O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A ansiedade e o esquecimento

Quem sofre de ansiedade passa um sufoco apertado, um frio na barriga, podendo chegar a tremores, choros, náuseas e taquicardia. Uma angústia acentuada, como se a curiosidade extrema impedisse de viver tranquilamente para usufruir do sabor natural dos acontecimentos, e seus desdobramentos.

Além da depressão, o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) tem sido um dos grandes males desse século. Quem tem, sofre com irritabilidade excessiva, tensões musculares, insônia, dificuldade de convívio social, dentre vários outros sintomas. Normalmente muitos buscam os ansiolíticos e antidepressivos, mas se soubessem que duas soluções mais benéficas seriam a desintoxicação de telas (internet, celular, TV) e a leitura, jamais cairiam no conto das tarjas pretas.

Ninguém nega que essa era digital trouxe inovações. Antes a gente precisava ir atrás das informações. Hoje elas nos perseguem! Antes quando você queria ligar para alguém: simplesmente ligava, seja do telefone fixo, do orelhão ou do celular. Hoje, quando você quer ligar para alguém, você fica sabendo das bobeiras que o pessoal fala nos grupos de WhatsApp, que uma pessoa não tão próxima a você morreu de dengue, que o jovem sequestrado chegou em casa e quase todos foram presos, a repercussão do outro fuzilamento na Indonésia; a Bombril foi acusada injustamente de racismo, que a polícia mantém o toque de recolher em Baltimore, que Leonardo Boff pensa que a redução da maioridade é uma vingança da sociedade e não soluciona o problema; mais corrupções do PT foram encontradas, uma foto pelada da Dilma (montagem) é espalhada, que dois contados seus do facebook fazem aniversário hoje (alguém te cutucou e vinte pessoas te convidam para jogar Candy Crush Saga); já são mais de cinco mil mortos no terremoto do Nepal, mais ataques em Mali, que o rei Saudita nomeou o herdeiro, que controlaram o incêndio perto de Chernobyl; uma sugestão para um novo curso, o resultado da loteria (que ficará mais cara); que um spam no e-mail te sugere “enlarge your penis. Get a bigger, harder, thicker, more erect penis. The secret word never told for the best cockzilla”; que inúmeras atrocidades foram praticadas, uma página abre com propaganda para comprar na China, você recebe um vídeo de uma mulher pulando de um prédio, outro que o leão atacou um trabalhador do circo etc etc etc. O que você queria mesmo era apenas fazer uma ligação.

O excesso de informações e essa passividade é nociva ao cérebro e nossos 100 bilhões de neurônios com suas sinapses. O livro Ansiedade da Informação (de Saul Wurman, salvo engano - e é apenas um dos mil livros lançados diariamente no mundo) mostra como o cérebro funciona com as novas memórias e as antigas. Mostra também como somos reféns dessas informações que nos são sobrecarregadas arbitrariamente.

Já foi provado que a concentração e a leitura são os melhores remédios para essa crise da síndrome do pensamento acelerado. Devemos combater esse excesso. São muitas as nossas querências. Precisamos diminuir e simplificar tudo isso.

O jogo da moda, por exemplo, o tal LOL - league of legends, impede que você saia do jogo (senão será punido e ficara “banido”, sem jogar por tal tempo). E a vida urge, passam as caravanas com seus cães que ladram. Falta o tempo de qualidade, que zela da sua real necessidade.

Segundo uma pesquisa divulgada recentemente na globonews, 92,5% dos brasileiros não costumam ir a exposições de arte, 91,2% não vão a espetáculos de dança, 88,6% não frequentam o teatro, 73,7 % não vão ao cinema, 70,1 % não leem livro. São dados preocupantes da nossa cultura.

Tanto excesso provoca naturalmente o esquecimento. Tarefas a fazer, recados a serem dados, objetos a serem levados... Não conseguimos captar tanto. Voamos raso em vários assuntos e coisas ao mesmo tempo, mas não mergulhamos com intensidade em nenhum. Vivemos a era das convulsões de dados. Alienados?

Eu sei que tinha algo muito importante, mas muito importante para falar aqui. De verdade! Mas acho que me esqueci... Fica para a próxima página!

Leonardo Teixeira - 29/04/15
29/04/15

quarta-feira, 22 de abril de 2015

RESFOLEGADO

                                                                                                          
                                                                                              Juliano Barreto Rodrigues.

