O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

sexta-feira, 27 de março de 2015

OSTENTANTDO O OURO DE TOLO

Juliano Barreto Rodrigues

Estava na fila do supermercado e, tentando driblar a impaciência, procurei algo com o que me distrair. “Plim”, o anel do rapaz que estava na minha frente me chamou a atenção. Anel de ouro fraco, com aquela pedra falsa que imita Rubi, sinal dos formados em Direito. Descombinava muito do tipo que o portava: m rapaz de uns vinte e poucos anos, cabelos descoloridos e arrepiados com fixador, camiseta sem mangas, bermuda surfista e chinelos de dedo. Uma figura pitoresca! Pensei comigo (preconceituosamente talvez) que até “coisa de velho” havia se tornado objeto de ostentação.
Antes de surgirem as primeiras faculdades de Ciências Sociais e Jurídicas em Recife e em São Paulo os pais mandavam seus rebentos para Coimbra na intenção de fazê-los homens de leis. Lá o bacharel, quando estendia os estudos e se tornava Doutor, passava a ter direito à pedra rubra no anel. Os maganos brasileiros quando voltavam ao Brasil, sem sequer se doutorarem, ostentavam seus rubis e exigiam o tratamento correspondente. Vem de longe a mania de querer parecer o que não é.
Os esnobes e Dandi’s de outrora tinham, pelo menos, recheio. Um Baudelaire, um Oscar Wilde, eram exibidos mas tinham conteúdo. Isso os diferenciava. Hoje se encapa o vazio com uma veste duvidosa, que tenha uma marca reluzente, e pronto, o indivíduo sai à rua se achando um superstar. Pior é que a ilusão de se distinguir vai engrossando o rol dos igualmente diferentes.
Me deu saudade daquele tempo em que alguns ostentavam livros. Havia mais charme na promessa que traziam. Hoje é Daslu, Nike, La Bela Máfia, colar de ouro maciço, fotografia com dinheiro na balada, braços e pernas “bombados”, com tatuagens no estilo da moda, o pacote todo. A marionete que tem o combo se acha.
O abstrato, o simbólico, substituiu o ser. As pessoas não se falam para deixar uma impressão, se mostram. Na era da velocidade, do carpe diem, e do superficial, difícil é manter a primeira imagem por um tempo. Desmascarado, o indivíduo tem que fazer sua performance para outras bandas.
Goffman, em seu livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana, demonstrou como os atores da vida social são levados a representar os papéis que deles se espera e que há uma certa polícia dos costumes que rechaça aqueles que trazem discursos discrepantes. Aí perpetua-se a contradição: ninguém quer ser igual a ninguém, mas as diferenças são condenadas. Então surgem os igualmente diferentes.
Nesse jogo não há ética, vale a roupa falsificada, os óculos emprestados, tirar foto no carro do vizinho. O ter sobrepujou o ser. Me consolo imaginando que por trás daquele anel de grau talvez exista um grau de verdade.


[1] Crônica que alcançou nota máxima na prova de redação do vestibular em Jornalismo, da UFG, na modalidade “portador de diploma”, no processo seletivo 2015-1.