempos. Mas Harry (prefiro falar assim, com intimidade) traz, em todas as suas conversas, uma filosofia hedonista e revolucionária bem interessante. Toca naquilo que comumente se trata por futilidade como o que realmente importa na vida (por isso me identifico).

O outro personagem, Basil, pintor do retrato, é secundário. Além dele, de Dorian e de Harry, só uma moça a quem Dorian namorou tem importância maior na história. O narrador, onisciente em terceira pessoa, é a voz predominante e possui a qualidade de servir à trama, não se destacando. É possível ver as cenas, sentir os cheiros, gostos e emoções narrados. Há apenas alguns excessos nas descrições de joias, tapeçarias, etc., que tornam chatas umas poucas passagens do livro, mas têm sua importância como registro de época para historiadores e interessados nos assuntos de que tratam.

Considerei superficiais as incursões do narrador na psique dos personagens. Dada a natureza do tema, poderiam ter sido mais profundas e impactantes, valorizando os resultados das ações na alma dos envolvidos. Mas, talvez, o aprofundamento se desse em detrimento da fluidez do texto, então, respeito a escolha do autor. Afinal, o tema é tão bom que fala por si, ficou no imaginário coletivo, o criador conseguiu passar muito bem o recado.

É uma leitura agradável, para ser feita como faço: aos poucos, sem pressa, nada daquilo de “ler de uma sentada só”. É preciso saborear as conversas de Lord Henry, refutá-las ou adotá-las, se transformar com elas, bem como analisar criticamente as ações de Dorian. O certo é que, lendo atentamente, não se sai incólume do contato com este livro.

Me ressinto do final do livro ser tão apressado. O texto vai indo em um ritmo e, mais ou menos nas últimas seis páginas, corre para a solução, que poderia ser mais trabalhada, mais lenta, mais valorizada.


Saio da leitura como se deve sair da degustação de um bom livro: marcado!

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"O asno de ouro de Maurizio" (Cattelan), com moedinhas de chocolate: “



PLIM

Juliano Barreto Rodrigues

Desviante.
Um outsider a la Colin Wilson.
Cínico emblasesado e a mil por hora.
Típico desatipado.

Distópico,
Atópico social,
Nietzsche-foucaut-bukowskiano,
E etcetriante.

Às vezes, Mallarmético silente,
Apontando sentido no branco da página.
Gênio encouraçado,
Retrato de barro criado por divinas mãos.
Queimado em forno tosco,
Mas ainda um ás.

Derridamente obscuro.
Asno de Apuleio
Retrato divino com pés de barro.
Intitulado em ouro, mas nem menos asno,
Nem menos homem,
Nem menos ás.

Vituperante gárrulo,
A vociferar contra desimportâncias
E a pouco se importar com o 'relevante'.
Obsceno!

De dentro da sua fantasia de invisível,
Protubera dardos, jacta desaforos aos quatro ventos.
Figurinha estranha...

(Essa no espelho).


Presente para Madame Heloisa, amiga da família e blogueira.







Eis a transcrição da dedicatória:

Madame Heloisa,

Escrever é como se dedicar à cozinha experimental. De início já se sabe o efeito que se pretende obter, se o resultado será doce, salgado, agridoce... e os ingredientes que serão utilizados. De resto, é pôr mãos na massa, soltar a louca da casa (a imaginação, a criatividade – que é a imaginação aplicada, limitada pelo resultado prático desejado), levar ao misturador, ou à geladeira, ou ao fogo, e torcer para que o produzido fique bom. Sempre se espera algo novo, uma receita original e deliciosa. Mas o mero fato de ser autoral já garante o prazer da criação.
Tanto escritor como o cozinheiro experimental querem protagonizar, não se contentam em copiar. Assim funciona a cabeça de todo artista: revelar a si mesmo, parindo algo novo a cada inspiração. Toda atividade pode ser assim, basta colocar o coração em tudo quanto se ponha as mãos.

Abraço!

Juliano


24/12/2016.



"Em 'A louca da casa', a jornalista e ficcionista Rosa Montero fala da literatura, dos escritores com suas histórias e personagens, da imaginação e da narrativa ficcional. Mas aos poucos, para a surpresa de quem lê, a autora se oferece em espetáculo no ato de imaginar e criar uma narrativa literária com a sua própria biografia, e do mesmo modo vai revelando os segredos da corporação dos escritores. Surgem então os fingimentos de Goethe, a doença de fracasso de Walzer e a síndrome do sucesso de Capote, o drama do reconhecimento póstumo com Melville, o egoísmo de Tolstoi, a vaidade de Calvino, de modo que as entranhas da criação literária vão se tornando íntimas. Enfim, ficção, ou uma fabulação sobre os inventores de fábulas, a obra vai revelando como a vida de qualquer um de nós não funciona de modo diferente das narrativas ficcionais." 

(Fonte: Livraria Cultura. Sinopse disponível em <http://www.livrariacultura.com.br/p/a-louca-da-casa-759868?id_link=13574&gclid=CNT7y--elNECFVIFkQodW3UACA>)