Temia que não desse tempo. Descia as escadas a toda velocidade, saltando degraus e se amparando aqui e ali pelo corrimão tubular, que zunia com o atrito arrastado da mão úmida, que parecia emborrachada.
Vencido o espaço, parou um instante bufando e segurando os joelhos, na tentativa de inflar direito os pulmões e ver para onde correr. Visão em túnel, músculos latejando, coração pulsando na cabeça. Direita ou esquerda? Ah, na dúvida, seguiu em frente.
Trombou com uma velhinha que rodopiou, lançando toda a badulaqueira que levava ao chão. Nem ligou, passou tirando tinta da parede e continuou feito um raio. Deu de cara com a rua.
Nossa! Estava parecendo bicho acuado. Nunca tinha sentido o poder da adrenalina dessa forma, parecia que era a derradeira luta, o momento entre a vida e a morte, em que o indivíduo é capaz de coisas que nem imagina.
De súbito percebeu que estava desgrenhado e com o peito ensopado de sangue. De quem? Seu? Não dava tempo de verificar. O lance era atravessar a praça voando e se meter em um carro. O impulso não teve o mesmo torque de antes e as panturrilhas já doíam. Será que o perigo tinha passado? Na dúvida, nova correria.
Num relance, olhou para trás e viu um rebuliço chegando. Tinha que ser rápido. Meteu a mão na maçaneta do primeiro carro que viu parado no sinal: trancado! Viu em seguida um táxi com vidros abertos, arrancou o motorista pela janela mesmo, abriu a porta por dentro e entrou. Acelerou, furou o semáforo, virou na primeira avenida que encontrou.
A senhora que estava no banco traseiro não parava de gritar. Fazia menção de pular e ele rezava para que finalmente pulasse. Foi cortando os carros enquanto conferia a cada segundo o retrovisor. Não é que a praga da mulher teve a coragem de pegar uma caneta na bolsa e meter-lhe no pescoço? No impulso acertou-a com um soco no nariz que daria dó, se não fosse autodefesa.
Agora tinha sangue até nas calças. Não sabia se tinha sido baleado, esfaqueado, ou se era da porcaria do pescoço. Largou o carro com a louca numa esquina e entrou no muquifo do lado.
Não tinha noção se estava a salvo. A única coisa que precisava era tomar dois litros de água e se limpar. Bebeu na torneira da pia abarrotada de panelas sujas. Saciado, sentou um instante na única cadeira que estava ao lado da mesa ensebada.
Sete horas da manhã. A polícia é chamada. Vizinhos haviam sentido um cheiro de coisa podre e arrombaram a porta da quitinete. Haviam encontrado um morto sentado à mesa.

sábado, 18 de abril de 2015

EVOLUÇÃO CONTÍNUA (Juliano Barreto Rodrigues)

                                       Yuriana Dantas e Jander Rodrigues

Algumas pessoas nos inspiram de forma ímpar. Relembrando um curso que fiz, estava remoendo algumas coisas que aprendi do grande tatuador quirinopolino radicado em Goiânia, Jander Rodrigues. O que me ensinou foi muito além de técnicas, foi determinada atitude frente à vida, ao trabalho e a mim mesmo.
Descrevendo os segredos de sua arte, os detalhes “descobertos” com anos e anos de dedicação extrema ao ofício, ficou patente que a excelência está totalmente vinculada ao fazer pelo fazer, para muito além da preocupação com dinheiro, fama, mídia ou o que quer que seja. É óbvio que estas são motivações importantes, mas são secundárias diante do envolvimento total com a produção de algo que se ama e que o artífice pretende ver perfeito, em seus mínimos detalhes.
Nesse altíssimo nível de cuidado com produzir uma obra prima, as atividades-meio passam a ter uma atenção que o profissional menos apaixonado deixa passar sem dar importância. Estávamos falando de tatuagem, mas Jander queria mostrar que a máquina certa, na velocidade certa, com a agulha mais adequada a determinada etapa, guiada no ângulo e andamento correto, com a tinta diluída a “x” por cento em um diluente feito de uma mistura testada dia-a-dia pela prática, tudo colocado em uma bancada móvel com a altura que o braço alcance sem esforço, a pele iluminada por uma luminária móvel encaixada em um pedestal de microfone para dar melhor firmeza, etc., são o “pulo-do-gato”, o que faz com que determinada peça de arte saia exata e magnífica.
Ou seja, certo grau de perfeição está ligado à observância de TODOS os detalhes na execução, sem exceções. O ritual do burilar cada mínima fase sem pressa e em todo seu andamento vai dotando o produto de uma qualidade incomum e vai transformando o artista em um esmerado e paciente criador de jóias únicas, inimitáveis.
O respeito “oriental” (que eu apelido de zen-budista) ao fazer é o diferencial entre os grandes e os realmente grandes. Fazer com alma: esse o resumo do comprometimento desejável.
Jander me legou uma lição para todas as coisas que faço: não produzir nada maquinalmente, sem deixar algo de mim no que for feito. O que me proponho a fazer bem, pode ser feito muuuiiito bem se eu me dedicar pra valer, tiver paciência, pensar na melhor forma de conseguir o resultado ideal, cuidar dos mínimos detalhes de cada etapa, colocar meu coração naquilo.
Bem mais do que à atividade fim, hoje sou atento à atividade meio; às vezes essa é a melhor parte. Me lembro sempre do exercício chinês do Dishu em que o poeta cria, com água, ideogramas no calçadão da praça ou do padre José de Anchieta escrevendo na areia. A maioria de nós os chamaria de loucos ou idiotas, mas a sabedoria está em produzir algo lindo, com profundidade e todo o cuidado caligráfico e estético para o agora, independentemente daquilo se evaporar ou ser levado pelas ondas dali a pouco.
Na nossa cultura já parece muito exigir que as pessoas se preocupem adequadamente com coisas perenes - como uma tatuagem, um texto, a construção de uma casa -, quem dirá com as coisas mais imediatas. É preciso uma mudança de visão.
Falei do respeito à obra, mas a intenção é mostrar que trata-se do respeito a si mesmo e à sua própria capacidade. Quando respeita o que faz a ponto de querer aquilo perfeito, o indivíduo já chegou a um ponto em que acredita em si e na própria superação. Se preocupa com a sua reputação perante os outros mas, principalmente, com a imagem que tem de si próprio, com o se acreditar “foda” nas coisas que põe a mão.
A precisão, o detalhamento, a busca eterna pelo melhor ponto, produzem invariavelmente humildade perante o ofício. Entendendo que sempre vão aparecer novas dificuldades e que a todo o momento ele, artífice, será posto à prova para superar-se. Em sua vida não deverá caber arrogância e estagnação. Porque quem está disposto a melhorar tem que estar aberto a aprender, e isso requer uma atitude humilde.
O que decorreu daquelas conversas com um mestre em sua arte me levou a mudanças de atitude em um sem-número de tarefas. Percebi que tudo o que se aprende sobre determinada coisa pode ser aplicado também na realização de outras. Essa atitude receptiva torna possível que se inove em coisas que sempre foram feitas da mesma maneira, permitindo que evoluam para um novo patamar.
O Mestre, como o chamam muitos de seus amigos, ressalta a todo momento suas origens e as dificuldades que o levaram ao sucesso que tem hoje (hoje ganha mais do que um juiz de direito, se é que isso interessa, porque não é o principal para ele). Finca seus pés em seus valores e bases, especialmente sua família, deixando claro que, apesar de amar o que faz, há coisas mais importantes na vida.
Por falar nisso, tem outros interesses e hobbies que lembram quem o rodeia de que “nem só de pão vive o homem”, e é preciso estar aberto para viver outras coisas e se divertir sempre, apesar da concorrência que encontra entre as atividades, por tentar se envolver com tudo que diz respeito – direta e indiretamente – com o universo da tatuagem.
Jander demonstrou desprendimento ao se permitir ensinar as técnicas que o fizeram bem-sucedido, e o fez sem um mínimo de restrição. Disse, sem palavras, que ensinar não tira o mérito de quem faz algo bem, muito pelo contrário, permite que sua arte engrandeça. Um milhão de técnicas não fará de um artista um Jander. O desenvolvimento do próprio estilo, o estudo acurado, a lapidação do gosto, etc., etc., é que vão permitir o que a filosofia prevê como natural: que o discípulo supere o mestre.

