O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

terça-feira, 31 de março de 2015

Arte Grafada: uma concepção artística da escrita

Juliano Barreto Rodrigues

Costumo comparar a escrita ao desenho para mostrar o que se pode fazer para enfatizar e tornar mais interessante o que se expõe. Iniciemos pelo mais básico: em regra, se começa um desenho da esquerda para a direita, de cima para baixo, como também fazem os escritores ocidentais; os instrumentos utilizados são mais ou menos semelhantes – um suporte adequado e meios de gravação, que no desenho e pintura são, em tese, mais diversificados e versáteis; ambas as formas de arte, a escrita e o desenho (aí incluída a pintura) visam informar algo ao observador-receptor. Tal informação terá sempre, no caso do fazer artístico, um conteúdo estético e sensível-emocional.
Empregando meios próprios é possível, nos dois casos, retratar cenários os mais diversos e também criar imagens ficcionais irreais. Além disso, há formas de dar movimento, passar mensagens subliminares, induzir interpretações, sugerir continuidade ou regressão, gerar estados de espírito.
No desenho é possível traçar uma linha de contorno para limitar o que se desenha e dar-lhe maior nitidez, permitindo que o objeto principal seja visto com clareza a uma distância maior ou que fique destacado em meio a outros elementos. Linhas de valor mais alto – mais grossas – projetam para próximo do receptor o que contornam; num conjunto de objetos desenhados com linhas de valores diferentes, quanto mais finas, mais distantes parecerão os objetos. A linha é um artifício, não existe nos objetos reais que se retrata.
Desenhando e pintando também se podem alterar cores, brilhos e sombras, tamanhos e perspectiva, etc., para destacar determinado(s) ponto(s) da cena e suavizar ou dar profundidade a outro(s), compondo imagens até surreais, que uma fotografia jamais poderia mostrar.
Na escrita, o mesmo acontece. Como ela possibilita, comparando-a com a fala, pensar com mais vagar no que se quer dizer, as palavras devem ser escolhidas a dedo, dando o contorno enfático para tornar nítida a mensagem, ou então os termos podem ser colocados de forma a ressaltar ou diluir algumas cenas: tudo para causar a sensação que se procura. A pontuação e o tamanho dos períodos vão ditando o ritmo do texto; o que se diria em alto tom ou se sussurraria deverá ser escrito de forma a dar artificialmente o plus de volume ou minimizar os efeitos da audição imaginária do leitor, como se houvesse uma ordem velada mandando subir ou baixar o som quando se lê. A técnica precisa é usada para se conseguir, dentre outras coisas, que o leitor leia dessa ou de outra forma, causando uma cumplicidade que o faça esquecer que lê, fazendo-o “ver” a cena e “ouvir” o que é dito.
No desenho normalmente há uma base, um substrato, um fundo para contextualizar e sustentar o que se desenha, além de dar parâmetro para que as coisas apareçam em planos diferentes. O mesmo deve ocorrer na escrita. Por trás da trama e de detalhes trazidos à tona, a mensagem mais profunda se desenvolve formando uma imagem macro: aquilo que se pode contar em pouquíssimas palavras quando se sintetiza para um amigo do que se trata o texto. Esse o fundo, sobre o qual o autor vai sobrepondo minúcias, sabores, encantos, para dar gosto ao que é lido, tentando tornar aquilo marcante e talvez inesquecível.
Ouso dizer que todas as formas de arte são coirmãs, na verdade nuances de uma Coisa só, mas acredito que a escrita tenha relação mais facilmente identificável com a contação de histórias, a declamação, o desenho e a música.
Retratar é o mesmo que descrever. A subjetividade e visão do artista já se manifestam no recorte da realidade ou do sonho que decidiu enquadrar. A forma que a imagem toma, concretamente, na tela ou em palavras, evidencia o domínio das ferramentas, as preferências por ângulos mais ou menos propícios, de maior ou menor iluminação, mais brilho ou mais opacidade, tonalidades vivas ou cinzentas, etc.
