O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

segunda-feira, 11 de maio de 2015

                                         

                                       
  
                       Sobre escrita
COMO FAZER UM TEXTO SER LIDO
Título, figuras, capa, e outros pontos importantes para que um texto pegue o leitor.

                                                                                                           Juliano Barreto Rodrigues

O
 leitor precisa de elementos no texto que captem seu interesse no momento em que nele bate os olhos – título interessante, imagem chamativa, design atraente, etc. – para que sinta o impulso de lê-lo até o fim.
A escrita é uma atividade poderosa e de grande alcance, embora seja – talvez – uma das mais discretas formas de arte. Justifico: um som, uma música, atingem os sentidos de quem estiver perto mesmo que não queira ouvir; um cheiro impõe-se da mesma maneira; o frio, o calor, um toque, também; uma imagem, de igual forma; a escrita, quando muito, atinge imediatamente o receptor em letreiros, títulos e avisos bem curtos.
Daí decorrem dois pontos importantes: 1) para que alguém se disponha a ler um parágrafo mais longo que seja, deve ter um comportamento ativo voluntário, e não meramente passivo (como nos casos anteriores). Deve querer ler; 2) para o escritor “pescar” o leitor, é de suma importância o título mínimo e impactante, a capa (nos suportes que a comportam), figuras (aí incluídas tabelas, gráficos, imagens), texturas quando for em papel e, se possível, até cheiros e sons. Há livros interativos – principalmente infantis – que exploram bem esses recursos.
À distância, primeiramente chamam atenção título, capa e figura. O fato da escritura não ser facilmente audível, de não ser gritável ou sussurrável por si só, dependendo dos olhos, da sensibilidade e da capacidade do leitor para criar mentalmente esses efeitos, faz com que seja difícil para o escritor “assaltar” a vontade de seu público alvo.
Porém, há que se flexibilizar tais conclusões e levar em conta que a escrita se lança irresistivelmente àqueles acostumados com sua prática. Um exemplo: quando um filme, exibido por TV a cabo, está simultaneamente sendo dublado e legendado, ocorre que, embora sons e imagens em movimento estejam competindo com as letras, o expectador não consegue deixar de ler a legenda. Ele sabe que não precisa dela, está ouvindo o diálogo e vendo as imagens mas, ainda assim, se pega lendo.
O Jornalismo trabalha bem a questão de “fisgar” o leitor. Cuida que o título seja chamativo e curto, às vezes põe sobre ele um “chapéu”, que é uma frase curta relacionada ao assunto, e sob ele um “sutiã”, visando ambientar o leitor.
Dentro do texto utilizam o lead, que é um primeiro parágrafo que resume tudo, respondendo rapidamente as perguntas Quem? O que? Onde? Quando? Como? Por que?. Usam também subtítulos (intertítulos) que separam e orientam os blocos da reportagem; o “Olho”, que é um trecho do texto destacado no meio da página; e vários outros recursos que capturam a vista e o interesse do leitor.
Estimulado o apetite pelo escrito, o principal já está feito. De resto é só não pisar na bola descuidando da graça (no sentido de dádiva) do texto. Um bom final pode ser a coroação que vai tornar o texto marcante e memorável.
Parágrafos curtos ajudam. Fluidez também: evitando muitos pontos, muitas vírgulas, ponto-e-vírgulas, parêntesis, aspas, hifens e outros sinais gráficos que não sejam apenas palavras. Mas aí há a questão do estilo, uns usam mais “quebra-molas” no texto e outros, menos.
Uma mudança de atitude essencial para todo escritor é deixar de escrever para si. É importante escrever pensando no leitor – em atraí-lo, satisfazê-lo – adivinhando o que lhe interessa ou fazendo com que se interesse pelo que vai escrito pela forma com que está feito. O autor tem que lembrar-se de que escreve para ser lido e isso exige, pelo menos, uma pessoa além dele. Ser um bom cicerone, guiando o visitante de seu texto pelas imagens que constrói, é uma obrigação do bom escritor.
Quando possível, ponha na sua escritura os elementos sensíveis que, em tese, lhe são alheios: os aromas, sons, sabores, as texturas, e tudo o mais que contando uma história é possível criar na mente do leitor. Explorar, indiretamente, os outros sentidos além da visão é um mecanismo muito eficiente na criação de cenários e sensações que ficam gravados na mente do leitor.
E não me digam que as regrinhas “encarceram” a criatividade e limitam a forma de se dizer as coisas. As regras são apenas instrumentos para se alcançar determinados efeitos e podem ser simplesmente deixadas de lado quando convier. A forma é a capa do conteúdo. Qual é mais importante? Um não é mais importante que o outro. Apesar do conteúdo ser o que se quer transmitir, sem a forma adequada o leitor não vai entender ou nem sequer se interessar pelo que o autor quer lhe dizer.

Atenção ao conteúdo, mas também à forma. Escrever é um ato artístico estético. Já dizia Oscar Wilde que “é preciso ser muito superficial para não julgar pelas aparências”.