Tatuar não sei se aprendi, mas no mínimo compreendi, com um grande exemplo, como fazer tudo de forma diferente e buscando a perfeição. De resto, há um aforismo que levo como lema: “trabalha! E tende paciência!”. O que decorre do que se faz bem são coisas boas.  É isso!

COTEJANDO RILKE

Tendo o jovem Franz Xaver Kappus enviado alguns de seus poemas ao grande poeta da língua alemã Rainer Maria Rilke para que este os analisasse e o aconselhasse a como escrever melhor, foi surpreendido com uma correspondência epistolar que durou cinco anos. Dez das missivas foram publicadas sob o título Poemas e Cartas a um Jovem Poeta.
Dentre as sugestões de leitura e conselhos, a impossibilidade de se apreender a arte sob os vieses da razão e da crítica é reiteradamente defendida por Rilke. Ele a alça a um patamar superior, afeto principalmente ao sentimento, e a coloca como um ímpeto irrecusável que leva o criador à necessidade quase física de produzir. Produzir para si, como se simplesmente não pudesse deixar de fazê-lo.
Nesse sentido de total vinculação do criar ao estado de espírito, o tempo jamais seria programado, a verdadeira arte nascendo do artista na hora em que estivesse madura, o que a tornaria incompatível com a encomenda.
Rilke sugere que se voe rasante, atendo-se às coisas pequenas, não se aventurando de início aos grandes temas cliché - como o amor, a fé, a morte abstratamente tomada – sobre os quais todos os maiores já se expressaram com mestria.
A recomendação me lembrou o ofício do cronista, que faz dos menores quadros do dia-a-dia o que a moldura da boa escrita vai dar os ares de encantamento e importância.
De tudo, o melhor foi o alerta para a busca da voz própria, que resumo na repreensão de Rilke a Kappus:
Indaga-me se os seus versos são bons. Pergunta a mim, depois de ter perguntado a várias pessoas. Manda-os para revistas, compara-os a outros versos e alarma-se quando certos jornais repelem os seus ensaios poéticos. Doravante, (já que me permite aconselhá-lo) peço-lhe que renuncie a isto. O seu olhar está voltado para o exterior. Eis o que não deve voltar a acontecer (RILKE, p. 93).
Do criar para si, para satisfazer aquela necessidade que grita ou que sussurra é que o ponto da boa escrita é ultrapassado e ela se torna Arte. Daí brota o estilo único do escritor, processo idêntico ao surgimento da assinatura pictórica do pintor, da rubrica autoral do compositor.
Nesse sentido, sendo arroubo do espírito, nenhuma obra deveria ser rotulada. Do momento em que é parida, toma vida própria, vai significar e ter valor a partir da perspectiva de quem a lê, e não mais de seu autor.

