O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015




PAI ESCRITOR II

                                                                           Juliano Barreto Rodrigues

Cinco meses! É a idade do meu bebê agora. As coisas começaram a entrar nos eixos no terceiro mês. Trocar fralda, ser atingido por um jato de regurgitado? Besteira! Isso não é nada. Limpo o neném, dou banho, troco fraldas e dou mamadeira feito um profissional, quase de olhos fechados (e ainda cantando para ele).
Desde que engravidamos, eu e minha esposa nos preocupávamos sobre como a rotina de sono afetaria nosso bem-estar quando o neném nascesse. É que meu bom humor sempre foi dependente de uma noite bem dormida.
Foi o caos! Coisa traumatizante. Tanto que temporariamente descartamos a ideia (louca, kkkkk) de ter outro filho. Mas enfim, não morremos e... passou. A grande mágica foi ele ter passado a dormir a noite toda – isso fez toda a diferença em nossas vidas. Agora conseguimos olhar para ele sem ficar com medo da noite.
Por mais que tenha sido desejado e planejado, ao nascer o bebê é meio como um visitante desconhecido que, embora dê trabalho, você não quer que vá embora (calma, eu explico). Sei que ele não é um estranho. É que o instinto de proteção e o apego que se tem pelo recém nascido não tem nada a ver com a forma comum de amor mais usual.
No primeiro momento descobri um amor instintivo, uma coisa que faz com que o indivíduo simplesmente seja capaz de dar a vida por um ser que acabou de conhecer – e o neném é isso. Esse amor não é racional e nem se parece com qualquer outra coisa que já vivi, porque não vem precedido do encantamento e apaixonamento normais da convivência.
É o dia-a-dia com a criança que vai levando ao amor, por assim dizer, “normal”: as expressões, os barulhinhos, o cheirinho, a intimidade, o reconhecer-se, as expectativas, se encarregam de aproximar pai e filho e fazer com que se digira melhor o sentimento que o pequenino lhe causa. Aí o homem (no caso eu, que, como quase todo ser humano do sexo masculino, sou pejorativamente cartesiano) volta ao lugar-comum da forma confortável de amor que conhece. Então desassusta-se.
--- Venha com o papai --- falo para meu filhinho enquanto o pego nos braços. Isso, de se autodenominar “papai”, tem uma força psicológica enorme. Vai ocorrendo uma lavagem cerebral e me sinto cada vez mais pai, mais responsável por ele e cabendo melhor no papel.
Após a tempestade dos primeiros meses estou mais calmo e um pouco mais senhor do meu tempo. Contraditoriamente, tenho escrito menos e, talvez, pior. É que a pressão da escassez de tempo sempre consegue extrair de mim o melhor. Acho que seria um bom redator de jornal.
Tenho descoberto uma novíssima realidade, de ter que levar o bebê se quiser tomar um chope com minha mulher, de não ver o fim de expediente acabar para poder chegar logo em casa (se bem que isso minha esposa já causava), de pensar em dinheiro – confesso que sempre fui meio alheio a isso. O menino tem cinco meses e estou pensando em colégio, em aula de inglês, curso de pintura, temporada em Piracanga..., intercâmbio, previdência privada, etc., etc., etc., espero não sobrecarrega-lo com meus planos, mas acho difícil.
No final das contas o que sei é que não viveria mais sem meu filho. É como se ele estivesse sempre estado comigo, como um órgão vital do corpo. Muito estranho! Mas a plenitude que desperta, transborda.
Quando acontece alguma coisa inusitada, tipo o neném fazer cocô na hora de sair, estando já todo arrumadinho – e nós já atrasados – brinco com a mãe: “Vai ter filho... tá vendo? Agora aguenta!” A paciência acaba por alguns minutos e, daí a pouco, a carinha dele já engambelou a gente de novo e estamos em suas mãos.
Sobre o tipo de amor que a paternidade causa, lembrei-me de uma frase de Monte Castelo, do Legião Urbana que, parafraseando Luiz de Camões, define que, amar assim.. “É um estar-se preso por vontade”. É bem isso.
Vamos ver onde isso vai dar. Todo dia é uma coisa nova, ele conquista mais uma habilidade, dá um trabalho e uma alegria diferente, cresce. Já tenho saudade do que passou.

Aproveitando o espírito natalino, fecho esta conversa com uma oração:
Pai Nosso, que nos permite estar na posição de pais para entender o que é o amor que sentes,
Santificado seja o vosso nome e a humanidade que ter um filho planta em nosso peito.
Venha a nós todas as capacidades necessárias para bem formar nossa(s) cria(s),
Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu, mas seja complacente com nosso(s) filhinho(s).
O pão nosso de cada dia nos dai hoje em abundância, porque nossa família cresceu.
Perdoai as nossas faltas de paciência, e que ele(s) também nos perdoe(m).
Não nos permita cair na tentação de afrouxar a atenção na formação dos filhos.
Livrai-nos do mal - mas primeiramente, livra-o.
Amém.