O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2016



         
            PAI ESCRITOR – PARTE III – A REDENÇÃO

                                           Juliano Barreto Rodrigues

Meu bebê tem agora um ano e um mês. Nossa, o tempo que parecia nunca passar, passou voando. Aquele ser que só balbuciava e chorava não para mais quieto, e o nosso mundo gira ao seu redor. Graças a Deus aqueles primeiros meses se foram. Sem brincadeira, tenho trauma dos três iniciais.

Tive depressão pós-parto, que tecnicamente acontece só com a mulher. Cheguei a tomar um tarja preta, mas como bebi todos os dias desde um mês antes do nascimento até seis meses depois, larguei o remédio (a mistura era indigesta). O que importa é que, seja a base de remédio ou de álcool, no fim sarei.

Meu problema foi a mudança de hábitos, não o nenem. Ele, por sinal, sempre foi muito cooperativo. Acredito até que o carisma dele que me curou.

Ser pai é incrível! A vida vai para outro patamar. Sei que é muito clichê dizer isso, mas é uma experiência que todo homem deveria viver. Descobre-se um amor esquisito, visceral, atômico. Uma força descomunal, que domina toda célula da pessoa, transformando-a. É uma abdução alienígena, com direito a reprogramação mental completa.

E sobre escrever e ter filho? - aliás o tema dessa conversa - Ah, é aquilo de que já havia falado: não sobra tempo. Se pegar uma caneta e um papel, o bebê toma na hora; computador? – brinquedo dele; celular então? – tente mandar uma mensagem que seja, ele salta sobre o aparelho e o mete na boca. É TU-DO dele. Escrever se torna um ato furtivo, algo que se faz escondido e às pressas quando se consegue assumir, por alguns segundos, a identidade secreta de escritor.

Em uma entrevista que dei para uma mídia alternativa de Portugal, que está trabalhando em uma matéria sobre gente que escreve em blogs e coisas afins, me perguntaram sobre a rotina de escrita. Eu disse: “Rotina? Isso é o que eu não tenho. Na verdade, tenho um namorico com a literatura. Penso nela todos os dias, tenho amor, paixão e desejo, mas só nos encontramos de vez em quando (para um sexo rápido, kkkkk). É o que dá. Sonho em noivar e casar, mas já tenho esposa e filho. Embora tenha certeza de que eles não vão ficar chateados com essa bigamia. Por enquanto, eu e ela (a literatura) vamos continuar nos pegando escondidos”.

Por outro lado, ter ideias se torna mais fácil. Quem escreve depende de musas, e um filho por quem se tem adoração absoluta é uma musa mega power. Todas as possibilidades do mundo invadem a cabeça. Os sentimentos mais recônditos e as sensações esquecidas lá na infância brotam do nada e crescem instantaneamente, feito feijões mágicos fertilizados com adubo de Kripton. Tudo fica superlativo, adjetivado e adverbiado. O cérebro é invadido pelo coração. Não mais se raciocina friamente. Tudo agora é quente e sentimental. É como se evoluíssemos de repente para uma mente feminina, capaz de pensar e sentir intensamente a um só tempo.

No frigir dos ovos, o escritor ganhou. Se falta tempo, sobram ideias. O sentimento de urgência torna o cérebro mais eficiente. A necessidade – e é isso que a escrita é para mim – faz o sapo pular. Ser pai inspira e me torna mais criativo. Basta você pensar nas mil artimanhas que se desenvolve todos os dias para fazer uma criança comer – a gente vira PHD na arte da distração, e escrever ficção é justamente isso, distração e entretenimento. No fim, tudo tem que ser, ou parecer, o mais divertido possível, senão, não desce.

Venero a escrita – porque me dá uma liberdade imensa. Mas adoro muito mais meu filhote – a quem me prendo voluntariamente. Eis a relatividade das coisas.

Nas artérias que irrigam o braço do escritor correm a plenitude, o carinho, a presença do filho. Assim, as palavras que escorrem no papel já não são só do autor, mas da dupla que formam. Então, que essa parceria dê belos frutos!

Como pai coruja, peço, para fechar nossa conversa, que permitam um recado ao meu inspirador:


– Obrigado por existir, meu amor!