Referência

Rilke, Rainer Maria. Poemas : e Cartas a um jovem poeta / Rainer Maria Rilke. Geir Campos [Trad.] Fernando Jorge [Trad.] Rio de Janeiro : Ediouro, 1992. - 145 pág. Título original: Gedichte.

DIVAGAÇÕES ETÍLICAS: Crônica inaudível (Juliano Barreto Rodrigues)



              Tenho o hábito de beber uma cervejinha em casa nas tardes dos fins de semana. Bebo sozinho, vendo a linda paisagem de quem mora numa chácara nos arredores da cidade. Ufa, enfim um lugar que dá para ver o céu do fim de tarde, aliás, de todas as horas.
Então... (como diz minha amiga Nathany), nesses momentos mágicos de torpor terapêutico, sempre viajo naqueles temas clichê que desde sempre intrigam as pessoas: vida, morte, amor... coisas sobre as quais Carlos Drumond de Andrade aconselhou aos poetas menores nunca se meterem a escrever.
Mas como sou desobediente, um típico modelinho da geração “X,Y”, que não dá muito moral para as grandes autoridades, às vezes me aventuro por essas paragens. É que parece que tais elucubrações abstratas fazem parte do desenvolvimento natural de qualquer ser humano. Então, em vez de altas temáticas, na verdade estamos falando de senso comum, de temas chinfrins. Deve ser por isso que o mestre disse para não se aventurar nisso; é porque são comezinhos, démodé (alguém ainda usa esse termo?), bregas mesmo.
A gente se mete com eles porque nos dão perspectiva, são icônicos; tirando a morte, são a medida do regozijo. Traçamos um modelo ideal para algo que é desigual e absurdamente individual em cada ser: a felicidade! É disso que se trata a tal avaliação sobre vida, morte e amor.
Dizem os maçons: “se quer bem viver, pensa na morte”. Deus me livre! Para viver em paz temos que pensar que somos eternos. A morte sempre foi uma assombração, a vizinha indesejável e pentelha da qual ninguém se livra.
Os filósofos, hoje metidos a psicólogos e psiquiatras, aconselham aquele estado de espírito de “Carpe Diem”, viver o agora, sem grandes expectativas de futuro. Embora isso combine mais com a adolescência, ainda é um conselhinho bem útil, pelo menos no sentido de evitar pensar no declínio das coisas.
Já escrevi que os homens nascem, crescem, se humilham e morrem, mas isso é uma verborrágica reação a uma natureza que não aceito resignadamente. Se não amadurecer, posso vir a me tornar mais um daqueles ridículos senis com síndrome de Peter Pan, que se vestem como se tivessem vinte anos a menos do que têm e andam com garotas que têm idade de serem suas filhas, ou pior, suas netas.
Uma menina que escreveu um conto de um Ost, que vira Poste, disse uma vez que tem preguiça de gente. Também tenho, mas não conseguiria viver sem. Por também ser gente, minha própria natureza me grita agudamente aos ouvidos todo santo dia. E reconheço que, para satisfazer os três grandes temas, o “outro” é essencial: Vida só tem sentido com o outro; Amor só se vive em relação; e ninguém quer morrer sozinho!
De modo que estou mais conformado. Minha vida não gira só em torno de mim, como achei o tempo todo. E há algumas pessoas que são a melhor parte do que sou, seja porque me espelham, ou porque me contestam, ou porque simplesmente estão ali.
Precisei de um ser para me parir e precisarei de um ser para me enterrar. Se tiver um monte de seres a quem consiga amar, com certeza serei bem feliz.

(IN) PRESSIONADO

                                                                                                            Juliano B. Rodrigues.

No primeiro dia do "workshop" de escrita criativa com Douglas Rodarte falei que gostava de escrever sob pressão e uma colega me desafiou a escrever alguma coisa até terminar aquele encontro. O que saiu, de improviso, foi isso:



(IN) PRESSIONADO

Relaxo a crista da vista,
Semicerro os olhos e viajo
Que Paris é uma Festa[1]!
E ainda que a chuva não permita ir à rua,
Sempre posso me dar ao luxo de uma
Viagem a Roda do meu Quarto[2].
Na cabeceira esbarro em Recordações do Escrivão Isaias Caminha[3]
E o “caminha” inspira O Garatuja[4] que há em mim.
Então escorro a via desvairado
Desbordando-me em letras até que paro e descanso,
Que A Morte tudo Resolve[5].



