O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quarta-feira, 1 de abril de 2015

                          JULIANO BARRETO RODRIGUES

No primeiro capítulo da minha dissertação de mestrado, intitulada A VERDADE DOS AUTOS VERSUS A VERDADE REAL NA JUSTIÇA CRIMINAL (disponível em: <http://tede.biblioteca.ucg.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1609> ) há uma interpretação que fiz de um desenho a Nankim sobre papel, de Francisco José de Goya, chamado El sueño de la razon produce monstruos (1799), falando da crença do conhecimento da verdade:


Francisco José de Goya, pintor romântico espanhol (1746-1828), criou, a nanquim, no desenho número quarenta e três de sua série Caprichos, um quadro intitulado El sueño de la  razon produce monstruos (1799), que apresenta, em primeiro plano, um homem sentado, debruçado sobre uma escrivaninha em que há material de escrita e leitura, dormindo, mãos sobrepostas e a cabeça mergulhada entre os braços, pernas cruzadas – postura que sugere o fechamento em si mesmo, medo e estagnação.
Corujas e morcegos sobrevoam e atacam o personagem central e dois gatos o espreitam: um às suas costas, outro aos seus pés. Uma das corujas se sobressai, de asas abertas, acima das suas espáduas, suas asas parecendo do próprio homem, graças à estratégia pictórica do jogo de luz e sombras, que as colocam no plano paralelo ao do personagem.
Os animais são imagens do seu sonho, seus monstros, e representam a situação do próprio personagem. Jung esclarece:

Em oposição à opinião freudiana bem conhecida segundo a qual o sonho em essência não é senão a ‘realização de um desejo’, eu adoto, com um amigo e colaborador, A. Maeder, a opinião de que o sonho é uma auto-representação, em forma espontânea e simbólica, da situação atual do inconsciente [...] Toda a elaboração onírica é essencialmente subjetiva [...] Esta interpretação, como diz o próprio termo, concebe todas as figuras do sonho como traços personificados da personalidade do sonhador (JUNG, 2006, p. 202).

Os animais da cena são, culturalmente, conhecidos no ocidente como agoureiros, representando superstições, o medo do desconhecido, as forças ocultas. A coruja, por sua vez, também simboliza a sabedoria.
O cenário é noturno. Apesar da imagem forte, a frase grafada na mesa – El sueño de la razón produce monstruos – lhe compete em destaque. Imagem e texto harmonizam-se perfeitamente, um facilitando a explicação do outro, reforçando mesmo a mensagem do outro, recurso muito utilizado em cartoons (1).
Se o observador semicerrar os olhos ao olhar o homem, além de parecer ter asas parece ter também cauda. Este efeito é conseguido pela disposição da coruja iluminada que se sobressai em seu quadril. O ser dual, anjo-besta, está assim representado subliminarmente.
A mensagem sugere que a arrogância intelectual de crer/sonhar ter alcançado a razão, a certeza das coisas, produz monstros. A imagem pintada lembra que a ignorância e o apego às crenças arraigadas acompanham o ser e o envolvem, além do que, a razão não dá conta de todas as coisas.
A alusão a “monstros” induz à conclusão de que a crença em ter encontrado uma certeza absoluta acerca de algo é ilusória e pode gerar prejuízos (2). Sob certos dogmas e suas diretrizes, muitas arbitrariedades podem ocorrer (e a história coleciona inúmeras provas disso).

([1]) O significado original da palavra cartoon é "estudo", ou "esboço", e é utilizado nas artes plásticas. Um cartoon, càrtúne, ou cartum, é um desenho humorístico ou satírico, acompanhado ou não de legenda, de caráter crítico, retratando de uma forma bastante sintetizada algo que envolve o dia-a-dia de uma sociedade.

(2) No sentido de juízos apressados, danosos.