O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

sábado, 18 de abril de 2015

DIVAGAÇÕES ETÍLICAS: Crônica inaudível (Juliano Barreto Rodrigues)



              Tenho o hábito de beber uma cervejinha em casa nas tardes dos fins de semana. Bebo sozinho, vendo a linda paisagem de quem mora numa chácara nos arredores da cidade. Ufa, enfim um lugar que dá para ver o céu do fim de tarde, aliás, de todas as horas.
Então... (como diz minha amiga Nathany), nesses momentos mágicos de torpor terapêutico, sempre viajo naqueles temas clichê que desde sempre intrigam as pessoas: vida, morte, amor... coisas sobre as quais Carlos Drumond de Andrade aconselhou aos poetas menores nunca se meterem a escrever.
Mas como sou desobediente, um típico modelinho da geração “X,Y”, que não dá muito moral para as grandes autoridades, às vezes me aventuro por essas paragens. É que parece que tais elucubrações abstratas fazem parte do desenvolvimento natural de qualquer ser humano. Então, em vez de altas temáticas, na verdade estamos falando de senso comum, de temas chinfrins. Deve ser por isso que o mestre disse para não se aventurar nisso; é porque são comezinhos, démodé (alguém ainda usa esse termo?), bregas mesmo.
A gente se mete com eles porque nos dão perspectiva, são icônicos; tirando a morte, são a medida do regozijo. Traçamos um modelo ideal para algo que é desigual e absurdamente individual em cada ser: a felicidade! É disso que se trata a tal avaliação sobre vida, morte e amor.
Dizem os maçons: “se quer bem viver, pensa na morte”. Deus me livre! Para viver em paz temos que pensar que somos eternos. A morte sempre foi uma assombração, a vizinha indesejável e pentelha da qual ninguém se livra.
Os filósofos, hoje metidos a psicólogos e psiquiatras, aconselham aquele estado de espírito de “Carpe Diem”, viver o agora, sem grandes expectativas de futuro. Embora isso combine mais com a adolescência, ainda é um conselhinho bem útil, pelo menos no sentido de evitar pensar no declínio das coisas.
Já escrevi que os homens nascem, crescem, se humilham e morrem, mas isso é uma verborrágica reação a uma natureza que não aceito resignadamente. Se não amadurecer, posso vir a me tornar mais um daqueles ridículos senis com síndrome de Peter Pan, que se vestem como se tivessem vinte anos a menos do que têm e andam com garotas que têm idade de serem suas filhas, ou pior, suas netas.
Uma menina que escreveu um conto de um Ost, que vira Poste, disse uma vez que tem preguiça de gente. Também tenho, mas não conseguiria viver sem. Por também ser gente, minha própria natureza me grita agudamente aos ouvidos todo santo dia. E reconheço que, para satisfazer os três grandes temas, o “outro” é essencial: Vida só tem sentido com o outro; Amor só se vive em relação; e ninguém quer morrer sozinho!
De modo que estou mais conformado. Minha vida não gira só em torno de mim, como achei o tempo todo. E há algumas pessoas que são a melhor parte do que sou, seja porque me espelham, ou porque me contestam, ou porque simplesmente estão ali.
Precisei de um ser para me parir e precisarei de um ser para me enterrar. Se tiver um monte de seres a quem consiga amar, com certeza serei bem feliz.