[1] Obra de Ernest Hemingway.
[2] Xavier de Maistre.
[3] Lima Barreto.
[4] José de Alencar.
[5] Luiz Kignel.


domingo, 12 de abril de 2015

Super-Homem

       

                                                                       
                                                 Juliano Barreto Rodrigues

O Super-Homem, já velho e cansado, substituído por outros super-heróis da moda, com roupas mais brilhantes e assessorados por seus marqueteiros profissionais, se deparou com uma situação que jamais tinha cogitado em seus tempos áureos: precisava fazer um exame de próstata.
Vivendo hoje de lembranças e respondendo inúmeros processos movidos por donos de imóveis destruídos por seus embates com vilões, canais de televisão que o acusam de declarações que os prejudicaram, associações que questionam seus métodos, etc, gasta boa parte do seu tempo em reuniões com advogados e em tribunais pelo mundo. E agora isso, ter que se preocupar com um órgão que nunca pensou que existisse.
Temendo os paparazzi e preocupado inclusive com sua própria auto-confiança, relutantemente marcou a consulta para o dia 20.  Como um homem da antiga, representante dos heróis do passado, preferiu ir sozinho.
O médico pediu que tirasse a sunga, depois a calça, declinasse para frente e relaxasse. Constrangido, o Homem de Aço disse:
- Doutor, vá com cuidado e, por favor, não conte a ninguém que estive aqui.
- Calma! Vou começar.

No que o médico penetrou o dedo, o super-esfíncter se contraiu de uma vez, amputando o pobre médico. Naquela situação absurda, Super-Homem passou a viver mais um dos pesadelos de sua condição: ficou exposto na mídia e responde a mais um processo de indenização milionário.

                                      Model Debby  - Photo by Nicholas Oneal

                                                         DOM-DOM         
                                                                                                      Juliano Barreto Rodrigues.

--- Pára de ser se-metão, ô cimitarra. Vê se se atipa, seu comédia sem noção!
Foi assim que a nega Dom-Dom começou a briga. Que bichinha mais arrepiada aquela menina. Também, pudera, onde já se viu uma morta-de-fome daquela ter um nome tão importante: Domitila?! Já nasceu metida e encrenqueira. O Sinésio, que se achava o “MC” do pedaço, só de ver a doida já encrespava. Acho que era amor. Sei que naquele dia a coisa foi feia; depois que a Dom-Dom tirou com a cara dele, o figura surtou:
--- Tá falando comigo periguete? Nem sei quem é você.
Pronto. Deu asa para cobra, mexeu com os brios da garota.
--- Periguete é a puta da sua mãe e você sabe muito bem quem eu sou, tanto que antes de descer o morro vivia no meu pé. Só porque deu pra tocar uns funkzinhos fajutos tá se achando?! Tem que comer muuuito feijão pra poder ostentar pra cima de mim. Tô acostumada com homem de verdade, não com moleque.
O sangue subiu no olho do Sinésio. A galera da comunidade tava vendo a nega crescer sobre ele. Tinha que mostrar quem mandava, afinal ele já tinha conseguido se lançar na pista, a zona norte já o conhecia, não só o povo da favela. Já era alguém na vida. Pensou rápido e decidiu não dar IBOPE. Por hora bastou um “vai se fuder” falado já de saída.
Dom-dom ficou lá xingando e se vangloriando pela vitória. Não achou que a coisa iria dar pano-pra-manga.
Um mês depois ia ter um baile funk no pé do morro. Teria um concurso de beleza entre as várias comunidades simpatizantes. Dom-Dom já estava preparando dança, fala e roupa. Tinha até fã-clube. A única coisa que tava pegando era o showzinho do Sinésio.
Marquinho, mais conhecido como Sherazade, era a personal stylist da Dom-Dom. Fazia as trancinhas, depilação, maquiagem, unha, e as marquinas de biquini com esparadrapo que ela cultivava na lage do salão. Era sua confidente e incentivadora, uma traveca multimídia. Já tinha sentido um certo nervosismo diferente na nega:
--- Fala amiga, que é que você tem? É por causa daquela celebridadezinha de um segundo que cê tá assim? Quem é MC Sinésio? Quem é? Você já colocou ele no lugar dele. Força na peruca, minha linda! Não tem nenhuma pet-cat mais bonita do que você nesse concurso.
Pior era ter que ensaiar a coreografia do hit do Sinésio. Mas não tinha outro jeito, se tinha que dançar, que fosse.
Os dias se passaram e a nega tava parecendo rainha de bateria. Tava tudo no lugar, brilhando de bronze e óleo. A menina realmente dava gosto de ver, parecia a Viviane Araújo.
No dia do show, Dom-Dom foi em comitiva. O morro todo tava lá. Foi para os bastidores se produzir. Era uma das últimas que seriam chamadas. O som começou a rolar e lá na coxia só Chandom na alta pra soltar as garotas. O baile bombando o DJ anunciou o concurso.
Dom-Dom deixou só a roupa pra vestir por último. Era pouca coisa, só um top da La Bela Máfia e um shortinho John John. O que daria o plus seria o saltão dourado, o cabelo feito, as pulseiras, anéis, brincos e a correntona de ouro que só uma diva da comunidade - de verdade - conseguia ter.
Altas horas o DJ, pra jogar um confete no Sinésio, diz que ele é quem vai apresentar as meninas. Pau quebra. O Sinésio chamava Mariana, Carolina, Duda do Vale da Ponte, Loira, Márcinha novinha, Suzy, Keithielly e mais umas dez. Uma a uma entravam, faziam carão, dançavam, falavam e saiam. Dom-Dom só na ansiedade.
Chegando sua hora, Dom-Dom procura sua roupa e cadê. Procura de um lado, procura do outro, roda a baiana, dá piti e nada. Sem outro recurso pede emprestado pras outras meninas. Que? Nenhuma daquelas invejosas ia fazer uma graça dessas, né? De repente ouve o Sinésio anunciando o final das apresentações, depois só iria faltar o julgamento. Quando não chamou por ela, Dom-Dom entendeu que era vingança. Aquele sem-vergonha tinha armado tudo pra ela não entrar.
Brava feito Iansã na tempestade, e com a Gira no couro, a nega só deu a volta na toalha, tampou o que dava, meteu o salto e partiu furiosa pro palco. Quando entrou só a pick-up estava tocando, sem ninguém cantando. Chegou chegando. Quando a galera viu aquilo foi ao delírio. O Sinésio ficou ali plantado com cara de besta e afinou pro olhar da nega. Viu que tinha perdido. Ela abusou, roubou a cena pra valer. Por fim, pediu o microfone, falou de si e pediu uma música do MC rival do Sinésio. Foi o fecho que faltava: Domitila desfilou feito uma rainha; dançou de um jeito que todo mundo surtou. Para pôr um ponto final, antes de sair jogou a toalha no público. Saiu de lá vitoriosa e consagrada.
Na segunda-feira só dava ela. Fotos de Dom-Dom circulavam na net e sua ousadia era contada nos programas de TV. Sua fama foi meteórica. Detonou o Sinésio em todas as oportunidades que teve. Ele entendeu que uma mulher desfeiteada é perigosa absurdo.

