O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quinta-feira, 13 de agosto de 2015



A pessoa é o que tem?

Juliano Barreto Rodrigues.

Olhando em volta enquanto procurava uma ideia sobre o que escrever, fiquei reparando o mobiliário e me lembrei de um livro chamado Viagem à Roda do Meu Quarto. O autor, Xavier de Maistre, fez um exercício que (acredito) todos já fizeram algumas vezes: olhou sossegadamente para as coisas ao seu redor e puxou na memória o momento em que passaram a integrar suas pertenças, de onde vieram, como foram usadas em tempos memoráveis, o que lhes causou um sinal, ou mancha, ou marca, o que representam intima e socialmente e que sensações causam.
As pessoas têm uma interação estranha com os objetos. Alguns falam por si, como os artísticos, por exemplo. Outros, só se exprimem pelo uso. Numa analogia, essa oposição me faz lembrar a diferença entre as pessoas cultivadas e as mecânicas (no sentido metafísico empregado por Alain-Rene LeSage, no livro História de Gil Blas de Santillana). Talvez, os seres inanimados sejam tão representativos quanto nós.
É mágica a forma como o ser se desborda em suas coisas, seja no que veste, na casa que habita, no que coleciona, nos móveis que compra, nas lembrancinhas que guarda... Um Sherlock Homes poderia destrinchar as ocupações, hábitos, manias e tendências de qualquer um, se tivesse acesso a seu santuário completo. O indivíduo não se restringe ao que é in nude – o que também não é estático e livre de interferentes –  é, além disso, o que tem, com o que se relaciona e se utiliza para externalizar seu ego.
Então, os objetos têm vida. Não no sentido fisiológico, logicamente, mas num sentido mais amplo, histórico. A consciência dessa “vida” existe na observação atenta de seu usuário, revelando assim uma relação de dependência entre o material e o imaterial. Mas isso é uma discussão filosófica para outra hora. Assim, deixemos de lado o que não é essencial.
Aproveitando a ideia de outra peça formidável, o livro História do Mundo em 100 Objetos, do historiador Neil McGregor, poderia ser bem interessante realizar biografias a partir do que os biografados têm. Pessoalmente, imagino que podemos falar indefinidamente da gente usando esse artifício, e creio que assim é possível ampliar em muito a consciência da nossa interação com o que nos cerca e do quanto exorbitamos de nós mesmos no que possuímos.
Voltando ao assunto dos indivíduos cultivados e dos mecânicos, é justamente a capacidade de abstrair, de pensar o fazer e o ser, uma das principais habilidades que diferenciam uns e outros. Os mecânicos são seres práticos, que realizam as coisas quase automaticamente, sem crítica, autocrítica ou criatividade mais sofisticada. Seu contraponto é formado por quem estabelece raciocínios mais elaborados sobre o que vê, sente ou faz, que procura razões, melhores formas de fazer, sentidos mais profundos.
Exercícios contemplativos como o que sugeri seriam bem interessantes para uns, mas não para outros. Isso não significa que os mecânicos sejam pessoas menos essenciais à sociedade do que os cultivados. O panegírico a estes seria injusto em relação àqueles. Até porque, é bem mais fácil qualificar quem quer que seja como mecânico do que atribuir a alguém o epíteto de culto. Cultura é algo tão relativo...
Dos utensílios que tenho, os que mais valorizo e com os quais mais me identifico são os meus livros. Dizem tudo sobre minhas preferências e anseios. Lembrei-me de uma obra infanto-juvenil, que li ainda criança, e que marcou minha trajetória de vida: Os Três Irmãos, de Vicente Guimarães. Tendo-o perdido em algum momento da pré-adolescência, tive que reencontrá-lo em um sebo e relê-lo, já adulto. Fala de três irmãos que, podendo escolher entre a riqueza, a força ou a inteligência optam, cada um por uma delas, e o destino deles é descrito na história.
Me identifiquei com a personagem que escolheu a inteligência, recebendo um enorme calhamaço encadernado em que poderia aprender sobre todas as coisas do mundo. E, desde então, vivo a eterna fome de conhecer - que me move, me cerca de textos, filmes e sons, e ocupa meus dias.
Cultos ou incultos, práticos ou teóricos, somos um tanto da matéria que nos cerca. Da forma que com ela lidamos é possível avaliar como tratamos a nós mesmos. Influímos nas coisas e, da mesma forma, somos por elas inspirados ou oprimidos.
De posse dessa consciência, passei a tentar moderar meus apetites super-consumistas, a escolher mais cuidadosamente minhas aquisições e a encarregar-me melhor delas. A organização, a limpeza, a posse do essencial me tornaram mais focado, mais ágil, mais arrumado e feliz. Além disso, fui presenteado com um belo efeito colateral: me sinto, e até pareço, mais inteligente.

“Conhece-te a ti mesmo”! Recomendo a experiência socrática a partir da contemplação do que está a sua volta.