Tanto desenhando quanto escrevendo é possível traçar de delicadezas ínfimas e filigranas a grotescas e superlativas cenas nauseantes, mas em nenhum dos casos se descura do acabamento. Esse cuidado é importante porque se busca o ponto certo de adesão do observador para que se torne participante da obra. A potência do efeito comocional que o artista consegue imprimir é que o marcam como grande.
 Impacto tem menos a ver com a extensão da obra do que com o tema e a forma com que é apresentada. Em ambos os casos, a economia do que vai em segundo plano projeta à frente o que está no primeiro plano; destacar o secundário esconde, suaviza ou adia o principal. São estratégias de penetração nos sentidos do receptor.
O produto artístico tem que conduzir o degustador a crescentes ou decrescentes de paladar intelectual e sensorial, a um relevo de picos e\ou planícies e\ou planaltos e\ou vales, tem que levar a algum lugar. Toda boa arte provoca, pasma, faz pensar. A estupefação é a prova de que a obra tomou quem a admira.
A criação do artista maduro o revela. Seja na assinatura pictórica do pintor, ou no estilo do escritor ou do compositor, é possível identificar o criador por trás da criatura. E isso se dá apesar de cada obra ser diferente uma da outra – é que o “como se faz”, ... o processo, deixa as digitais daquele que concebe naquilo que nasceu. Por isso é aceitável que alguns especialistas atestem a autenticidade e autoria de obras sobre as quais há alguma dúvida nesse sentido.
Quem admira um quadro ou, num exemplo mais claro, quem assiste a uma peça teatral, sabe que aquilo é uma representação. Aquele que lê uma ficção também. O leitor ou espectador tem, de certo modo, que “aceitar” participar da ilusão, tem que ser levado a ceder a ela. Se o tema é interessante e a forma de apresentá-lo é envolvente, o sucesso da fórmula será garantido para a maioria.
Aqui é que se parte em defesa da técnica apurada como meio essencial para tornar equivalentes a inspiração artística e o resultado materializado na obra, tornando “real”, nos mínimos detalhes, o que o autor imaginou.
A partir daí, alcançada essa correspondência exata entre o que se abstraía e o que se concretizou na obra, cada receptor a lerá de uma forma, de acordo com os seus filtros cognitivos, morais, culturais, etc. É o mal e o bem da arte: cada um a vê sob seu próprio prisma, espelhando sua formação. Ao artista cabe se conformar por não ser mais dono do que produziu. Dada a luz, levada a público, sua cria é do mundo e cada um a vê do seu jeito.
Alguns artistas trabalham inclusive com o “não dar tudo”, ou o “dar o mínimo”, ampliando a margem de interpretação e subjetividade do receptor, pondo em suas mãos a responsabilidade por completar mais ativamente o que vê ou até de concluir a obra como bem entender. Cortam descrições, ou finais, ou passagens..., e o leitor que se vire para chegar a um resultado.
As possibilidades têm se ampliado. Há instalações em exposições que mesclam palavras, sons, luzes, pinturas, objetos e todo tipo de elementos capazes de estimular os sentidos. O cinema ensina a recortar uma história decorrida num lapso temporal de vários anos em quadros estrategicamente escolhidos para que caiba em duas horas de filme. E faz mais: as trilhas sonoras conseguem o efeito de supervalorizar um momento ou induzir um tipo de sentimento em relação a um personagem, um lugar, uma situação. A sétima arte é uma escola de ilusionismo.
O que isso tem a ver com a escrita? Tudo! Desde sempre houveram livros ilustrados. Agora há áudio-livros, leitura-dramática, livros digitais com imagens animadas e/ou fundo musical em algumas cenas, livros em que o leitor participa escolhendo soluções, e têm surgido inovações cada vez mais interessantes para fazer o que todas as formas de arte têm feito: ampliado os recursos de sensibilização do receptor.
Voltamos o um ponto do qual já tratei. A arte, seja ela escrita, musical, visual, tátil, ou qualquer outra, é uma Coisa só. Há um liame invisível, ou antes, algumas características intrínsecas que permitem visualizar em cada modalidade artística um código genético maravilhoso que torna possível ver em seu DNA a parte de todas as outras. Isso expõe seu parentesco em primeiro grau. Arte é arte. Cada uma das especialidades acrescenta ao artista algo no aprendizado das outras.