Um belo dia Dom-Dom recebe um zapzap assim: “Oi my princess, vc tava linda na Ana Maria Braga”. Sem muito interesse ela pergunta: “Brigadim, quem é?” Daí a pouco vem a resposta: “É o MC Sinésio, tá de boa?” Domitila, chocada pensa um pouco, fala uns impropérios, rói o esmalte, sapateia sem sair do lugar, pensa mais um pouco e, com medo de deixar o momento passar escreve: “De boa, e vc?” E o Sinésio: “Queria te ver”. Ela ri pra si mesma e manda: “Tá”.

PORTÃO


Juliano Barreto Rodrigues.

Bateu com ambas as mãos, como se quisesse arrombar o portão. Estremeceu o batente, abalando o portal. Então, fez funcionar a maçaneta repetidamente, como se, pela insistência, ela fosse desistir e abrir, franqueando-lhe a entrada. Chutou e berrou a plenos pulmões, ordenando que alguém o deixasse entrar. Nada! Nem uma frestazinha, nem resposta lá de dentro. Incendiou-se ainda mais em ira, ameaçou pôr a baixo o portão, postou-se a meia distância, fez pose, relutou por um átimo de tempo, apontou e, de supetão, pôs-se em movimento. Bateu tão fortemente com o ombro que sentiu a resistência ceder. O mal foi que o portão respondeu com toda sua inércia, e o que o desajeitado pretenso arrombador sentira ceder foram seus ossos e nervos, agora esfacelados e lesados pela pancada.
Baixando a adrenalina, subiu a dor. Agora, era um idiota bruto, vencido por uma porta esnobe, que nem lhe respondia. Roto, suado, descabelado e ofegante, escorregou lentamente com as costas no portão até quedar-se estático, sentado na soleira. Blasfemou com o pouco de forças que ainda tinha, foi tomando tino da própria sorte, avaliou os motivos de tal desespero... foi sendo convencido, pela lógica, de que fizera um papel tão miseravelmente infantil e tolo, que seu respeito próprio demoraria a dar as caras de novo.

Não! Não! Não podia aceitar isso. Levantou contorcendo-se, bateu as roupas com as mãos, empertigou-se na medida do possível, passou a mão nos cabelos desgrenhados, ajeitou o terno em desalinho, lambeu a cara com o lenço, olhou com ódio para as abas trancadas de seu adversário de aço como se o ameaçando, então partiu rua abaixo, trôpego, prometendo tomar providência à altura daquele maldito e indolente portão.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

RIQUEZA ÍNTIMA


JULIANO BARRETO RODRIGUES


                   Andando apressadamente para o serviço parei, como que obrigado, por uma cena que me chamou a atenção. Havia um livro em cima do banco da praça, sem ninguém por perto. Eu, que sempre venerei meus livros, que lavo as mãos antes de manuseá-los, limpo suas capas e cortes quando os compro usados, abro-os só até 90° para não forçar a lombada e as costuras, que morro de ciúme quando me pedem emprestado, eu, que os amo tanto, olhei para aquele livro como quem vê uma criança abandonada. Fui acudi-lo.
                   Sentei-me a seu lado, peguei-o com carinho e dei uma olhada na frente e no verso para ver se estava inteiro. Mais tranquilo com seu estado, olhei o título: Dom Casmurro. Pensei em quão desumana seria uma pessoa para deixar uma obra-prima de Machado de Assis assim, ao léu. Não pude evitar um praguejar resmungado.
                   Embora não me fosse inédito, senti uma grande alegria em tê-lo comigo, resgatado. Abri o livro e vi que havia uma dedicatória que dizia: “Filha querida, há riquezas na vida que são tão doces, que as carregamos dentro da gente. A vivência de um bom livro é uma delas. Depois que o autor escreve, o texto não é mais seu e cada um dos leitores vai viver aquelas linhas de uma forma particular, gozando sensações únicas que não serão repetidas da mesma forma em nenhuma outra pessoa. Quando gostar muito do que leu, guarde para si o seu tesouro e, se gostares tanto a ponto de querer que outros possam experimentar algo parecido com o que sentiu, dê de presente o livro, ou largue-o à própria sorte em qualquer lugar, porque um livro bom jamais fica sozinho. Beijo da mamãe, que te ama muito.”
                   Fiquei ali meditando e deplorei meu pré-julgamento. Sou um casmurro, pensei eu. Divaguei na lembrança do momento de vida em que li aquela obra, do que ansiava, de como a leitura me abrandava a realidade dos dias, das coisas em que me ocupava, enfim, da história que nós dois – eu e o livro do Bruxo do Cosme Velho – tivemos. Obviamente, havia me enriquecido com ele. 
                  Passei as mãos de criança naquele velho mestre, suspirei fundo e o deixei ali, no banco, como tesouro para mais alguém.


COMÉDIA DAS APTIDÕES (OU O PARADOXO DOS TALENTOS FARTOS)

 
         
                                                              Juliano Barreto Rodrigues

Sentado no botequim da esquina, tomando cerveja e comendo espetinho com um amigo de infância que me cobrou lhe pagasse uma, de repente ele me saiu com essa:
- Poxa, você é realmente um cara com muitos talentos.
- É, já me disseram isso algumas vezes.
- Toca violão, pinta, escreve, tem mestrado, é concursado e faz até massagem.
- Verdade.
- Ainda se mete com umas coisas bem diferentes: uns filmes daqueles preto-e-branco que só você vê, coleciona livros antigos, tatua aos fins de semana, degusta charutos cubanos, joga búzios, vai na maçonaria, investiga os outros, lê bula de remédio..., que mais você faz?
- Faço a sobrancelha da minha mulher, entre outras coisas.
- Ah, para tudo! Tá falando sério? Putz, de que mundo você é?
- Só procuro fazer tudo que acho interessante, senão morro de tédio.
- Tá, tirando os excessos esquisitos, qual seu maior talento?
- Tenho um bem grande, que me intriga muito.
- Deve ser super exótico.
- Tenho um talento inato para não ganhar dinheiro.
- Como assim?
- Veja você: é verdade que sei e faço tudo que falou, algumas coisas de forma melhor que outras, mas faço. E ainda assim, tirando minha profissão oficial, praticamente nadinha disso me dá dinheiro.
- Não cobra?
- Por quase nada. O que não faço por hobbie é para os amigos, que sempre vêm com aquela conversa: “pô, quanto você faz pra mim?” E como não sou bom para por preço, fica tudo na camaradagem.
- Eu já estaria rico com a inteligência que você tem.

- Qual? O que eu tenho são muitos talentos. Se eu fosse inteligente, EU MESMO estaria rico. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

DELÍRIOS Juliano Barreto Rodrigues



Recheio de caracóis bisotados e ocos de claraboias escuras
Luzes e sombras e brilhos espocados,
Nuançados de cheiros acres.
E caminhos despedaçados,
Picotados de encruzilhadas soltas
E olhares perdidos presos em estranhos passados e expectativas de porvires.

Caminham arquétipos entre as gentes,
Rastreando vermes humanos portadores de algum tiquinho de centelha a que tomar.
E, assim, os potentes seguem esvaziando os frágeis.
E a natureza segue seu rumo maquinal e (in)justo.
Epitáfios brotam como parte dos ossos enterrados
Na tentativa de dar mais um minuto de eternidade à existência tão fugaz.

O que move o homem é a ilusão!
Como gosta de se iludir...
Cravejados de swarovskis, dedos não são mais dedos;
Sob chapéus de veludo cabeças são coroadas;
Símbolos, adornos, mesuras, engodos:
E demônios são criados
E deuses são criados
E entre eles uma enormidade de criaturas mediadoras.
(A regra, é não falar diretamente, não dizer por si
É ter advogado, facilitador, padrinho).

Líquens para sorver de canudinho
Sugados com voraz perversidade...
Olhos apertados agudamente,
Disfarçando em azedume a doçura que se abraça.

É preciso quebrar os eixos,
Definitivamente!
Tanta fantasia não há de ser saudável.
Tanta realidade, muito menos.
Algum sentido maior é necessário,
As coisas não podem ser apenas o que são.

Sussurram alentos pobres em ouvidos desconfiados,
Que se fazem de moucos para não ter que dar recibo do que ouvem.
E, da crença e descrença, restolhos são juntados
E se constroem existências dos pedaços.
Liberdade do inferno ou prisão celeste?
É difícil pensar para além dos dogmas incrustados desde a infância.
E corre-se o risco de ser acusado de insolente, de herege, infame, blasfemador.

Traquitanas, pecinhas, engrenagens desgastadas
Graxas velhas, coisas soltas,
<Vibram>
Mas funcionam.
Hum... mais... ou menos.

De monóculo pendurado, luvas brancas e relógio de bolso
Uma estranha figura de outrora caminha na chuva dos pensamentos.
Lembrança imaginária de um tempo silencioso e lento
De ar mais respirável e comportamentos mais respeitáveis.

Jogo a pedra para o horizonte
Na esperança de que algum ente sagrado não a deixe cair
E que faça dela a pedra fundamental de algo bom e diferente,
Que dê concretude à fé dos homens.
Enquanto isso,
Vou embaralhando letras soltas
E vendo no que vão dar.
[É que as coisas se escrevem sozinhas, não tenho nenhum poder sobre elas.
Bem queria].



(Poema premiado no 3º Prêmio Literário de Poesia Portal Amigos do Livro - 2013 - publicado em antologia).


                          JULIANO BARRETO RODRIGUES

No primeiro capítulo da minha dissertação de mestrado, intitulada A VERDADE DOS AUTOS VERSUS A VERDADE REAL NA JUSTIÇA CRIMINAL (disponível em: <http://tede.biblioteca.ucg.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1609> ) há uma interpretação que fiz de um desenho a Nankim sobre papel, de Francisco José de Goya, chamado El sueño de la razon produce monstruos (1799), falando da crença do conhecimento da verdade:


Francisco José de Goya, pintor romântico espanhol (1746-1828), criou, a nanquim, no desenho número quarenta e três de sua série Caprichos, um quadro intitulado El sueño de la  razon produce monstruos (1799), que apresenta, em primeiro plano, um homem sentado, debruçado sobre uma escrivaninha em que há material de escrita e leitura, dormindo, mãos sobrepostas e a cabeça mergulhada entre os braços, pernas cruzadas – postura que sugere o fechamento em si mesmo, medo e estagnação.
Corujas e morcegos sobrevoam e atacam o personagem central e dois gatos o espreitam: um às suas costas, outro aos seus pés. Uma das corujas se sobressai, de asas abertas, acima das suas espáduas, suas asas parecendo do próprio homem, graças à estratégia pictórica do jogo de luz e sombras, que as colocam no plano paralelo ao do personagem.
Os animais são imagens do seu sonho, seus monstros, e representam a situação do próprio personagem. Jung esclarece:

Em oposição à opinião freudiana bem conhecida segundo a qual o sonho em essência não é senão a ‘realização de um desejo’, eu adoto, com um amigo e colaborador, A. Maeder, a opinião de que o sonho é uma auto-representação, em forma espontânea e simbólica, da situação atual do inconsciente [...] Toda a elaboração onírica é essencialmente subjetiva [...] Esta interpretação, como diz o próprio termo, concebe todas as figuras do sonho como traços personificados da personalidade do sonhador (JUNG, 2006, p. 202).

Os animais da cena são, culturalmente, conhecidos no ocidente como agoureiros, representando superstições, o medo do desconhecido, as forças ocultas. A coruja, por sua vez, também simboliza a sabedoria.
O cenário é noturno. Apesar da imagem forte, a frase grafada na mesa – El sueño de la razón produce monstruos – lhe compete em destaque. Imagem e texto harmonizam-se perfeitamente, um facilitando a explicação do outro, reforçando mesmo a mensagem do outro, recurso muito utilizado em cartoons (1).
Se o observador semicerrar os olhos ao olhar o homem, além de parecer ter asas parece ter também cauda. Este efeito é conseguido pela disposição da coruja iluminada que se sobressai em seu quadril. O ser dual, anjo-besta, está assim representado subliminarmente.
A mensagem sugere que a arrogância intelectual de crer/sonhar ter alcançado a razão, a certeza das coisas, produz monstros. A imagem pintada lembra que a ignorância e o apego às crenças arraigadas acompanham o ser e o envolvem, além do que, a razão não dá conta de todas as coisas.
A alusão a “monstros” induz à conclusão de que a crença em ter encontrado uma certeza absoluta acerca de algo é ilusória e pode gerar prejuízos (2). Sob certos dogmas e suas diretrizes, muitas arbitrariedades podem ocorrer (e a história coleciona inúmeras provas disso).

([1]) O significado original da palavra cartoon é "estudo", ou "esboço", e é utilizado nas artes plásticas. Um cartoon, càrtúne, ou cartum, é um desenho humorístico ou satírico, acompanhado ou não de legenda, de caráter crítico, retratando de uma forma bastante sintetizada algo que envolve o dia-a-dia de uma sociedade.

(2) No sentido de juízos apressados, danosos.